Amabile trocou São Paulo por Porto Alegre para ser aluno de Assis Brasil

CulturaFOTO: CAMILA CUNHA

Celeiro de escritores

Escrita Criativa da PUCRS é referência nacional e torna Porto Alegre destino de estudantes brasileiros e de outros países

Por Vanessa Mello

Cansado da vida de jornalista e do ritmo de São Paulo, Luiz Roberto Amabile encontrou o futuro em uma página de revista. Ao se deparar com uma reportagem que mostrava o escritor e professor da PUCRS Luiz Antônio de Assis Brasil retirando um livro de sua recheada estante e o chamava de forjador de escritores, Amabile soube que era esse o caminho a seguir. No mesmo período havia ganho, em um concurso de frases de uma companhia aérea, uma viagem à Argentina. Uniu às férias e esticou a estadia em Mendonça por mais uns dias. O distanciamento da realidade em que estava imerso trouxe a certeza dos próximos passos. Ao retornar a São Paulo, pediu demissão do Estadão – por dez anos, vinha trabalhando na grande imprensa paulista em veículos como Folha, Globo e Abril – e o dinheiro que usaria na entrada de um apartamento ganhou novo e derradeiro destino: Porto Alegre.

Não é ficção. É apenas uma entre tantas histórias de brasileiros e até estrangeiros que cruzam fronteiras para estudar Escrita Criativa na PUCRS. A área que já era forte em universidades dos EUA chegou em terras verde-amarelas pelas mãos de Assis Brasil. Há 35 anos, o escritor e professor propôs o curso ao então pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, Ir. Elvo Clemente, de quem recebeu total apoio. “Houve uma pessoa que acreditou e, depois disso, todas as administrações da minha Universidade me apoiaram. Se esse trabalho existe, eu devo à PUCRS por sempre me oferecer toda a estrutura necessária”, diz o idealizador da mais tradicional oficina de Escrita Criativa do País.

Luiza: entre o Rio e a capital para cursar a oficina

ARQUIVO PESSOAL

A autora e jornalista carioca Luiza Mussnich elegeu a PUCRS como destino. Fez a ponte aérea todas as quintas-feiras, de março a dezembro de 2017. Tudo para ouvir os ensinamentos de Assis Brasil. “Quando passei a levar o ofício da escrita a sério, notei algo em comum entre alguns dos jovens escritores brasileiros de que eu mais gostava: o Michel Laub, a Carol Bensimon e o Daniel Galera, para citar alguns, passaram pela oficina do Assis. Fui atrás”, revela Luzia.

A oficina excedeu em muito as suas expectativas, no aperfeiçoamento da escrita e apresentando novas ferramentas para melhor articular um texto. “Me ajudou a enxergar uma voz minha, um estilo próprio, a acreditar neles, mas também a me permitir experimentar formatos e estilos novos. Me tornou uma melhor leitora, me apresentando com mais detalhes os bastidores do texto literário, o que impacta positivamente na manufatura e lapidação de um texto. Isso foi extremamente valioso”, reconhece.

Assembleia da ONU

Em 34 anos, cerca de 700 alunos já passaram pela oficina de Escrita Criativa, vindos de diferentes estados e países. Segundo Assis Brasil, mais do que nunca, a diversidade de cultura e olhares possibilitam a discussão de novas obras e autores, trazendo novas vertentes literárias. “Por vezes as nossas aulas parecem uma assembleia da ONU, de tantos sotaques”, brinca.

María Elena fez a Oficina, o mestrado e agora cursa o doutorado

FOTO: BRUNO TODESCHINI

Um exemplo é a venezuelana María Elena Morán, que se mudou para Porto Alegre por motivos pessoais, mas assim que chegou em solo gaúcho, foi incentivada a cursar a oficina. “Nunca imaginei que seria um começo de mundo. Tinha a literatura como algo intocável, um desejo silenciado que eu tentava, em vão, satisfazer pela leitura e escrita cinematográfica. Fazer a oficina foi um atrevimento, o primeiro passo para desmitificar o fazer literário e me entender capaz de criar e ser criada nele. E fazer isso orientada pelo professor Assis, cuja vontade de ensinar, generosidade e estímulo são tão acolhedores como inesgotáveis, foi a melhor maneira de começar esse processo”, diz. Foi a experiência na oficina em 2014 que a fez permanecer na Capital. Seguiu no mestrado, com orientação de Assis Brasil, e está no segundo ano do doutorado.

O criador da mais antiga oficina em funcionamento do País revela que o contato com os alunos também impacta no seu trabalho e o estimula a seguir escrevendo. “Eles me trazem muita vitalidade e experiência do mundo contemporâneo, isso é magnifico. Quando se discute uma questão de composição literária em aula, também encontro soluções para os meus textos. Vejo cosias que podem me ajudar a resolver algum problema nas minhas narrativas. Às vezes, faço descobertas que podem iluminar um livro inteiro que eu esteja escrevendo”, conta Assis Brasil.

TRAJETÓRIA COMPLETA

Assis em aula: “Os alunos me trazem muita vitalidade e experiência do mundo”

FOTO: CAMILA CUNHA

Assis Brasil é denominador comum na formação de tantos escritores reconhecidos e premiados que publicam por grandes editoras brasileiras. Das oito categorias do Prêmio Açorianos em 2019, todas foram conquistadas por alunos, diplomados e docentes da PUCRS. A oficina originou uma linha de pesquisa em Escrita Criativa na pós-graduação da PUCRS, que mais tarde transformou-se em área própria no mestrado e no doutorado.

Em 2016, mantendo seu pioneirismo na área, a Universidade lançou a graduação em Escrita Criativa, permitindo que estudantes sigam uma trajetória completa. “A PUCRS é lugar da escrita, onde todos querem estar”, reforça Amabile, que se mudou para Porto Alegre em 2010, passou pela oficina, seguiu no mestrado, está no seu segundo doutorado e leciona, entre outras disciplinas da graduação, a eletiva de Escrita Criativa para estudantes de todas as Escolas.

Escrever ficção: Um manual de criação literária

FOTO: BRUNO TODESCHINI

Em março de 2019, Assis Brasil lançou Escrever ficção: Um manual de criação literária, resultado dos 34 anos de Oficina de Escrita Criativa. “Esse livro, de certo modo, é uma prestação de contas que faço do apoio que sempre recebi da PUCRS em todos esses anos”, reconhece.

Aborda conflito, tempo, espaço, focalizador, reflexões novas e a existência do personagem como ponto fundamental. Traz ensinamentos, histórias do mundo literário, exemplos de textos, além da vivência das aulas, com angústias, medos, dúvidas, erros, acertos e sonhos de alunos. “É um manual, mas, além disso, é um momento de discussão e reflexão sobre grandes temas da literatura na perspectiva de quem é aluno e de quem ensina”, aponta Assis Brasil.

Quando recebeu da editora Companhia das Letras a proposta de escrever o livro, Assis Brasil convidou Amabile para colaborar na pesquisa, escolha e análise dos textos exemplares. “Se o maior nome da Escrita Criativa escolhe você como colaborador, isso quer dizer que você entende do assunto. É um livro escrito a três mãos. A obra é do Assis, eu só dei uma mãozinha. E tudo que aprendi nesse processo valeu por um pós-doutorado em Escrita Criativa”, conclui.

Legado da PUCRS

A Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) deve iniciar em agosto de 2019 uma especialização em Escrita Criativa. Esta é a primeira parceria da PUCRS com uma universidade de outro estado em termos de Especialização Lato Sensu na área. A colaboração entre as duas instituições se desenvolve desde o início de 2019 e o papel da PUCRS é colaborar com metade dos professores e disciplinas do curso, que é semipresencial. “As disciplinas são mistas e nossos docentes darão uma parte das aulas presencialmente e outra parte pelo Moodle. É importante fomentar o crescimento da área no Brasil”, explica o coordenador da graduação em Escrita Criativa na PUCRS, Bernardo Bueno.

Os docentes da PUCRS são Assis Brasil, Arthur Telló, Moema Vilela, Natalia Polesso, Julia Dantas, Altair Martins, Bernardo Bueno. Pela Unicamp os professores são Robson Teles, Lourival Holanda, Adriano Portela e Patrícia Tenório. A professora Moema representa a PUCRS na coordenação, junto ao dramaturgo Teles e à escritora Patrícia.

O curso foi proposto inicialmente por Patrícia, que defendeu seu doutorado em Escrita Criativa na PUCRS no fim de 2018. Para ela, a PUCRS tem uma participação fundamental na expansão da área em Pernambuco. “A Universidade e seus professores acreditaram nesse sonho de levar a Escrita Criativa para qualquer lugar do país, em especial Pernambuco, estado que, assim como o Rio Grande do Sul, é nascedouro de grandes nomes da literatura e da poesia nacionais”, comemora. Para os alunos do curso, haverá aproveitamento de créditos de até duas disciplinas de 45 horas/aula em uma futura seleção para mestrado ou doutorado na área na PUCRS.

O primeiro contato de Patrícia com a Escrita Criativa da PUCRS foi em 2006, quando passou um mês como ouvinte na oficina Assis Brasil. Encantou-se com a proposta de unir a prática e a teoria da escrita de ficção e poesia em ambiente acadêmico. Em 2016, mudou-se para Porto Alegre para participar como ouvinte das disciplinas de Assis Brasil e da professora Ana Mello e, em 2017, ingressou no doutorado, defendendo a tese em outubro de 2018.

Enquanto ainda era aluna especial na PUCRS, Patrícia criou um grupo de estudos da área em Pernambuco pela necessidade de compartilhar com amigas escritoras e poetas tudo o que vinha apreendendo em Porto Alegre. O grupo abrange várias áreas de conhecimento, como Filosofia, Psicanálise, Sociologia, e de arte, como Cinema, Artes Plásticas, Fotografia. Suas atividades práticas seguem o modelo das oficinas literárias. Em 2017, além dos encontros mensais com novos participantes, foi realizado 1º Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco na Bienal Internacional do Livro, trazendo escritores gaúchos para apresentar e trocar suas experiências criativas com escritores pernambucanos. Em 2018, encontros mensais e temáticos em Porto Alegre e Recife reuniram escritores locais para falarem de seus processos criativos. Em 2019, o grupo ingressou no ambiente acadêmico com o curso de extensão na Unicap.

O mestre pelos olhos de seus alunos

“Um dos melhores professores com quem já tive aula, um ser humano generoso, doce, engraçado, humilde, extremamente preparado e experiente. Todos os jovens que tiveram o privilégio de ter o Assis como professor também devem ser gratos à PUCRS, por ter viabilizado isso a um custo simbólico e mais acessível”Luiza Mussnich

“A figura pública do Assis é a mesma da oficina, um gentleman. Cavalheiro e ao mesmo tempo rigoroso na metodologia, em apontar os problemas do texto permitindo que, a partir disso, o aluno enxergue e pense sobre sua escrita. Aprendi a dar aula de Escrita Criativa observando-o”Luiz Roberto Amabile

“Assis tem uma mistura de experiência e talento que lhe permite saber quando é preciso intervir e aconselhar e quando é necessário silenciar para deixar que o estudante encontre suas próprias vias. Assis entrou no meu projeto como se estivesse caminhando na ponta dos pés: um crítico que, embora aguçado, nunca me trouxe estardalhaços e teve o maior dos respeitos por meu espaço e minha liberdade criativa”María Elena Morán