“Meu primeiro conselho para quem ingressou agora na área de pesquisa é: seja criativo, inovador, original, não siga a média ou os outros”

SaúdeFoto: Camila Cunha

Diferenciais da Fundação Humboldt

Instituição alemã, celeiro de Prêmios Nobel, concede cerca de 700 bolsas de estudo por ano em todo o mundo

POR FLÁVIA POLO

Uma instituição na qual 55 de seus pesquisadores foram agraciados com o honroso Prêmio Nobel tem, pelo menos, um motivo para comemorar e um desafio para encarar. Comemorar por ter essa prestigiosa, e rara, distinção escrita na sua história de apenas 66 anos. Além disso, aceitar o desafio de manter a mesma excelência de forma constante. O presidente da Fundação Alexander Von Humboldt, Hans-Christian Pape, neurofisiologista e pesquisador com foco no medo e na ansiedade, se esforça para colocar em prática seus estudos e administrar – sem ansiedade – a presidência de uma das financiadoras de pesquisa mais importantes do mundo com os estudos que atualmente desenvolve. Confira a entrevista que Pape concedeu à Revista PUCRS quando visitou a Universidade, em maio.

À frente de uma das mais importantes instituições de pesquisa do mundo, qual é o seu maior desafio hoje?

Tenho vários grandes desafios. O primeiro é saber escolher, entre milhares de pesquisadores brilhantes de todo o mundo, os melhores, as que serão capazes de dar continuidade às suas pesquisas, de fazer o melhor com os recursos que provemos, e se conectar com o networking dos humboldts em todo o mundo. O segundo é olhar para os países em desenvolvimento que nos sejam atraentes, entender como esse está acontecendo e fazer o melhor que pudermos para dar apoio à ciência e à pesquisa deles. O terceiro desafio é mais pessoal: fazer o melhor uso do meu tempo, porque o tempo é o mais valioso bem que temos hoje, e preciso associar o fato de estar à frente da Fundação Humboldt e ser um excelente pesquisador, e isso me exige uma organização perfeita.

As bolsas da Fundação são muito concorridas. Qual o perfil do candidato que conquista uma bolsa?

Ele deve ter feito alguma conquista considerável na área em que atua e mostrar que é capaz de realmente fazer pesquisa, que tem que ser original. Ele tem que ser ávido por pesquisa, altamente motivado, precisa estabelecer seus propósitos, o caminho que vai traçar para alcançá-los, e fazer tudo o que for capaz para associar suas qualidades pessoais com as suas capacidades técnicas e alcançar os objetivos da pesquisa.

Com 55 Prêmios Nobel que estudaram na Fundação, o que o senhor considera ser um diferencial da Humboldt?

Nós temos como característica dar total subsídio aos nossos pesquisadores, como ajudá-los a encontrar um lugar para ficar quando estão na Alemanha, porque entendemos que o elemento da estabilidade é muito importante para eles desenvolverem suas pesquisas de forma plena. Temos também a característica de manter todos os membros de networking da Humboldt conectados. Eles recebem, de toda a família Humboldt, apoio, compreensão e a tão necessária ajuda científica. É uma colaboração através de todas as áreas, através dos oceanos, o que cria, como consequência, liberdade de expressão, liberdade de criar pesquisas e de persistir nelas.

São aceitas pessoas de todo o mundo e em qualquer área ou há alguma restrição?

Nossa filosofia é dar apoio às pessoas, não aos projetos. Nós não temos um país específico, nem uma área específica. Não nos preocupamos com a religião, nem com o gênero de cada pessoa. Apenas queremos que eles sejam excelentes em suas pesquisas e que saibam claramente quais são seus objetivos.

Qual a sua dica para quem ingressou na área de pesquisa agora?

O primeiro conselho é: seja criativo, inovador, original, não siga a média ou os outros. Tente encontrar e desenvolver seu próprio caminho e siga as suas motivações e habilidades. Segundo: saiba tecnicamente tudo o que você pode fazer e onde estão os seus limites. Una sua criatividade com um portfólio de técnicas que, juntos, vão permitir alcançar o objetivo que você determinar.

As suas principais linhas de pesquisa são referentes à ansiedade, memória do medo e sono. Quais as novidades nessas áreas?

Existem três fatores que guiam a ansiedade. O número um é a predisposição genética. O dois é o ambiente ou a influência do círculo social e o três são as duas trabalhando juntas para atuar nos mecanismos biológicos. A novidade é que, pela primeira vez na história, entendemos como funciona a influência do ambiente e identificamos genes que trabalham juntos em partes relevantes do cérebro para mudar alguns caminhos e produzir diferentes rotas em termos de vulnerabilidade para ansiedade. Isso tem revolucionado a psiquiatria nos últimos cinco anos.

Dizem que a ansiedade é o mal do século. Algum aceno sobre como fazer para controlá-la?

Número um: a ansiedade não é apenas um mal, é também algo importante e bom, porque previne cair em situações de perigo, zelando pela sobrevivência. O problema é quando está em nível muito elevado, que é preciso controlar. O meio de fazer esse controle é tentar prevenir pequenos elementos estressores na sua vida. Tente evitar exposições a estresses não necessários. Relaxe, não use excessivamente informações do seu cérebro, dê a ele um pouco de descanso e introduza alguns momentos de relaxamento.