Donas de si: empreender ainda é um desafio para as mulheres

Dia Internacional da Mulher marca a reivindicação por igualdade de direitos e de oportunidades em todos os setores

06/03/2020 - 18h30

Definido como o Dia Internacional da Mulher, o próximo domingo, 8 de março, representa a busca feminina por igualdade de direitos e de oportunidades. Apesar de ser uma luta centenária, a data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas apenas em 1975.

Entre as principais reinvindicações durante as manifestações feministas no século 20 estavam melhores condições de trabalho, salários mais justos e a equidade de oportunidades no mercado. Porém, mais de cem anos após iniciado o protagonismo das mulheres na luta por seus direitos, as desigualdades continuam acentuadas e se mantêm mesmo para aquelas que procuram pela autonomia de serem donas do próprio negócio.

empreendedorismo feminino

Fonte: Sebrae

De acordo com levantamentos divulgados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a conversão de mulheres empreendedoras iniciais em donas de negócio é 40% menor comparada aos homens. Para a consultora em inovação Gabriela Ferreira, professora da Escola de Negócios, essa diferença já começa nas motivações que levam homens e mulheres a empreender. “O empreendedorismo feminino é, basicamente, feito por necessidade. Ou seja, a mulher empreende não porque enxerga uma oportunidade de negócio, mas sim porque tem a necessidade de uma renda complementar. E, muitas vezes, essa procura por independência financeira está relacionada à tentativa de se libertar de violências sofridas nos relacionamentos. Então o empreendedorismo também é uma ferramenta de empoderamento para superar situações de vulnerabilidade”, explica. Segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor, a taxa de mulheres que empreendem por necessidade é de 44% (maior do que a taxa geral dos empreendedores no Brasil, em que 62% inicia um negócio por oportunidade e apenas 37% por alguma necessidade).

Mesmo com uma conversão menor, o número de mulheres donas de negócios ultrapassou os 9 milhões em 2018, representando 34% dos empreendedores totais no País. Ainda assim, elas recebem 22% a menos do que os homens. “Estudos demonstram que a formação feminina é maior do que a masculina, mas ainda vivemos uma questão cultural e social que faz com que as mulheres recebam menos. É um preconceito com o viés machista, sim”, afirma Gabriela.

Desafios para empreender não estão apenas nos negócios

empreendedorismo feminino

Perfil das mulheres donas de negócios / Fonte: Sebrae

Além de encontrarem um contexto externo desfavorável para avançarem como empreendedoras, conflitos internos também contribuem para os desafios femininos nos negócios. A professora Ionara Rech, coordenadora do curso de Administração e uma das organizadoras do livro Empreendedorismo Feminino: protagonistas em ação, frisa que uma das principais dificuldades das mulheres é a falta de confiança nas suas próprias capacidades. “Estamos evoluindo, mudando o cenário externo, mas as mudanças precisam ser graduais e em diversos âmbitos. Parte desde a forma como educamos as meninas: para que tipo de atividade elas são preparadas nas famílias e até mesmo nas escolas? É a partir daqui que são construídas as perspectivas, para que, quando elas cheguem a vida adulta, sintam-se fortalecidas e capazes de competir de igual para igual em qualquer área”, argumenta.

Para a Gabriela Ferreira, os papeis sociais atribuídos às mulheres também reproduzem as desigualdades. “O empreendedorismo feminino não é incentivado pela sociedade porque ainda há questões implícitas, como ‘se a mulher trabalhar, quem irá cuidar das crianças?’. E isso pode ser visto através da própria licença maternidade, que é muito mais longa do que a licença para o homem. É claro que, nesse contexto, entra a amamentação, mas já há países em que o tempo de licença é único e compartilhado, assim os casais podem decidir de que forma os dias serão utilizados por cada um”, comenta.

A professora Ionara também destaca que a tolerância feminina ao risco é menor, o que contribui para que muitas mulheres não ingressem ou não permaneçam no empreendedorismo. “O empreendedor não pode ter medo de se arriscar e a mulher ainda tem esse medo. Se ela acha que não está totalmente pronta para entrar em uma atividade, ela não entra”, destaca.

Inspirações para ir além

Para aquelas que desejam se tornar donas do próprio negócio, Gabriela Ferreira também ressalta que as competências necessárias no empreendedorismo estão presentes principalmente nas mulheres. “Todas as competências referentes à inovação são habilidades femininas, o que não quer dizer que apenas as mulheres possuam. São competências como trabalho em equipe, resiliência, criatividade, visão sistêmica e tolerância com a diversidade. Então, a mulher tem um papel fundamental no empreendedorismo”, afirma.

Leia mais: Uma única plataforma, muitos espaços para locação

A professora também salienta que a toda diversidade é essencial para o sucesso dos negócios. “É primordial que as organizações representem o ambiente e a sociedade em que elas estão inseridas. Isso passa pela a diversidade, não só de gênero, mas de raça, orientação sexual e de condições sociais. Empresas que possuem essas diferentes perspectivas conseguem atuar mais assertivamente para os diferentes públicos. Porém, infelizmente, essa realidade ainda não está presente na maioria das organizações”, aponta Gabriela.

De acordo com a professora Ionara Rech, é preciso que as próprias mulheres sejam suas inspirações para ir além, dentro e fora dos negócios. “Estamos vencendo algumas batalhas e fazendo a mudança para as próximas gerações. E, se eu pudesse dar um conselho para nós, mulheres, seria: que a gente cuide mais de si e estabeleça um olhar com mais confiança naquilo que podemos realizar”, completa.


Leia Mais Veja todas