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Creio CREIO que a função principal da escola é a de desenvolver ao máximo a competência da leitura e da escrita em seus alunos. CREIO na leitura, porque ler é conhecer - o que aumenta consideravelmente o leque de entendimento, de opção e de decisão das pessoas em geral. CREIO na leitura como uma reação ao texto, levando o leitor a concordar e a discordar, a decidir sobre a veracidade ou a distorção dos fatos, desmantelando estratégias verbais e fazendo a crítica dos discursos - atitudes essenciais ao estado de vigilância e lucidez de qualquer cidadão. CREIO na escrita como instrumento de luta pessoal e social, com que o cidadão adquire um novo conceito de ação na sociedade. CREIO que, quando as pessoas não sabem ler e escrever adequadamente, surgem homens decididos a LER e ESCREVER por elas e para elas. CREIO que nossas possibilidades de progresso são determinadas e limitadas por nossa competência em leitura e escrita. CREIO, por isso, que a linguagem constitui a ponte ou o arame farpado mais poderoso para dar passagem ou bloquear o acesso ao poder. CREIO que o homem é um ser de linguagem, um animal semiológico, com capacidade inata para aprender e dominar sistemas de comunicação. CREIO, assim, que a linguagem é um DOM, mas um DOM de TODOS, pois o poder de linguagem é apanágio da espécie humana. CREIO que o educado pode crescer, desenvolver-se e firmar-se lingüisticamente, liberando seus poderes de linguagem, através da simples exposição a bons textos. CREIO, por isso, em M. Quintana, que afirmou: "Aprendi a escrever lendo, da mesma forma que se aprende a falar ouvindo, naturalmente." CREIO, pois, no aluno que se ensina, no aluno como um auto/mestre, num processo de auto-ensino. CREIO que o ato de escrever é, primeiro e antes de tudo, fruto do desejo de nos multiplicarmos, de nos transcendermos, e mesmo de nos imortalizarmos através de nossas palavras. CREIO, juntamente com quem escreveu aos coríntios, que a um o Espírito dá a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro ainda, o dom de as interpretar. CREIO que a ti te foi dado o poder da PALAVRA. CREIO, por isso, na tua paixão pela palavra. Para anunciar esperanças. Para denunciar injustiças. Para in(en)formar o mundo com a-vida-toda-linguagem. PORTANTO, vem! Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência, da sociedade: tu tens a palavra. A tua palavra. Tua voz. E tua vez. Gilberto Scarton
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Questionei o mito segundo o qual uma pessoa pode aprender a escrever através da educação e prática constantes. E deparei com um sério problema: escrever requer uma enorme bagagem de conhecimentos específicos que não podem ser adquiridos em palestras, livros-texto, treinamento, tentativa e erro, ou mesmo pelo próprio exercício da escrita. Um professor pode lançar às crianças tarefas que resultem na produção de uma quantidade pequena, mas aceitável de frases, mas é necessário muito mais do que isso para que alguém se torne um competente e versátil escritor de cartas, relatórios, memorandos, atas, monografias, e talvez até alguns poemas ou obras de ficção esparsos, adequados às exigências e oportunidades de situações extra-classe. Onde é que as pessoas que escrevem adquirem todo o conhecimento de que precisam? A conclusão a que cheguei então era tão problemática quanto o problema que precisava resolver: concluí que somente através da leitura é que os escritores aprendem todos os mistérios que conhecem (...) para aprender a escrever, as crianças precisam ler de uma maneira muito especial. |
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Mesmo os tipos mais comuns de texto envolvem um vasto número de convenções de complexidade tal que nunca poderiam ser organizados como procedimentos de educação formal. A abrangência de tais convenções é geralmente desconhecida, tanto por professores quanto pelos aprendizes. |
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Onde é que todos estes fatos e exemplos podem ser encontrados, quando não disponíveis em palestras, livros-texto e exercícios a que as crianças são expostas em sala de aula? A única resposta possível parece-me tão óbvia quanto espero que agora seja ao leitor - devem ser encontrados no que outras pessoas escreveram, em textos já existentes. Para se aprender a escrever para jornais, deve-se ler jornais: livros-texto sobre o assunto não serão suficientes. Para escrever artigos de revista, deve-se folhear uma revista antes de fazer um curso por correspondência que ensine a escrever para revistas. Para escrever poesia, ler poesia. Para aprender o estilo convencional de memorando de sua escola, consulte os arquivos de sua escola. Isto tudo me pareceu extremamente evidente assim que deixei de lado a ilusão de que a instrução prescritiva podia e tinha que ser suficiente para transmitir pelo menos uma parte daquilo que um escritor precisa saber. Todos os exemplos de língua escrita em uso mostram suas próprias convenções relevantes. Todos demonstram sua própria gramática adequada, sua pontuação e recursos estilísticos variados. Todos são como que vitrines de exposição de palavras. Agora, então, sei onde se encontra o conhecimento de que os escritores necessitam: nos textos existentes. Está lá para ser lido. A questão agora é: como este conhecimento penetra a mente do leitor de modo que ele se torne um escritor? (...) |
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Aprendemos a escrever sem saber que estamos aprendendo ou o que aprendemos. Tudo aponta para a necessidade de aprendermos a escrever a partir daquilo que nós lemos. E este é o truque a ser explicado. |
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A maioria dos adultos letrados está acostumada com a experiência de pausar inesperadamente durante a leitura de um jornal, revista ou livro, a fim de voltar a olhar a grafia de uma palavra que chamou sua atenção. Dizemos a nós mesmos: "Ah, então é assim que se escreve esta palavra", especialmente se a palavra é conhecida, uma que só se tenha ouvido anteriormente, como um nome, no rádio ou na televisão. A palavra pode ou não ser escrita como esperávamos que fosse, mas, de qualquer modo, parece nova. Quando começamos a ler, não esperávamos ter uma lição de ortografia, e nem ao menos estamos conscientes de estarmos prestando atenção à ortografia (ou qualquer outro aspecto técnico da escrita) à medida que lemos. Mas notamos aquela grafia desconhecida - do mesmo modo que notaríamos uma incorreta - porque estamos escrevendo o texto à medida que o lemos. Estamos lendo como um escritor, ou no mínimo como um ortografista. Esta é uma palavra cuja ortografia devemos conhecer, que esperamos conhecer, porque somos o tipo de pessoa que sabe esse tipo de grafia. Eis um segundo exemplo. Novamente, estamos casualmente lendo, e novamente encontramo-nos parando para reler uma passagem. Não por causa da ortografia, desta vez, nem porque não tenhamos compreendido o trecho. Na verdade, entendemos muito bem. Voltamos porque alguma coisa naquele trecho foi especialmente bem colocada, porque respondemos ao toque do artista. É algo que nós mesmos gostaríamos de fazer e, ao mesmo tempo, algo que acreditamos não estar fora de nosso alcance. Estivemos lendo como um escritor, como um membro do clube. (...) |
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Tudo o que o aprendiz gostaria de grafar, o autor grafa. Tudo o que o aprendiz gostaria de pontuar, o autor pontua. Cada nuança de expressão, cada recurso sintático relevante, cada estilo de frase, o autor e o aprendiz escrevem juntos. Passo a passo, uma coisa por vez, mas um número incrível de coisas. |
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Existem dois tipos de livros, os que se lê e os que se lê sublinhando. Na adolescência, eu certamente teria sublinhado essa frase. Fui uma sublinhadora voraz e nem sempre imune aos clichês. Certos trechos que pareciam encerrar toda a sabedoria do mundo e a chave para decifrar o sentido da vida conquistavam a glória suprema de ganhar um espaço na parede do quarto - copiados com caligrafia caprichada e fixados com durex enroladinha. Quando, em fim, a cola sumia e o cartazinho desabava junto com a pintura, já a tal frase havia ficado invisível no mosaico de fotografias, cartazes e recortes de revistas que então cumpriam a função de anunciar ao mundo - se por acaso o mundo um dia espiasse pela porta do meu quarto - quem morava ali e com o que sonhava quando estava acordada. Claudia Laitano Zero Hora, 1/10/03 |
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ÚLTIMO DISCURSO DE MARTIN LUTHER KING Freqüentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é dominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos de morte. Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num sentido angustiante. Freqüentemente pergunto a mim mesmo que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui com vocês a resposta. Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembre-se de que não quero um longo funeral. Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe - para não falar muito; - para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante; - para não dizer o lugar onde estudei. Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que - eu tentei dar minha vida a serviço dos outros; - eu tentei amar alguém; - eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo; - eu tentei visitar os que estavam na prisão; - eu tentei vestir um mendigo; - eu tentei amar e servir a humanidade. Sim, se quiseres dizer algo, digam que EU FUI ARAUTO: - arauto de justiça; - arauto de paz; - arauto do direito. Todas as outras coisas triviais não têm importância. Não quero deixar atrás - nenhum dinheiro; - coisas finas e luxuosas. Só quero deixar atrás - uma vida de dedicação. E isto é tudo o que tenho a dizer: SE EU PUDER - ajudar alguém e seguir adiante; - animar alguém com uma canção; - mostrar a alguém o caminho certo; - cumprir meu dever de cristão; - levar a solução para alguém; - divulgar a mensagem que o Senhor deixou; então, MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO. |
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| "Há muito adoto o axioma de que as pequenas coisas são infinitamente mais importantes." "Você conhece meu método. Ele está baseado na observação das insignificâncias." | |||
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"Você parece ter visto nela uma série de coisas que permaneceram invisíveis para mim", foi meu comentário.
Não invisíveis mas despercebidas, Watson. Você não sabia para onde olhar e por isso perdeu tudo que era importante. Eu nunca consigo fazer você perceber a importância das mangas das roupas, o caráter sugestivo das unhas dos polegares ou as grandes pistas que estão atadas aos cadarços de uma bota. Agora, o que você conseguiu perceber da aparência daquela mulher? Descreva."
"Bem, ela tinha um chapéu de palha de aba larga, de um azul-acinzentado, com uma pluma de cor vermelho-tijolo. Sua jaqueta era preta, bordada com contas negras e com uma franja de delicados ornamentos negros. Seu vestido era marrom, mais escuro do que cor de café, com detalhes em pelúcia púrpura na gola e nas mangas. Suas luvas eram acinzentadas e estavam gastas na ponta do dedo indicador direito. Não observei suas botas. Ela usava um pequeno pingente de ouro redondo nas orelhas e um certo ar de estar razoavelmente bem para ir levando uma vida vulgar, confortável, despreocupada." Sherlock Holmes estalou as mãos em um aplauso suave e riu furtivamente. "Palavra de honra, Watson, você está se saindo muito bem. Fez um ótimo trabalho de fato. É bem verdade que deixou escapar todas as coisas importantes, mas você acertou no método e, ademais, tem um olho clínico para as cores. Nunca confie nas impressões gerais, mas concentre-se nos pormenores, meu caro. Eu sempre lanço o olhar, primeiramente, nas mangas de uma mulher. Em um homem, talvez seja melhor considerar primeiro a parte dos joelhos das calças. Como você observou, a mulher tinha pelúcia em suas mangas, o que é um material muito útil para mostrar pistas. A linha dupla um pouco acima do punho no exato lugar que a datilógrafa pressiona contra a mesa estava maravilhosamente definida. Uma máquina de costura, de tipo manual, deixa marca semelhante, mas apenas no braço esquerdo, e na parte que é mais distante do polegar, ao contrário desta marca que mostra o vinco em quase toda a extensão. Então, dei uma olhadela no seu rosto e, observando a mancha deixada por um pince-nez de ambos os lados do nariz, aventurei um comentário sobre vista curta e datilografia, o que a deixou surpresa." |
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"Veja você... considero que, originalmente, o cérebro de um homem é semelhante a um ático vazio, que pode ser povoado com a mobília que se desejar. Um tolo abarrota-o com toda a espécie de traste que encontra pela frente , de modo que o conhecimento que lhe pode ser útil fica de fora ou, quando muito, soterrado no meio de muitas outras coisas, tornando-se assim muito difícil o acesso até ele. Agora, o profissional hábil é muito criterioso com o que introduz em seu cérebro-ático." |
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| Já discutíamos como os adultos e amigos mais competentes agem como colaboradores involuntários à medida que a criança aprende sobre a linguagem falada. As crianças aprendem indiretamente (...) O argumento que usarei agora é que todo aquele que se torna um escritor competente usa os autores exatamente do mesmo modo, mesmo as crianças. Elas devem ler como um escritor, a fim de aprender a escrever como um escritor. Não existe outra maneira de adquirir o conhecimento de um escritor em sua intricada complexidade. | |||
| A alternativa que tenho a propor é a de que o conhecimento de todas as convenções da escrita penetra em nossa mente assim como a maior parte do nosso conhecimento da linguagem falada, e até do mundo em geral, sem consciência do aprendizado que está ocorrendo. A aprendizagem é inconsciente, sem esforço, acidental, indireta e essencialmente cooperativa. É acidental porque aprendemos quando aprender não é nossa principal intenção; indireta porque aprendemos através do que outra pessoa faz; e cooperativa porque aprendemos pela ajuda de outros para que alcancemos nossos próprios objetivos. | |||
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A primeira aprendizagem da língua: um processo natural. Base (natural): a capacidade humana inata da linguagem (o homem é um ser de linguagem), capacidade de aprender e dominar sistemas de comunicação verbal. Condições: exposição a atos de fala, para que a criança possa, intuitivamente, depreender as regras (a "gramática") subjacentes. Ao natural, a criança (pequeno lingüista, gramático) internaliza aquela gramática a que se vê exposta; determinado nível linguístico correspondente a determinado nível sociocultural: analfabeto, classe média, alta. Ao fim deste estágio (5-7 anos), a criança é portadora de uma gramática implícita (GI) da língua. 2. A segunda aprendizagem: na escola. Tese: o ideal é que também seja um processo natural. Por exposição a atos de fala e escrita , atos de comunicação (agora mais elevada, mais formal). Exposição à língua culta padrão. Desenvolvimento, ampliação, complementação da primeira aprendizagem e enriquecimento dos recursos expressionais da língua pela exposição do falante/ escrevente a modelos adequados de fala/escrita (olha a ordem!)... para que o aluno, ao natural (isto é, intuitivamente, com seus poderes de linguagem), possa ir complementando seu estoque interior de regras, a sua gramática interna, implícita (GI). 6. Teoricamente, pode uma pessoa chegar a manejar superiormente (e até artisticamente) seu idioma mediante conhecimento e domínio apenas intuitivo (gramática implícita), educada habilitada pela prática natural de linguagem (muita leitura, muita exposição a bons textos, e muita escrita: "Aprendi a escrever lendo, da mesma forma que se aprende a falar ouvindo naturalmente..." M. Quintana). Grandes escritores, oradores e poetas comprovam Isso. Que estudos gramaticais realizou Machado de Assis? Quem ensinou Gramática (e análise sintática d' Os Lusíadas...) a Camões? A Homero?... |
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| O talento nada mais é do que assimilação (p.28) | |||
| A admiração conduz à imitação, e a imitação é um meio de assimilar as belezas alheias (p.15) | |||
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A seleção das leituras deve nortear-se, antes de tudo, pelo anseio de apreender, na variedade do que se lê, as regras não escritas desse código universal que une Shakespeare a Homero, Dante a Faulkner, Camilo a Sófocles e Eurípides, Elliot a Confúcio e Jalal-Ed-Din Rûmi. Compreendida assim, a leitura tem algo de uma aventura iniciática: é a conquista da palavra perdida que dá acesso às chaves de um reino oculto. Fora disso, é rotina profissional, pedantismo ou divertimento pueril. Mas a aquisição do código supõe, além da leitura, a absorção ativa. É preciso que você, além de ouvir, pratique a língua do escritor que está lendo. Praticar, em português antigo, significa também conversar. Se você está lendo Dante, busque escrever como Dante. Traduza trechos dele, imite o tom, as alusões simbólicas, a maneira, a visão do mundo. A imitação é a única maneira de assimilar profundamente. Se é impossível você aprender inglês ou espanhol só de ouvir, sem nunca tentar falar, por que seria diferente com o estilo dos escritores? O fetichismo atual da "originalidade" e da "criatividade" inibe a prática da imitação. Quer que os aprendizes criem a partir do nada, ou da pura linguagem da mídia. O máximo que eles conseguem é produzir criativamente banalidades padronizadas. Ninguém chega à originalidade sem ter dominado a técnica da imitação. Imitar não vai tornar você um idiota servil, primeiro porque nenhum idiota servil se eleva à altura de poder imitar os grandes, segundo porque, imitando um, depois outro e outro e outro mais, você não ficará parecido com nenhum deles, mas, compondo com o que aprendeu deles o seu arsenal pessoal de modos de dizer, acabará no fim das contas sendo você mesmo, apenas potencializado e enobrecido pelas armas que adquiriu. É nesse e só nesse sentido que, lendo, se aprende a escrever. É um ler que supõe a busca seletiva da unidade por trás da variedade, o aprendizado pela imitação ativa e a constituição do repertório pessoal em permanente acréscimo e desenvolvimento. Muitos que hoje posam de escritores não apenas jamais passaram por esse aprendizado como nem sequer imaginam que ele exista. Mas, fora dele, tudo é barbárie e incultura industrializada. |
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"...que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler.É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guarda-las no reservatório que temos em nossa mente e utiliza-las para compor depois nossas próprias palavras. Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros; não se incomodaram com isso e copiar me fez muito bem." |
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"Todo mundo
começa imitando alguém. É na vida. É nas artes. Não há mal nenhum. A
leitura de um livro empolgante desperta o imediato desejo: - Eu gostaria de escrever assim. O primeiro romance que li inteiro foi "O Primo Basílio", isso lá pelos 13 ou 14 anos. Ao terminá-lo, decidi que, se me tornasse escritor, escreveria um livro igualzinho." |
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Por uma aprendizagem natural da
escrita
Sem professor. Sem aula. Sem provas. Sem notas. Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração. Sem estresse! Só tu. Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco. Que impassível espera ser preenchida, para entretecer contigo a teia de palavras que liga todas as dimensões de tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para contigo, de ti para o outro. Sem. Só tu. Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão. Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória. De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando esperanças. Denunciando injustiças. In(en)formando o mundo com tua-vida-toda-linguagem. Sem! Levanta tua voz: em meio às desfigurações da existência, da sociedade, tu tens a palavra. A tua palavra. Tua voz. E tua vez. Gilberto Scarton |
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Tléquete/Tlíquete
Gilberto Scarton
O Zaffari da Ipiranga não deixa de ser um ponto de encontro, talvez meu novo ponto de referência, te vi lá, ontem, teu carrinho (tinha uma roda defeituosa?) fazia tléquete-tléquete, e te segui, sabes, eu queria saber de ti, afinal lá se vão alguns anos desde que... deixa pra lá... paraste na seção de artigos para aniversário, balões, copos de plástico, canudinhos, alguém de aniversário? a Júlia? dez anos! tléquete-tléquete na imensidão da loja, e se eu desse a volta e, em vez de te seguir, fosse a teu encontro, fosse de encontro ao teu carrinho e batesse "oh! desculpa!" tua olharias o infrator e... deixa pra lá... minha timidez, bem sabes, me impediria a tanto, de modo que fui te seguindo, tu compravas guardanapos e eu remexia nas prateleiras um pouco bastante atrás, um pouco atrás que eu quisera quase nada, anseio do meu coração para chegar a ti, bastante atrás que é a distância do meu medo, numa ponta pude avistar que compravas refrigerantes, e na outra disfarçavas examinando uma nova marca de cerveja, depois, erguendo a cabeça sobre compradores e produtos pude ver que desaparecias, caminhei então mais rápido e ouvi o tléquete-tléquete logo mais adiante, eu-na-paixaria, tu-na-fila-do-cafezinho, quem sabe aí pelo menos um "oi!" que eu pudesse te dar, a que tu responderias, talvez com um ar de surpresa, quem sabe de espanto, ou de indiferença, que repercutiria no meu coração como um tlíquete, um tlíquete de coisa partida, quase silenciosamente partida, doidamente partida, irrecuperavelmente partida, mas quem sabe, houvesse dois "oh!", vindos lá do fundo de nossas almas e "estava mesmo com vontade de te ver", "eu também", "saber como tu vais", "eu também", e te tendo assim tão perto comparar teu rosto com teu rosto de antigamente, a cor dos alhos, a mesma, o cabelo mais curto, o mesmo talhe esguio do teu corpo, óleo Violeta X azeite Beira Alta, Isabela X Coroa, tléquete-tlíquete, pepino/palmito, cebola/tomate, eu-fazendo-de-conta-de-escolher-batata/tu-alface, teu carrinho/meu coração, "vê como subiu o preço de ervilha?", "que bom te ver", "como o palmito está caro!", mas nada disso, nem isso, nem uma palavra, nem um cruzamento de olhares, nem um esbarrão casual, nem uma ultrapassagem rápida (e perigosa!), nada, discos/bebidas, Al de lá/conhaque macieira, chocolate/balas, livros/revistas, aqui/aí, des/encontros, um tléquete na loja, um tlíquete no coração. In "Contos de Oficina" |
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puts!
Gabriel da Costa Schmidt Tô de aniversário, me disseram que estou fazendo três anos, como? se eu nem sei o que são anos, só sei que estou fazendo três e que hoje sou importante, mas por outro lado vou ter que agüentar um monte de velhos me bajulando, apertando minhas bochechas e dizendo: como tá grandinho! se aquela gorda bigoduda, da creche, vier pra cima de mim vou cuspir, cuspir no meio da cara dela, e vai ser daqueles bem verdes, ainda mais que tô encatarrado, depois dou uma choradinha e pronto, todos vão me perdoar... cadê a mãe, hein?! será que ela não notou que eu tô todo cagado, já tá até ardendo... aí vem ela, puts, banho! a mãe tá achando que eu vou usar este uniformizinho babaca, não mesmo, ainda mais que tem um patinho amarelo desenhado, acho que ela não se deu conta que eu estou ficando velho, puts, acho que ela não está muito preocupada com a minha simplória opinião, não, nããããããããoooooooo, estou parecendo um daqueles babaquinhas dos comerciais da Parmalat, mas não vai durar muito tempo, puts, quanta gente! cadê os presentes? sem beijos, sem beijos, eu disse presen... ugh! argh! irc! ecs! outs, me pegaram... tu não, sai fora januru, eu tô avisando hein, não te aproxima, sai, saaaaaaai hec cusp, toma, bem no narigão, hahahá, acho que a tia vai ter que assoar o nariz, tô precisando de uma gelatina, só uma gelatina, ali, me dá, plec! acho que a mãe vai ter trocar a minha roupinha, sem gritos, sem gritos... tô de aniversário, que saco: só ganho roupa, deve ter roupa pro resto da minha vida em cima do meu berço, vai me dar um trabalhão para destruí-las, mas vai ser legal, onde estão os brinquedos, estou falando de brinquedos, não destas coisinhas para babaquinhas que estão infestando o meu quarto, acho que se juntar todos os chocalhos e as roupinhas que eu tenho daria para montar uma escola de samba, pelo menos a bateria e as fantasias estariam garantidas, o tema seria: "Dura vida de bebê", por que aquele gurizinho tá olhando para a minha moto? nem pense nisto, olha que eu tô com a minha Espada Justiceira, acho bom você desistir, ah é, é? então toma, POFT... papai? foi ele que começou, buaaaaá... tudo bem, pai, nós vamos ser amigos, né panacão? hahahá, não acredito, logo no MEU aniversário, mas isto não fica assim, ah se não fica, ainda mais agora que estou com a minha Espada Justiceira, vou pegá-lo, juro que vou pegar esta toupeira que colocou o CD do Tiririca, esta música está destruindo os meus ouvidos, pior que isto, se é que existe algo pior, só mesmo o CD dos Mamonas, bom... estes já foram, como diz o ditado: "Deus tarda mas não falha" hahahá, ô DJ, coloca uma lenta aí que eu vou chegar naquela ali ó, de vermelho, que gracinha né, agora que eu já tô com a minha camisa do Inter, hahahá, ela não vai resistir, vem cá, querida, sei que por trás desta fralda está escondida a bundinha mais linda e fofinha da festa. Agora o Dj mandou bem, a Xuxa é mesmo demais! o nome desta música é: Meu cãozinho Xuxo e ela fez pro seu cachorrinho que morreu, vou chegar por trás e mandar a minha melhor cantada: "ficar pertinho de você é melhor do que tirar aquele tatuzão do nariz, aquele que ao invés de minhoca parece mais um mussum", não disse, essa não falha, ela já se derreteu todinha, agora é só uma questão de tempo, puts, foto não, foto não, logo agora que eu estava com a mina, pô tia, cadê a Espada Justiceira, quando eu falo não, é não e pronto, buáááááá... deixa eu brincar com esta máquina... crash, puts, caiu, tira o raio destas fotos agora, hahahá, até que eu me divirto nestes aniversários, hahahá... |
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Olhos verdes no retrovisor Stefani Leiria Ligocki Dou a segunda volta na fechadura de casa no momento em que olho para o relógio, são oito horas, horário em que deveria estar no escritório, naquela reunião com meu chefe e assessores, mas estou aqui, ainda virando a chave do meu carro que não quer pegar, não deveria ter comprado carro a álcool, enfim o carro pega, saio da garagem do prédio, piso fundo no acelerador rumo ao primeiro engarrafamento do dia, já tem uma Brasília caindo aos pedaços na minha frente, não anda, se arrasta, buzino, outro carro buzina, todos buzinam, o sinal abre, os carros se movem um pouco, já estamos parados outra vez, abre uma brecha no trânsito, faço sinal para mudar de faixa, um Vectra se adianta e toma o meu lugar, entro logo atrás dele, quero saber quem cortou a minha frente, encosto meu Opala bem perto da traseira do Vectra, vejo os cabelos loiros colados ao banco do motorista, me parece uma mulher, quero ver seu rosto, apressadinha, anda me mostra, vira pra cá, no vidro traseiro do carro tem um adesivo com dizeres irônicos: "se você consegue ler isto é porque está muito perto", sim, estou perto do teu paralama, longe do trabalho e do provável esporro do chefe, mas faço questão de ver quem é a barbeira da frente, desvio o olhar para o seu retrovisor interno e............... estou hipnotizado, são os olhos mais lindos que já vi, verdes, luminosos, radiantes a me olhar ironicamente, me desafiando, sim, aquela mulher tem olhos extraordinários, meus olhos estão fixos naqueles olhos que se mexem na direção do semáforo que está verde, ela arranca, vou atrás, quero ver o rosto da dona daqueles olhos estupendos, se os seus olhos são lindos desse jeito como será o resto? como serão os traços do rosto que contém esses olhos, será que são tão hipnotizantes e resplandescentes como aquele olhar? O sinal fecha de novo, os carros vão se posicionando, consigo ficar ao lado do Vectra, e agora vou virar a cabeça para a esquerda e aqueles olhos que só vi pelo retrovisor vão estar esperando a minha correspondência, viro a cabeça como num movimento cinematográfico, em câmera lenta, neste momento vejo o rosto que não frustra as minhas expectativas, é um rosto tão lindo quanto aqueles olhos verdes, sorrio para a moça como que perguntando "Por que você fez aquilo?", ela me responde com outro sorriso que escancara toda a sua beleza, leio seus lábios vermelhos que dizem "desculpe, estou com pressa", faço menção de perguntar se nome, telefone, sei lá, entretanto o semáforo é implacável, se torna verde, o Vectra sai cantando os pneus e entra rapidamente à esquerda, sem ao menos me dar tempo de mirar mais uma vezaqueles olhos verdes, o motorista de trás já ofende minha mãe pela demora que levo para arrancar em direção ao trabalho, onde meu chefe já deve estar verde de raiva. |
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Meu mundinho Scheila Feijó Fantinel
Ai, como é bom aqui dentro: quentinho, escuro, só quero dormir, às vezes dou uns chutes e soquinhos, é a forma que tenho de chamar a atenção, ouvi mamãe dizer que devo chegar no próximo mês, mas chegar aonde? Será que vou ter que deixar essa vidinha maravilhosa? Sei lá, o papai e a mamãe falam coisas que eu não entendo, me chamam de Carolzinha e enfeitam meu quarto de rosa pink, que coisa mais feia! Eu gosto é de cor-de-laranja e o meu nome é José, JO-SÉ, e não zezinho... outro dia me senti mal, estava muito apertado, eu crescendo e o espaço diminuindo, daí pensei em sair daqui, mas bateu uma deprê ao me imaginar longe de todos, lutando pelo meu alimento, sofrendo agressões, sendo um ser humano comum, desisti! Vou ficar no meu canto, quietinho, recebendo carinho, alimento e esperando a minha hora... nas últimas semanas resolvi dar uma virada na minha vida: coloquei os pés para cima e a cabeça para baixo e entrei em uma fase zen, de muita meditação e descoberta interna... percebi que está tudo agitado lá fora, todos correndo de um lado para outro, apenas mamãe está calma, no entanto, comecei a sentir uma grande pressão e aí a correria foi total, no caminho de casa para sei lá aonde, percebi que chegou a hora... faz isso, faz aquilo, mexe aqui, aperta li, deita, senta, É AGORAAAAAAAAAA! Vi um clarão, ouvi gritos e fui expelido, que nojento! Me bateram e depois me embrulharam, me senti um nada, depois todos queriam me ver e alguns choravam na minha presença, acho que não me amam! Será que sou feio? Essa vida externa é bastante complicada... |
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Controle remoto Fernanda Silva Dora Txxxxx... ó meu Deus não faça isso, não faça isso, nãããããããããããão! ...txxxxx... realmente, houve a intenção do jogador, e isso caracteriza o pênalti, está correto o árbitro ...txxxxx... quinta-feira, nove da noite, rockhistória e acústico Nirvana ...txxxxx... não Jack, largue esta arma, pense Jack, não vai valer a pena, pare Jack, pare ...txxxxx... sem querer interromper, já interrompendo, qual a sua aituação em relação à CPI dos Precatórios... bem, eu não tenho nada a ver com isto, quem está me envolvendo nisso está mentindo ...txxxxx... mama África, a minha mãe, é mãe solteira, e tem que fazer mamadeira todo o dia, além de trabalha como empacotadeira nas Casas Bahia ...txxxxx... Carly, please, open the door, c'mom, open the door, I love you, I love...txxxxx... daí o senhor Jesus me libertou daquela angústia …txxxxx… o Cineview chegou ao fim, mas não fique triste, semana que vem tem mais ...txxxxx... incêndio em prédio no centro de São Paulo assusta moradores... txxxxx... uhhh, aahhh, ligue, estou esperando você, 0900211076 ...txxxxx... and the Chigaco Bullls have the last shot ...txxxxx... boa noite ...txxxxx... e, um beijo do gordo. |
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Último discurso de Martin Luther King Martin Luther King Freqüentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é o denominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos morte. Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num sentido angustiante. Freqüentemente pergunto a mim mesmo o que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui com vocês a resposta. Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembrem-se de que não quero um longo funeral. Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe:
EU FUI ARAUTO:
Não quero deixar atrás
SE EU PUDER
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO. |
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Mentira Rui Barbosa Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, no céu. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos progressos. Mentira nos projetos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. (...) Mentira nas instituições, mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. |
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Dia de Agradecer Ivete Brandalise Obrigada por esse céu que se fez azul depois de tanta tempestade. Obrigada pela tempestade que me fez sonhar e desejar e descobrir o azul do céu. Obrigada pelo horizonte que meus olhos não alcançam, embora o concreto tente limitar meu mundo. Obrigada pelas frestas que ainda existem e que me deixam encontrar o céu, saber das nuvens, navegar pela mansidão do Guaíba, percorrendo ilhas e pontes, me perdendo e me achando em espaços indefinidos. Obrigada pela primavera que aconteceu em mim, pelas flores que brotaram na noite e se ofereceram regadas de orvalho na manhã. Obrigada pela manhã que veio luminosa. Obrigada pela noite que veio banhada de lua. Obrigada pelas estrelas que passearam por meus olhos. Obrigada pelos olhos que ainda se deixam salpicar de estrelas. Obrigada pelo riso, que ainda povoa minha vida. Obrigada pelos encantamentos que eu ainda encontro no riso fácil dos meus anjos loiros. Obrigada pelos anjos que fazem a minha poesia, as minhas canções, a minha alegria, o meu amor, até as minhas apreensões. Obrigada pelo amor que ainda existe em mim e me faz reviver na possibilidade de entrega. Obrigada pela ternura que a criança ainda sente num beijo meu. Obrigada pelas saudades que eu tenho, pelo bem-querer que não morreu. Obrigada pelo meu trabalho, pelo meu dia, pela minha noite, pelo meu ontem, pelo meu amanhã. Obrigada pelo alimento, pelo abrigo, pela vida, pelo amigo. Mas não agradeço o amigo que não tive, muito menos o amigo que partiu. Não agradeço a fome, o ódio, a guerra. Não agradeço a solidão. Não posso agradecer o sofrimento, o desamparo, o desemprego. Não posso agradecer as injustiças. Não posso agradecer a angústia, as tensões, a poluição. Não posso agradecer as perdas, os desencontros, os desencantos. Perco o jeito de agradecer quando encontro criança perdida na noite e me calo e me omito e deixo que ela se encolha na porta de um edifício e cubra seu frio com os jornais, e cubra sua miséria com o meu descaso e cubra sua infância sofrida com sonhos de um tempo melhor. Perco o jeito de agradecer quando vejo a flor murchando nas mãos magras e sujas da criança esmoleira. Perco o jeito de agradecer quando vejo que as cores não pertencem a todas as criança, as flores não brotam para toda a gente, o dia é luminoso para muito poucos. E perco o jeito de agradecer quando descubro que o "obrigada" deve vir no singular, que o amor, a ternura, o alimento, a alegria não existem para todo mundo. Perco o jeito de agradecer quando me sinto culpada de agradecer. |
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Arriscar é Viver... Deise Konhardt Ribero Rir é arriscar-se a parecer louco. Chorar é arriscar-se a parecer sentimental. Estender a mão para outro é arriscar-se a se envolver. Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor se eu verdadeiro. Amar é arriscar-se a não ser amado. Viver é arriscar-se a morrer. Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção. Tentar é arriscar-se a falhar. Mas... é preciso correr riscos. Porque o maior azar da vida é não arriscar nada... |
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Medo Juliana Duzzo Medo de falar, de ouvir... De falar muito e muito pouco, de ouvir o que não se quer, ou o que se queria ouvir, mas imaginava que jamais ouviria. Medo de encarar... Medo de encarar os medos, medo de dizer oi, de dizer tchau... Medo de rir na hora errada e chorar de assustada. Medo de não saber o que dizer... de ir, de ficar, de não saber se ficar, se ir... Medo de discar o último dígito, alguém atender e não se saber o que falar... Medo de discar e não atender nunca mais. Medo de ter medo. Medo de ter coragem de fazer a coisa errada. Ou, a coisa certa e acertar. Mas mesmo assim sofrer, mesmo assim chorar. Medo de tudo, medo do escuro, medo da luz, da noite, do dia, da tarde... Medo do telefone, do e-mail, do carteiro, dos conhecidos, dos amigos, dos parentes, dos pais. Medo de qualquer um que possa dizer o que não se quer ouvir. Ou dos que não dizem o que se precisa dizer. Medo de se enganar, ou de já saber demais, mesmo sem nada saber. Medo de ti. Medo de mim. |
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Saudade Kátia Simone Menegat Lembrar das coisas ruins, das que me fizeram sofrer, dos sonhos não realizados, eu não queria. Para que sofrer com coisas inúteis, como o acidente que sofremos há muitos anos, a mentira que nos contaram, como quando nos difamaram? Eu não queria. Se eu pudesse, esqueceria daquele amor não correspondido, das brigas que me fizeram sofrer, das pessoas que por mim passaram e causaram muitos estragos. Lembrar, eu não queria. Mas por que, então? Por que guardamos um espaço em nossa mente e coração para a imagem de quem não gostamos, de quem desprezamos, de quem não queremos ouvir falar? Por que ainda memorizamos seus rostos, e também os acontecimento passados e tão nocivos ao nosso presente, que só nos fazem sofrer? Sinceramente, eu não queria. As lembranças que ficam não podem ser apagadas, embora muitas vezes as tentamos mascarar. E aquela pessoa, aquele acontecimento, aquilo que queríamos esquecer vai estar sempre lá, mesmo que não a queiramos. E eu, realmente, não os queria. Mas a memória tem seu valor, e é isso que faz com que lembremos das coisas boas que vivemos, apesar dos acontecimento ruins; das pessoas maravilhosas que encontramos, apesar daquelas com quem nos desencontramos; e dos momentos preciosos pelos quais passamos, apesar daqueles que apenas passaram por nós. Mesmo que haja o mau, haverá sempre o bom a ser lembrado, e mesmo que existam coisas que queríamos esquecer, sem o que lembramos, quem haveríamos de ser? Sem nossas lembrança, esqueceríamos de muitas coisas, mas mais do que isso, desconheceríamos o significado de uma coisa que nos faz crescer, idealizar, sonhar e sorrir: a saudade. Dizer que não quero lembrar é, então, dizer que não a queria. |
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.................... Fabio Abreu dos Santos Droga. Oito da manhã e ele estava, novamente, atrasado para o serviço. Seu chefe iria querer sua cabeça. Levanta-se correndo e vai até o banheiro. Ao lavar o rosto, fita seu reflexo no espelho. Pára por um momento e analisa as rugas que traz na face. Não pode deixar de sentir um pouco de tristeza. Afinal, já passou da casa dos quarenta anos, e julgava-se, em suas próprias palavras, um perdedor. Como sua vida fora parar naquele ponto? Não suportava sua mulher, depois de mais de vinte anos de casamento. Seus dois filhos, um de dezoito e outra de quinze, só lhe traziam problemas. Problemas e despesas. O mais velho não queria saber de trabalhar e a mais nova gastava todo seu tempo em passeios pelo shopping e saídas com as amigas. Mas o pior de tudo era o seu emprego. Não suportava seu chefe, não suportava seus colegas, não suportava sua função. Era contador, o que por si só já seria motivo de um eterno tédio. Mas tinha um agravante, era contador já há vinte e dois anos, na mesma empresa, no mesmo cargo. Nunca fora promovido. Seu salário estava longe de poder sustentar a família. Por isso, tinha de conseguir rendas extras, fazendo vários serviços como free-lance. Em resumo, sentia-se velho, cansado, triste e, pior, fracassado. Mas de repente, ao olhar-se no espelho, não sabe bem por que, lembra-se de uma história em quadrinhos que havia lido em sua infância, quando tinha a maior coleção de revistinhas de ficção científica de seu bairro. A história se passava em um universo paralelo ao nosso, o universo X14, onde existiam clones de todas as pessoas que existem em nosso próprio universo. Se lembrava bem, a historieta mostrava que o único momento em que os dois, clone e original, se encontravam, era quando estavam frente a um espelho. O espelho seria, então uma passagem, ou uma janela, entre os dois universos, o nosso universo e o universo paralelo. Se isso fosse verdade, continua com seus pensamentos, o seu clone do universo paralelo, o seu clone do universo X14, poderia ser uma pessoa bem diferente. Não fisicamente é lógico, mas em relação à vida que levava. Na verdade no universo X14, seu clone poderia ser muito feliz. Poderia, não. Era muito feliz. No universo X14, seu clone deveria estar levantando àquela hora e indo até o espelho, só para se arrumar e ir fazer jogging matinal. Afinal, era muito importante manter a forma. No universo X14, seu clone teria deixado, deitada na cama, uma de suas inúmeras amantes maravilhosas. No universo X14, seu clone não deveria se preocupar com chefes. Aliás, no universo X14, seu clone deveria ser o chefe. E não de uma firma de contabilidade qualquer, mas sim de uma poderosa multinacional. No universo X14, seu clone não deveria ter preocupações com filhos. No universo X14, seu clone já deveria ter se separado da mulher com o qual casara e, sem dúvida, ela teria ficado com as pestes das crianças. Não pode deixar de sorrir. Na verdade, ele era um cúmplice da tão estupenda vida que levava seu clone no universo X14. Estava orgulhoso de ter um clone tão importante e poder fazer parte de sua vida, mesmo que fosse apenas por alguns momentos, quando o clone procurasse o espelho para se mirar. Se não fosse ele, seu clone seria um infeliz sem reflexo. Quase inconscientemente, leva a mão até o espelho e toca seu reflexo, como que felicitando seu clone por ter proporcionado um momento de alegria em sua porcaria de existência. Engraçada a vida. Como, às vezes,pequenos detalhes ou grandes fantasias podem torná-la tão melhor, tão mais feliz, tão mais maravilhosa. Enquanto isso, no universo X14... Droga. Oito da manhã e ele estava, novamente, atrasado para o serviço. Seu chefe iria querer sua cabeça. Levanta-se correndo e vai até o banheiro. Ao lavar o rosto, fita seu reflexo no espelho... |
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Letra de Música Germano Jacobs Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Àquela hora, sete da noite, o bar estava cheio. Ele se encontrava sozinho, numa mesa no canto, quase escondido. Devia ter 45 anos e gostava de conversar consigo mesmo, de relembrar os bons tempos, aqueles que não voltam mais, essas coisas sentimentais do lugar-comum. Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Vai ao banheiro. Volta. Continua o ritual. Droga de vida, os bons tempos não resolvem coisa alguma. Parece letra de música destas duplas que infestam o rádio, mas os últimos anos foram uma sucessão de dramas. Dramas, não, dramalhões. Encontrar a mulher na cama com seu melhor amigo foi o começo. Bem que andava desconfiado, mas como é que podia imaginar, tamanha sem-vergonhice? Ela ainda riu na sua cara,o seu amigo vestiu-se calmamente, fazendo pouco caso de sua presença. Quase que pediu desculpas por encontrá-los em adultério. Mais tarde perdoou a mulher, mas ela preferiu mesmo ficar com seu melhor amigo. Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Tosse. A desgraçada está voltando. Tosse. Vinte anos na mesma empresa. Auxiliar de contabilidade. Cumpridor de seus deveres, de jamais faltar ao serviço. Certo dia, sem mais nem menos, o aviso de demissão. "Por que eu, o que fiz, em que falha incorri?" "Contenção de despesa", a resposta, "a crise está braba". Sem mulher e sem emprego. E o emprego? Faz a escrita contábil do bar que freqüenta, da verdureira da esquina, da sapataria de um compadre seu, vai se virando. Ganha para comer, pagar o quartinho da pensão e tomar a cerveja de todos os dias. É o único luxo que se permite. Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. O dois filhos, de 19 e 17 anos, estão por aí, no mundo. Eles que se virem. Ele quer ficar só, os outros que se danem. Se conseguisse esquecer da mulher, tudo seria diferente. Aí é que está, mesmo que continuasse a traí-lo, com seu melhor amigo, com quem quer que fosse, não importa, suportaria tudo para estar junto dela. Isso o deixa louco de raiva: "Que merda de homem sou eu?", se pergunta, e encontra à sua frente o copo de cerveja e o cigarro. Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Tem certeza que nunca vai encontrar resposta. E continua o ritual. | |||
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Felicidades Beertolt Brecht - Poemas O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro perdido e reencontrado Rostos animados A neve, a sucessão das estações Jornais O cachorro A dialética Tomar um banho, nadar um pouco A música antiga Sapatos macios Compreender A música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser Camarada |
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Inocentes Reflexões Renata Eichenberg Viver é desejar. Realizar nossos sonhos. Crescer. Amadurecer. Amar. Descobrir. Procurar. Acredito ser a vida preciosa, atraente, misteriosa, surpreendente. Não basta apenas vivê-la, temos que sonhá-la, imaginá-la, supô-la, adivinhá-la. Se eu pudesse ter sete vidas, certamente teria sete desejos, sete anseios, sete amores, sete pais, sete filhos, sete sonhos. Como só tenho uma, porém intensa e preciosa, espero, durante a minha vivência terrena:
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Devastação Scheila Feijó Fantinels Continua chovendo. O cachorro late prevendo alguma coisa. Aumenta a chuva. Granizo. Vento. Chuva. Começo a sentir medo. A água ultrapassa as portas. Telhas voam e não ouço nada. Pavor. Choro. Os minutos parecem horas. Rezo... Silêncio. O pesadelo acabou. Devastação. Árvores caídas, casas derrubadas, lágrimas, alguns feridos. Ninguém segura a natureza. |
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Circuito Fechado Ricardo Ramos Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro. |
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A Pesca Affonso Ramos de Sant'Anna o anil o anzol o azul o silêncio o tempo o peixe a agulha vertical mergulha a água a linha a espuma o tempo a âncora o peixe a boca o arranco o rasgão aberta a água aberta a chaga aberto o anzol aquelíneo ágilclaro estabanado o peixe a areia o sol |
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Vidinha Redonda Kátia da Costa Aguiar Esperma, óvulo, embrião, parto. Bebê, choro, sobressalto, cocô, xixi, fralda, leite, colo, sono. Doença, vômito, pavor, pediatra, remédio, preço. Murmúrio, passos, fala. Escola, lancheira, material, professora. Curiosidade, descoberta. Crescimento, desenvolvimento, pêlos pubianos, seios, curvas, menstruação, modess, cólica, atroveran, adolescência. Primeiro beijo, paixão, shopping center. Batom, esmalte, rinsagem, depilação. namorado, pressão, intimidade, culpa. Festa, pai, ciúme, relógio, motel, desculpa, dissimulação. Faculdade, trabalho, consciência, cansaço, sossego, idade. Noivado, loja, fogão, geladeira, cama, mesa, banho, aliança, chá-de-panela. Cartório, igreja, núpcias. Sexo, trabalho, sexo, trabalho, sexo, esperma, óvulo, licença, parto. |
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Trânsito Luzia Fialho, Leandro Rangel, Paola
Teodoro Porta, banco, cinto chave, afogador Ufa! Acelera, engata, foi! 2ª, 3º, 4ª sinaleira freio Laranja, jornal, esmola, acelera, engata, foi! Salvador França, Ipiranga Acelera, engata, foi! Ôpa! ficou congestionamento Liga rádio Voz do Brasil... Desliga Calor, cigarro, estacionamento lotado! Fila Espera Vaga 8 horas... Atrasado |
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Dona-de-casa Carine Vargas Bom dia, dentes, filhos, uniforme, merenda, café, carro, escola, carro, supermercado, carne, pão, banana, refrigerante, alface, cebola,tomate. Carro, casa, cama, lençol, travesseiro, colcha, roupa, lavanderia, máquina, sabão, sala, almofada, pano, pó, cortina, tapete, feiticeira. Banheiro, descarga, balde, água, desinfetante, toalha molhada, lavanderia, arame, prendedor. Cozinha, pia, tábua, faca, panela, fogão, bife, arroz, molho, feijão, salada, mesa, toalha, pratos, talheres, copos, guardanapos, carro, escola, filhos, carro, almoço, mesa, pia, louça, armário, fogão, piso. Televisão, jornal, filhos, tema, lanche, leite, nescau, pão, margarina, banana, louça, pia, armário. Carro, filhos, natação, futebol, mensalidade, espera, revista, filhos, carro, casa. Vizinha, conversa rápida, lavanderia, arame, roupas, agulha, linha, camisa, calça, ferro de passar. Janta, marido, filhos, sala, televisão, família reunida, dinheiro, discussão, cozinha, mesa, louça, pia, armário. Filhos, sono, escova, creme dental, cama, beijo, durmam com os anjos. Portas chaveadas, janelas fechadas, banho, sabonete, água, toalha, creme no corpo, camisola, renda, escova, cabelo, perfume, dentes limpos, cama, marido, sexo, sono, boa noite, lua. |
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Quinhentos anos sem respirar Fábio Canatta Oca, pajé, tribo, mata, virgem, caça, pesca, coleta, pureza, perfeição. Santa Maria, Pinta e Nina. Descoberta. Portugueses, povoamento, contato, colonização, dominação. Pau-brasil, devastação, comércio. África, negro, banzo, trabalho, humilhação, escravidão. Engenho, moenda, caldeira, senzala, sofrimento, agressão. Senhores, quilombo, Palmares, luta, liberdade, prisão. Entradas, bandeiras, violência, domesticação. Ouro, extração, arrobas, derrama, inconfidentes, esgotamento, rebelião. Brasil, império, D. Pedro, proclamação. Primeiro, segundo, reinado, constituição, regência, continuação. Conturbação, agitação, guerras: Balaiada, Sabinada, Farrapos (separação). Chimangos, maragatos, República Rio-Grandense do Prata, sonho, revolução. Café, crise, comércio, importação, abolição, imigração. Suíços, belgas, italianos, alemães. República. Café-com-leite, Hermes, Nilo, Pena e Venceslau. Canudos, Conselheiro, revolta, Antonio, misticismo, monarquia, sertão, genocídio e covardia. Operário, indústria, crise, revoltas, tenentes, dezoito, constituição, de novo. Estado, novo? Autoritarismo, Getúlio, Guerra, Segunda. Redemocratização, atentados, mortes, ricos, poucos, pobres, muitos. Jk, Brasília, vários, outros. Ameaça, comunismo - comunismo? - Estados Unidos da América, Brother Sam, Jango, golpe, tirania e repressão. Opressão, medo, violência, ditadura. Castelo, Geisel, Médici. Mais, crise, multinacionais, abertura, burrice, degradação. Guerrilha, luta, seqüestro, tortura, política, submissão. resistência. Gabeira, Marighela, Lamarca, extradição. AI-5. Protesto, passeata, Herzog, 100 mil, pressão, povo, rua, emoção. Lágrimas, marchas e contramarchas. Manifestos, anistia, abertura, lenta, gradual. Diretas, já, povo, cidadãos. Tancredo, civil, conciliação, transição. Tumor, benigno, cirurgias, seis, fé, rezas, medo, morte. Frustração. Choro, Sarney, Constituição, cruzado, verão, fiscais, recorde, inflação. Eleições, Fernando, Lula, Brizola. Campanha, segundo, turno, Globo, Collor, Lula. Baixarias, ofensas, comunismo, medo. Lula, ignorante, operário, feio, burro. Collor, vitória. caçador, marajás. marajá, caçado. Globalização, abertura, de novo, tudo, crise, poupança, confisco. Povo, de novo, rua, manifesto, passeata, impeachment. Itamar, moeda, real, ministro, futuro, candidato. Eleições, sociólogo-ex-ministro, versus, torneiro-mecânico. Plim-plim. De novo. Fernando, de novo, tudo, de novo, crise, pobreza e humilhação. Imperialismo, colônia, my brother, desnacionalização, economia, pobreza, real, irreal, medo, aniversário, 500, anos. Brasil, país, futuro, incerto. |
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Objeto Estranho Carlos Drummond de Andrade Um objeto estranho ameaça incorporar-se à elegância masculina, segundo informa o colega Zózimo. Seu aparecimento ocorreu na Itália, e sua presença já se faz sentir em outras capitais européias. É a maçaranduba. A primeira singularidade da maçaranduba consiste em que ela absolutamente não participa da sorte das demais peças do equipamento humano a que se junta. É que a maçaranduba fica perto do vestuário, sem se ligar a ele. É ciosa de sua independência, ao contrário dos outros elementos que colaboram na apresentação do homem em público. Estes seguem conosco na condição de servos dóceis, ao passo que ela mantém liberdade de movimentos. E exige de nossa parte atenções especiais, sob pena de abandonar-nos à primeira distração. Concorda em fazer-nos companhia, mas sem o compromisso de aturar-nos o dia inteiro. Dir-se-ia, mesmo, que nós é que a acompanhamos no seu ir e vir pretenciosamente pelas ruas. A maçaranduba está sempre à mostra, ostensiva e vaidosa. Sua tendência é para assumir a liderança do conjunto e exibir-se em envoluções fantasistas, que exigem certas habilidades do portador. Assim, quando não tem o que fazer (e de ordinário não tem) descreve círculos e volteios que pretendem ser graciosos em sua gratuidade. A maçaranduba parece ter mau gênio? Parece, não: tem. Já o demonstrou sempre que algum transeunte lhe despertou antipatia ou lhe recordou episódios menos agradáveis. Pois é. A maçaranduba não é de suportar opiniões contrárias às suas. À falta de melhor argumento, na polêmica, ergue-se inopinadamente, avança como um raio e procura alcançar a parte doutrinária alheia nos pontos mais vulneráveis, desde o lombo até os óculos. Sua agressividade impulsiva costuma levá-la à polícia, quando não se recolhe inerte e indiferente a um canto deixando que seu portador pague a nota dos estragos. A maçaranduba é basicamente feita de madeira, às vezes se beneficia de espécies vegetais não compactas, o que lhe permite estocar recursos ofensivos de grande temibilidade. Ao vê-la se aproximar, tome cuidado, pois sua ira não se satisfaz com simples esquimoses. A maçaranduba costuma gostar de ornatos, e uma que pertencia a Balzac era cravejada de pedras preciosas... A impertinência da maçaranduba, para não dizer arrogância, deve-se talvez ao fato de que em outras eras foi símbolo de poder e, sob formas diversas, esteve ligada à realeza e a seu irmão gêmeo, o absolutismo. Em mãos governamentais, era duplamente terrível: pela contundência material e pela espiritual. Ter sido a maçaranduba elemento de garridice feminina, durante a Idade Média até a Renascença, não lhe adoçou o temperamento. Passando a andar só com os homens, nem por isso dispensa maior cortesia às mulheres e, na hora de zangar-se, é incapaz de distinguir is sexos. Diga-se em favor da maçaranduba, para que o retrato não fique excessivamente carregado, que algumas espécimes são inclinadas à generosidade, e se comprazem em ajudar pessoas encanecidas ou faltas de visão. Contudo trata-se de exceção. A maçaranduba tem um irmão soturno, que paradoxalmente só se anima a passear quando começa a chuva, e sob o aguaceiro se diverte disputando lugar. Muitas vezes este irmão gêmeo imita a mania elegante, no ataque ao próximo. Cuidado com a maçaranduba, amigos pacíficos: trata-se de objeto às vezes voador, identificado. |
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Chega, Basta e Fora! Cyro Silveira Martins Fº Os acontecimento que o Brasil viveu nessa quinta-feira mostram que caminhamos para um terreno perigosamente pantanoso. As trevas rondam. A anarquia ressurge dos bueiros com poder e majestática soberba. A autoridade que deveria se impor parece inerte e o Brasil hesita e titubeia diante da vontade de uma minoria hábil, atuante e turbulenta, que consegue utilizar-se com destreza da mídia - impressa, falada e televisionada - e consegue impor sua vontade à imensa maior parte dos cidadãos contribuintes e votantes. E, mais, consegue arrastar em sua cantinela de sereia curvilínea os ingênuos e os que ainda têm a consciência em formação. Poucos gatos, pingados, mas ardorosos e ousados, que não respeitam leis, regulamentos, regras nem lógica, história, tradição ou costumes. Nós, os brasileiros verdadeiramente patriotas, não podemos assistir placidamente ao Brasil tendo seu leme quebrado, perdendo o rumo, submetido pela força das idéias exóticas, totalmente desvinculadas de nossa realidade de povo manemolente. Idéias que em nada dizem respeito à nossa natureza espontânea, à nossa exuberância criativa de nação multifacetada étnica, cultural e geograficamente. Esses, que tentam se impor pela força, desprezando a opinião da avassaladora maioria, se opondo à opinião pública manifestada democraticamente, só contribuem para fragilizar o Brasil diante dos outros países. E para transformar o país numa presa fácil para os predadores estrangeiros. Porque tanto Europa como América Latina só esperam um momento de fraqueza nosso para arremeter e tentar nos colocar de joelhos diante de seus ataques. Mais ainda. A arrogância desses que se autoconcedem a onisciência de apenas eles, e ninguém mais que eles, saberem o que é bom para o Brasil, esses que se julgam certos ab initio ad infinitum, esses, que sequer se dignam a explicar aos demais o raciocínio anterior a suas atitudes, a arrogância dessa casta, diante da estupefação de milhões de pessoas, prenuncia uma tempestade de efeitos terríveis sobre a vida, o coração e alma de nós, brasileiros e patriotas. Não é possível que isso seja levado adiante. Não podemos, nós, que estamos vendo o Brasil ameaçado, permanecer calados. Há cheiro de 1974 no ar. Por isso: chega e basta. Fora Zagalo. |
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..................... Fábio Abreu dos Santos No começo, ela era minha companheira nos momentos mais difíceis. Sempre que eu estava só, magoado com alguma coisa, houvesse brigado com minha esposa, discutido com os colegas do trabalho, me irritado com meus filhos, eu ia à sua procura. Aliás, com o tempo, qualquer motivo era suficiente para que corresse até ela, tal era o prazer que tal encontro me proporcionava. Ela sempre estava lá, de braços abertos, pronta para me receber, sem me fazer perguntas. Conseguia, de forma milagrosa, confortar-me e fazer-me novamente feliz em questão de segundos. Seu brilho me seduzia, sua voz era como música para meus ouvidos. Uma aura emanava em torno dela. às vezes na sala, às vezes no quarto, com as luzes apagadas, eu era seduzido por ela, de tal forma que respondia, sem dizer não, a todos os seus apelos. Mas hoje, parece que ela já perdeu um pouco daquele brilho, aquela cor que enfeitava sua fronte. Nossa relação amorosa foi, pouco a pouco, se deteriorando. Talvez fosse a idade dela, talvez fosse seu tamanho. Afinal, convenhamos,14 é muito pouco. Resolvi trocá-la por outra, muito mais bonita, maior, um pouco usada, mas nem tanto. Minha família, após descobrir minhas intenções, até deu-me incentivo para realizar a troca. As crianças, agora, não saem da frente dela. Minha mulher é sua fã número um. Sinceramente, não sei como conseguimos viver até hoje sem uma tv de vinte e uma polegadas. |
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Notícia de Jornal Fernando Sabino Leio no jornal a noticia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante 72 horas, para finalmente morrer de fome. Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância do Pronto Socorro e uma rádiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome. Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome. O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa - não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão. Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da rádiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome. E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, dez o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome. E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, um homem morreu de fome. |
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Morte e Vida Severina João Cabral de Melo Neto De sua formosura já venho dizer: é um menino magro, de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher. De sua formosura deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. Sua formosura deixai-me que cante: é um menino guenzo como todos os desses mangues, mas a máquina de homem já bate nele, incessante. Sua formosura eis aqui descrita: é uma criança pequena, enclenque e setemesinha, mas as mãos que criam coisas nas suas já adivinha. De sua formosura deixai-me que diga: é belo como o coqueiro que vence a areia marinha. De sua formosura deixai-me que diga: belo como o avelós contra o Agreste de cinza. De sua formosura deixai-me que diga: belo como a palmatória na caatinga sem saliva. De sua formosura deixai-me que diga: é tão belo como um sim numa sala negativa. É tão belo como a soca que o canavial multiplica. Belo porque é uma porta abrindo-se me muitas saídas. Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia. É tão belo como as ondas em sua adição infinita. Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria. Belo como a coisa nova na prateleira até então vazia. Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia. Ou como o caderno novo quando a gente o principia. E belo porque com o novo todo o velho contagia. Belo porque corrompe com sangue novo a anemia. Infecciona a miséria com vida nova e sadia. Com oásis, o deserto, com ventos, a calmaria. |
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Pariu no Corredor do Hospital Renata Appel Leio no jornal a notícia de uma mulher que pariu no corredor do Hospital Fêmina. Jovem, negra, pobre, pariu no corredor do hospital, com poucos socorros, em pleno banco estofado, em meio a enfermeiras, médicos e pacientes. Somente abriu as pernas e deu à luz. Pariu no corredor do hospital. Gritou por ajuda, clamou por assistência médica. No entanto, o tempo não pôde esperar e acabou parindo em pleno corredor. Gestante pariu no corredor de hospital. A enfermeira disse que havia falta de quartos. Fêmina apresentava super lotação de parturientes. E a pobre negra somente abriu as pernas e deu à luz. Eis que de seu ventre surge um menino magro. De muito peso não é, mas tem peso de homem, de obra de ventre de mulher. É uma criança pálida e franzina. Mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. Pariu no corredor do hospital. Entre diversas enfermeiras, médicos e pacientes. Mulher pobre. Sozinha. Miserável. Gestante. Jovem demais. Negra. Baixo nível. Ignorante. Um bicho, uma coisa - não foi tratada como digna parturiente. E pariu no corredor do hospital. E eis que de seu ventre salta uma criança pequena. É tão bela como um sim numa sala negativa. Não é responsabilidade dos profissionais, nem do hospital, nem das autoridades. O que têm a ver com o fato? Deixa a mulher parir em pleno corredor. E ela, o que faz? Jovem e destemida dá à luz sobre um banco estofado, sem recursos e com pouco auxílio. E eis que de seu ventre nasce o menino. Somente após o ocorrido, a jovem é amparada. Nos braços, o rebento abençoado infecciona a miséria com vida nova e sadia. |
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A Pátria Amiga Márcia Jaeger Sirangelo
Em pleno 7 de setembro, Maria dos Santos dá à luz a um menino, nas portas de um hospital de Porto Alegre. Nasce o belo menino, com a ajuda de populares que comemoravam o dia 7 de setembro naquele momento. Nasce o belo menino, magro e de não muito peso, uma criança pálida e franzina, mas que tem a marca de um homem, marca de humana oficina. Maria não chegou a entrar no hospital e então nasce o belo menino, enrolado na bandeira brasileira de 7 de setembro, trazida por um homem na passeata. O belo menino parecia a última onda que o fim do mar sempre adia. Chorando no meio de gritos de independência, nasce o belo menino. Por não haver um leito no hospital, Maria se deita ali mesmo e nasce o belo menino, quase no meio da rua. Muito belo por que representa uma porta se abrindo sem mais saída. Sem cuidados nem higiene, nasce o belo menino somente com as cores da pátria o acolhendo em meio a tanta gritaria). Em 7 de setembro nasce o belo menino, belo porque tem o novo, a surpresa, a alegria de vir ao mundo no dia da independência. Com um olhar amável e sem mais preocupação, Maria dizia: "como é belo esse menino" e nem se importava com a tal situação. O tumulto intenso parou a avenida em frente ao hospital. Para ver o belo menino, que foi vítima do caos da vida, muita s pessoas fizeram fila. Em pleno 7 de setembro, com sua bandeira envolvida, o menino passa bem e já comemora a data festiva. No colo dos homens do Brasil, nasce o belo menino, que já não é angústia para Maria e sim uma criança abençoada pela pátria amiga. Em 7 de setembro, nasce Deodoro, o belo menino! |
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Mulher dá à luz nas portas do HPS Laurie Wather
Numa típica segunda-feira, sete de setembro, exatamente no dia da Independência do Brasil, abro o jornal e ali tenho a clara certeza de que vivo no Brasil. Estampada na primeira página consta a seguinte manchete: Mulher dá à luz ao filho nas portas do HPS. Ora, era só mais uma cidadã (cidadã?) brasileira que não tinha leito no hospital para ter o seu filho nas mínimas condições. Até aí, normal. As pessoas que ali assistiam horrorizadas, ao fato, nada puderam fazer senão amparar em seus braços o pobre menino que acabara de vir a este mundo, e enrolá-lo na bandeira de nosso país. E assim, a mulher deu à luz ao filho nas portas do HPS. "De sua formosura já venho dizer: é um menino magro, de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher". Depois de nascido, o menino tornou-se símbolo do descaso. Coitado. Nasceu, viveu e já morreu. Enrolado na bandeira do Brasil. Uma mulher dá à luz ao seu filho nas portas do HPS. Engraçado. Já vi este fato em algum lugar. Mas onde será? De repente não era sete de setembro, mas poderia ser em qualquer outra segunda-feira, não tão menos típica que esta. E o menino continuou enrolado na bandeira do Brasil. Socorro. Não veio ninguém. Quem sabe os médicos de plantão estivessem jogando, cantando, comendo, dançando...Sei lá, se ocupando com outros afazeres se não o da sua profissão: ajudar ao próximo. E assim, a mulher deu à luz ao seu filho nas portas do HPS. É só mais uma dentre tantas! Tristeza. Da formosura do menino, deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. Grande coisa, ele já nasceu, viveu e morreu. Enrolado na bandeira do Brasil. O que nos importa isto? O fato é que uma mulher deu à luz ao seu filho nas portas do HPS. O jornal, só narra mais uma notícia: uma mulher deu à luz ao seu filho nas portas de um hospital. Não havia vaga para ela. Uma mulher pobre, negra, mal trapilha, esfomeada e brasileira. Deu à luz a seu filho nas portas de um hospital. Era sete de setembro (grande coisa). E a criança? Ah era só mais um menino, porém enrolado na bandeira do Brasil. Isto o revelou para o país inteiro. De sua formosura deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. E daí? Já morreu. |
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Outras Vidas Vanessa Mello
Acredita-se que, para viver outras vidas, é necessário morrer primeiro e, depois de algum tempo, voltar. Eu já vivi muitas vidas e nada disso foi preciso. Morei em outros países, em épocas diferentes e até em séculos passados. Tudo em uma única vida, a minha. Beber "Cherry Brand" nos bares de Paris era uma das coisas que eu adorava fazer, mas um dia, algo terrível aconteceu e acabou com minha alegria. Me transformei em barata. Todos se afastaram de mim, tinham medo e nojo. Até que conheci uma velha, acho que era vidente, que me falou sobre meu amor, tão perto de mim e eu o desconhecia. Foi na Ilha de Paquetá e eu realmente encontrei o amor. Estava naquele garoto que eu conhecia desde criança. Casei-me com um homem incorrigível, que amava e odiava ao mesmo tempo. Ele morreu, mas não me deixou e passei pela deliciosa experiência de ter dois maridos. Vivi uma paixão impossível e valsei sem melancolia, sem arrependimento. Presenciei a ditadura, no ano de 1968 e, apesar de algum tempo, parece que ainda não acabou. Construí o império dos Diários e Emissoras Associados e muito contribuí para a comunicação. Passava os dias na Praça da Alfândega, convivendo com os mais variados tipos, na época de seus Anos Dourados. Conheci muitos lugares. Viajei de barco durante cem dias e fiquei maravilhado com a natureza, com o litoral brasileira e até com a África que nunca chamou minha atenção. Ainda sinto o cheiro do mar. Outra viagem interessante que fiz me revelou fatos que não conhecia sobre o descobrimento do Brasil. Integrei o Clube do Picadinho, que diminuía a cada encontro. Sabíamos de quem era a vez, mas nunca desistimos. A emoção e o perigo faziam com que essas fossem as melhores refeições. Esses são apenas alguns relatos de minha vida. Poderia ficar por horas contando minhas aventuras, descrevendo todas as pessoas que conheci e relembrando os infinitos amores que tive. Talvez em outro encontro. Mas antes de me despedir, quero contar como foi o meu primeiro contato com esse mundo maravilhoso. Aconteceu quando eu ainda era criança e minha mãe me apresentou à Turma da Mônica e depois ao palhacinho Alegria. Eles se tornaram meus companheiros e à medida que fui crescendo, ganhei novos amigos. Tenho um poder espantoso. Através dele, conheci novo sentimentos, senti o gosto de novas comidas e bebidas, sem nem mesmo ter experimentado, vesti-me como as "sinhazinhas" do século passado, senti fome como Fabiano. Essa capacidade mágica que tenho não é exclusividade minha, ela está adequada a minha personalidade, mas todos podem ter, é só querer. Além de adquir cultura e informação, desenvolvi minha criatividade, tive uma visão mais ampla de certos assuntos. Dou asa a minha imaginação, e permito conhecer novos costume, lugares, vidas, mundos, sentimentos. |
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Texto-Base: Ao Meio do Caminho Carlos Drumond de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra Nunca esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra |
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Paródia no Meio do Caminho Deise Konhardt Ribeeiro
No meio do caminho tinha um fuquinha Tinha um fuquinha no meio do caminho tinha um fuquinha no meio do caminho tinha um fuquinha Nunca me esquecerei desse acontecimento na ida de minhas noitadas tão agitadas Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha um fuquinha tinha um fuquinha no meio do caminho no meio do caminho tinha um fuquinha |
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Texto-Base: Primeiro Ato Gilberto Scarton
Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração. Sem estresse! Só tu. Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco. Que impassível espera ser preenchida, para entretecer contigo a teia de palavras que liga todas as dimensões de tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para contigo, de ti para o outro. Sem. Só tu. Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão. Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória. De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando esperanças. Denunciando injustiças. In(en)formando o mundo com tua-vida-toda-linguagem. Sem! Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência, da sociedade, tu tens a palavra. A tua palavra. Tua voz. E tua vez. |
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Paródia: Primeiro Filho Antonio Carlos Paim Terra
Sem estresse. Sem vizinho. Sem tudo. Sem nada. Sem roupa! Só tu. Eu e tu. Tu e o teu corpo. Tu e o clima romântico. Eu impassível espero por ti, para entrelaçar contigo uma teia de carinhos que liga toda a dimensão de nossos corpos, nesta travessia de vibrações de ti para comigo, de mim para contigo. Sem camisinha. Só prazer. Com nosso ritmo. Com minha pulsação. Com paixão. Na aventura do cotidiano. De rasgar a tua roupa. De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando um bebê. Informando ao mundo o nascimento de uma vida. Sem preparativos! Levemos o fato para a sociedade. Nós temos a felicidade. O nosso filho. Daqui a nove meses. Será a tua vez. |
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Texto-Base: Carreira Hereditária BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! ANALISANDO ESSA CARREIRA HEREDITÁRIA QUERO ME LIVRAR DESSA SITUAÇÃO PRECÁRIA (REPETE) ONDE O RICO CADA VEZ FICA MAIS RICO E O POBRE CADA VEZ MAIS POBRE E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE É QUE O "DE CIMA" SOBE E O "DE BAIXO" DESCE... |
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Texto-Base: Carreira Estagiária Luciana da Silva Rocha
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! ANALISANDO MINHA CARREIRA ESTAGIÁRIA QUERO ME LIVRA DESSA SITUAÇÃO PRIMÁRIA... ONDE O EFETIVO CADA VEZ FICA MAIS RICO E O ESTAGIÁRIO CADA VEZ É MAIS OTÁRIO, E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE... O EFETIVO SOBE, O ESTAGIÁRIO DESCE. BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...! MAS EU SÓ QUERO É COMPRAR MEUS LIVROS, PAGAR A MINHA MENSALIDADE COM MUITA DIGNIDADE, EU QUERO VIVER BEM, TERMINAR DE ESTUDAR, MAS A GRANA QUE EU GANHO NÃO DÁ NEM PARA CONTAR... E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE... |
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Texto-Base: Ser Mãe Coelho Neto
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração! Ser mãe é ter no alheio lábio, que suga, o pedestal do seio, onde a vida, onde o amor cantando vibra. Ser mãe é ser um anjo que se libra sobre um berço dormido! É ser anseio, é ser temeridade, é ser receio, é ser força que os males equilibra! Todo bem que a mãe goza é bem do filho, espelho em que se mira afortunada, luz que lhe põe nos olhos novo brilho! Ser mãe é andar chorando num sorriso! Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! Ser mãe é padecer num paraíso |
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Paródia: Ser Moderna Marco Antonio F. Conde
Se moderna é remontar fibra por fibra o peitão! Ser moderna é não ter o receio de ficar bonita, botando silicone no seio, onde a natureza, recriada, balançando vibra! Ser moderna é ter um marmanjo que se libra sobre o busto rígido! É ser dois seios, é não necessitar de outros meios, é ter força, onde o vestido se equilibra! Todo o bem que goza é bem da humanidade, espelho onde se mira, sem culpa, ser menina, em qualquer idade! Ser moderna é ser siliconada! Ser moderna é ter prótese mamária! ser moderna é ser um colírio pra gurizada! |
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7 Magos 21 Aprendizados Renata Eichenberg
Frank Smith Aprendi que escrever requer uma enorme bagagem de conhecimentos específicos, adquiridos apenas através da leitura. Aprendi que somente através da leitura o escritor aprende todos os mistérios que conhece. Aprendi que aprendemos a escrever muitas vezes sem saber que estamos aprendendo. Aprendi que a ênfase na eliminação de erros resulta na eliminação da escrita. Celso Luft Aprendi que o conhecimento e domínio da língua se dá por um processo natural, através do auto-ensino. Moacyr Scliar Aprendi que a cópia não é crime,pelo contrário, é inevitável e natural no início do processo da escrita. Agora me sinto com a consciência leve, pois já perdi a conta de quantos autores já me foram úteis na composição dos meus textos. Nilson Souza Aprendi que escrever é rescrever. Um bom texto necessita ser relido e rescrito quantas vezes forem necessárias. A idéia precisa ser clara. Toda a escrita obedece a um ciclo: escrever, cortar e rescrever repetidamente. Aprendi que todo o escritor tem que ser autocrítico para eliminar tudo que estiver "sobrando" ou "atrapalhando" o texto, e paciente e corajoso para apagar um texto e recomeçar, quando este não foi bem escrito. Aprendi que todo o escritor deve ser persistente, lutar pela melhor palavra ou expressão para aquela frase, dentro daquele texto. Aprendi que o escritor necessita ler, porém escrever também. E, se possível, submeter seus textos à apreciação de leitores qualificados. Aprendi que o melhor amigo do escritor é a lata do lixo, uma vez que uma boa redação só pode ser alcançada com humildade, com o reconhecimento da má obra. Aprendi que a pontuação é o cimento do texto. Uma vírgula mal colocada pode mudar significativamente o sentido da frase. Samuel Johnson Aprendi que o que é escrito sem esforço, geralmente é lido sem prazer. Arnaldo Jabor Aprendi que o escritor possui um desejo de enganar, atrair, mentir, roubar o leitor. Aprendi que o escritor, constantemente, está em busca do elogio à sua obra, nem que seja o seu próprio elogio. Aprendi que o escritor é muito mais falado pelas palavras do que as fala. Liberato Vieira da Cunha Aprendi que o escritor deve dominar todas as armadilhas do idioma, mantendo boas relações mesmo com as mais exóticas entidades. Aprendi que é essencial para um escritor ousar a criação de algo novo, original, único. Aprendi que o escritor deve ser disciplinado, obstinado quase. Aprendi que o escritor precisa provocar os demônios interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. Aprendi, finalmente, que o escritor, em hipótese alguma, deve desistir quando um branco se instala em sua mente e nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia circula nesse vácuo, por mais persistente que o escritor seja. |
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Por uma aprendizagem natural Luciana Schmidt Alcover
Sete e meia da noite, sexta-feira (véspera de carnaval), sala de aula vazia, seis alunos e um professor. Oito horas da noite, o professor se apresenta e inicia aula, que mais parece uma conversa informal. Algo que eu nunca havia vivenciado antes. Existe um ditado popular que diz "a primeira vez a gente nunca esquece", eu concordo. Impossível esquecer e não me surpreender com tudo o que foi dito em pouco mais de uma hora e meia de aula. O professor informou aos alunos que seria um semestre sem provas, sem aulas monótonas, sem livros obrigatórios, sem regras, sem decorebas e, principalmente, sem aprendizagem forçada. Parecia que tudo aquilo que eu sempre esperava ser um modelo ideal de aprendizagem realmente existia. Um método eficaz, chamado pelo professor de Método Natural. Desde as épocas de colégio, fui acostumada a estudar português da seguinte forma: assistindo às aulas, decorando regras, fazendo exercícios e lendo os livros solicitados. Meus professores sempre foram rígidos com horários e muito críticos em suas avaliações. Por isso, escrever se tornava em problema. As redações, assim como no vestibular, tinham tema definidos na hora, eram feitas em sala de aula, em curto espaço de tempo. E ainda, deveria ter como características um texto original e sem erros de pontuação ou ortografia. Caso contrário, poderia aguardar como resultado notas baixíssimas. Foi dessa forma que perdi um pouco o gosto pela leitura e escrita. Mas, o tempo passou. Hoje, já recuperada dessas experiências, consegui resgatar novamente o meu gosto pela leitura e escrita, com a ajuda de... |
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Uma Forma Inédita de Ensinar Clarissa Laux
Durante o sucessivos anos em que estive na escola,sempre ouvi os professore de Língua Portuguesa repetirem, sacal e incessantemente, as regras gramaticais, como se apenas àqueles que tivessem memória suficiente para armazená-las estivesse reservado o sucesso. Era um desfile pavoroso de análises sintáticas, morfológicas, ditongos, tritongos, e outros de seus comparsas. Perdida, eu me perguntava: será que um dia eu serei capaz de gravar tudo isto? Terminei o segundo grau sem conseguir compreender nem a metade das tais regras, mas, surpreendentemente, com ótimas notas em Português. Quando, no entanto, comecei a preparar-me para o tão temido vestibular, achei que era chegada a hora de aprendê-las. Depois de aulas e mais aulas, horas de decoreba sem fim, concluí, estupefata, que ainda não havia assimilado a maioria delas. Resolvi, então, desenvolver e aperfeiçoar aquilo que utilizara durante os anos de colegial: o instinto. Por resultado, obtive quase que a nota máxima em Língua Portuguesa e Redação, e entrei para a faculdade. O leitor deve estar se perguntando, agora, o que quero dizer por instinto. "Terá ela um sexto sentido?", deve estar pensando, com um misto de ironia e incredulidade, em sua cabeça. A resposta é não. E, para afastar qualquer tipo de antipatia precipitada, me explico. Em primeiro lugar, sempre gostei muito de ler. A leitura, além de nos abrir horizontes, nos ensina muito mais do que podemos perceber conscientemente. Isto porque, quando tentamos decorar algo pura e simplesmente, sem muitas vezes nem ao menos entender as razões, criamos como que uma barreira, uma parede por onde os conhecimentos não conseguem passar. Quando, no entanto, nos entregamos à leitura, absorvemos as informações de um jeito que o cérebro aceita, registra e ainda pede mais. E quando fazemos dela um hábito, acabamos por gravar, efetivamente, as tão amedrontadoras regras em nosso subconsciente. Daí por diante, parece que passamos a reconhecer quando algo está errado, mal construído ou mal colocado, apenas pela visão. Mágica? Não. Condicionamento do olhar. Da mesma forma que as regras, todo esse pensamento sempre esteve guardado em algum canto de minha cabeça. Ao mesmo tempo em que acreditava nisto, repreendia-me, pois o que os professores diziam era, senão o contrário total, ao menos discordante. Aí, na primeira aula de Português Aplicado à Comunicação, o professor introduz um conceito completamente novo de ministrar conhecimentos, ao qual ele chama "Método Natural de Aprendizagem". Estupefata, vejo ele pregar o ensino do Português através da leitura, sem a costumeira devoção à Gramática, de forma crítica e interessante. Consigo, então dar voz àquele sentimento de que devia haver algo de errado nas aulas que sempre freqüentei, onde aprender a nossa Língua parecia muito mais um martírio do que algo em que se pudesse encontrar prazer. Assim, o Método Natural de Aprendizado veio ao encontro das idéias que eu tinha. Concordo total e irrestritamente com ele, pois penso que o ensino de Língua Portuguesa deva se dar de forma tal que o aluno se aproxime dela, e não se sinta amedrontado. Deve-se ensinar mais do que regras; o importante é que os alunos aprendam a ler de forma construtiva, tirando deste prazer tudo o que ele pode lhes proporcionar. Este,sem, é um conhecimento efetivo e perene. |
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Fluxo Gramatical de Consciência Aluísio B. Pinheiro
Vogais, consoantes, fonemas, dígrafos, sílaba, palavra, oxítona, paroxítona, proparoxítona. Encontros vocálicos, ditongo, tritongo, hiato e encontros consonantais. Hífen, minúscula, maiúscula, homônimas, parônimas, por quê? Radicais, afixos, tema e desinência, prefixos, sufixos e radicais gregos e latinos. Derivação e composição, onomatopéia, abreviação e hibridismo. Substantivo, artigo, adjetivo, numeral e pronome, verbo, advérbio, preposição e conjunção, interjeição, por quê? Frase, oração e período, verbo transitivo, intransitivo, direto e indireto ou de ligação. Tempos, predicado e predicativo, complementos nominais, agente da passiva, adjuntos adnominais e adverbiais, apostos e vocativos, por quê? Orações sindéticas, períodos compostos, sintaxe, concordância nominal, regência, crase, por que crase? Pronomes oblíquos, vírgula, ponto-e-vírgula, infinitivo conjugável, sinônimos, antônimos, homônimos, parônimos. Figuras de linguagem, metáforas, metonímias, catacrese, elipse, pleonasmo, anacoluto, silepse, hipérbato, hipérbole, eufemismos e ironias, prosopopéias e antítese, por que, por quê??? |
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Criticando o Ensino da Gramática Liane Volpe
A língua portuguesa é matéria das quais mais tive aulas, tanto na minha vida escolar quanto na acadêmica. Gramática foi, sem dúvida, o conteúdo mais ensinado pelos professores. Vou lhes dar um exemplo da aluna aplicada que fui, escrevendo um texto com aspectos da minha aprendizagem. Ditongo crescente: quatro, água, vácuo, ágio, série. Ditongo decrescente: boi, papai, dormiu, véu, jóia. Ditongo oral: mau, céu, gênio. Ditongo nasal: porém, hífen, pólen. Tritongo oral: quais, apaziguou. Hiato: ateísmo, suíno, poeta. Dígrafo: milho, pomba, florescer, enxoval. Aprendi com empregar o trema, o til, acentos diferenciais, diferenciais morfológicos. Crase? Sou perita. Truques de ortografia? Nem se fala. Pontuação gráfica? Pergunte o que quiser. Sei tudo isso e ainda mais. Quanto ao hífen, não me restam dúvidas. Os prefixos de origem latina e grega, tenho memorizados na winchester do meu cérebro, é só ativá-lo. E por aí segue uma lista infindável: concordância nominal e verbal, regência nominal, pronomes pessoais oblíquos átonos... Puxa, professores, muito obrigada. Vocês me transformaram em uma gramática ambulante. Se estou satisfeita? Não. Me sento na frente de um papel em branco e tudo que me vem à cabeça são seus quadros e tabelas de memorização. Fui transformada em uma máquina de memória. Minha sensibilidade de escritora nunca foi trabalhada, e a palavra-chave de um texto, a coesão, ah, essa vocês nunca me falaram a respeito. A vocês todos, que contribuíram para a maquinização do meu ser, nada além do meu desprezo. |
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