PUCRS
A Organização de Equipes Efetivas no Ambiente Organizacional

André Hartmann Duhá - Doutorado

Resumo

     Nos últimos anos, as organizações vêm realizando grandes modificações nas práticas de gestão e na forma como organizam o trabalho, o que parece refletir as mudanças significativas percebidas nas práticas culturais e político-econômicas que vêm ocorrendo no Brasil e no mundo a partir do início da década de 70. Estas modificações estão levando as organizações a substituir um modelo baseado na hierarquia, na racionalização e divisão do trabalho cuja ênfase estava nas rotinas, no controle e na disciplina, por um outro mais flexível voltado para a multifuncionalidade, a mudança e a inovação (HARVEY, 1999).

     Dentro deste contexto, as organizações começam a incentivar a formação e o desenvolvimento de equipes, considerando-as como a unidade básica de desempenho organizacional (NADLER, GERSTEIN e SHAW, 1993; MANZ e SIMS, 1996). Na área de gestão, surge um grande interesse por modelos e programas que possibilitem a criação de equipes efetivas, preparando as organizações para enfrentar os desafios do ambiente competitivo (PARKER, 1995; DREXLER, SIBBET e FORRESTER, 1996; KATZENBACH e SMITH, 2001).

     Entretanto, aquilo que parecia ser a solução para os problemas organizacionais passou a ser uma grande fonte de decepção, pois se começou a perceber a dificuldade de fazer com que as pessoas trabalhassem efetivamente em equipe (ROBBINS e FINLEY, 1997). Na maioria das vezes, os resultados alcançados pelas organizações foram piores que nos modelos de gestão e estruturação tradicionais, assim como para os empregados, o trabalho em equipe passou a ser fonte de insatisfação e geração de estresse (ROBBINS, 1999).

     Estes questionamentos nos levaram a propor este estudo, cujo propósito principal é investigar como as equipes de trabalho efetivas se organizam. Como conceito central desta pesquisa é utilizado o conceito de equipe, proposto por Katzenbach e Smith (1993), que procura diferenciar as equipes verdadeiras de um mero grupo de pessoas com uma tarefa em comum.

     Embora exista uma grande variedade de tipos de equipe (PARKER, 1995; JOHNSON e JOHNSON, 1997; ROBBINS, 1999, KATZENBACH, 2001), todas elas possuem critérios de efetividade que estão vinculados aos objetivos das organizações nas quais estão inseridas. Ainda que alguns autores (GONZÁLEZ, SILVA e CORNEJO, 1996) procurem salientar a existência de critérios internos ao grupo para avaliar a sua efetividade, Katzenbach e Smith (1993) afirmam que uma equipe não pode ser confundida com um conjunto de valores que faz com que as pessoas trabalhem bem juntas, apresentando comportamentos de apoio e cooperação. Mas ela é, acima de tudo, uma unidade básica de desempenho que busca resultados organizacionais efetivos.

     O argumento central deste estudo é de que as equipes de trabalho efetivas se organizam ao redor de objetivos, papéis, regras e procedimentos que são externamente definidas pela organização. Ou seja, a auto-organização do grupo é limitada por estes fatores externos, fazendo com que os aspectos ligados à tarefa sejam mais importantes do que os humanos e relacionais na organização das equipes efetivas.

     Para realizar esta investigação, procuramos identificar, dentre as principais teorias que têm se ocupado do fenômeno grupal (GONZÁLEZ, 1997), uma que possuísse uma sistematização teórica capaz de proporcionar uma análise adequada deste fenômeno. Neste estudo utilizamos os princípios da psicologia topológica e de dinâmica de grupo propostos por Kurt Lewin (1965; 1973; 1975; 1978). Para este autor, a organização e o funcionamento de um grupo pode ser analisada com base nos mesmos princípios da física topológica. A teoria proposta por Lewin utiliza conceitos como o de espaço topológico, campo de forças, sistemas de tensão, vetores, objetivos, locomoção, barreiras, etc. para explicar a dinâmica dos grupos.

     O método escolhido para a realização deste estudo teve como base os pressupostos de uma pesquisa qualitativa, apontados por Serrano (1994). A razão da escolha de um método que se fundamenta num paradigma qualitativo justifica-se, tendo em vista os principais objetivos e características do delineamento desta pesquisa.

     O delineamento de pesquisa escolhido para a realização deste trabalho foi o estudo de caso. O estudo de caso realizado nesta pesquisa foi do tipo interpretativo/ explicativo (SERRANO, 1994; YIN, 2001), que consiste, além de um conjunto de descrições ricas e aprofundadas do fenômeno, na criação de categorias conceituais para ilustrar, defender ou desafiar pressupostos teóricos, ou para explicar os fenômenos.

     O entendimento do fenômeno pode depender de uma boa escolha do caso. Por isso, foram escolhidos casos com os quais se podia aprender mais ao se realizar o estudo (STAKE, 1994). O grupo pesquisado era composto por vinte e uma pessoas e fazia parte do setor administrativo-financeiro de uma empresa de grande porte do setor metal-mecânico que está situada na região de Caxias do Sul. A escolha se deu com base em dois critérios, um de caráter conceitual e outro técnico, de fundo operacional. O primeiro se refere ao próprio conceito de efetividade proposto por Katzenbach e Smith (1993), que procura identificar a qualidade do resultado final do trabalho da equipe. Com base neste critério se buscou identificar uma equipe que trouxesse resultados efetivos para a organização. O segundo critério se referia à possibilidade operacional dos pesquisadores de acompanhar efetivamente o trabalho da equipe durante um longo período de tempo para poder coletar os dados necessários para o estudo.

     Os dados foram coletados no próprio local de trabalho da equipe estudada. Três técnicas de coleta de dados foram utilizadas nesta pesquisa. A primeira foi a análise dos documentos relativos às práticas e políticas da organização, a segunda foi a observação participante de reuniões e encontros da equipe estudada e a terceira foi um conjunto de entrevistas individuais, em profundidade, com cada um dos membros da equipe. Com estes três procedimentos se pretendeu coletar informações sobre a organização e o funcionamento da equipe, assim como, a percepção dos participantes destes fenômenos.

     O método de análise dos dados utilizado foi a análise de conteúdo; que resultou em uma descrição objetiva, sistemática e qualitativa do conteúdo manifesto das comunicações. A seguir, foram interpretadas com a finalidade de fazer inferências que culminaram em uma generalização mais abrangente (SERRANO, 1994; BAUER, 2002).

     Segundo Yin (2001) quatro testes costumam ser utilizado para determinar a qualidade de uma pesquisa social empírica: validade de construto, validade interna, validade externa e a confiabilidade. Para obter a validade do construto foram utilizadas fontes de evidência diferentes e o relatório final de pesquisa foi submetido para alguns dos participantes que faziam parte da equipe em estudo; para validade interna foi utilizada a técnica da construção da explanação; para estabelecer o domínio ao qual os resultados da pesquisa podiam ser generalizados, os pesquisadores tiveram como foco a busca de generalizações essencialmente analíticas; e para assegurar a confiabilidade deste estudo, minimizando os erros e visões tendenciosas do pesquisador, foi elaborado um cuidadoso protocolo de estudo de caso.

     O estudo apresentou como principais conclusões que as equipes de trabalho efetivas, embora se organizem ao redor de objetivos, papéis, regras e procedimentos, que são externamente definidas pela organização, não o fazem diretamente a partir de aspectos ligados à tarefa, mas através dos fatores humanos e relacionais. Principalmente através das sucessivas explanações, intervenções e manipulações dos líderes formais e informais existentes dentro do grupo.

     Através do estudo foram identificadas cinco categorias de análises que ajudam a compreender como os líderes influenciam a organização das equipes efetivas no ambiente organizacional.

     A primeira se refere à caracterização do espaço psicológico ou espaço vital criado pela equipe e seus líderes, ou seja, as representações das relações estruturais nos indivíduos assim como de seu ambiente psicológico. A segunda está relacionada à forma como os membros da equipe lidam com o conflito entre a liberdade individual e a operatividade grupal; por sua vez, como os indivíduos e o grupo lidam com o conflito entre a liberdade do grupo e a operatividade organizacional. A terceira busca demonstrar como se configura o sistema de tensões dentro da equipe, bem como o processo de estabelecimento de objetivos. A quarta se refere às principais locomoções, barreiras, conflitos e mudanças estruturais que ocorreram na equipe a partir de um processo de reflexão sobre a tarefa. A última procura demonstrar como as equipes podem satisfazer as necessidades de seus membros.


Referências
BAUER, M. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis:
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DREXLER, A.; SIBBET, D. e FORRESTER, R. The team performence model. California: Grove International, 1996.
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SERRANO, G. Investigación cualitativa. Retos e interrogantes: I Métodos. Madrid: Editorial La Muralla, 1994.
SERRANO, G. Investigación cualitativa. Retos e interrogantes: II Técnicas y análises de datos. Madrid: Editorial La Muralla, 1994.
STAKE, R. E. Case studies. In: DENZIN, N. e LINCOLN, Y. Handbook of qualitative research. Thousand Oaks, California: Sage Publications Inc., 1994. p. 236-247.
YIN, R. Estudo de caso: planejamento e métodos. Porto Alegre: Editora Bookman, 2001.


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