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Em noite histórica no Salão de Atos, Maria Bethânia recebe Mérito Cultural PUCRS

Honraria foi entregue após show Claros Breus, na reinauguração da casa de espetáculos

06/11/2019 - 14h07
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Foto: Camila Cunha

“O dom da primavera, ninguém vai me tirar. Hoje eu estou aqui pronta pra cantar, pronta pra cantar”. A voz aveludada e forte, o semblante sorridente, os longos cabelos acariciados com os dedos entre as músicas. Tudo isso emoldurado por um cenário rubro, com um piso brilhante e uma banda afinada em cada acorde deram ao público a certeza de que Maria Bethânia, agraciada com o Mérito Cultural PUCRS 2019, estava – e sempre estará – Pronta pra Cantar, como tão bem compôs seu irmão Caetano Veloso. Essa canção abriu o show Claros Breus, em sua passagem única por Porto Alegre, em de 5 de novembro, e marcou com grande estilo a noite histórica de reinauguração do Salão de Atos da Universidade. Para os 1,6 mil espectadores da moderna casa de evento dentro de um ambiente de ensino, ficaram o sentimento e os registros fotográficos de uma experiência singular, integrando as comemorações dos 71 anos da PUCRS.

A apresentação, em dois atos, brindou a plateia com músicas de todos os tempos da carreira cinquentenária da cantora baiana, enaltecida como embaixadora da Língua Portuguesa pelo reitor da PUCRS, Ir. Evilázio Teixeira. As reações do público foram mais intensas em canções como Sangrando, de Gonzaguinha, Sampa, de Caetano Veloso, Olhos os olhos, de Chico Buarque, e Evidências, de José Augusto e Paulo Sérgio Valle. Gritos e aplausos também foram marcantes em História para ninar gente grande, samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, no carnaval 2019, com destaque para o verso “Salve os caboclos de julho, Quem foi de aço nos anos de chumbo, Brasil, chegou a vez, De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Ela também ganhou um coro emocionado no encerramento do bis, ao cantar O que é o que é, de Gonzaguinha.

“Penso que vivemos como se não coubesse mais o silêncio, a reflexão, as delicadezas. Mas sabemos, com gestos como esse, ainda cabem. Isso me alegra e me encoraja” MARIA BETHÂNIA

Ao final do show, no momento da homenagem concedida pela Universidade pelas mãos do reitor, se disse comovida em receber tão alta honraria. “Agradeço com o coração nas mãos e à mostra. Gosto de emprestar minha vida e minha voz às histórias, personagens, letras de músicas que os autores nos revelam. Essa honraria promovida pela PUCRS, louvando a cultura no Brasil é animador, desafiador, lindo. A cultura traz dignidade a um povo e favorece um país, além de iluminar”, declarou Bethânia.

Foto: Camila Cunha

Foto: Camila Cunha

Emoção para todas as idades

Rosa Gomes Fioravante, 89 anos, acomodou-se no mezanino do Salão de Atos para apreciar, ao lado da filha Carla, a noite de tributo à cultura. “Gosto muito da Bethânia, das músicas, do estilo dela. Fico emocionada, muito feliz. Eu tinha os discos e CDs e dei para meus filhos”, relata a fã, que transmitiu aos mais novos o legado de amor à música. Carla Rosane Jardim, diplomada em Direito pela PUCRS, costuma acompanhar a mãe em outros espetáculos, como o de Milton Nascimento, e se revela também admiradora da cantora.

O show de Bethânia foi um presente de aniversário para a administradora Daniela Paula Dreyer, 44, natural de Erechim (RS). “A Bethânia é uma musa para mim. Fui presenteada pelo meu namorado, com uma mensagem via Whats, e foi uma surpresa encantadora”, conta. Sobre o novo Salão de Atos, diz que “o lugar é encantador, de uma beleza incomparável. Já havia visto um show dela, mas dessa vez, como estávamos mais próximos, na plateia baixa, foi muito sentimental. Não tem palavras para explicar o que sentimos ali. A música O que é o que é foi o final perfeito”, exalta.

“Cumpro meu ofício com muito amor e muito vigor. Realizá-lo numa casa de ensino como essa me comove e me atrai” MARIA BETHÂNIA

Na sua companhia, o servidor público Thiago Scandolara, 38, diz acompanhar Bethânia há muitos anos, assim como ícones como Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso. “Eu não entendo o mundo sem eles. Cada vez que tenho a oportunidade de vê-los, me faz um bem muito grande. Isso nos enriquece, e temos que dar valor para esses artistas”. A canção Encanteria foi a que mais lhe tocou, especialmente “quando a ela fala que quem clareia aqui é ela, pois estamos em tempos diferentes da sociedade, em que os artistas não são valorizados, existem editais sendo cortados, então ela deu uns toques no show muito importantes”. O amor pela cantora foi passado pelo irmão mais velho, Camilo, que é professor de artes.

Com os olhos encharcados de lágrimas, após o evento, no foyer do Salão da Atos, Luciana Pimentel Goes Schimidt, 38, resumiu a experiência em uma frase: “Bethânia, para mim, é uma força da natureza”. Baiana de nascimento, a agente de turismo vive no Rio Grande do Sul há dez anos e não poupa elogios à sua cantora predileta. “Ela é uma artista ímpar. Tudo que o reitor falou na entrega do prêmio só confirma isso. A contribuição dela para a cultura brasileira é muito grande. Quem tiver o privilégio de ir a um show de Bethânia vai entender a magnitude, o poder que é essa mulher. Ela é Bethânia, não tem outra explicação”, enaltece.

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Foto: Camila Cunha

“Aprendi a falar ouvindo Bethânia”

Para o estudante Tiago Mendes Dias, 40, “a noite foi perfeita”. “Eu sabia que iria chorar bastante. As canções da Bethânia remetem à minha infância, pois ela me ensinou a falar, não apenas a cantar. Quando nasci com deficiência neurológica, sem poder respirar, os médicos não sabiam o que iria acontecer comigo. Eu praticamente não falava. Então, quando minha mãe estava ouvindo Mel, na voz de Bethânia, em um vinil, eu fiquei de ouvido colado no caixa de som e comecei a cantar. Por isso, digo que a Bethânia me ensinou a falar. E, a partir daí a família começou a me presentear com discos dela”, relata. O estudante diz que chegou cedo à PUCRS Store, no início da venda de ingressos, para garantir o seu acento na noite de ontem.

Sobre o Salão de Atos, disse que o espaço é muito bom, e que a equipe organizadora lhe ofereceu toda assistência necessária. “Me senti um rei. Estava numa cadeira confortável e bem localizado”.

“Agradeço a todos esta honraria, que sustenta minha respiração, o ritmo desassossegado do meu coração” MARIA BETHÂNIA

A advogada Adriane dos Santos, 29, diz que seu pai baiano foi o principal influenciador do seu gosto musical. “Acredito que embora ela atraia um público mais maduro, ela também toca a juventude que teve a oportunidade e conhecer o trabalho dela lá dos anos 1970. A Tropicália nos toca muito hoje, tendo em vista nosso contexto sócio-político, e isso aproxima o público que presta atenção nessa força de movimento e de expressão que ela traz para a gente”, comenta. Sobre as canções mais emocionantes do show, falou de Yaiá Massemba, na qual menciona o desejo de aprender a ler para ensinar aos irmãos escravos, e as demais com a temática de valorização das origens negras, com o candomblé. “Ela traz essa mensagem de um povo que foi muito explorado para uma plateia de classe média alta, predominantemente branca. É muito bom para refletir sobre esse período histórico bem trágico”, avalia.

Homenagem da Universidade

Em seu discurso, o reitor Ir. Evilázio Teixeira enfatizou:

Que noite memorável para cada um de nós, emocionados com a beleza da arte, da sensibilidade desta extraordinária artista: Para a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, reinaugurar um novo e moderno Salão de Atos – espaço que sem dúvida se tornará referência cultural – tendo no palco a presença iluminada de Maria Bethânia é motivo de grande honra e alegria.

A rapidez com que se esgotaram os ingressos – sinal da mobilização de todos que lotam esta plateia – é um forte indicativo do que representa nossa homenageada para a Cultura Brasileira.  Com sua voz,  Bethânia é uma força da natureza que não cansa de reinventar-se a cada espetáculo, uma artista que transita com maestria em diferentes gêneros e  compositores. Sua voz é o palco. É o sagrado.

Bethânia, você é uma embaixadora da língua portuguesa.  A cada novo espetáculo, a cada novo disco, busca desafios para sua voz, sua performance, seu público. São mais de 50 anos de carreira; uma vida bonita e generosa que coloca a todos nós em constante estado de poesia.

Maria Bethânia, sua arte é uma forma privilegiada de educação para o belo, para uma vida mais harmoniosa e amorosa.  A você, o reconhecimento meritoso pelo legado cultural que enriquece nossa música, nossas vidas e a cultura nacional. Obrigado por estar conosco nesta noite e a partir de agora fazer parte da Comunidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.    

A você, o nosso aplauso!

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