Hidroterapia, Hidrocinesioterapia ou Fisioterapia Aquática: Uma Opção Inteligente

"A terapia pela água é tão antiga quanto o homem e é uma ironia que uma terapia tão eficaz e natural tenha que ser redescoberta a cada era".
Dian Dincin.

     O 'óxido de diidrogênio', H2O, ou simplesmente água, é um dos principais elementos da natureza humana e da própria Terra. Suas características físicas e químicas a tornam um dos elementos naturais mais fascinantes para os estudos científicos e aplicações empíricas pelas mais diversas formas de vida. Não há dúvidas quanto ao fascínio humano pela água. Várias teorias podem explicá-lo, dentre as quais a idéia de que a água é o nosso habitat ancestral, tanto pela ótica da teoria da evolução das espécies (Darwin), quanto pela concepção de que fomos gerados em um ambiente líquido, no interior do ventre materno, além do fato de a água ser também o nosso elemento constituinte essencial.

     O termo hidroterapia nesceu do grego: hidor = água; therapia = cura. Embora não haja nitidez de quando a água foi utilizada pela primeira vez com finalidades terapêuticas, há indícios que os orientais iniciaram esta prática em aproximadamente 2400 anos a.C.. Sabe-se que Hipócrates (460 - 375 a.C.) empregava água quente e fria (banhos de contraste) no tratamento de doenças. No Ocidente, os romanos utilizaram a água amplamente com fins terapêuticos e recreacionais. Eles dispunham de balneários ou termas, onde eram empregados quatro tipos de banho, sob diferentes temperaturas:o frigidarium, o tepidarium, caldarium e o sudatorium (SKINNER e THOMSON, 1985).

     A Europa foi precursora quanto à busca científica acerca dos efeitos terapêuticos da água . A primeira publicação sobre os efeitos de banhos terapêuticos foi assinada pelo médico inglês John Flayer, em 1697. Daí em diante, outros profissionais dedicaram sua atenção aos efeitos e indicações da hidroterapia, dentre os quais destacou-se um camponês da Silésia, o qual estabeleceu um centro para utilização de água e exercícios físicos. Ele estimulou consideravelmente o pensamento de profissionais da área médica no continente europeu (SKINNER e THOMSON, 1985). A América só despertou seu interesse pelas atividades terapêuticas pela água no início deste século. O primeiro centro desta natureza foi aberto em Boston, nos EUA, em 1903.

     Atualmente as atividades aquáticas com fins terapêuticos são utilizadas pelas mais diversas áreas. Educadores físicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fisiatras, ortopedistas e reumatologistas, neurologistas, cardiologistas, geriatras, pediatras, endocrinologistas, nutricionistas, psiquiatras, psicólogos e pedagogos indicam aos seus alunos e pacientes banhos de imersão e atividades aquáticas como a natação, hidroginástica e hidroterapia. As atividades realizadas no meio líquido podem ter caráter preventivo ou terapêutico.

     Outras atividades podem ser realizadas em piscinas, como preparação física de diversos desportos terrestres de alto nível, como futebol, vôlei, basquete, atletismo, tênis e muitos outros. Além disso, programas de relaxamento, dança e expressão corporal são muito interessantes. Em alguns lugares do mundo, são desenvolvidas em piscinas sessões de psicoterapia e hipnose, embora isto ainda seja incomum no nosso País. Enfim, as piscinas têm demonstrado grande versatilidade quanto à sua aplicabilidade em atividades humanas em geral e, embora muito já tenha sido desenvolvido, há ainda muitos horizontes a serem descobertos e divulgados neste sentido.

     Existem diversas formas de se usar a água como elemento terapêutico. O termo hidroterapia engloba todas elas, mas podem ser diferenciadas algumas formas distintas de utilização da água em processos profiláticos ou terapêuticos, tais como: a hidroterapia por via oral, ou uso hidropínico da água, a balneoterapia, as duchas quentes, frias ou mornas, as compressas úmidas, a crioterapia, a talassoterapia, a fangoterapia, a crenoterapia, saunas, turbilhão, hidromassagem, e a hidrocinesioterapia ou fisioterapia aquática.

     A hidrocinesioterapia tem crescido cientificamente principalmente nas últimas décadas. O número de publicações internacionais em revistas especializadas tem aumentado muito e a origem das pesquisas variam entre diversos países do mundo, embora a grande maioria dos autores ainda seja composta de americanos e europeus. Dentre os estados do Brasil que se destacam no trabalho de hidrocinesioterapia, podem ser citados São Paulo, Paraná e o Rio Grande do Sul. Há algumas clínicas especializadas em hidrocinesioterapia nas grandes cidades do País inteiro, enquanto o interior de alguns estados ainda seja carente de piscinas terapêuticas e pessoal especializado.

     A hidrocinesioterapia ou fisioterapia aquática constitui um conjunto de técnicas terapêuticas fundamentadas no movimento humano. É a fisioterapia na água, ou a prática de exercícios terapêuticos em piscinas, associada ou não a manuseios, manipulações, hidromassagem e massoterapia, configurada em programas de tratamento específicos para cada paciente. Na maioria dos casos, o tratamento é realizado em piscinas aquecidas entre 32o e 34o C, uma vez que os efeitos do calor são positivos em muitos processos patológicos, como os das doenças reumáticas, respiratórias, neurológicas e ortopédicas, entre outras. As piscinas terapêuticas devem ser adaptadas, com a inclusão de barras simples, barras paralelas, escadas especiais, bancos e macas no seu interior. O piso das piscinas deve ser antiderrapante, para viabilizar os exercícios de marcha e deslocamentos dos pacientes e dos fisioterapeutas. Além disso, devem estar disponíveis materiais acessórios para explorar as forças físicas disponíveis na água, como flutuadores, nadadeiras, palmares, luvas de lycra, tábuas, bolas, etc.. Também são necessários, além de materiais subaquáticos como tábuas de propriocepção, almofadas d'água, bolinhas de tênis, tapetes de borracha, etc. Métodos terapêuticos específicos para a fisioterapia aquática surgidos na Europa e EUA vêm auxiliar a recuperação do paciente, como Halliwick (Inglaterra), Bad Ragaz (Suíça), Watsu (EUA), Burdenko (Rússia), Osteopatia Aquática (França e Canadá), entre outros.

     Muitos efeitos terapêuticos benéficos obtidos com a imersão na água aquecida (como o relaxamento, a analgesia, a redução do impacto e da agressão sobre as articulações) são associados aos efeitos possíveis de se obter com os exercícios realizados quando se exploram as diferentes propriedades físicas da água (empuxo, turbulência, pressão hidrostática, etc.). Desta forma, um programa de hidrocinesioterapia adequado a cada paciente pode representar um grande incremento no seu tratamento, obtendo-se efeitos de melhora em tempo abreviado e com menor risco de intercorrências, tais como dor muscular tardia e microlesões articulares decorrentes do impacto.

     Uma avaliação criteriosa do paciente é realizada, acrescida de informações sobre a experiência do paciente com a água, imersão e domínio ou não de nados. O exame, a análise dos exames complementares, bem como avaliação dos movimentos funcionais são indispensáveis para se estabelecer os objetivos do tratamento e prognóstico idealizado, para então serem determinados os procedimentos hidrocinesioterapêuticos em escala progressiva. A primeira sessão do paciente na água visa complementar a avaliação convencional, a fim de se observar sua adaptação e habilidades no meio líquido, densidade corporal e flutuabilidade, bem como o seu comportamento na piscina.

     As indicações da hidroterapia são bem variadas. Serão descritos a seguir algumas condições patológicas ou seqüelas beneficiadas pelo tratamento hidroterapêutico ou hidrocinesioterapêutico:

     Reumáticas: artrite reumatóide, febre reumática, espondilite anquilosante, osteoartrites ou artroses, tendinites, bursites, capsulites, miosites, discopatias degenerativas, polimialgias, etc.

     Ortopédicas e Traumatológicas: fraturas consolidadas ou em fase de consolidação, alterações posturais, pós-lesões traumáticas como entorses, luxações, subluxações, lesões impactantes, etc., além de pós-operatórios ósseos e articulares.

     Neurológicas: Parkinson, Alzheimer, seqüelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), Traumatismo Raquimedular (TRM), Poliomielite, Polineuropatias, Traumatismo Cranioencefélico (TCE), Paralisia Cerebral (PC), Tumores do SNC, doenças degenerativas do Sistema Nervoso, como distrofias musculares, além de lesões periféricas de nervos, síndromes neurológicas, e pós-operatórios em geral.

     Respiratórias: asma brônquica, bronquite crônica, enfisema pulmonar, fibrose cística e seqüelas de infecções respiratórias, pós-operatórios, etc.

     Cardíacas: hipertensos, alterações valvulares, etc.

     Endócrinas: obesos, alterações da tireóide, etc.

     Psíquicas: depressão, neuroses, autismo, doenças mentais e deficiências mentais em geral.

     Há algumas contra-indicações absolutas, como feridas infectadas, infecções de pele e gastrointestinais, sintomas agudos de trombose venosa profunda, doença sistêmica e tratamento radioterápico em andamento. Alguns processos micóticos e fúngicos severos também requerem afastamento do paciente de ambientes úmidos. Processos infecciosos e inflamatórios agudos da região da face e pescoço, tais como inflamações dentárias, amigdalites, faringites, otites, sinusites e rinites costumam apresentar piora com a imersão, por isso devem representar contra-indicação.

     Problemas cardíacos severos e hipo ou hipertensão descontrolada devem ser acompanhados com cuidado, bem como insuficiências respiratórias e epilepsia ou uso de válvulas intracranianas. Além disso, incontinência urinária e fecal merece atenção especial. Problemas como náuseas, vertigem, doenças renais, hemofilia, diabetes, diminuição importante da capacidade vital e deficiência tireoidéia, além de tratamento radioterápico recente devem ser discutidos com o médico, para estudar a indicação. Pacientes com fobia à água devem ter um acompanhamento criterioso, enquanto que pacientes com aparelhos de surdez não devem utilizá-lo na piscina. Pacientes com HIV positivo não são excluídos, mas devem ser tratados no final do expediente da piscina, para que a água circule o suficiente antes que outros pacientes sejam tratados (SKINNER e SAYLISS, 1993).

     Dentre os resultados de pesquisas publicadas há efeitos terapêuticos da hidroterapia já comprovados, dentre os quais destacaram benefícios como aumento da amplitude de movimento, diminuição da tensão muscular, relaxamento, analgesia, melhora na circulação, absorção do exudato inflamatório e debridamento de lesões, bem como incremento na força e resistência muscular, além de equilíbrio e propriocepção. PREISINGER e QUITTAN (1994) afirmam que o espasmo muscular pode ser reduzido pelo calor da água, auxiliando na redução da espasticidade. Os autores sustentam ainda que a imersão na água provoca redução do tônus muscular, enquanto que a dor pode ser reduzida por ambos estímulos térmicos. Além disso, a imersão na água facilita a mobilidade articular, relacionada à redução do peso corporal.