Entrevista
publicada na edição nº 379, agosto de 2007.

Escrevendo em tempos de internet

Luís Augusto Fischer      O que muda na escrita com o avanço da internet? Não concordo quando dizem que antigamente se escrevia melhor. Pode até se dizer que antes alguns poucos escreviam melhor do que a média atual. Muito mais gente entrou no sistema de ensino e isso significa que muito mais gente está tomando a palavra e usando a língua como lhe convém.
     Se não há uma escola em condições de oferecer esse ensino, os alunos vão sair pelo lado que der. Devemos aprender a conviver com as mudanças.


Luís Augusto Fischer,
professor de Literatura Brasileira no Instituto de Letras da UFRGS e autor de diversos livros, entre eles o Dicionário de Porto-Alegrês e o Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras.


Mundo Jovem: A linguagem da internet prejudica a escrita?

Luís Augusto Fischer: A internet possui uma espécie de código escrito com muitas alterações com relação ao código culto de Português brasileiro. Na escrita, o que se tem de fenômeno observável é que, ao escrever no teclado, o pessoal começou a usar muitas abreviaturas e até alguns símbolos que não são convencionais. Na questão da abreviatura, a pessoa reduz a quantidade de letras que digita, em função da velocidade. Outro viés é o de brincar de arremedar a fala, adotando na escrita algumas manhas que são típicas da fala. É uma forma de tornar o texto mais expressivo, brincalhão, informal e familiar.

     É importante dizer que isto não é uma exclusividade da Língua Portuguesa; em outros países também ocorre. Não dá para fazer um grande barulho em torno disto e achar que nós estamos no fim do mundo. Trata-se de um contexto novo. Antes da internet, o contexto de escrita era a folha impressa ou a folha manuscrita. Para os alunos, era a redação que se entregava para o professor ou o livro que ele consultava. Ou seja, a forma escrita da linguagem tinha uma estabilidade muito grande, que era dada pelo próprio meio físico através do qual o texto vinha apresentado. O livro impresso até hoje tem uma nobreza, uma idéia de permanência, de que vai sobreviver às gerações. Existe aí uma idéia de estabilidade associada com a ortografia mais formal. A novidade do meio expressivo que é a internet proporcionou esta alteração no modo de escrita.


Mundo Jovem: Esta forma de escrever não vai atrapalhar o aluno no futuro?

Luís Augusto Fischer: Alguns se assustam com essa modificação na escrita, porque imaginam que as manhas de linguagem da internet acabarão passando para o meio impresso. Há um temor dos professores de que, se o pessoal se acostumar a escrever muito com palavras abreviadas ou de maneira expressiva (escrever naum, em vez de não, por exemplo), pode ser que esta forma de escrever “contamine” a escrita formal da escola. Eu penso, no entanto, que isto não tem uma relação de causa e conseqüência imediata.

     Vamos fazer uma analogia. Todo mundo maneja vários registros de fala, instintivamente. Aprendemos na convivência que podemos chamar alguém de tu, de você ou de senhor. Descobrimos que estas são formas de tratamento usadas em diferentes contextos. Para saber isto nem é preciso ensinar muito. A partir dos quatro anos de idade todo indivíduo é um adulto lingüístico; pode não ter um vasto vocabulário na cabeça, mas já conhece muitas regras. Sabe que pode usar uma concordância mais frouxa com os amigos e uma concordância mais rigorosa com os adultos.

     Na fala, podemos usar mais de um código. Então na escrita também. Não vejo problema que crianças e jovens aprendam que há um código para as situações formais de comunicação (na escola, no vestibular ou para pedir emprego) e outro para a comunicação imediata, instantânea, on-line, que eles fazem no messenger ou no e-mail. Pode ser que alguma pessoa tenha maior dificuldade, mas não vejo isso como um fenômeno geral.


Mundo Jovem: Pode acontecer de alguma manha da internet virar oficial, na escrita culta?

Luís Augusto Fischer: É uma hipótese remota, que não sei se é muito verossímil nessa altura do campeonato. Se olharmos com “lente larga” na história, situações semelhantes já aconteceram. O tratamento você, por exemplo, não existia, pois era muito informal. No século 18, escrevia-se vossa mercê, que acabou se convertendo em você. Hoje vossa mercê é uma forma arcaica.

     A diferença é que atualmente existe muito material publicado e, portanto, a língua escrita tem uma resistência maior à mudança; diferente de 100 anos atrás. Quando havia menos coisas publicadas, as inovações eram aceitas mais facilmente. Não sei se vai ocorrer de passarmos a escrever hj como hoje. É mais provável que fique como uma brincadeira, como um código privado.


Mundo Jovem: Afirma-se que a juventude está escrevendo mais por causa da internet e que isto pode favorecer a aprendizagem da forma culta de escrever. É correto dizer isso?

Luís Augusto Fischer: É só lembrar de 15 anos atrás, por exemplo, quando a internet não tinha começado. Quantas cartas cada um de nós era capaz de escrever por mês ou por ano? Mesmo quem escrevia cartas escrevia umas 20 por ano. Hoje em dia se escreve uma quantidade enorme de e-mails por dia, sem contar com o messenger. É claro que não são cartas formais, mas certamente é um desenvolvimento enorme da escrita. Não é uma escrita tão exigente, tão regulada, mas o fato de ser massivamente praticada envolve uma idéia de aprendizado.

     Hoje em dia, dar aula de redação na escola, por exemplo, envolve necessariamente falar tanto sobre a questão da diferença do código culto em relação ao código mais informal (internetês), quanto às novas situações de comunicação que a internet proporciona. Atualmente, quem domina um pouco o inglês está no mundo, uma coisa inimaginável 15 anos atrás. Havia muita dificuldade para se fazer pesquisa. Hoje, em poucos minutos, conseguimos resolver nossas questões.


Mundo Jovem: Como a nossa língua culta está sendo passada de geração para geração, nas escolas?

Luís Augusto Fischer: A língua culta no Brasil tem uma maleabilidade bem interessante, diferente da língua culta de Portugal. Toda língua escrita é diferente da língua falada, em qualquer lugar do mundo. A Língua Francesa é um exemplo: sua escrita parou no século 17, mas a língua falada continua mudando até hoje, pois não tem como não mudar.

     Mas o Português brasileiro é bastante flexível. Há algumas restrições que são da lógica interna da língua e que são problemas, como as pessoas do discurso: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Na prática, não temos o vós há muito tempo. O nós também está morrendo. Virou a gente, flexionado com a segunda do singular. O tu já não se flexiona canonicamente. Na língua falada temos praticamente três formas de verbos: eu vou, tu vai (ou você vai, a gente vai, ele vai...) e eles vão.

     Sou a favor de dizer para os alunos que existe a forma vós, a forma tu, e mostrar que são recursos da língua. Mas não se pode esperar que os alunos, por causa disso, passem a dizer tu vais. Há certas formas de falar que o tempo vai engolindo. O cujo, por exemplo, pouca gente ainda usa. Do ponto de vista pedagógico é sempre importante mostrar o que existe e como funciona. E, naturalmente, esperar que o desenvolvimento da cultura letrada formal alcance essas coisas.


Mundo Jovem: Se a internet e os estrangeirismos não são tão problemáticos para a escrita, o que é?

Luís Augusto Fischer: A coisa mais problemática no Brasil, na verdade, é a falta de escolas. Gregory Guy é um professor norte-americano de lingüística que vem muito ao Brasil para estudar nossa língua. Uma vez fiz uma entrevista com ele e perguntei quais eram suas impressões do Português. Ele disse o seguinte: “Nunca tive dificuldade nenhuma de me comunicar, em nenhuma parte do Brasil. Nunca senti a diferença regional como sendo uma barreira para a comunicação. O que senti foi a diferença de classes. Quando eu conversava com um professor no Sul, em Roraima ou na Bahia, tinha alguma palavra diferente, mas eu entendia. No entanto quando eu falava com o porteiro, ele falava uma língua que eu não entendia, era outro Português”. Neste caso, existe um problema sócio-lingüístico muito relevante, que a médio prazo talvez seja um problema complicado até para a escola.

     Temos um universo de pessoas fora da escola, com pouca escolaridade ou sem leitura, que realmente vivem um Português diferente desse que estamos usando. É diferente não porque tenham um vocabulário mais pobre, mas porque estruturalmente ele começa a ser diferente. Por exemplo, do ponto de vista lingüístico, não há problema alguém dizer nóis vai porque ela se faz compreender. Mas nós sabemos que aí há um problema de concordância, que o correto deveria ser nós vamos. Tem-se um grande patamar da comunicação real brasileira que está funcionando com um Português ultra-simplificado.


Mundo Jovem: Diante disso, qual o papel da escola?

Luís Augusto Fischer: Não sou a favor de que a escola simplesmente abandone o Português culto em favor desse Português simplificado. O compromisso da escola é mostrar o Português culto na sua maior extensão possível. A questão é saber mediar pedagógica e politicamente entre o Português culto e a língua cotidiana que usam. É preciso ter habilidade de dizer à pessoa que as relações de poder acontecem em Português culto. Se ela optar somente pela língua simplificada, não conseguirá sair do lugar. Isso, para a escola, é difícil de manejar.

     Alguns professores me dizem, meio desencantados, que o máximo que conseguem é fazer com que os alunos que são adolescentes de periferia escrevam letra de rap. Na escola ideal, seria o caso de aceitar esse texto, mas dizer ao autor que é uma variante muito simples da Língua Portuguesa, e que existem outras formas mais complexas que exprimem melhor as sutilezas e matizes do pensamento. Quem faz rap tem todo o direito de fazer isso, mas também deveria ter direito de conhecer Drummond, João Cabral de Melo Neto e Machado de Assis.



Escrever para que e para quem?

     Se nós, professores de Português e Literatura, tirássemos as barreiras que nós mesmos colocamos na frente do aluno, não seria difícil escrever. Não é por culpa individual que isto acontece. É uma questão estrutural. Pensamos que para o aluno escrever precisa saber toda a conjugação dos verbos em todos os tempos ou todas as regras de acentuação. Não é verdade. Quando temos dúvidas, vamos ao dicionário. É o que qualquer ser humano deveria fazer. Não precisa usar palavras raras. Quando os jovens estão na internet, tendo uma situação comunicacional relevante e um interlocutor conhecido, eles escrevem.

A redação do vestibular é outro papo. Neste caso se trata de uma situação muito restrita de comunicação escrita. Além da estrutura exigida, conforme a universidade, a situação bastante problemática para o aluno é que ali ele não está escrevendo para se comunicar. Está escrevendo para ser avaliado. Aliás, na escola também é assim. Quase sempre se escreve para um único leitor que é o professor, que normalmente é um leitor interessado em ver somente os erros. Não se tem, na escola, uma situação de comunicação na qual a escrita entra como elemento relevante, enquanto que na internet é diferente. O que eu acho mais problemático para o adolescente é que ele possa escrever sobre algo que faça sentido para ele.

Uma coisa interessante, quando se trabalha redação, seria os alunos lerem os textos uns dos outros na aula; ler e comentar. Ao ter uma interpretação do que escreveu, o aluno recebe uma lição que nunca mais vai esquecer, pois talvez ele perceba que não ficou claro o que escreveu. Isso deveria acontecer antes de passar pela correção ortográfica, que é importante e essencial, mas não pode ser o único nem o primeiro elemento deste processo.

Problemas existem. Há quem tenha mais facilidade para escrever. Outros têm menos. O importante é escrever e, a partir da escrita, ver o que comunicamos em relação ao interlocutor, ao assunto e em relação ao código culto da língua.

Eu não tenho a menor dúvida de que a escola deveria ser em dois turnos, com aulas normais, momentos de recreação, horário de leitura na biblioteca e outras atividades. E não custaria tanto: uma parte mínima do que o Brasil paga de juros para os bancos internacionais daria para fazer uma escola decente para todo mundo. Vai-se esperar que o aluno saia da escola para fazer tema de casa? Se o pai e a mãe dele já não lêem e, se sabem escrever, não praticam... A única diversão que ele tem deve ser a televisão ou a internet. Não tenho nada contra televisão e internet, mas se forem as únicas coisas no universo do jovem, não se pode esperar que ele vá escrever bem.




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