Participando da conversa:
Construindo competências argumentativas na fala e na escrita

     Roque Moraes



     O presente texto pretende discutir o processo de construção de novos argumentos a partir do educar pela pesquisa. O argumentar como parte do exercício do uso da pesquisa na sala de aula consiste em um sujeito assumir a própria voz no discurso sempre já autorizado a partir de um pré-compreender em que o viver coloca todos os sujeitos, mas desafiado a uma procura de rigor cada vez mais fundamentado nos argumentos expressos, tanto pela fala como pela escrita.

     No processo de conhecer, compreender e interpretar todo ser humano já tem um lugar na conversação. Nos manifestamos dentro de uma construção social coletiva em que nossos argumentos e enunciados nunca são apenas nossos. Nos apropriamos de construções lingüísticas produzidas por outros, adequando-as às nossas necessidades e transformando-as em algum sentido. Nesse envolvimento em conversas coletivas é importante ser competente no uso da linguagem, característica do cidadão participativo e responsável.

     A construção desta competência implica em assumir-se autor na expressão dos próprios argumentos, compreendendo o argumentar como um processo de reconstrução coletiva de significados em que cada sujeito tem seu papel a desempenhar. Mesmo que numa polifonia de vozes o sujeito nunca constitua autor isolado, é importante saber qualificar cada vez mais os argumentos que produz.

     Uma das características de uma boa argumentação é ter algo a dizer. Ainda que nossos argumentos possam ser apresentados em uma diversidade de formas, todos eles necessitam serem entendidos mais do que a comunicação apenas de algo já perfeitamente compreendido e aceito. O argumentar é parte de um processo de assumir-se sujeito que aprende e de envolver-se em transformações das realidades, projetando nisto também o seu futuro, tanto individual como social. É nisto que se fundamenta a qualidade política do argumentar.

     São estes os principais argumentos que serão apresentados e defendidos nas três partes que compõem o presente texto.


1. Todos temos lugar na conversação

     Nesta primeira parte procura-se defender a idéia de que no mundo da linguagem, um mundo social em permanente reconstrução, todo ser humano tem um lugar nas conversações. Em cada enunciado que alguém constrói se expressa uma polifonia de diferentes vozes, sujeitos históricos que ajudaram a construir os discursos sociais e culturais que perpassam os enunciados elaborados. Mesmo reconhecendo esta multiplicidade de sujeitos que participam de cada argumento produzido, é importante que cada sujeito saiba expressar-se com competência e qualidade. Com isto vai conquistando seu lugar nas conversações, inicialmente pela fala, mas também pela escrita.


1.1- O conhecer como uma construção social

     Participar de conversações nos discursos sociais é modo de o ser humano se assumir humano. A partir dessas interações na linguagem nos apropriamos de significados e participamos em sua reconstrução. O conhecer e o aprender são processos sociais de construção e de reconstrução de significados. Ter competência para participar de discursos cada vez mais sofisticadas é parte do processo de assumir-se sujeito.

     Ao longo do presente trabalho assume-se uma abordagem de construção de conhecimento de natureza social, histórica e cultural. Nesta perspectiva entende-se que o conhecimento é produto da participação com os outros na construção de significados compartilhados. Neste sentido o conhecer e o aprender não são atos de pessoas isoladas, mas distribuem-se entre os participantes; dão-se junto com os outros; constituem atividades de natureza social.

     Assumir uma abordagem sócio-cultural implica em aceitar que significados e conceitos não podem ser entendidos a partir do conhecimento das palavras apenas. Conceitos estão enraizados em linguagens sociais e precisam ser apropriados a partir dos discursos em que estão inseridos. Isso exige uma impregnação aprofundada com esses discursos antes que se possam utilizar tais conceitos de forma apropriada e segura. Mais do que conjuntos de conceitos, essas construções sociais, seguidamente, se organizam em narrativas.

     Na perspectiva sócio-cultural o significado é público e comum em vez de privado e individual. Não há significados de um único sujeito. Quem aceita isto assume que os sujeitos humanos constroem significados a partir de sua participação no sistema simbólico da cultura. É a partir disto que os significados também são reconstruídos. Nas palavras de Bruner(1990, p. 33) "o modo de ser de nossas vidas, o movimento perpetuamente cambiante de nossas auto-biografias que produzem nossas mentes - somente são compreensíveis a nós mesmos e aos outros a partir desses sistemas culturais de interpretação". Na visão desse mesmo autor a vida humana é semelhante a uma peça teatral com script aberto, em que na própria peça se determina o direcionamento que esta vai tomar em etapas posteriores.

     Quando aceitamos as idéias sócio-culturais, conhecer, pensar e aprender constituem-se a partir de relações entre pessoas, envolvidas em atividades que emergem de um mundo estruturado social e culturalmente por meio da linguagem. É no intercâmbio com nossa cultura e com nosso ambiente social que aprendemos e damos significado ao mundo. Também aprendemos a argumentar e sustentar nossos pontos de vista a partir das interações com os outros. O que conseguimos propor e falar relaciona-se com nossas interações sociais e culturais anteriores. Tudo é reconstruído a partir de algo anteriormente elaborado.

     Quando nos manifestamos, quando produzimos novos argumentos, estamos aprendendo com os outros e, ao mesmo tempo, ensinando a eles. No mesmo movimento também participamos da transformação das realidades em que estamos inseridos.

     Numa perspectiva sócio-cultural o conhecer e o aprender não se dão na cabeça das pessoas, mas na interação entre sujeitos. O conhecer e o aprender são processos de co-participação. Conforme Wells(2001), o conhecimento não se encontra nem nos textos, nem na cabeça das pessoas. Não existe o "objeto conhecimento". Ele se constitui e emerge apenas na interação e diálogo entre sujeitos na linguagem.

     O conhecer solicita uma relação estreita de interdependência entre o agente da aprendizagem e o mundo. Atividade, significado, cognição, aprendizagem e conhecer constituem elementos básicos de teorias de prática social e cultural. Uma aprendizagem entendida nesta perspectiva exige uma estreita relação entre quem aprende e a realidade que o envolve, relação esta mediada pela linguagem.

     Aceitar isto é compreender que os significados e as aprendizagens são definidos em relação a contextos de ação, não de estruturas fixas. Os sujeitos aprendem pelo aumento das suas competências argumentativas e de participação nos discursos sociais, não pela aquisição de conhecimentos estruturados dentro dos sujeitos.

     Quando se compreende que as aprendizagens se dão em contextos de participação na linguagem, entende-se também que elas são mediadas pelas diferenças de entendimentos dos que interagem entre si. Aprende-se a partir das diferenças entre os sujeitos que participam das conversas. Isso implica em que as aprendizagens se dão essencialmente com os outros. Pela interação com colegas e com o professor, pelo foco em perguntas derivadas da realidade dos alunos, estes vão se apropriando das situações em que vivem sabendo lidar com elas pela sua linguagem. Aprender é ampliar modos de participar de forma ativa das conversações do grupo social em que se está inserido. Neste sentido a mediação passa a ter um significado central.

     Com base em Lave e Wenger(1999), pode-se resignificar o aprender, entendendo-o como um acesso ampliado dos aprendizes na participação de funções e desempenhos de especialistas, daqueles que dominam de modo mais aprofundado determinado campo de atividades. Isso não exige a idéia de representação, nem solicita a construção de estruturas objetivas de conhecimento no interior dos sujeitos. É processo essencialmente de participação na linguagem. Vai se adquirindo competências argumentativas ao passar de uma situação periférica de domínio dos discursos especializados para uma situação mais central. Esse tipo de apropriação dos discursos sociais implica em aumento da capacidade de argumentar e de saber defender as próprias idéias, assim como de colocá-las em prática.

     Conhecimento de nível elevado é discurso apropriado a partir do intercâmbio com comunidades de especialistas. A aquisição deste tipo de conhecimento se dá a partir de uma participação cada vez mais intensa nesses discursos e nas práticas que lhes correspondem. Por isso afirmamos com as autoras citadas que aprender e conhecer representam modos de tornar-se capaz de participar ativamente em discursos de especialistas, apropriando-se desses discursos e sabendo utilizá-los na interação com os outros.

     Conhecer e aprender são processos de interação social pela linguagem em que os sujeitos se capacitam cada vez mais a participarem ativamente dos discursos e realidades em que se inserem. Nesse mesmo processo vão se assumindo cada vez mais sujeitos nas relações que estabelecem.


1.2- Na polifonia de vozes a voz do sujeito

     Mesmo que seja importante compreender a característica coletiva das construções de significados, também é importante salientar o papel do sujeito nessas construções. Mesmo consciente de que nenhum enunciado expressa apenas as convicções e idéias do seu autor, é importante que se valorize a participação ativa dos sujeitos que se manifestam e argumentam na construção social da realidade.

     Quando um sujeito argumenta está assumindo sua própria voz nos discursos em que está inserido. Argumentos são manifestações de um sujeito histórico que se assume nos discursos dentro dos quais já nasce e se desenvolve. Como todos, a partir dessa sua origem humana, têm acesso a uma pré-compreensão do mundo, todos conseguem participar de processos argumentativos, sempre elaborados a partir desses pré-entendimentos. Todos têm capacidade e direito de participar das conversas e discursos sociais.

     Dominamos os discursos sociais nos quais estamos imersos de forma implícita, mas na medida em que tomamos consciência deles e participamos de sua reconstrução e transformação, nos apropriamos efetivamente deles. O domínio é implícito; a apropriação é consciente(WERTSCH, 2002).

     Se compreendermos os discursos sociais como construções coletivas, compreenderemos que os argumentos carregam uma polifonia de vozes representando uma diversidade de sujeitos históricos que anteriormente construíram enunciados em torno do mesmo tema. Nenhum argumento é de um autor apenas, mesmo que cada enunciação possa ter seu caráter de originalidade. Nas diferentes vozes que acompanham nossos argumentos está uma construção histórica coletiva em torno dos temas que tratamos. Cada autor ao produzir um novo argumento registra sua contribuição no sentido de superação dos argumentos anteriores. Ainda que se devam valorizar a autoria e a autonomia dos sujeitos, também precisamos estar conscientes de que nossos enunciados estão sempre presos a discursos sociais já constituídos, os quais carregam as vozes de uma diversidade de autores. Nossa pré-compreensão já é dada a partir das culturas e contextos em que estamos inseridos. Somente de dentro dela que nos conseguimos manifestar.

     Nossos argumentos precisam sustentar-se na interdiscursividade. Na medida em que nossos discursos se superpõem com os de outros sujeitos, é importante saber utilizar os argumentos dos outros para sustentar os nossos. Quando isto é feito a partir de leituras de teóricos e especialistas dos temas que tratamos, denominados estes intercâmbios de interlocuções teóricas.

     Além disso, na construção de novos significados é interessante envolver-se com amostras do discurso em diferentes níveis, iniciando no doméstico e no senso comum, passando por discursos da media, para finalmente chegar a pesquisas e teorias do discurso científico. Também, ao desafiarmos nossos alunos a excursionar em terrenos de novos discursos, é interessante que o façamos promovendo uma aproximação de uma diversidade de direções, promovendo uma triangulação de uma variedade de perspectivas no mapeamento de novos significados. A apropriação de discursos pode ser favorecida quando os aprendizes forem envolvidos com espaços discursivos em que uma variedade de diferentes vozes possa se expressar.

     Nesse sentido uma boa argumentação necessita estar aberta para o entendimento e aceitação da compreensão e dos argumentos dos outros. Na confrontação com as idéias dos outros é que é possibilitado o enriquecimento da compreensão de todos os envolvidos. Ao entender-se e aceitar-se isto, também se admitirá que toda a compreensão tende a superar-se com o tempo. Antigas teses e argumentos darão lugar a novos modos de entendimento, ampliando-se no mesmo movimento os horizontes de pré-compreensão.

     Mesmo respeitando e valorizando as idéias dos outros, argumentar é assumir-se autor, assumir e manifestar suas próprias idéias e ser capaz de defendê-las. Ainda que tendo clareza de que nenhum argumento é inteiramente original, de que não somos autores isolados de nossas idéias, mas de que elas se inserem em discursos sociais a partir dos quais nós falamos, também devemos reconhecer o autor que cada falante representa.

     Nunca somos inteiramente autores daquilo que dizemos. Nos apropriamos de sentidos que outros já expressaram, adaptando-os às nossas próprias intenções de expressar algo novo, eventualmente introduzindo algo original no que produzimos.


1.3- Argumentar como construir competências no uso da linguagem

     Saber argumentar é ter competência de movimentar-se na linguagem, produzindo enunciados com boa fundamentação. A qualificação dos argumentos se dá pela crítica, processo que também pode aproximá-los dos conhecimentos científicos. Também nesse processo a linguagem desempenha papel essencial.

     Nos constituímos como seres humanos dentro da linguagem e por isso não podemos sair dela para examinar a realidade. Compreendemos o mundo pela linguagem e todo nosso compreender tem fundamento lingüístico.

     Hermenêutica é outra palavra para linguagem, significando declarar, esclarecer, traduzir, anunciar e interpretar. Hermes o mensageiro dos deuses, com suas sandálias aladas, traz ao homem a fala e a escrita, produzindo todo interpretar. Compreende-se pela linguagem e amplia-se a compreensão pela linguagem. O domínio da linguagem é o próprio aprender do sujeito.

     Assumindo-se a relação estreita entre conhecer e domínio da linguagem, entende-se que melhorar a competência argumentativa é assumir posições cada vez mais centrais na reconstrução dos discursivos que constituem nossas realidades. Nesse movimento, de uma posição periférica e de repetir as falas dos outros, vamos assumindo cada vez mais posições centrais de participação nos discursos. Nos apropriamos dos discursos. Essa apropriação constitui um exercício de construção de competências no uso de linguagens especializadas de determinados grupos sociais. Implica na ampliação de capacidades de participação na expressão de um conjunto de verdades coletivamente aceitas, associando-se ainda à capacidade de participar na sua transformação.

     Segundo Maturana(1997), criamos nosso mundo junto com os outros pela linguagem, eliminando-se a partir disso toda a certeza de existência de um mundo objetivo. Nas palavras do referido autor: "Pela linguagem emerge a experiência do mental e a consciência humana como expressão do centro mais íntimo do homem; ao situá-lo no plano da coordenação das interações recorrentes junto a outros, despoja-se o indivíduo de toda certeza absoluta do pessoal e se o convida para situar-se em uma perspectiva mais ampla: a criação de um mundo junto com os outros" (p. xviii).

     Numa perspectiva sócio-cultural os indivíduos, ao se educarem, mais do que adquirirem conjuntos de conhecimentos a serem aplicados, constroem habilidades para se movimentarem em processos discursivos e de prática. Construir competências argumentativas no uso da linguagem é ir de uma argumentação baseada numa pré-compreensão tácita e insegura, para uma argumentação mais sólida e rigorosa. A construção dessas competências precisa dar-se tendo como ponto de partida a linguagem do senso comum. Entretanto, é importante que avance no sentido de superar esse tipo de visão.

     Um argumentar rigoroso implica em uma compreensão ou explicação que avança para além do entendimento cotidiano. Um dos modos de construir este rigor é pela ancoragem de nossos argumentos em teorias científicas referentes aos fenômenos a que nossos argumentos se referem. Mas não é propriamente o conteúdo que torna nossos argumentos científicos. Com Demo(1997) afirmamos que um argumento se torna científico quando está aberto à crítica. O que não pode ser criticado não pode ser científico. Isso traz para primeiro plano a importância da escrita.

     A combinação da fala com a escrita na produção de argumentos é modo de qualificá-los, possibilitando, ao mesmo tempo, aproveitar a proximidade dos sujeitos falantes e seu afastamento no momento da escrita. Entretanto é na escrita que efetivamente se concretiza a possibilidade da crítica.

     As críticas são modos de qualificar os argumentos. Saber ouvir e utilizar as críticas para reconstruir e aperfeiçoar os próprios argumentos é parte do construir uma competência argumentativa apurada. Constitui uma atitude científica importante saber fazer e receber críticas. Nisso se compreende que a crítica de um argumento não atinge o autor, mas a idéia. Nessa perspectiva as críticas necessitam cultivar o respeito e consideração aos argumentos dos outros.

     Uma das características de um sujeito com competência argumentativa apurada é saber utilizar as críticas de outros sujeitos como modo de qualificar os próprios argumentos. As críticas, a partir da negatividade que lhes é inerente, possibilitam perceber os limites e deficiências dos argumentos, constituindo-se neste movimento a possibilidade de sua qualificação. Nesse processo, ainda que seja importante saber receber críticas, também é importante saber contra-argumentar, defendendo as próprias idéias.

     Em síntese, nesta primeira parte do texto procuramos mostrar como a argumentação se insere numa reconstrução coletiva de significados. Mesmo que um determinado sujeito se manifeste e argumente, seus enunciados sempre vêm acompanhados de uma multiplicidade de vozes, sujeitos históricos que ajudaram a construir os argumentos agora expressos. Uma argumentação competente, mais do que pretender expressar uma voz original de um autor, implica saber participar de conversações sociais em que os argumentos expressos se integrem numa rede de sentidos construída coletivamente. A aceitação dos argumentos pelos coletivos em que os autores se inserem é que caracteriza a competência argumentativa destes.


2. Vivendo em conversas

     Nesta parte do texto procuramos mostrar que como seres humanos nascemos em contextos de conversação capazes de nos possibilitarem uma pré-compreensão dos fenômenos com que nos defrontamos. As conversas em que estamos imersos podem ir se qualificando e sofisticando com o tempo. Nossos modos de argumentar e os enunciados que conseguimos produzir podem qualificar-se por diálogos com grupos de sujeitos especializados em determinados discursos, tais como os discursos da ciência. A partir disso podemos ir reconstruindo significados na linguagem, tornando-os cada vez mais complexos, aprofundados e abstratos. Os novos argumentos, ao inserirem-se em novos grupos de conversação, precisam validar-se dentro desses grupos a partir de uma crítica por uma diversidade de interlocutores. Também na validação dos novos argumentos é importante ancorá-los em interlocutores teóricos e empíricos, inserindo-os de modo cada vez mais efetivo na conversa corrente, ou seja, nos discursos sociais dos quais pretendem ser parte. Ter os argumentos aceitos por grupos sociais determinados é condição para que os sujeitos históricos possam exercer nesses grupos seu papel de transformação.


2.1- Construindo significados na linguagem

     Como seres humanos construímos nossos mundos por meio da linguagem. Pelo fato de estarmos no mundo já vivemos numa pré-compreensão, base de todas as elaborações posteriores do explicar e compreender. Nossos argumentos correspondem a reconstruções que produzimos a partir de nosso pré-compreender original, estruturando-as em forma de explicações e interpretações. Compreendemos pela cooperação de todas as forças sentimentais da apreensão, pelo mergulhar das forças sentimentais no objeto. A compreensão se baseia na vivência e a pressupõe e, a partir da vivência se reconstrói constantemente.

      Tendo em vista esse processo pelo qual compreendemos, estreitamente ligado ao cotidiano e ao senso comum, segundo Freire e Faundez(1985, p. 63) "não se deve partir do conceito para entender a realidade, mas sim partir da realidade para, através do conceito, compreender a realidade", processo esse nem sempre direto e simples. De acordo com Tassel (2001, p. 53) "o processo de produção de significado não é sempre imediato e evidente. Envolve muito vagar em torno com idéias, catar palavras e procurar clareza. Nisso se percebe o valor das conversações".

     Segundo Maturana(1997), quando um organismo opera em seu meio ele está conhecendo. Todo fazer e operar correspondem a conhecer. A partir disso podemos afirmar que novos conhecimentos são sempre reestruturações de conhecimentos anteriores. A produção de novos conhecimentos pode ser entendida como resultado de processos autopoiéticos.

     Segundo o mesmo autor, "o que fazemos em nosso linguajar tem conseqüências em nossa dinâmica corporal e o que se passa em nossa dinâmica corporal tem conseqüências em nosso linguajar"(MATURANA, 1997, p.21). Todo conhecer, entendido como uma operação emergente de autopoiese, opera como algo inteiramente determinado desde seu interior, mediante suas próprias estruturas. O que determina o conhecer não são objetos e sistemas externos ao sujeito, mas a estrutura interior do organismo. O mesmo autor ainda afirma que "o que na vida cotidiana distinguimos como raciocinar é a proposição de argumentos que construímos ao concatenar as palavras e noções que compõem esses argumentos segundo seus significados entendidos como modos operacionais do domínio particular de coordenações conductuais consensuais a que pertencem" (1997, p.22).

     Aceitar isto é admitir que um bom argumento precisa ser produzido num mundo de relações lingüísticas. Para argumentar com competência é preciso respeitar a lógica do raciocínio dos grupos dos quais fazemos parte. Ainda que todo argumento construído por um sujeito seja um modo de este se manifestar no discurso, uma argumentação terá poder quando se inserir nas premissas assumidas pelo grupo em que o autor está inserido.

     O que acaba de ser colocado enfatiza a importância da linguagem. Tudo que conhecemos, o conhecemos na linguagem; tudo que experimentamos o experimentamos ao distinguir nossa experiência na linguagem. Nas palavras de Maturana, "os objetos, a consciência, a auto-reflexão, o ser, a natureza, a realidade, tudo o que como seres humanos fazemos e somos se concretiza na linguagem porque utilizamos a linguagem para gerá-los, não como mera abstração ou discurso, mas tão concretos como qualquer operação no fluxo das coordenações consensuais de ações nas quais surgimos e existimos" (1997, p.96).

     Como seres humanos existimos na linguagem e todas as nossas vivências e experiências se dão na linguagem. Por meio da linguagem construímos consensos com outros sujeitos, possibilitando-nos o viver coletivo e social. Não podemos existir fora da linguagem. Ela é que nos possibilita produzir os objetos e a realidade. Para o sujeito humano não tem sentido pensar uma realidade que não seja aquela construída por ele próprio na linguagem. Assim, as manifestações dos sujeitos na linguagem se transformam nos modos de entendimento da realidade e da experiência dos seres humanos. Assim, participamos da criação de nosso mundo quando nos manifestamos pela linguagem.

     A partir disso podemos afirmar que nossas experiências adquirem sentido quando conseguimos explicá-las e quanto mais conseguimos construir sentidos mais nos tornamos sujeitos históricos participantes nas realidades em que estamos inseridos. Não existe aí fora um mundo pronto para ser experienciado. O mundo se constitui a partir de um conjunto de explicações dos seres humanos sobre os acontecimentos de suas vidas. Pode-se entender o mundo como o produto de um processo de procurar respostas a questionamentos que o ser humano se faz em relação às suas experiências de vida.

     Como seres humanos somos multidimensionais, verdadeiros nós corporais em um entrecruzamento dinâmico de uma rede de discursos e emoções. Vivemos e nos constituímos num fluxo contínuo de conversações em permanente mudança. Tudo que vivenciamos, tudo que conseguimos observar ocorre dentro de nosso sistema de linguagem. Fora dele não tem sentido falar de um mundo. O mundo humano se constrói na linguagem. Quando produzimos novas explicações estamos ampliando o domínio de experiência dos sujeitos envolvidos no mundo. Novas perguntas originam constantemente novas explicações e assim o perguntar possibilita ampliar o mundo da compreensão.

     Do pré-compreender podem ser elaborados muitos outros níveis de conhecer e compreender. O pré-compreender do senso comum não pretende explicar nem interpretar, mas a pretensão ao científico exige explicações e interpretações cada vez mais elaboradas. O mais fundamental é a compreensão e a interpretação consiste na elaboração da compreensão. A interpretação sempre se ancora numa pré-compreensão que todos já temos mas que pode ser também ela sempre ampliada.


2.2- Qualificando o pré-compreender: do senso comum ao conhecimento científico

     Uma argumentação qualificada solicita que o sujeito que argumenta se assuma autor nas conversas em que se envolve. Mesmo que isso possa dar-se tendo como ponto de partida o conhecimento cotidiano, ela precisa ser qualificada, sendo um dos modos de fazê-lo a partir de inserção dos argumentos no explicar e no compreender científicos. Pela ciência os argumentos do senso-comum podem ser complexificados e qualificados, ainda que este não seja o único caminho.

     Como participantes de um grupo social já nos constituímos numa conversa característica de nosso grupo cultural. Todo compreender mais elaborado se baseia nesse compreender primeiro, adquirido por meio dessa conversa. Tanto a explicação científica como o compreender filosófico se fundamentam em última análise nessa pré-compreensão que construímos juntamente com o nosso envolvimento na linguagem.

     Toda nova compreensão se encaminha a partir de um horizonte histórico de entendimento dado pelo próprio ser da existência. Toda interpretação, para produzir compreensão, deve já ter compreendido o que se vai interpretar. Segundo Coreth(1973, p. 24), "toda compreensão se consuma na linguagem e nela se constitui o horizonte histórico da compreensão. Pelo fato de existir, o ser no mundo consegue projetar um mundo no qual se produz toda a sua compreensão. O simples fato de existir já implica uma compreensão primeira do mundo".

     Segundo o mesmo autor, o homem nasce e se constitui num conjunto de preconceitos ou pré-compreensões assumidos juntamente com a linguagem. A ciência e a filosofia pretendem a tomada de consciência em relação a estes preconceitos e a construção de uma linguagem mais rigorosa em torno deles. Entretanto, "a palavra, independentemente da medida em que alcança o pleno sentido da coisa, já permite um primeiro acesso da compreensão, preparando uma compreensão mais ampla e mais profunda"(CORETH, 1973, p.24).

     O compreender e o explicar científicos se fundam na pré-compreensão inconsciente e original que todo ser humano possui. Não podem fugir dela e novos níveis de compreensão necessitam partir dela. Por isso podemos afirmar que nosso existir no mundo se expressa em forma de esboços de compreensão, modos de entendimento ligados a nosso próprio viver. Segundo Grondin, (1999, p.4) "a compreensão ou o entender de algo significa menos um modo de conhecimento do que um auto-conhecer-se no mundo." A partir desse nosso próprio conhecer-nos é que fazemos nossas interpretações, entendidas como esclarecimentos explícitos das pré-estruturas do compreender histórica e culturalmente dadas.

     Desse modo, de nossa situação existencial emerge uma pré-compreensão que torna possíveis avanços sempre mais aprofundados no compreender. A compreensão primeira se apresenta muito estreitamente ligada ao viver, às situações concretas em que os sujeitos estão inseridos. O conhecimento científico propõe um movimento no sentido de um afastamento dessa realidade concreta, conduzindo a enunciados de natureza mais abstrata. É importante, entretanto, que se entenda que enunciados em forma de proposições, abstratas e universalizantes, tendem a nivelar diferenças existentes na pré-compreensão de sujeitos individuais. Nunca conseguem expressar todo o entendimento vivencial dos sujeitos.

     De algum modo, pois, uma compreensão mais elaborada tem sua base no conhecimento cotidiano. Entretanto, apoiar-se no senso comum não significa falta de rigor. O movimento do senso comum para um conhecimento científico implica em procura de rigor, um movimento do ingênuo para o rigoroso. É importante entender que o movimento do conhecimento no sentido de maior rigor e fundamentação precisa partir do conhecimento ingênuo do senso comum, assentando nele suas bases. Nas aprendizagens escolares os professores necessitam saber por os pés nas pegadas dos alunos, implicando em palavras de Freire e Faundez (1985, p.59) "assumir a ingenuidade do outro para com ele ultrapassá-la".

     É importante compreender, entretanto, que o senso comum é organizado em princípios narrativos, não conceptuais (WERTSCH, 2002). O senso comum é um sistema pelo qual as pessoas organizam suas experiências em conhecimento. Não está organizado como teorias, mas como narrativas, ainda que alguns autores falem em teorias implícitas (RODRIGO, RODRIGUEZ e MARRERO, 1993; MORAES, 2003). Por outro lado, mesmo que a ciência seja entendida em geral como teórica e conceitual, hoje, alguns pesquisadores, defendem também uma organização do conhecimento científico em modos narrativos.

     Tanto nossas compreensões como os entendimentos pré-compreensivos em que se baseiam constituem espaços que se ampliam constantemente. "Uma pré-compreensão que surge do horizonte de cada mundo concreto de compreensão é por essência, uma grandeza aberta, nunca fechada em si. Está sempre em formação, sofrendo no decurso de nossas experiências e opiniões uma contínua ampliação e aprofundamento, mas também uma complementação e retificação" (CORETH, 1973, p. 88).

     Pela produção de novos argumentos, por meio da fala e da escrita, amplia-se a compreensão e introduzem-se novos elementos no horizonte da pré-compreensão. Conforme Wells(2001, p.134), "na aprendizagem e no emprego da linguagem nos incorporamos e participamos no diálogo continuado de construção de significados das comunidades a que pertencemos". Esta ampliação é especialmente significativa quando nela se procura inserir argumentos derivados da ciência. Concretizar isto é ir de uma pré-compreensão para um entendimento mais elaborado, mais profundo. Pode representar um movimento que vai da linguagem cultural e cotidiana para incluir uma base científica. Toda a argumentação científica se elabora no sentido de ampliar a compreensão ou o nível de explicação de algo. Constitui um processo hermenêutico em que o autor se movimenta no sentido de esclarecer ou explicar algo cada vez com maior profundidade. O compreender e o interpretar sempre podem ser mais aprofundados. Sempre novos sentidos e explicações podem ser construídos.

     Nesses movimentos pode evidenciar-se que a ciência também não é homogênea em seus modos de chegar ao conhecimento. Historicamente, por exemplo, têm sido confrontados dentro da ciência o explicar e o compreender. Nenhum deles, entretanto pode prescindir da pré-compreensão que todo ser humano já domina.

     Segundo Coreth(1973, p.83) "a dualidade metodológica do explicar e compreender será precedida por uma compreensão mais original e mais ampla, da qual derivam aqueles dois modos de conhecer". Tanto o compreender, como o explicar e o interpretar se fundam em uma pré-compreensão e a base primeira de toda argumentação está na pré-compreensão que todo sujeito já traz de seu contexto histórico e cultural. A partir dela se constroem os argumentos mais elaborados e rigorosos. Interpretamos mundos já compreendidos, representando nossas interpretações e argumentos elaborações explícitas de algo que já foi compreendido em bases mais simples. À fragmentação do todo, procedimento utilizado para explicar melhor, contrapõe-se um esforço de compreender que se fundamenta no todo. Numa perspectiva hermenêutica examinam-se os fenômenos em seu todo, sem dividi-los em partes constituintes.

     No interrelacionamento de ciência e senso comum, Boaventura S. Santos(2002) propõe duas rupturas epistemológicas. A primeira rompe com o senso comum; a segunda, rompendo com a ciência, pretende retornar ao conhecimento cotidiano no sentido de qualificá-lo. A ciência faz questão de mostrar a ruptura que estabelece com o senso comum, defendendo que os conhecimentos científicos têm fundamento em outra epistemologia. Isso constituiria a primeira ruptura epistemológica. Entretanto, para que mais pessoas possam beneficiar-se dos novos conhecimentos assim construídos, necessita-se uma nova ruptura, um retorno ao senso comum. O conhecimento científico precisa ser integrado ao conhecimento cotidiano, constituindo isto a segunda ruptura. Todo conhecimento tem de algum modo uma base no senso comum, fundamento da pré-compreensão em que se baseia toda a compreensão científica. Entretanto, é importante ampliar a dimensão utópica e libertadora do senso comum por um diálogo com o conhecimento científico, integrando este conhecimento no saber cotidiano.

     Entendemos que é especialmente na escola e na sala de aula que pode consumar-se essa segunda ruptura epistemológica. O trabalho escolar não visa construir conhecimento científico, mas qualificar o conhecimento que os aprendizes já trazem para a escola. Assim, uma produção escrita e argumentada elaborada no contexto escolar precisa ancorar-se nas idéias do autor que a produziu, assumido-se ele como sujeito em sua facticidade, em sua própria perspectiva. Ainda que se espere que uma produção escolar supere idéias apenas do senso comum, bons textos necessitam estabelecer pontes com o cotidiano e o pré-compreender do senso comum. É isso que pode garantir o significado e sabor das novas aprendizagens.

     Assim, a construção de argumentos qualificados vai de um pré-compreender até um conhecimento mais elaborado e amplo. A epistemologia da ciência constitui um dos modos de construir uma qualidade mais elaborada dos argumentos. Ainda que a ciência e os cientistas pretendam construir novos conhecimentos rompendo com o senso comum, defendemos que na sala de aula deve possibilitar-se um movimento de qualificação dos conhecimentos dos alunos a partir de seu diálogo com o conhecimento científico. O aprender na sala de aula corresponde a um aperfeiçoamento do conhecimento cotidiano, não a construção de um conhecimento científico.


2.3- Lançando âncoras

     Argumentos válidos e fundamentados não apenas são elaborados a partir de uma multiplicidade de vozes do interdiscurso, mas também necessitam serem ancorados tanto empiricamente como a partir de teorias.

     Construir competências argumentativas é conseguir participar tanto no processo de aprender que envolve a construção de argumentos como de expressar adequadamente as compreensões e argumentos atingidos. Construir novos argumentos e expressá-los constituem dois movimentos interdependentes e inseparáveis. Uma boa argumentação exige envolver-se com ambos.

     Todo argumento se fundamenta num olhar teórico de seu autor em sua perspectiva do pré-compreender. Fundamentar os próprios argumentos é ao mesmo tempo reconstruir as próprias teorias e compreensões, solidificando os argumentos a partir das teorias reconstruídas. Isso geralmente implica em afastar-se de realidades situadas e contextuais para atingir modos de abstração e argumentos cada vez mais universais e descontextualizados. Isso é aproximar-se da ciência.

     Quando melhoramos nossa competência argumentativa também estamos aumentando nossa própria compreensão das teorias e discursos envolvidos nos argumentos. Nos apropriamos cada vez mais deles. Argumentar é modo de apropriação discursiva, de assumir-se sujeito histórico.

     A produção de significados em forma de proposições abstratas corresponde a um nível mais complexo de produção de significados. Exige um envolvimento anterior e intenso com significados contextualizados. "Significados no modo proposicional são removidos do contexto do mundo da experiência e dependem das regras de sistemas simbólicos, sintáticos e conceituais que utilizamos ao atingir significados descontextualizados" (NORTHEDGE, 2002, p.257).

      Ao passar do conhecimento do senso comum para a ciência estamos ao mesmo tempo nos movendo para o universal. Mesmo assim esta ciência do universal, que se manifesta de forma proposicional e conceitual, precisa manter suas âncoras na realidade e nos discursos sociais em que se insere.

     Um argumento como parte de um discurso social precisa ser sustentado por uma multiplicidade de vozes. As críticas de uma diversidade de interlocutores ajudam a dar consistência aos argumentos. Por isso argumentos precisam ser validados tanto teórica como empiricamente. Esta validação é também modo de construir seu caráter científico.

     As interlocuções empíricas são um dos modos de qualificar os argumentos. Referem-se a modos de fundamentar os enunciados que utilizam descrições próximas aos fenômenos examinados, à realidade concreta investigada. Constituem argumentos com grande proximidade contextual. Utilizar interlocuções empíricas é ancorar argumentos em dados da realidade, explorando conhecimentos do pré-compreender no sentido de uma tomada de consciência capaz de expressar uma compreensão mais elaborada e crítica.

     Ainda que se possa admitir como válidos argumentos obtidos da análise indutiva de dados empíricos, de natureza essencialmente descritiva, argumentos mais elaborados, com caráter científico, são proposicionais, obtidos por métodos dedutivos, representando enunciados abstratos e gerais. Esses argumentos amplos, uma vez produzidos dedutivamente, precisam de sustentação empírica, obtida pela indução. Assim pode-se afirmar que os argumentos nascem pela dedução e se sustentam pela indução.

     Bons argumentos, entretanto, podem ser sustentados mais do que por dados empíricos. Também se validam em teorias. Utilizar interlocuções teóricas é ancorar argumentos em teorias e idéias de outros autores, mostrando relações entre as compreensões desses outros sujeitos e as nossas próprias. Nisso se inserem as citações. Entretanto, é importante compreender que a citação não consiste num mero nomear outros sujeitos que apoiam as idéias que defendemos. Consiste, especialmente em sua forma mais elaborada, numa integração de vozes dentro dos mesmos discursos. Quando isto acontece o autor citado é proposto como co-autor dos textos produzidos.

     Deste modo procurou-se mostrar que argumentos se estruturam na linguagem e que a qualificação deles pode dar-se a partir do diálogo do senso comum com a ciência. A partir de modos narrativos e descritivos que caracterizam os discursos cotidianos, o argumentar mais qualificado tende para um afastamento dos contextos concretos em que se produz, apresentando-se em forma de proposições e conceituações abstratas. Entretanto, esse tipo de argumento, mesmo nascendo por dedução, necessita estabelecer âncoras com a realidade, ao mesmo tempo em que também se valida a partir de uma diversidade de interlocutores teóricos dos discursos nos quais se insere. Novos argumentos para se estabelecerem nos discursos necessitam ser fundamentados teórica e empiricamente.


3. Conversando para dizer algo

     Passa-se agora a explorar algumas idéias em torno da comunicação dos argumentos e do sentido de transformação da realidade que esta possibilita. De algum modo participar de uma conversa é expressar argumentos. Também aqui uma argumentação fundamentada e rigorosa pode beneficiar-se das formas em que a ciência constrói e expressa seus argumentos. Pretende-se mostrar alguns dos modos como argumentos podem ser apresentados, para finalmente argumentar no sentido de que uma produção escrita, compreendida como uma cadeia ou rede de argumentos, necessita ter algo próprio a dizer. Uma produção científica de qualidade precisa propor e defender teses. A qualidade do argumentar depende não só da boa organização dos argumentos, mas igualmente, de ter algo novo a dizer, algo que possa desafiar e solicitar a transformação dos discursos existentes. Nisso se caracteriza a qualidade política dos argumentos, sua capacidade de intervir nas realidades e de transformá-las.


3.1- Conversando e transformando a realidade

     Todo argumento, na medida em que tem por trás de si um sujeito autor, não constitui apenas expressão de uma compreensão atingida, mas representa um modo de intervir no mundo e de transformá-lo. Produzir novos argumentos representa um processo natural de participação na construção da realidade.

     O entendimento de um mundo construído a partir da linguagem, perspectiva defendida por autores como Maturana(1997) e Varela(2000), em que novas compreensões se estruturam a partir de compreensões anteriormente elaboradas, se aproxima do que hoje defende a hermenêutica. O termo hermenêutica hoje se refere à reconstrução de significados a partir de uma base de pré-compreensão. As discussões hermenêuticas mostram como o conhecimento depende de estar-se num mundo que é inseparável de nossos corpos, nossa linguagem e de nossa história social. A mesma idéia é expressa por Varela, Thompson e Rosch quando argumentam que produzimos significados que têm origem em uma base de compreensão derivada do fato de estamos no mundo, de nossa corporeidade. Segundo esses autores, "conhecimento é o resultado de uma interpretação em processo que emerge de nossas capacidades de compreender"(2000, p.149). Temos um mundo a partir de nossas capacidades de compreender que se atualizam constantemente, resultando disso o nosso conhecimento.

     Ainda, segundo Maturana(1997, p.52), "viver na linguagem e, portanto, por meio de seus entrelaçamentos com as emoções, viver em conversações, é viver no domínio operacional relacional que está aberto a um contínuo incremento de complexidade porque o que acontece nele se transforma 'ipso facto' em uma parte do domínio de interações do ser humano, e, portanto, parte do domínio de realização da forma de vida humana."

     Conversações são modos de se entrelaçar cognitiva e emocionalmente com os outros por meio da linguagem. É por meio dela que os seres humanos se realizam como humanos, solidificando assim suas relações tanto cognitivas como emocionais.

     Ao longo de nossas vidas a linguagem como domínio relacional operacional está constantemente se ampliando e se tornando mais complexa. Sempre que produzimos novas relações lingüísticas, sempre que participamos de processos argumentativos e de construção de novos sentidos, estamos ampliando nossos mundos. "As palavras, como marcas do fluxo de coexistência na linguagem, são nós em uma dinâmica recursiva de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações e denotam distinções de formas de relações na vida" (MATURANA, 1997, p.53).

     Assim entendemos que o argumentar está muito diretamente relacionado aos processos de desenvolvimento da linguagem e de reconstrução de nossos mundos por meio dela. Argumentar é parte do processo de conhecer cada vez melhor o mundo, conseqüência do questionamento reconstrutivo permanente do sujeito em relação ao meio de que é parte. Novos argumentos constituem respostas fundamentadas a perguntas formuladas por sujeitos. Novos argumentos surgem em resposta a questionamentos e críticas a teses e verdades já existentes. Por isso geralmente representam respostas a perguntas.

     O argumentar em torno da realidade nunca se esgota, pois novas vivências originam novas perguntas cujas respostas constituem novos domínios do conhecer. Na participação na construção de novos argumentos e explicações se solidifica a constituição dos sujeitos e das realidades em que vivem. A linguagem é a ponte, o meio de isto concretizar-se.

     A relação entre agir e falar, ou seja, o viver uma experiência, é interpretável no processo da vida ordinária. Há uma congruência interpretável pública entre dizer e fazer, e as circunstâncias em que o dizer e o fazer ocorrem. Isto significa, no entendimento de Bruner(1990), que há algumas relações canônicas sobre as quais existe acordo entre o significado do que dizemos e o que fazemos sob determinadas circunstâncias e tais relações governam o modo como conduzimos nossas vidas com os outros.

     Por meio da linguagem se estabelecem coerências entre o falar e o agir de participantes de um mesmo grupo social. Com base em Tassel(2001) afirmamos que não construímos uma compreensão para então utilizá-la na prática. Compreendemos as coisas enquanto as usamos e fazemos uso enquanto compreendemos. Interpretar, explicar e aplicar são partes de um mesmo processo hermenêutico.

     Essa ponte entre fala e ação, entre entendimento de algo e sua aplicação prática relaciona-se de forma estreita com a questão das transformações que emergem de todo processo de conhecer, compreender e argumentar. Quando compreendemos o argumentar como modo de sujeitos se assumirem em discursos, manifestando suas próprias vozes e práticas, entendemos o argumentar como exercício de cidadania. A competência de argumentar é indicadora de cidadania participativa, representando a qualidade política do processo da argumentação.

     Cada novo argumento, especialmente se feito por escrito, transcreve o mundo, mas nunca numa simples cópia. Sempre implica uma transformação. Todo texto escrito representa uma metamorfose do mundo expresso, transformação não apenas na expressão do mundo, mas também nas vivências em relação a ele, na linguagem e na ação.


3.2- Argumentando: explicar e compreender

     Há diferentes modos de argumentar. Assumir uns ou outros implica em situar-se dentro de determinados paradigmas que, segundo Santos(2002) podem ser caracterizados como paradigma dominante e paradigma emergente. . Em ambos pode-se admitir que os argumentos científicos nascem em processos dedutivos e se ancoram em processos indutivos(BERNARDO, 2000). Produzem-se a partir de enunciados amplos e gerais e se validam a partir de fatos e observações específicos. Isso se aplica tanto ao explicar quanto ao compreender.

     A partir de argumentos apresentados anteriormente afirmamos que, ainda que se possa defender a procura de uma análise objetiva dos fenômenos, toda compreensão e explicação se fundamentam na subjetividade, num pré-compreender em que se baseiam tanto o explicar como o compreender. A ciência funda suas novas hipóteses e argumentos em teorias anteriormente desenvolvidas. Já o cidadão comum, e nisso incluímos os alunos em situação escolar, elaboram seus argumentos a partir de seus conhecimentos anteriores, de suas teorias implícitas e eventualmente explícitas, de seu pré-compreender. Esta é a parte dedutiva do processo do construir argumentos. Sua fundamentação, a ancoragem e validação a partir de dados da realidade, constitui a parte indutiva do processo, ainda que esta ancoragem também possa dar-se em teorias.

     Na construção de nossos argumentos devemos reconhecer que há muitos modos de argumentar e de conhecer. Ainda que esses modos argumentativos sejam diferentes, todos devem merecer nosso respeito e serem utilizados apropriadamente em nossas construções argumentativas. Destacam-se e distinguem-se neste sentido os argumentos do senso comum e da ciência. Dentre os últimos podemos salientar o explicar e o compreender.

     Esclarecer e explicar se complementam com o entender e compreender. Os primeiros implicam em redução causal dos fenômenos a leis gerais e necessárias; os segundos significam apreender o individual em sua peculiaridade e em sua significação.

     Mesmo que hoje se entenda o explicar e o compreender como complementares dentro do conhecer, o primeiro se prende mais diretamente às ciências naturais e o segundo às ciências do espírito. Esclarecemos por meio de processos intelectuais, fundamentando-nos na razão. Para isto nos utilizamos principalmente de relações de causa e efeito. Já quando afirmamos compreender algo levamos em conta processos históricos nos quais os fenômenos são entendidos, sempre condicionados a totalidades ao mesmo tempo apreendidas e pressupostas. Esse entendimento parte de uma compreensão original que antecede a todo explicar e compreender mais elaborados.

     Argumentos explicativos são de natureza abstrata, sendo organizados com base em relações conceituais causais. Organizados a partir de relações de causa e efeito, esses argumentos preocupam-se principalmente com sua estrutura formal e dedutiva. Procuram mostrar verdades com base na lógica. De um conjunto de premissas eles mostram por dedução como chegar a novas verdades.

     Fragmentar os fenômenos com que se trabalha tem sido um dos modos de construir novas explicações. Constitui estratégia positivista o dividir para esclarecer melhor, levando geralmente a uma fragmentação que pode perder o sentido do todo. Por isso, no movimento em busca de compreensão, a causalidade tem sido substituída por relações compreensivas sistêmicas.

     Em contrapartida ao explicar o compreender toma a história universal como uma totalidade dentro da qual cada acontecimento, grande ou pequeno, recebe seu sentido. Cada fato é compreendido a partir do todo histórico em que se insere. Conforme Fabian e Barrera(1995, p. 32) "toda compreensão do particular é condicionada por uma compreensão da totalidade".

     Uma argumentação fundamentada e rigorosa, tanto no explicar como no compreender, procura afastar-se das pré-compreensões implícitas procurando expressar novas compreensões e explicações elaboradas a partir de questionamentos e interpretações. Argumentos interpretativos correspondem a enunciados produzidos no movimento de um compreender inicial para um compreender mais elaborado. Implicam uma tomada de consciência do sujeito que os produz.


3.3- Comunicando argumentos: ter o que dizer

     No exercício da argumentação assume um papel central o escrever. A construção de argumentos pela escrita cria novas possibilidades para a apropriação discursiva, possibilitando superar a prisão em sujeitos empíricos em diálogo para atingir abstrações e generalizações não possíveis na argumentação apenas falada.

     Nossa perspectiva do mundo pode ampliar-se a partir de nossas leituras. Nosso horizonte de existência se alarga a partir das novas referências descortinadas pelos textos lidos. Nisso incluímos a leitura de nossas próprias produções textuais. Segundo Ricoeur(1987, p. 49) "só a escrita, ao libertar-se não só do seu autor e do seu auditório originário, mas da estreiteza da situação dialógica, revela este destino do discurso como projetando um mundo". É pela escrita que a argumentação de um sujeito constitui movimento de ampliação do discurso da realidade social em que este está inserido.

     Argumentos e especialmente produções escritas não nascem prontos. Exigem um investimento contínuo para sua consolidação. Iniciam-se geralmente em forma de hipóteses de trabalho que precisam ir se solidificando ao longo das pesquisas, englobando gradativamente tanto interlocuções empíricas como teóricas.

     Produções escritas constituem redes complexas de argumentos. Quando de qualidade necessitam de teses ou argumentos globalizadores em torno dos quais os outros argumentos possam ser organizados. Teses são argumentos assumidos por quem escreve e que pretende defender a partir de uma argumentação bem fundamentada.

     Assim, um texto ou artigo precisa ser estruturado em torno de uma tese, capaz de integrar os diferentes sentidos e argumentos explorados no texto. Ter uma tese é ter o que dizer. Conforme Bernardo(2000, p.11), "escreve mal aquele que não tem o que dizer porque não aprendeu a pôr em ordem o seu pensamento, e porque não tem o que dizer, não lhe bastam regras ou vocabulário". Para quem não tem o que dizer não adiantam regras gramaticais e enfeites de palavras.

     Produções escritas com argumentação rigorosa devem anunciar o seu plano de trabalho, especificando a hipótese ou tese a ser defendida, facilitando desta forma a compreensão do leitor e propiciando a este economia e rigor. Esses planos de trabalho são modos de expressar as novas aprendizagens e compreensões de seus autores em relação aos temas trabalhados. Quem argumenta não comunica apenas algo já perfeitamente conhecido, mas no mesmo processo está reconstruindo o que já se sabia antes.

     Mesmo que o argumentar esteja próximo ao comunicar não se limita a expressar uma opinião. Implica um comunicar que espera resposta, que já visa um contra-argumento e uma crítica. A linguagem não serve apenas para comunicar o já conhecido, mas é parte integrante e inseparável do próprio conhecer e do compreender.

     Construir uma competência argumentativa exige uma compreensão aprofundada dos modos de conhecer, compreender e interpretar. Implica em entender a relação entre o expressar de novos argumentos e as transformações sociais que podem produzir. Implica em o autor assumir-se sujeito histórico em seu contexto, manifestando-se cada vez de uma posição mais central nos discursos em que se insere.


Considerações finais

     Pretendeu-se argumentar e fundamentar no presente artigo a tese de que todo ser humano pelo fato de nascer e desenvolver-se num contexto de linguagem está desde sempre inserido numa conversa coletiva. Construir competências argumentativas corresponde a um aprimoramento das participações nas conversas, com uma gradativa apropriação de discursos de especialistas, especialmente daqueles discursos sociais que se relacionam mais diretamente com as vivências cotidianas e profissionais dos sujeitos. Essa participação em conversas de especialistas pode dar-se em sala de aula, mas concretiza-se de forma mais ampla, envolvendo todas as situações em que o sujeito atua. Caracteriza, ao mesmo tempo, uma aproximação com o discurso da ciência.

     Participar ativamente das conversas pode ajudar a constituir cidadãos capazes tanto de intervir em discursos, assim como de participar da transformação das realidades em que se inserem. Daí a importância de investir-se na construção das competências argumentativas de todo ser humano, possibilitando cada vez mais a mais sujeitos participarem das conversas sociais, assumindo-se autores de suas falas com o máximo de competência.


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