A inovação em alimentos saudáveis e saborosos

Pablo Zamora dá dicas de como transformar pesquisas em produtos

18/08/2017 - 13h55
Pablo Zamora

Fotos: Camila Cunha

O pesquisador e empresário chileno Pablo Zamora esteve na PUCRS, no dia 16 de agosto, para falar sobre Inovação em Alimentos: Como transformar pesquisas em produtos inovadores para o mercado. Encantou a plateia de alunos e professores ao contar sua experiência com a The Not Company. Há quatro meses, a companhia lançou no mercado chileno a Notmayo, uma maionese com 100% de ingredientes vegetais e sem lactose, sem transgênicos, sem glúten, sem colesterol, sem ovo e sem soja. Mantém a mesma associação sensorial do produto original, mas inova ao permitir o acesso dos consumidores a uma alimentação saudável, independentemente do poder aquisitivo. O Ciclo de Conferências em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia foi promovido pelo Escritório de Transferência de Tecnologia da PUCRS.

Conheça a Graduação em Ciência e Inovação em Alimentos da PUCRS

notmayo, produto da The Not Company

Foto: Divulgação

Em 2018, a The Not Company pretende chegar a países sul-americanos, como Argentina, Colômbia e Brasil, com a exportação e instalação de plantas de produção. Também no início do próximo ano, começará a comercializar produtos não lácteos (Notmilk, Notcheese e Notyogurt). E que tal versões vegetais de salsicha, linguiça e mousse de chocolate? Também estão no rol dos 12 itens que a empresa vai lançar no mercado.

Zamora também é cofundador e diretor associado da University of California Davis – Life Science Inovattion Center no Chile. Universidade pública dos EUA com foco no desenvolvimento territorial, tem um papel importante na transferência de tecnologia e na geração de conhecimentos, em especial no ramo da produção de alimentos. Está há dois anos e meio no Chile.

IDEAR – Laboratório Interdisciplinar de Empreendedorismo e Inovação da PUCRS

Em entrevista, Zamora conta como transformar projetos de pesquisa em produtos inovadores e relata um pouco da experiência da The Not Company.

 

Pablo Zamora

O que o levou a não apenas seguir carreira acadêmica, mas também desenvolver pesquisa aplicada e fazer inovação, com a criação de produtos?

Considero que vou contribuir como cientista não necessariamente na sala de aula. Há pessoas que têm vocação para isso e fazem muito bem. Porém, acredito que quem conta com a capacidade de propor à sociedade soluções precisa se encarregar disso. Dou palestras e me dedico 100% a pesquisar a fim de desenvolver produtos de impacto social. É o motivo do meu trabalho. Isso se mede levando o produto ao mercado ou licenciando a tecnologia para que empresas façam uso dela.

O que foi importante na sua formação?

Sou bioquímico e fiz um doutorado em Biotecnologia, que me permitiu mesclar visões científicas e comerciais. Tenho muita relação com a Escola de Negócios da universidade onde fiz a pós-graduação. O desenvolvimento de uma ciência de impacto, em que o usuário use realmente a tecnologia, era parte da carreira acadêmica que estava seguindo. Em meu caso, também tinha interesse em trabalhar com pessoas. Desenvolvi projetos com comunidades indígenas e me dei conta do valor de levar em conta as comunidades durante a investigação. Mudei minha mentalidade e me propus a não fazer nada à parte da sociedade.

Quais os requisitos para um produto ser considerado inovador?

Primeiro, deve ter um diferencial em relação aos demais. Para mim, os produtos inovadores são os capazes de romper com o que existe. Se produzo vinho e antes chegava a 5 litros por um quilo de uva e agora consigo mais 5 litros porque aumentei a eficiência no processo, isso não é inovador. E sim porque gerei uma uva diferente, um produto novo da mesma fruta ou um vinho de outra fonte. É preciso mudar a forma como vemos o produto. Em geral, isso resulta da causalidade, a menor parte das vezes, ou da aplicação de conhecimentos de ciência e tecnologia. Um produto pode ser inovador e não servir a ninguém. Se for mais caro que o da concorrência, acaba não se viabilizando comercialmente. Na minha concepção, há poucos inovadores.

Como transformar pesquisa em produtos inovadores para o mercado? O que a experiência com a The Not Company o ensinou, com a criação de alimentos inteligentes?

Primeiro, é uma questão de vontade. Os cientistas devem ter o interesse de desenvolver um produto. Mas, sem a infraestrutura institucional, como um setor de transferência de tecnologia e uma equipe expert em patenteamento e em comercialização de tecnologia na universidade, um cientista talentoso fará um esforço estéril. Ele deve ter também a sabedoria de se associar a pessoas das áreas de direito, marketing e comercial, senão fará apenas um exercício de laboratório com vistas ao mercado, mas não necessariamente com impacto. Os investigadores tradicionais chegam a uma solução que imaginam ser valiosa e nunca foram ao mercado ver se o que estavam fazendo é relevante para a sociedade ou não. Projetos financiados por 40 anos, 30 anos, 15 anos com fundos públicos. Por exemplo, alguém faz um detergente com uma nova tecnologia. Se o mercado não for receptivo a ele, todo o investimento em tempo, pessoas e recursos acabará desperdiçado. O projeto nunca identificou qual era a lacuna que havia na indústria. Isso é que chamamos de technology push versus technology pull. A primeira ocorre quando empurro minha solução e quero que alguém a adote. Não necessariamente o que eu faço servirá ao resto. Enquanto technology pull é quando vou buscar a necessidade. O pesquisador deve parar frente a um público especializado e ver se o que propõe é viável ou não do ponto de vista social.

Conte o exemplo da The Not Company.

É uma companhia inovadora. Cria produtos que antes não existiam. Usa a ciência e a tecnologia a serviço das pessoas independentemente de gênero, poder aquisitivo. É um exercício para democratizar o acesso à alimentação saudável. Nós, fundadores, somos dois cientistas de laboratório, com um engenheiro comercial, que sabia como posicionar o produto no mercado. Foi interessante conjugar as disciplinas, ter a visão de construir infraestrutura para posicionar o produto no mercado. A companhia nos tirou da zona de conforto. Falta-nos infraestrutura, pois somos uma empresa pequena, mas precisamos ser criativos para resolver os problemas e nos sentimos responsáveis pelo êxito comercial. Cada investigação está orientada à melhora das propriedades nutricionais e da vida útil. Colocamos diferentes expertises à disposição para levar o produto ao consumidor, não para à sua patente, ao seu artigo. Fazemos uso de inteligência artificial para chegar a produtos com a mesma associação sensorial do original.