11/12/2020 - 15h39

Pesquisador confirma ostensório da catedral de Cruz Alta tem cerca de 300 anos

Objeto será exposto ao público no próximo dia 13, na reabertura da catedral. Prédio ficou fechado para reforma por mais de dois anos. Haverá transmissão online.

Uma peça de 77 cm, feita em cedro, que por décadas permaneceu sobre o altar-mor da Catedral Diocesana de Cruz Alta, ganhou importância histórica ao ter confirmada a origem e data aproximada de criação, depois de um estudo realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O ostensório do Divino Espírito Santo faz parte das peças das reduções jesuítas e tem cerca 300 anos.

Durante seis meses deste ano, a peça foi estudada detalhadamente pelo professor e coordenador do Grupo de Pesquisa Arte Sacra Jesuítico-Guarani e Luso-brasileira da PUCRS, Édison Hüttner. Conhecido nos meios acadêmico e religioso pela dedicação ao localizar e buscar a identificação de peças históricas e raras, Hüttner mergulhou em livros de história, analisou imagens de outras peças da época já identificadas, coletou amostras do ostensório, que foram analisadas no Laboratório Central de Microscopia e Microanálise da universidade, o submeteu a uma tomografia no Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer) e à descontaminação por meio de um aparelho de luz ultravioleta (UV-C) desenvolvido pelo cirurgião bucomaxilofacial e doutor em Gerontologia Éder Abreu Hüttner, irmão de Édison.

Uma das descobertas é que a a escultura tem detalhes em policromia, técnica em gesso muito utilizada pelos jesuítas. As cores amarela, azul e vermelha são um aspecto muito importante da tradição da arte jesuítica. O professor explica que, para a cor amarela, se utilizava gema de ovos com pigmentos de cor. Já o tom vermelho indica presença de laca vermelha ou urucum. O azul era feito com produtos trazidos da Europa pelos jesuítas.

— Outro detalhe importante são os cravos missioneiros, que se apresentam como uma das características marcantes das obras sacras missioneiras entre os séculos 16 e 18 — justifica o pesquisador.

Desde 2005, Hüttner busca objetos religiosos pertencentes às reduções dos padres jesuítas que vieram ao sul do continente, a partir do século 17, para catequizar os índios no Brasil, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Qualquer palavra ou símbolo encontrados nas relíquias — sejam eles jesuítico-guarani, afro-brasileira ou indígena — o auxilia a iniciar as conexões necessárias.

Foi o contato do arquiteto e especialista em arte-sacra e espaço litúrgico, Cristtiano Fabris, que levou o professor de Porto Alegre a se interessar pela peça de Cruz Alta. Fabris é o responsável pela revitalização interna da catedral, que esteve fechada nos últimos dois anos e quatro meses para as obras.

— Quando vi o ostensório, percebi que ele tinha um estilo barroco e poderia ter um valor histórico, pois fugia do padrão do restante do altar-mor, que é em estilo neogótico (a partir do século 19). Espero que esta confirmação desperte nas pessoas o interesse pelas peças mais antigas, pois há muitas por aí sem terem o devido valor — comenta Fabris.

Segundo Hüttner, o ostensório da Catedral de Cruz Alta é uma peça rara, difícil de ser encontrada, pois na época este tipo de escultura era produzida em menor quantidade do que a de santos.

Pesquisador restaurou ostensório

Com a orientação da artista plástica Carla Rigotti, responsável pelo setor de restauração do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, Hüttner restaurou a peça antes de devolvê-la a Cruz Alta.

Acompanhados do doutorando do curso de Pós-Graduação em História Cláudio Lopes Preza Junior, o trio removeu as camadas de tinta sintética (de uma restauração anterior feita há mais de quatro décadas) e fixou com cola para madeira os membros superiores soltos e aplicaram resina natural e transparente para servir como impermeabilizante.

Catedral celebrará a volta do ostensório

No próximo dia 13, a Catedral Diocesana de Cruz Alta reabrirá as portas, a partir das 9h, para uma bênção e dedicação interna da Catedral. Devido a pandemia de coronavírus, a participação será restrita a 150 pessoas (30% da capacidade), mediante confirmação antecipada pelo telefone (55) 3322-1258. A transmissão também ocorrerá pelo canal do Youtube e pelo Facebook da Diocese de Cruz Alta. A Diocese de Cruz Alta promete uma grande festa para os fiéis ao final da pandemia.

Saiba mais

Segundo Édison Hüttner, a frente do ostensório apresenta uma rica simbologia de cores:

  • 25 raios na cor amarela. Há partes em vermelho, que representa o fulgor do sol. Este sol, luz que refle o próprio Jesus Cristo.
  • Dez nuvens na cor azul clara. As nuvens representam os céus. O mundo celeste onde habita a Trindade.
  • Três colunas de línguas de fogo na cor vermelha. As chamas simbolizam o fogo que reflete do Espírito Santo.
  • Um triângulo na cor amarela. Representa a Trindade.
  • Na base com detalhes em desenhos e arte barroca nas cores azul índigo, amarelo e vermelho.

Fonte: Matéria retirada do site GZH

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