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Monja Coen Roshi incentiva o respeito à vida e à compreensão mútua

Aula aberta com líder budista no Salão de Atos marcou início das atividades acadêmicas

08/03/2019 - 10h05
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Comunidade acadêmica lotou o Salão de Atos da PUCRS para ouvir a monja Coen Roshi / Foto: Camila Cunha

“Eu e o outro somos um só. É preciso reconhecer o outro em mim mesmo.” Com essas palavras de incentivo à alteridade e à compreensão mútua, a monja Coen Roshi, líder do Conselho Religioso da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, iniciou sua interação com a comunidade acadêmica no anoitecer de quinta-feira, 7 de março, durante a aula aberta que simbolizou o princípio do ano acadêmico 2019. Em uma breve meditação, antes de sua fala principal, conduziu mais de 1.500 pessoas, que ocuparam todos os assentos do Salão de Atos da PUCRS, em um exercício de relaxamento e conexão interna. “Precisamos nos afinar como um instrumento de cordas, em busca de nosso ponto de equilíbrio”, recomendou, com voz suave e abrangente. O silêncio absoluto somente foi interrompido pela fala de uma criança, a quem a missionária oficial da tradição Soto Shu do Zen Budismo saudou como a representação do futuro de todos os presentes.

“Quando falamos em espiritualidade, falamos em vida plena. Algo tão grande e sagrado que não conseguimos nominar”

Com o tema Ética e Felicidade, a apresentação abordou, sob diversos aspectos, a importância e a necessidade do respeito à vida, em todas as suas formas. “Quando falamos em ética, será que estamos fazendo o nosso melhor pelo outro ou só por nós mesmos?”, questionou. Ela comentou que com o tempo as pessoas vão perdendo a sensibilidade, abrindo espaço a pensamentos e a atitudes negativas. Porém, “existem meios para evitarmos aquilo que é pernicioso à nossa própria mente, uma forma de ver uma capacidade maior que nós, do que o euzinho pequeno, para acessar a sabedoria da compaixão”, ressalvou Coen Roshi. Entre suas recomendações, citou diferentes formas de meditação, incentivando o silêncio para dialogar com a própria mente.

Tolerância com a diferença

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Mais de 1.500 pessoas meditaram no Salão de Atos, conduzidas pela monja Coen Roshi / Foto: Camila Cunha

Em uma mensagem de valorização da tolerância, destacou a importância do dissenso como forma de crescimento. “Quem pensa diferente de mim não me ofende. Pelo contrário, me dá um ponto de vista que eu não tinha antes.” Esses ensinamentos, disse, fazem parte da natureza de Buda. “Ela não está dentro de você. Ela está em tudo que existe. É a manifestação do sagrado. As pessoas que perceberem isso irão viver uma vida feliz”, destacou a monja. Sobre conhecimento, colocou essa virtude acima da vida acadêmica. “Todos estamos em um processo incessante de busca pela verdade. Mas não é a verdade científica, é a verdade interna. O despertar para a consciência”, mencionou.

“Tudo o que acontece conosco é um co-surgir. Tem uma interdependência, uma simultaneidade”

Atenta aos hábitos contemporâneos, em especial à predileção de muitos da plateia por assistir séries, Coen recordou as mensagens de Merlí, exibida pela Netflix. “A função do professor é fazer com que as pessoas pensem, que não aceitam o que recebem sem questionar. Essa questão que nós temos e tivemos em algum dia de nossas vidas precisa ser tirada debaixo do tapete. Quem sou eu? Quem é Deus? Onde está? Como se manifesta? Que sentido posso dar para minha existência? Pensem! Reflitam!”, motivou a monja.

Valorização da vida

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O respeito aos pensamentos diferentes está nas mensagens da monja / Foto: Camila Cunha

Ao longo da aula, por reiteradas vezes Coen Roshi tratou de forma natural e bem-humorada sobre temas considerados densos por muitos, como depressão, suicídio, morte e cremação. Lembrou que a morte é algo bom, e que todos chegarão a esse momento. Destacou que a certeza do perecer é um motivo a mais para aproveitar cada momento da vida, enfatizando o privilégio de tudo que tem vivenciado ao longo dos seus 73 anos – informação que surpreendeu a muitos na plateia. Ela relatou a experiência de imersão que teve na Índia, onde presenciou a tradição de cremar os entes queridos. Também mencionou a despedida de seu pai, quando orou desde o momento em que ele fechou os olhos até seu corpo transformar-se em cinzas, mesmo que outras pessoas tentassem impedi-la de acompanhá-lo. Coen entende que cada religião tem suas crenças, que precisam ser valorizadas, mas a vida é um dom para todas.

“Nosso corpo, nossa energia vital, deve ser tratado com respeito. Precisamos ter dignidade na vida e dignidade na morte”

Antes de concluir, lembrou que a busca pelo sagrado tem muitas formas, podendo ser a presença absoluta, a sabedoria de Buda, a justiça e a misericórdia. “Temos que criar uma cultura de paz. Uma cultura de não violência ativa. Uma cultura para os que virão depois de nós”. Lembrou que o ato de servir está acima da satisfação dos prazeres pessoais. “Como eu sirvo? Quais são os votos que faço na vida? Os melhores votos são os de fazer o bem. Cada um de nós tem a capacidade de fazer esse mundo melhor, mais amoroso”, inspirou a monja.

Saudação musical

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Monja foi recebida pelo reitor Ir. Evilázio Teixeira no Salão Nobre da Reitoria / Foto: Camila Cunha

A abertura do evento com a monja Coen Roshi se deu com a apresentação de seu discípulo, médico da família e docente da Escola de Medicina da PUCRS, monge Yakusan. Acompanhado do maestro Marcio Buzatto ao piano, ele cantou Perhaps Love, de John Denver, e Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkel. Antes, a líder budista esteve com o reitor Ir. Evilázio Teixeira, no Salão Nobre da Reitoria, encontro muito valorizado por ela ao longo de sua exposição. Na oportunidade, falaram sobre espiritualidade, a proposta de universidade como uma comunidade e sobre incentivar as pessoas a pensarem e a questionarem para a construção de um mundo melhor.

Trajetória de dedicação ao Budismo

A monja Coen Roshi iniciou suas práticas de zazen nos Estados Unidos e viveu por 12 anos no Japão. Quando retornou ao Brasil, liderou por seis anos as atividades do Templo Busshinji em São Paulo, sede da tradição Soto Shu na América Latina. Após, fundou a Comunidade Budista Zen do Brasil, com sede no Templo Tenzui Zenji, em São Paulo.

Coen é autora dos livros Viva Zen, Sempre Zen, Palavras do Darma, A Sabedoria da Transformação, 108 Contos e Parábolas Orientais, O Monge e o Touro, O sofrimento é opcional, Zen para distraídos, O inferno somos nós, com Leandro Karnal, e A monja e o professor, com Clóvis de Barros Filho. Atualmente trabalha com a orientação de grupos afiliados em vários estados do Brasil e participa de atividades públicas, realizando encontros inter-religiosos e proferindo palestras que buscam promover os princípios da não violência ativa e a cultura da paz.