04/10/2019 - 16h58

Nora Volkow fala sobre a complexidade da dependência química

Eleita uma das cem mulheres que mais mudaram nosso mundo, de acordo com a Time Magazine, a psiquiatra Nora Volkow ministrou uma videoconferência ao vivo, direto do Estados Unidos, ao estudantes e professores da PUCRS, na tarde desta quarta-feira, 2 de outubro. A especialista lidera uma das mais importantes estruturas de estudo sobre a dependência química do mundo, o Instituto Nacional em Abuso de Drogas dos Estados Unidos (conhecido pela sigla Nida), e palestrou a convite do professor da Escola de Medicina e pesquisador do Instituto do Cérebro do RSRodrigo Grassi.

Em sua fala de cerca de uma hora, expôs a complexidade por trás da dependência química, que extrapola as barreiras da biologia para entrar no imenso e subjetivo campo comportamental. “Nos cinco primeiros anos de vida, o ambiente em que a criança vive é mais relevante do que a própria genética em si”, afirmou. Volkow disse que a dependência química envolve múltiplos fatores e geralmente acontece no período da adolescência, quando os jovens estão mais vulneráveis a iniciar o uso de drogas. Conforme a especialista, isso ocorre porque o cérebro dos adolescentes é diferente do de adultos.

De forma geral, quando nasce, o indivíduo tem mais neurônios, mas menos conectividade entre eles. Com o passar dos anos, diminui-se o número de neurônios, mas aumentam-se as conectividades. Se essas conexões forem sadias, o cérebro entra na fase adulta sem estar comprometido. Porém, caso se dê cedo a iniciação ao uso de drogas, por exemplo, o cérebro perde as conexões, pode sofrer modificações químicas e diminuir suas funções.

Nora Volkow, Early Life Stress and Addiction as a Brain Disorder, InsCer, videoconferência, prédio 50, auditório

Foto: Camila Cunha

Ela também tocou no controverso tema sobre o uso da maconha e, sem entrar no mérito de ser contra ou a favor da liberação da droga, afirmou existirem diversos estudos que apontam para um impacto no desenvolvimento do cérebro de pessoas dependentes, contrariando a ideia de que a maconha seja inofensiva. “Os efeitos adversos ainda não são claros, mas temos muitos estudos que apontam problemas de saúde oriundos do uso crônico da maconha”, comenta.

Ainda de acordo com a especialista, autora de mais de 500 artigos e três livros sobre o uso da neuroimagem no estudo dos transtornos psiquiátricos e aditivos, o tratamento medicamentoso só existe para dependentes de nicotina, álcool e opióides (remédio para dor). Para todas as demais drogas não existe um tratamento que cure a dependência. É necessária uma rede de apoio e suporte da família, dos amigos, do ambiente em que o indivíduo transita, que iniba também aspectos comportamentais, não apenas biológicos.

Sobre o Nida

O National Institute on Drug Abuse (Nida) tem por missão promover a ciência sobre as causas e consequências do uso e dependência de drogas e aplicar esse conhecimento para melhorar a saúde individual e pública. Isso envolve apoiar e conduzir estrategicamente pesquisas básicas e clínicas sobre o uso de drogas (incluindo nicotina), suas consequências e os mecanismos neurobiológicos, comportamentais e sociais subjacentes envolvidos; garantir a tradução, implementação e disseminação eficazes de descobertas de pesquisas científicas para melhorar a prevenção e o tratamento de transtornos por uso de substâncias; e aumentar a conscientização pública sobre o vício como um distúrbio cerebral.

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