31/07/2018 - 09h58

3 Perguntas de Christian Lykawka (Rockhead Games) para Eduardo Arruda (Doc.Space)

Nesta edição, Christian Lykawka, CEO Fundador da Rockhead Games, faz três perguntas a Eduardo Arruda, sócio-fundador da Doc.Space. No próximo mês, quem responde às questões elaboradas por Arruda é o sócio-fundador da Netwall.

Christian Lykawka: Tens trabalhado há muitos anos na implementação de processos de transformação digital, inclusive sendo este o foco da Doc.Space. Como as inovações tecnológicas estão impactando na modernização de processos no Brasil? Como afetam os cidadãos, as empresas e o Governo? Há pontos positivos e negativos?

Eduardo Arruda: Há alguns anos o grande entrave à modernização enfrentado por órgãos e empresas públicas e privadas era a inexistência ou o alto custo das tecnologias necessárias para empreendê-la. Atualmente os obstáculos são muito mais culturais e, em alguns casos, legais, decorrentes, sob certa ótica, dos primeiros. David Rogers, em seu livro “Transformação digital: repensando o seu negócio para a era digital”, afirma que essas transformações não têm a ver com tecnologia, mas sim com estratégia e novas maneiras de pensar. Empresas cujos líderes passam a se dedicar com afinco ao ato de repensar o negócio para a era digital têm mais chance de sobreviver ao avanço inexorável da linha da inovação disruptiva, que arrasa empresas e até mesmo segmentos inteiros. Na Doc.Space percebemos isso nitidamente em nosso projeto “Cartório Digital”. Construído em conjunto com a COOPNORE e outras entidades representativas do segmento notarial e registral, altamente regulado e tido como conservador, o projeto já opera oficialmente sob autorização do Poder Judiciário, tendo vencido inúmeras barreiras. Seu impacto na vida cotidiana dos empresários e cidadãos é muito significativo, dispensando o deslocamento presencial até os cartórios, sem, contudo, abrir mão da segurança jurídica que os mesmos conferem aos atos que praticam. Aquelas empresas ou segmentos de negócio que não se reinventarem, por outro lado, desaparecerão. Essa renovação é natural e não chegaria a considerá-la um ponto negativo.

Lykawka: Com toda a sua experiência no ensino na área da Computação, tens observado alguma mudança metodológica que prepara melhor os alunos para o mercado de trabalho? Como percebes a influência dos parques tecnológicos como o Tecnopuc na formação dos alunos?

Arruda: Analisando os sistemas de ensino dos países com melhores desempenhos nos rankings de educação podemos observar pelo menos um ponto em comum: o reconhecimento da importância do papel do professor. Cabe a ele criar as condições adequadas para que o aluno tenho um aprendizado efetivo. De nada adianta uma sala de aula altamente tecnológica se o professor está desmotivado ou despreparado. Um professor engajado, por outro lado, já percebeu que a dinâmica do aprender é muito mais efetiva se estiver associada à resolução de problemas, permitindo que o aluno não apenas aplique os conhecimentos já adquiridos, mas antes disso descubra quais conhecimentos são necessários, motivando-se a buscá-los com a orientação do professor. Já aplicamos essa abordagem na Escola Politécnica da PUCRS. Na  Agência Experimental de Engenharia de Software (AGES), os alunos são confrontados com problemas reais, tendo sob sua responsabilidade desenvolver soluções tecnológicas completas para resolvê-los, interagindo com clientes reais. E isto ocorre não em uma atividade extraclasse, mas sim em disciplinas da seriação normal do curso. Na agência, já foram produzidas pelos alunos soluções de grande impacto social, como um aplicativo para incentivar a adoção de crianças e adolescentes considerados de difícil adoção, projeto que tive a felicidade de coordenar. A relação entre os parques tecnológicos e as instituições de ensino e pesquisa, como no caso do Tecnopuc e da PUCRS, é simbiótica: as empresas do parque têm acesso a pesquisas inovadoras de qualidade e a profissionais altamente qualificados; já a universidade tem a possibilidade de atuar próxima ao mercado, o que é sempre enriquecedor.

Lykawka: Baseado no teu conhecimento sobre ambientes de inovação, dentro e fora do país, como achas que poderíamos aprimorar o ecossistema do Tecnopuc?

Arruda: Sempre haverá o que ajustar para que a simbiose entre o Tecnopuc e a PUC-RS seja ainda mais efetiva, mas estamos no caminho. Em razão de um conjunto amplo e complexo de fatores, os quais, confesso, não consigo compreender completamente, ainda é tênue a contribuição mútua entre as empresas do parque e a universidade no campo da pesquisa. Não temos, por exemplo, um número tão expressivo de patentes geradas. Mas esse não é um problema apenas do nosso ecossistema, é uma realidade nacional. A disponibilidade de capital de risco para investimento em empresas inovadoras e startups ainda é tímida no país, o que opera como freio às iniciativas. Não se faz ciência e inovação sem investimento. Acredito que criar as condições necessárias para atração de investimentos públicos e especialmente privados é providência essencial. Reconhecer o papel relevante que as pequenas empresas altamente inovadoras podem desempenhar na modernização de diversos segmentos, com sua atuação mais ágil do que a de empresas tradicionais, é outro ponto de vital importância. Esse reconhecimento leva a uma consciência de que nem sempre o que é adequado para uma grande empresa, atende a uma empresa pequena. A PUC-RS vem desenvolvendo programa de incentivo a startups, considerando esses e diversos outros pontos, o que é um sinal de que em breve estaremos avançando mais rápido nesse sentido. De resto, em minha opinião e a despeito de tudo o que ainda precisamos evoluir, não há melhor lugar para uma empresa inovadora se instalar do que aqui no Tecnopuc.

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