Quando se fala em gramática tradicional de que se está falando?

     Gilberto Scarton




     Fala-se de uma veneranda Senhora. Idosa, resiste ao tempo, aos vitupérios, aos desrespeitos, às difamações há 2.400 anos. Nascida na Grécia antiga, tem desfilado por Roma, que a levou para todo o Ocidente. Assim chegou até nós. Com viço ainda. Com charme, que alguns tentam tirar-lhe. Veneranda e venerável, ainda. Elitista. Aristocrática. Puritana. Conservadora. Dogmática. Autoritária. Normativa. Mas descritiva também. Digamos que também irrealista, porque alheia à vida, aos usos e costumes, aos falantes e escreventes - de quem se diz Senhora...

     Uma Senhora romântica, idealizada, intocável, bíblica, infalível, juíza de todos os conflitos lingüísticos. Respeitada. Principalmente por professores de português. Por colunistas que dela se ocupam em nossos periódicos, em nossa imprensa. Por comandos paragramaticais. Por Fulano de Tal, por exemplo. E demais.

     Não foram poucos os homens de Letras que lhe teceram as vestes, que lhe moldaram o corpo, que lhe retocaram a maquiagem. Protágoras. Platão. Aristóteles. Os estóicos. Os alexandrinos. Apolônios Díscolo. Dionísio de Trácia. Donato. Varrão. Fernão de Oliveira, que publicou a primeira gramática portuguesa, Lisboa, 1536. Seguido por João de Barros, 1540. Mais perto de nós: Sai Ali. De mencionar também um Mestre: Celso Pedro Luft. E todos os demais "modernos", dentre os quais o leitor deve conhecer alguém. É, na verdade, imensa a fila daqueles que lhe teceram loas, laudas, linhas, ladainhas, labor.

Mas também não são / não foram poucos seus detratores:
Apolônio de Rodes, poeta alexandrino, séc. II a.C.:
"RAÇA DE GRAMÁTICOS, ROEDORES QUE RATAIS NA MUSA DE OUTREM, ESTÚPIDAS LAGARTAS QUE SUJAIS AS GRANDES OBRAS, Ó FLAGELO DOS POETAS QUE MERGULHAIS O ESPÍRITO DAS CRIANÇAS NA ESCURIDÃO, IDE PARA O DIABO, PERCEVEJOS QUE DEVORAIS OS VERSOS BELOS!"

APOLÔNIOS DE RODES
Poeta alexandrino, séc. II a.C.
Voltaire:
"Os gramáticos são homens que vivem a pesar ovos de aranha, em balanças cujos pratos são asas de mosquito".

Medeiros de Albuquerque:
"As sacrossantas bobagens".

Ney Gastal:
"A gramática, da maneira como existe e é estudada no Brasil, é tão importante como saber nadar para um coitado perdido no meio do deserto da África do Norte".

Mário Quintana:
"Essas bizantinices e complicações estão a pedir um golpe de Estado. Por causa delas é que alguns estudantes acham "difícil" o português, isto é, a língua em que eles, com toda a facilidade, acabam de me fazer essa estranha confissão".

Luís Fernando Veríssimo
"As múmias conversam entre si em gramática pura".

Gil Dumont Vêneto
Do signo, Do significante e do significado, livre-nos, professor! Da anáfora e da catáfora, Livre-nos, professor!

Da coordenação e da subordinação, da hipotaxe e da parataxe da desenvolvida e reduzida, da produzida e induzida. livre-nos, professor!


Celso Pedro Luft:
Com efeito "nenhuma língua falada do mundo, nunca jamais em tempo algum tomou conhecimento, não toma conhecimento, nem tomará conhecimento daquilo que a seu respeito legislaram ou legislarão os gramáticos e as gramáticas. Isto quer dizer que a autoridade ou o juiz dessas normas não é ninguém: ou são todos. Os gramáticos que descrevam os usos do povo, que é soberano.


Gladstone Chaves de Melo:

A "gramatiquice", seus métodos, suas bases
"Ora, o que essa aberração que chamamos de "gramatiquice" faz é deduzir normas tiradas da Lógica ou, o que é pior, do gosto das implicâncias pessoais dos gramatiqueiros, dos puristas, dos buriladores de frases. Um tem antipatia pela forma "apiedo-me", a outro não lhe sabe bem a concordância "um dos que mais trabalhou", a tal outro lhe repugna a regência "amor por". E dá-lhes a condenar isto e aquilo, como galicismo, como barbarismo e sei lá que mais.

O resultado de tudo é que o fundamento da gramática fica sendo o capricho pessoal, a opinião, qualquer coisa de essencialmente múltiplo e variável. E então vêm as querelas, vem o "Fulano acha", "Beltrano prefere", "Sincrano condena". Vem o argumento de autoridade, vêm as inúteis citações de vernaculistas de má morte, vêm os severos preceitos vazados na pior das linguagens, a linguagem toda impregnada do intolerável "ranço gramatical".


Spencer:
"... o estupidíssimo hábito de ensinar gramática às crianças".

Robert Hall:
"Leave your language alone!"

     Eis então que a veneranda é também polêmica. E incompreendida. Cortejada e quase esquartejada. Respeitada e vituperada. Mas sobrevive incólume, quase imaculada, soberana ainda, em volumosas brochuras com nomes de marketing moderna, nova novíssima, contemporânea, essencial, prática. É verdade também que às vezes se apresenta com modelitos mais modestos: resumida, simplificada, tipo-assim-um-pretinho-básico. (É conhecido o caso em que ela se apresenta até de biquíni: tese para assunto).

     Mas, afinal, de onde vem essa sanha difamatória, esse espírito iconoclasta, essa ânsia de pichação contra essa criatura moldada há muitas épocas, ao longo de 2.400 anos?

     Alguém poderia dizer que vem da própria gramática, pois nada inspira tanto ódio à gramática do que uma gramática...

     Podemos dizer, porém, na verdade, que o tom das críticas subiu, se fez mais ouvir a partir do começo do século XX, com o Estruturalismo, que inicia uma nova etapa dos estudos lingüísticos, dos estudos gramaticais.

     É natural que uma nova corrente lingüística principie fazendo uma crítica ao "status quo" ... ao estado das reflexões, das análises lingüísticas imperantes na época. O estruturalismo é uma reação aos estudos tradicionais, à Gramática Tradicional. Assim como foi a Gramática Textual à gramática da frase. Assim tem-se a impressão de que os lingüistas são incapazes de exporem suas novas teorias sem fazerem a análise, a crítica da corrente que os antecedeu.

     Foi assim com o Estruturalismo: era preciso, primeiramente, malhar a veneranda Senhora... essa aura de dogma que a envolve/envolvia... pôr em evidência que a abordagem tradicional é/era inadequada para descrever, explicar a complexidade da fala, da linguagem. Começa-se, pois, desconstruindo, para construir.

     Era preciso, com inspiração em Zola (digamos assim...) fazer um"j'acuse": eu acuso a Gramática a Tradicional de ... eu acuso a GT de ... eu acuso a GT de...

     1. Todos os estudos tradicionais disseram muito pouco acerca da estrutura, do funcionamento da linguagem, e do papel que desempenha na vida de todos nós. (Veja-se o aporte de conhecimentos trazidos pelos novos enfoques sobre a linguagem: o Estruturalismo, o Gerativismo, a Sociolingüística, a Pragmática, a Gramática Textual, a Análise do Discurso...).

     2. Os estudiosos, os gramáticos que construíram esse monumento gt (eu disse monumento?) não tinham interesse intrínseco, imanente em relação à língua. O que movia os estudiosos era o estudo da língua em função da religião, da lógica, da filosofia, da retórica, da análise literária (Veja-se Panini, Platão, Aristóteles, etc).

     3. O que levava os estudiosos a se dedicarem à análise da língua era a preocupação com o ensino: a gramática era definida (ainda é...) como "ars bene dicendi et scribedi".

     4. O estudo imanente da língua só começou com o Estruturalismo.

     5. O aspecto mais marcante dos estudos tradicionais é a eleição, a preocupação com uma única variedade lingüística — a escrita, a formal, a erudita, a literária, a "melhor", a "única" ... com a conseqüente exclusão das demais variedades ... inclusive das demais línguas, que não fosse (no início dos estudos gramaticais) o latim e o grego. Os gregos, por exemplo, por exemplo, chamavam de bárbaros os povos que não falavam grego. No séc. XVI, quando o latim estava no apogeu, o inglês foi considerado "pobre", "rude", "bárbaro" ... e o espanhol e o francês: decadentes.

     6. A língua utilizada na melhor da literatura foi, portanto, tomada como padrão, um imperativo para a expressão lingüística — oral e escrita — padrõa que tinha que ser preservado da decadência!

     7. Vem daí que nossas gramáticas "modernas" continuam a tradição iniciada pelos gregos e passada para os romanos: elas têm como foco exclusivo a linguagem literária, a linguagem dos "bons escritores".

     8. Vem daí que nossa língua portuguesa se identifica/foi identificada apenas com a modalidade culta, formal, literária. O resto não presta; o resto: não é português.

     9. Vem daí a concepção purista da língua, atitude que procura (a ferro e fogo) preservar analterada a língua "padrão", porque toda alteração é decadência.

     10. Vem daí a idéia falaciosa da decadência lingüística, do empobrecimento da linguagem, de línguas bonitas e feias, expressivas e pouca expressivas, da redução da linguagem de Camões a uma falação de brutos (quando sabemos que as línguas apenas mudam... nem para melhor/nem para pior).

     11. Vem daí o preconceito lingüístico em relação à linguagem popular, à linguagem dos jovens, à linguagem dos nordestinos, à linguagem dos descendentes de alemães, de italianos, de japoneses... vem daí toda a sorte de preconceitos...

     12. Vem daí o irrealismo lingüístico: a língua literária também evolui através dos tempos, mas os "gramáticos", alheios à vida, à evolução, à realidade dos fatos, aos usos, aos costumes tentam manter (a todo custo), a língua em conserva.

     13. Vem daí a expressão "gramático de poltrona".

     14. Vem daí a prescrição arbitrária, a priori ... sem a observação dos usos.

     15. Vem daí a obsessão pelo erro. Na concepção tradicional, a língua não é um meio de comunicação, de interação, de ação... mas um conjunto de coisas certas e erradas.

     16. Vem daí a noção de que todos nós falamos errado (porque não conseguimos as normas preconizadas por esses manuais).

     17. Vem daí a idéia (batida) de que ninguém sabe português e a idéia (também batida) de que o português é uma língua muito difícil.

     18. Vem daí a tendência de aplicarmos o raciocínio lógico na explicação dos fatos lingüísticos (pois os gregos se preocupavam com as leis do pensamento subjacente às formas língüísticas). Exemplo típico é a lógica que os corretores empregam para corrigir a expressão "meio-dia e meio": tal expressão significaria "meio-dia" + "meio-dia" = 18 horas...

     19. Vem daí o estabelecimento das classes de palavras (Platão distinguiu o verbo e o substantivo; Aristóteles, a conjunção; os estócos, os artigos; Dionísio de Trácia, o advérbio, a preposição e o pronome).

     20. Vem daí a definição das classes de palavras, com alternância de critérios morfológico, sintático e semântico — portanto, processo acientífico de definir. "Verbo", por exemplo, é definido na perspectiva semântica: palavra que denota ação ("Paulada", seria verbo?). Além de não se palicar a todos os casos e de levar a confusão, a definição nada diz de sua função na frase e de suas reflexões.

     É disso e de outras falácias, é dessas "aberrações", "horrores" que acusam a veneranda Senhora. Os lingüistas principalmente. Sempre os lingüistas.

     Mas será que vêm daí todos os males?

     Vamos por partes, e já concluindo.

     Fique claro que a Gramática Tradicional não é um livro: é um conjunto de características que se fazem mais presentes ou menos presentes em livros-gramáticas. Gramática Tradicional é uma visão de língua, que herdamos dos gregos, que recebemos dos romanos, que passou pela Idade Média, que atravessou a Renascença, que chegou ao século XIX, que chegou ao século XX, que...

     Talvez fosse melhor falar assim: de acordo com o enfoque tradicional... de acordo com a tradição dos estudos gramaticais... tal, ponto de vista reflete uma concepção própria, decorrente da GT ... e por aí afora... e não "de acordo com a G.T".

     Fique também claro que a GT não é sinônimo de gramática normativa, embora tenha preocupações normativas. Na verdade, os estudos tradicionais contêm aspectos normativos e descritivos.

     E agora, retomando a pergunta: será que vem daí todos os males?

     Há entre os lingüistas pessoas de bom senso, gente que pára, olha, escuta e exclama: modus in rebus: devar com as coisas. E pondera:

     1. que os estudos tradicionais devem ser vistos dentro de seu contexto histórico: a Grécia Antiga, Antiga Roma, a Idade Média ...

     2. que é fácil fazer uma crítica restropectiva com todo o aparato, com todo o conhecimento gerado pelos novos enfoques, pelas novas conquistas, com os olhos do presente.

     3. que não se deve julgar o passado com os olhos do presente.

     4. que a ciência é uma escada em que cada degrau é indispensável para sustentar o que lhe está sobreposto.

     5. e, que, por isso, a Língüística Moderna é tributária, devedora das conquistas, dos estudos tradicionais sobre linguagem.

     6. e que, por isso, não houvesse os estudos tradicionais, não haveria um Saussure ... um Chomsky.

     7. e que deve ser criticado o endeusamento que se faz, hoje, no século XXI, da Gramática Tradicional, e não propriamente seus estudos...