Lendo como escritor e escrevendo - uma aprendizagem natural da escrita.

     Gilberto Scarton

"A primeira responsabilidade
do professor é mostrar que escrever é
interessante, possível e que vale a pena."
Frank Smith



"Tudo aponta para a necessidade de
aprendermos a escrever a partir daquilo que
nós lemos. É este o truque a ser explicado."
Frank Smith



 
Creio

CREIO que a função principal da escola é a de desenvolver ao máximo a competência da leitura e da escrita em seus alunos.
CREIO na leitura, porque ler é conhecer - o que aumenta consideravelmente o leque de entendimento, de opção e de decisão das pessoas em geral.
CREIO na leitura como uma reação ao texto, levando o leitor a concordar e a discordar, a decidir sobre a veracidade ou a distorção dos fatos, desmantelando estratégias verbais e fazendo a crítica dos discursos - atitudes essenciais ao estado de vigilância e lucidez de qualquer cidadão.
CREIO na escrita como instrumento de luta pessoal e social, com que o cidadão adquire um novo conceito de ação na sociedade.
CREIO que, quando as pessoas não sabem ler e escrever adequadamente, surgem homens decididos a LER e ESCREVER por elas e para elas.
CREIO que nossas possibilidades de progresso são determinadas e limitadas por nossa competência em leitura e escrita.
CREIO, por isso, que a linguagem constitui a ponte ou o arame farpado mais poderoso para dar passagem ou bloquear o acesso ao poder.
CREIO que o homem é um ser de linguagem, um animal semiológico, com capacidade inata para aprender e dominar sistemas de comunicação.
CREIO, assim, que a linguagem é um DOM, mas um DOM de TODOS, pois o poder de linguagem é apanágio da espécie humana.
CREIO que o educado pode crescer, desenvolver-se e firmar-se lingüisticamente, liberando seus poderes de linguagem, através da simples exposição a bons textos.
CREIO, por isso, em M. Quintana, que afirmou: "Aprendi a escrever lendo, da mesma forma que se aprende a falar ouvindo, naturalmente."
CREIO, pois, no aluno que se ensina, no aluno como um auto/mestre, num processo de auto-ensino.
CREIO que o ato de escrever é, primeiro e antes de tudo, fruto do desejo de nos multiplicarmos, de nos transcendermos, e mesmo de nos imortalizarmos através de nossas palavras.
CREIO, juntamente com quem escreveu aos coríntios, que a um o Espírito dá a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro ainda, o dom de as interpretar.
CREIO que a ti te foi dado o poder da PALAVRA.
CREIO, por isso, na tua paixão pela palavra. Para anunciar esperanças. Para denunciar injustiças. Para in(en)formar o mundo com a-vida-toda-linguagem.
PORTANTO, vem! Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência, da sociedade: tu tens a palavra. A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Gilberto Scarton

 



- Primeira Parte -

1. Considerações Preliminares

     O presente texto é resultado de minha experiência como professor de Língua Portuguesa na disciplina de Português Aplicado à Comunicação, na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUCRS, com alunos de Publicidade e Propaganda, Jornalismo e Relações Públicas.

     Como essa era a última oportunidade de "ensino" formal de língua portuguesa, perguntei-me o que ainda não tinha sido visto pelos alunos e o que, de relevante, poderiam levar para a vida afora. Pensei que seria muito significativo abrir espaço para uma reflexão - seguida de vivência prática - sobre como se aprende ou se desenvolve a competência de redigir.

     Fundamentava a minha opção naquela oportunidade o fato de, no processo de ensino e de aprendizagem, tudo girar em torno do ensino: ensina-se Português, Matemática, Geografia, etc., mas pouco se fala - parece - de como se aprende. Até mesmo nas Faculdades de Educação, haja vista as disciplinas de Didática (em que se discutem técnicas e métodos que o professor deve usar para produzir um ensino eficaz), Prática de Ensino, Avaliação de Ensino. Em suma, tudo voltado para a transmissão do saber.

     Mais recentemente encontrei bibliografia de apoio, principalmente em Eduardo Chaves (eduardo@chaves.com.br), que postula que a ênfase não deve recair sobre o que os professores devem fazer para ensinar bem, mas sobre aquilo que os alunos devem fazer para aprender bem... e como os professores podem ajudá-los. Em outras palavras, diz que "a escola de que precisamos é uma escola centrada no desenvolvimento de competências e de habilidades, na aprendizagem e no aluno, que é quem aprende - e que deve ser ator principal na escola, o protagonista de sua aprendizagem, de sua educação, de sua vida."

     Realizei esse exercício de reflexão e prática durante um semestre, com várias turmas. Foi, como se diz, uma experiência muito gratificante, haja vista os depoimentos dos alunos na auto-avaliação, a natureza dos textos produzidos e o entusiasmo demonstrado pelas turmas.

     O semestre, num total de sessenta horas, foi dividido em dois tempos:

     Durante as 25 horas de ensino presencial:

     Durante as 35 horas destinadas à produção textual:

     Feitas essas considerações, apresento, a seguir, os aspectos teóricos que fundamentaram a prática descrita na segunda parte deste texto. Têm como fio condutor o trabalho de Frank Smith (1983) "Ler como um escritor", em diálogo com outros textos, o que explica as inúmeras citações.


2. O texto: uma vitrine de palavras

     Nas primeiras linhas do texto de Frank Smith, lê-se o que segue:

 
     Questionei o mito segundo o qual uma pessoa pode aprender a escrever através da educação e prática constantes. E deparei com um sério problema: escrever requer uma enorme bagagem de conhecimentos específicos que não podem ser adquiridos em palestras, livros-texto, treinamento, tentativa e erro, ou mesmo pelo próprio exercício da escrita. Um professor pode lançar às crianças tarefas que resultem na produção de uma quantidade pequena, mas aceitável de frases, mas é necessário muito mais do que isso para que alguém se torne um competente e versátil escritor de cartas, relatórios, memorandos, atas, monografias, e talvez até alguns poemas ou obras de ficção esparsos, adequados às exigências e oportunidades de situações extra-classe. Onde é que as pessoas que escrevem adquirem todo o conhecimento de que precisam?

     A conclusão a que cheguei então era tão problemática quanto o problema que precisava resolver: concluí que somente através da leitura é que os escritores aprendem todos os mistérios que conhecem (...) para aprender a escrever, as crianças precisam ler de uma maneira muito especial.


 


     É muito antiga a fórmula "é lendo que se aprende a escrever", e tão divulgada, tão conhecida que parece valer por si mesma, um postulado, que carece demonstrar.

     A mim não me parece que tenhamos que aceitar essa fórmula como uma obviedade, sem mais, nem menos. Acredito que é função da Escola levar os alunos a "aprender a aprender", e, por isso, em nosso caso, refletir e aprofundar a discussão sobre o processo de aprendizagem da escrita, que se dá através da leitura e vivenciá-lo, é tarefa que se impõe em nossas aulas de Língua Portuguesa.

     Feita a observação, seguem mais algumas passagens do autor:

     Mesmo os tipos mais comuns de texto envolvem um vasto número de convenções de complexidade tal que nunca poderiam ser organizados como procedimentos de educação formal. A abrangência de tais convenções é geralmente desconhecida, tanto por professores quanto pelos aprendizes.
 


 
     Onde é que todos estes fatos e exemplos podem ser encontrados, quando não disponíveis em palestras, livros-texto e exercícios a que as crianças são expostas em sala de aula? A única resposta possível parece-me tão óbvia quanto espero que agora seja ao leitor - devem ser encontrados no que outras pessoas escreveram, em textos já existentes. Para se aprender a escrever para jornais, deve-se ler jornais: livros-texto sobre o assunto não serão suficientes. Para escrever artigos de revista, deve-se folhear uma revista antes de fazer um curso por correspondência que ensine a escrever para revistas. Para escrever poesia, ler poesia. Para aprender o estilo convencional de memorando de sua escola, consulte os arquivos de sua escola.

     Isto tudo me pareceu extremamente evidente assim que deixei de lado a ilusão de que a instrução prescritiva podia e tinha que ser suficiente para transmitir pelo menos uma parte daquilo que um escritor precisa saber. Todos os exemplos de língua escrita em uso mostram suas próprias convenções relevantes. Todos demonstram sua própria gramática adequada, sua pontuação e recursos estilísticos variados. Todos são como que vitrines de exposição de palavras. Agora, então, sei onde se encontra o conhecimento de que os escritores necessitam: nos textos existentes. Está lá para ser lido. A questão agora é: como este conhecimento penetra a mente do leitor de modo que ele se torne um escritor? (...)

 


 
     Aprendemos a escrever sem saber que estamos aprendendo ou o que aprendemos. Tudo aponta para a necessidade de aprendermos a escrever a partir daquilo que nós lemos. E este é o truque a ser explicado.
 



3. Ler como um escritor

     A questão que, a seguir, Smith aborda é: como os conhecimentos de que necessitamos e que estão nos textos penetram na mente do leitor? O autor explica que esse conhecimento é adquirido a partir de um processo especial de leitura, que ele domina "ler como um escritor", conforme exemplifica:

 
     A maioria dos adultos letrados está acostumada com a experiência de pausar inesperadamente durante a leitura de um jornal, revista ou livro, a fim de voltar a olhar a grafia de uma palavra que chamou sua atenção. Dizemos a nós mesmos: "Ah, então é assim que se escreve esta palavra", especialmente se a palavra é conhecida, uma que só se tenha ouvido anteriormente, como um nome, no rádio ou na televisão. A palavra pode ou não ser escrita como esperávamos que fosse, mas, de qualquer modo, parece nova. Quando começamos a ler, não esperávamos ter uma lição de ortografia, e nem ao menos estamos conscientes de estarmos prestando atenção à ortografia (ou qualquer outro aspecto técnico da escrita) à medida que lemos. Mas notamos aquela grafia desconhecida - do mesmo modo que notaríamos uma incorreta - porque estamos escrevendo o texto à medida que o lemos. Estamos lendo como um escritor, ou no mínimo como um ortografista. Esta é uma palavra cuja ortografia devemos conhecer, que esperamos conhecer, porque somos o tipo de pessoa que sabe esse tipo de grafia.

     Eis um segundo exemplo. Novamente, estamos casualmente lendo, e novamente encontramo-nos parando para reler uma passagem. Não por causa da ortografia, desta vez, nem porque não tenhamos compreendido o trecho. Na verdade, entendemos muito bem. Voltamos porque alguma coisa naquele trecho foi especialmente bem colocada, porque respondemos ao toque do artista. É algo que nós mesmos gostaríamos de fazer e, ao mesmo tempo, algo que acreditamos não estar fora de nosso alcance. Estivemos lendo como um escritor, como um membro do clube. (...)

 


     E conclui:

 
     Tudo o que o aprendiz gostaria de grafar, o autor grafa. Tudo o que o aprendiz gostaria de pontuar, o autor pontua. Cada nuança de expressão, cada recurso sintático relevante, cada estilo de frase, o autor e o aprendiz escrevem juntos. Passo a passo, uma coisa por vez, mas um número incrível de coisas.
 


     O que se disse pode ser ilustrado mediante o seguinte exemplo, que evidencia possíveis reações de quem lê como um escritor:



     Talvez a maximização da fórmula de "ler como um escritor" seja a de "ler com um lápis na mão":

 
Existem dois tipos de livros, os que se lê e os que se lê sublinhando. Na adolescência, eu certamente teria sublinhado essa frase. Fui uma sublinhadora voraz e nem sempre imune aos clichês. Certos trechos que pareciam encerrar toda a sabedoria do mundo e a chave para decifrar o sentido da vida conquistavam a glória suprema de ganhar um espaço na parede do quarto - copiados com caligrafia caprichada e fixados com durex enroladinha. Quando, em fim, a cola sumia e o cartazinho desabava junto com a pintura, já a tal frase havia ficado invisível no mosaico de fotografias, cartazes e recortes de revistas que então cumpriam a função de anunciar ao mundo - se por acaso o mundo um dia espiasse pela porta do meu quarto - quem morava ali e com o que sonhava quando estava acordada.

Claudia Laitano
Zero Hora, 1/10/03

 


     Um exemplo:

     Ao se ler como um escritor o texto a seguir, os seguintes aspectos deveiam ser notados ou apreciados (entre outros): as repetições, as enumerações e o uso de ponto-e-vírgula nas enumerações.

 
ÚLTIMO DISCURSO DE MARTIN LUTHER KING

Freqüentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é dominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos de morte.
Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num sentido angustiante.
Freqüentemente pergunto a mim mesmo que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui com vocês a resposta.
Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembre-se de que não quero um longo funeral. Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe
- para não falar muito;
- para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante;
- para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que
- eu tentei dar minha vida a serviço dos outros;
- eu tentei amar alguém;
- eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo;
- eu tentei visitar os que estavam na prisão;
- eu tentei vestir um mendigo;
- eu tentei amar e servir a humanidade.
Sim, se quiseres dizer algo, digam que
EU FUI ARAUTO:
- arauto de justiça;
- arauto de paz;
- arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar atrás
- nenhum dinheiro;
- coisas finas e luxuosas.
Só quero deixar atrás
- uma vida de dedicação.
E isto é tudo o que tenho a dizer:
SE EU PUDER
- ajudar alguém e seguir adiante;
- animar alguém com uma canção;
- mostrar a alguém o caminho certo;
- cumprir meu dever de cristão;
- levar a solução para alguém;
- divulgar a mensagem que o Senhor deixou;
então,
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO.
 

4. O que Seherlock Holmes tem a ver com isso

     Para caracterizar este processo de ler como um escritor, que estou tentando descrever, vali-me, muitas vezes, da figura legendária de Sherlock Holmes, para quem o bom investigador deveria ter três grandes qualidades:

     Eis algumas passagens que foram trazidas ao debate, aproximando as qualidades do aprendiz da escrita às de um bom investigador.

     Sobre a observação:

 
"Há muito adoto o axioma de que as pequenas coisas são infinitamente mais importantes." "Você conhece meu método. Ele está baseado na observação das insignificâncias."
 


 
     "Você parece ter visto nela uma série de coisas que permaneceram invisíveis para mim", foi meu comentário. Não invisíveis mas despercebidas, Watson. Você não sabia para onde olhar e por isso perdeu tudo que era importante. Eu nunca consigo fazer você perceber a importância das mangas das roupas, o caráter sugestivo das unhas dos polegares ou as grandes pistas que estão atadas aos cadarços de uma bota. Agora, o que você conseguiu perceber da aparência daquela mulher? Descreva."

"Bem, ela tinha um chapéu de palha de aba larga, de um azul-acinzentado, com uma pluma de cor vermelho-tijolo. Sua jaqueta era preta, bordada com contas negras e com uma franja de delicados ornamentos negros. Seu vestido era marrom, mais escuro do que cor de café, com detalhes em pelúcia púrpura na gola e nas mangas. Suas luvas eram acinzentadas e estavam gastas na ponta do dedo indicador direito. Não observei suas botas. Ela usava um pequeno pingente de ouro redondo nas orelhas e um certo ar de estar razoavelmente bem para ir levando uma vida vulgar, confortável, despreocupada."

Sherlock Holmes estalou as mãos em um aplauso suave e riu furtivamente.

"Palavra de honra, Watson, você está se saindo muito bem. Fez um ótimo trabalho de fato. É bem verdade que deixou escapar todas as coisas importantes, mas você acertou no método e, ademais, tem um olho clínico para as cores. Nunca confie nas impressões gerais, mas concentre-se nos pormenores, meu caro. Eu sempre lanço o olhar, primeiramente, nas mangas de uma mulher. Em um homem, talvez seja melhor considerar primeiro a parte dos joelhos das calças. Como você observou, a mulher tinha pelúcia em suas mangas, o que é um material muito útil para mostrar pistas. A linha dupla um pouco acima do punho no exato lugar que a datilógrafa pressiona contra a mesa estava maravilhosamente definida. Uma máquina de costura, de tipo manual, deixa marca semelhante, mas apenas no braço esquerdo, e na parte que é mais distante do polegar, ao contrário desta marca que mostra o vinco em quase toda a extensão. Então, dei uma olhadela no seu rosto e, observando a mancha deixada por um pince-nez de ambos os lados do nariz, aventurei um comentário sobre vista curta e datilografia, o que a deixou surpresa."
 


     Sobre o conhecimento (de textos que devem abarrotar nossa mente):

 
"Veja você... considero que, originalmente, o cérebro de um homem é semelhante a um ático vazio, que pode ser povoado com a mobília que se desejar.

Um tolo abarrota-o com toda a espécie de traste que encontra pela frente , de modo que o conhecimento que lhe pode ser útil fica de fora ou, quando muito, soterrado no meio de muitas outras coisas, tornando-se assim muito difícil o acesso até ele.

Agora, o profissional hábil é muito criterioso com o que introduz em seu cérebro-ático."
 



5. O que acontece quando estamos lendo?

     Para aprofundar a questão central da tese de Smith, busquei auxilio em autores que tratam de estratégias de leitura, pois "ler como um escritor" é uma delas. E por isso levei para a reflexão e a discussão em sala de aula idéias do capitulo "A metacognição", de Vilson J. Leffa ( 1996).

     Uma das características fundamentais do processo de leitura é a capacidade que o leitor possui de avaliar, de monitorar a qualidade da compreensão do que está lendo. O leitor, em determinado momento de sua leitura, volta-se para si mesmo e se concentra não no conteúdo, mas no processo que conscientemente utiliza para chegar ao conteúdo. É o fenômeno da metacognição.

     A metacognição envolve, portanto:

     a) a habilidade para monitorar a própria compreensão ("Estou entendendo muito bem o que o autor está dizendo", "Esta parte está mais dificil, mas dá para pegar a idéia principal", etc.);

     b) a habilidade de tomar as medidas adequadas quando a compreensão falha, ("Vou ter que reler este parágrafo", "Essa dever ser uma palavra chave no texto. Vou ver no glossário", etc.).

     Brown (apud Leffa, 1996) define metacognição como um conjunto de estratégias de leitura que se caracteriza pelo "controle planejado e deliberado das atividades que levam à compreensão". Entre essas atividades, destacam-se:

     A metacognição, no entanto, não se refere apenas ao monitoramento na compreensão do conteúdo. Estamos também envolvidos num processo de metacognição, quando analisamos a forma lingüística do texto, a linguagem (metalinguagem). Isso se dá quando lemos como um escritor. Aqui também o leitor volta-se para si mesmo e avalia, analisa a forma ou reflete sobre ela. (Ah! este texto começa mediante uma fórmula muito empregada, através de uma pergunta... Muito bem estruturado este texto... com importantes elementos coesivos. Esta frase curta e esta outra construção nominal estão bem inseridas nesta passagem... Ah! é assim, então, que se escreve esta palavra!...).

      Para finalizar, registre-se, com base em Leffa (1996), que

     a) a metacognição desenvolve-se com a idade;

     b) a metacognição correlaciona-se com a proficiência em leitura. Leitores fluentes têm mais consciência de seus comportamentos de leitura. São mais capazes de avaliar sua própria compreensão, selecionar as melhores estratégias de reparo, etc.

     c) O comportamento metacognitivo melhora com a instrução. Tem-se observado, por exemplo, que crianças expostas ao treinamento sistemático de monitoramento melhoram a compreensão do texto. Nós temos observado também que alunos universitários, levados ao longo de dois ou três meses de aula a observarem ou monitorarem a forma lingúística do texto, têm um desempenho linguístico melhor.


6. E Vygostky?

     Na verdade, conheci um pouco de Vygotsky depois que trabalhei com estas idéias que estou a expor. É que uma aluna me chamou de "construtivista", e eu tive que saber o que eu era mesmo. Socorreu-me na empreitada a Profª Carmem Sanson, do curso de Mestrado em Educação.

     A repercussão que as idéias do psicólogo russo vem obtendo no Brasil tem o sentido de uma redescoberta: tendo falecido em 1934, sua obra enfrentou décadas de censura imposta pelo regime stalinista, e somente em meados dos anos 60 seus estudos chegaram ao Ocidente. Hoje, representa uma tendência cada vez mais presente no debate educacional, pois Vygotsky deixou idéias extremamente sugestivas que devem continuar inspirando por este século afora diferentes tentativas de renovação para a construção de uma nova escola.

     Se fosse sintetizar a aplicação de seu pensamento na educação, poder-se-ia dizer que de sua linha socioconstrutivista se depreendem novos referenciais, levando a uma nova pedagogia, a uma pedagogia interativa , mediatizada, colaborativa, ativa, dialógica, em suma, construtivista, com características sociointeracionistas.

     A idéia de que nenhum conhecimento é construído pela pessoa sozinha, mas sim em parceria com os outros, que são os mediadores, é própria da psicologia socioconstrutivista de Vygotsky, teoria que traz em seu bojo a concepção de que todo o ser humano se constitui como tal mediante as relações que estabelece com os outros.

     Essa idéia de mediação está claramente posto em Frank Smith: o escritor se constitui como tal, se constrói mediante as relações que estabelece com os textos de outros escritores:

 
Já discutíamos como os adultos e amigos mais competentes agem como colaboradores involuntários à medida que a criança aprende sobre a linguagem falada. As crianças aprendem indiretamente (...) O argumento que usarei agora é que todo aquele que se torna um escritor competente usa os autores exatamente do mesmo modo, mesmo as crianças. Elas devem ler como um escritor, a fim de aprender a escrever como um escritor. Não existe outra maneira de adquirir o conhecimento de um escritor em sua intricada complexidade.
 



7. Frank Smith e Celso Luft

     Frank Smith e Celso Luft têm o mesmo entendimento acerca do processo de internalização das convenções da escrita.

     De Frank Smith:

 
A alternativa que tenho a propor é a de que o conhecimento de todas as convenções da escrita penetra em nossa mente assim como a maior parte do nosso conhecimento da linguagem falada, e até do mundo em geral, sem consciência do aprendizado que está ocorrendo. A aprendizagem é inconsciente, sem esforço, acidental, indireta e essencialmente cooperativa. É acidental porque aprendemos quando aprender não é nossa principal intenção; indireta porque aprendemos através do que outra pessoa faz; e cooperativa porque aprendemos pela ajuda de outros para que alcancemos nossos próprios objetivos.
 


     De Celso Luft, ao propor uma aprendizagem natural de língua materna:

 
     A primeira aprendizagem da língua: um processo natural. Base (natural): a capacidade humana inata da linguagem (o homem é um ser de linguagem), capacidade de aprender e dominar sistemas de comunicação verbal.
     Condições: exposição a atos de fala, para que a criança possa, intuitivamente, depreender as regras (a "gramática") subjacentes. Ao natural, a criança (pequeno lingüista, gramático) internaliza aquela gramática a que se vê exposta; determinado nível linguístico correspondente a determinado nível sociocultural: analfabeto, classe média, alta. Ao fim deste estágio (5-7 anos), a criança é portadora de uma gramática implícita (GI) da língua.
     2. A segunda aprendizagem: na escola. Tese: o ideal é que também seja um processo natural. Por exposição a atos de fala e escrita , atos de comunicação (agora mais elevada, mais formal). Exposição à língua culta padrão. Desenvolvimento, ampliação, complementação da primeira aprendizagem e enriquecimento dos recursos expressionais da língua pela exposição do falante/ escrevente a modelos adequados de fala/escrita (olha a ordem!)... para que o aluno, ao natural (isto é, intuitivamente, com seus poderes de linguagem), possa ir complementando seu estoque interior de regras, a sua gramática interna, implícita (GI).

     6. Teoricamente, pode uma pessoa chegar a manejar superiormente (e até artisticamente) seu idioma mediante conhecimento e domínio apenas intuitivo (gramática implícita), educada habilitada pela prática natural de linguagem (muita leitura, muita exposição a bons textos, e muita escrita: "Aprendi a escrever lendo, da mesma forma que se aprende a falar ouvindo naturalmente..." M. Quintana). Grandes escritores, oradores e poetas comprovam Isso. Que estudos gramaticais realizou Machado de Assis? Quem ensinou Gramática (e análise sintática d' Os Lusíadas...) a Camões? A Homero?...
 



8. Assimilação, imitação e plágio

     Recorrendo a Albalat (1934), encontro no capítulo dedicado à leitura, a seguinte passagem:

     Eis o ponto de partida para o ato de escrever: o ler, o saber ler, o ler como um escritor, monitorar a própria leitura, o observar o texto, o surpreender-se, o admirar-se diante do texto, o que pode levar a escrever o que se lê (forma e conteúdo), a imitar, a recriar e, em casos extremos, até copiar, apoderando-se dos achados e belezas alheias.

 
O talento nada mais é do que assimilação (p.28)
 


     Assimilação, naturalmente, do que encontramos em outros textos.

     Antes, no entanto, o crítico francês já havia escrito na mesma obra:

 
A admiração conduz à imitação, e a imitação é um meio de assimilar as belezas alheias (p.15)
 


     A propósito do assunto, mais três referências:

     A primeira é de Olavo Carvalho, extraída do artigo "Aprendendo a escrever" ( O Globo, 03/02/01).

 
     A seleção das leituras deve nortear-se, antes de tudo, pelo anseio de apreender, na variedade do que se lê, as regras não escritas desse código universal que une Shakespeare a Homero, Dante a Faulkner, Camilo a Sófocles e Eurípides, Elliot a Confúcio e Jalal-Ed-Din Rûmi.
     Compreendida assim, a leitura tem algo de uma aventura iniciática: é a conquista da palavra perdida que dá acesso às chaves de um reino oculto. Fora disso, é rotina profissional, pedantismo ou divertimento pueril.
     Mas a aquisição do código supõe, além da leitura, a absorção ativa. É preciso que você, além de ouvir, pratique a língua do escritor que está lendo. Praticar, em português antigo, significa também conversar. Se você está lendo Dante, busque escrever como Dante. Traduza trechos dele, imite o tom, as alusões simbólicas, a maneira, a visão do mundo. A imitação é a única maneira de assimilar profundamente. Se é impossível você aprender inglês ou espanhol só de ouvir, sem nunca tentar falar, por que seria diferente com o estilo dos escritores?
     O fetichismo atual da "originalidade" e da "criatividade" inibe a prática da imitação. Quer que os aprendizes criem a partir do nada, ou da pura linguagem da mídia. O máximo que eles conseguem é produzir criativamente banalidades padronizadas.
     Ninguém chega à originalidade sem ter dominado a técnica da imitação. Imitar não vai tornar você um idiota servil, primeiro porque nenhum idiota servil se eleva à altura de poder imitar os grandes, segundo porque, imitando um, depois outro e outro e outro mais, você não ficará parecido com nenhum deles, mas, compondo com o que aprendeu deles o seu arsenal pessoal de modos de dizer, acabará no fim das contas sendo você mesmo, apenas potencializado e enobrecido pelas armas que adquiriu.
     É nesse e só nesse sentido que, lendo, se aprende a escrever. É um ler que supõe a busca seletiva da unidade por trás da variedade, o aprendizado pela imitação ativa e a constituição do repertório pessoal em permanente acréscimo e desenvolvimento. Muitos que hoje posam de escritores não apenas jamais passaram por esse aprendizado como nem sequer imaginam que ele exista.
     Mas, fora dele, tudo é barbárie e incultura industrializada.
 


     As duas outras, são de nossos escritores:

     De Moacyr Scliar:

 
     "...que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler.É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guarda-las no reservatório que temos em nossa mente e utiliza-las para compor depois nossas próprias palavras.
      Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros; não se incomodaram com isso e copiar me fez muito bem."
 


     De Luis Antonio de Assis Brasil:

 
"Todo mundo começa imitando alguém. É na vida. É nas artes. Não há mal nenhum. A leitura de um livro empolgante desperta o imediato desejo:
- Eu gostaria de escrever assim.
O primeiro romance que li inteiro foi "O Primo Basílio", isso lá pelos 13 ou 14 anos. Ao terminá-lo, decidi que, se me tornasse escritor, escreveria um livro igualzinho."
 



- Segunda Parte - Textos de alunos

 
Por uma aprendizagem natural da escrita

Sem professor. Sem aula. Sem provas. Sem notas.
Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração.
Sem estresse!
Só tu.
Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco.
Que impassível espera ser preenchida, para entretecer contigo a teia de palavras que liga todas as dimensões de tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para contigo, de ti para o outro.
Sem.
Só tu.
Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando esperanças. Denunciando injustiças. In(en)formando o mundo com tua-vida-toda-linguagem.
Sem!
Levanta tua voz: em meio às desfigurações da existência, da sociedade, tu tens a palavra.
A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Gilberto Scarton

 


Introdução

     Apresento, nesta parte, textos produzidos por alunos da disciplina "Português Aplicado à Comunicação", da Faculdade dos Meios de Comunicação Social - PUCRS. Formam uma pequena antologia, resultado do processo de ler como um escritor.

     Os textos ilustram a apropriação, por parte do aluno, dos seguintes traços estilísticos, técnicas ou tipos de textos:

     Por oportuno, enfatizo as limitações dessa exemplificação, uma vez que se trata de textos, digamos assim, mais literários. Não faltará ocasião, no entanto, de ilustrar o processo de que me ocupo com a produção de textos referenciais do tipo:

     Anexei ainda dois conjuntos de textos de alunos: o primeiro faz uma reflexão crítica sobre a gramática, (importante, ao meu ver, já que o propósito do presente estudo é discorrer sobre o processo de desenvolvimento da habilidade de escrever); o segundo contém a avaliação da experiência por que passaram neste processo de ler como um escritor.

     Na transcrição dos textos a seguir, apresentam-se, primeiramente, textos modelares que se caracterizam pelo traço lingüístico, técnica ou gramática que se deseja que o aluno incorpore a seu universo verbal a partir da observação, da análise, da leitura inteligente (ler como um escritor), processo que pode ser mediado pelo professor; em seguida, os textos dos alunos.

     Aos textos!


1. Fluxo de consciência

     Othon Garcia assim caracteriza a frase ou o texto que se vale da técnica do fluxo de consciência:

"Resta-nos agora dizer alguma coisa sobre a frase caótica, denominação que não tem nenhum sentido depreciativo. Trata-se de uma frase que muito nos lembra "depoimento" feito em sofá de psiquiatra, como expressão livre, desinibida, desenfreada, de pensamentos e emoções, sem o crivo da razão. Sua feição mais comum é a do monólogo interior em que o narrador (ela só aparece no gênero de ficção) apresenta as reações íntimas de determinada personagem como se as surpreendesse "in natura", como se elas brotassem diretamente da consciência, livres e espontâneas. O autor "larga" a personagem, deixa-a entregue a si mesma, às suas divagações, em monólogo com seus botões, esquecida da presença de leitor ou ouvinte. Daí, o seu tom incoerente, incoerência que pode refletir-se tanto numa ruptura dos enlaces sintáticos tradicionais quanto numa associação livre de idéias aparentemente desconexas. (Garcia, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1969, p. 101)

     Observo, no entanto, que a teorização não deve preceder a análise do texto. Assim, a caracterização do fluxo de consciência deve ser feita a partir do exame do texto.

1.1. Texto-modelo
Tlíquete/Tléquete
      Gilberto Scarton

1.2. Textos de alunos
- Puts
      Gabriel da Costa Schmidt

- Olhos verdes no retrovisor
      Stefani Leiria Ligocki

- Meu mundinho
      Sheila Feijó Fantinel

- Controle remoto
      Fernanda Silva Dora


1.1 Texto-modelo

 
Tléquete/Tlíquete

Gilberto Scarton

     O Zaffari da Ipiranga não deixa de ser um ponto de encontro, talvez meu novo ponto de referência, te vi lá, ontem, teu carrinho (tinha uma roda defeituosa?) fazia tléquete-tléquete, e te segui, sabes, eu queria saber de ti, afinal lá se vão alguns anos desde que... deixa pra lá... paraste na seção de artigos para aniversário, balões, copos de plástico, canudinhos, alguém de aniversário? a Júlia? dez anos! tléquete-tléquete na imensidão da loja, e se eu desse a volta e, em vez de te seguir, fosse a teu encontro, fosse de encontro ao teu carrinho e batesse "oh! desculpa!" tua olharias o infrator e... deixa pra lá... minha timidez, bem sabes, me impediria a tanto, de modo que fui te seguindo, tu compravas guardanapos e eu remexia nas prateleiras um pouco bastante atrás, um pouco atrás que eu quisera quase nada, anseio do meu coração para chegar a ti, bastante atrás que é a distância do meu medo, numa ponta pude avistar que compravas refrigerantes, e na outra disfarçavas examinando uma nova marca de cerveja, depois, erguendo a cabeça sobre compradores e produtos pude ver que desaparecias, caminhei então mais rápido e ouvi o tléquete-tléquete logo mais adiante, eu-na-paixaria, tu-na-fila-do-cafezinho, quem sabe aí pelo menos um "oi!" que eu pudesse te dar, a que tu responderias, talvez com um ar de surpresa, quem sabe de espanto, ou de indiferença, que repercutiria no meu coração como um tlíquete, um tlíquete de coisa partida, quase silenciosamente partida, doidamente partida, irrecuperavelmente partida, mas quem sabe, houvesse dois "oh!", vindos lá do fundo de nossas almas e "estava mesmo com vontade de te ver", "eu também", "saber como tu vais", "eu também", e te tendo assim tão perto comparar teu rosto com teu rosto de antigamente, a cor dos alhos, a mesma, o cabelo mais curto, o mesmo talhe esguio do teu corpo, óleo Violeta X azeite Beira Alta, Isabela X Coroa, tléquete-tlíquete, pepino/palmito, cebola/tomate, eu-fazendo-de-conta-de-escolher-batata/tu-alface, teu carrinho/meu coração, "vê como subiu o preço de ervilha?", "que bom te ver", "como o palmito está caro!", mas nada disso, nem isso, nem uma palavra, nem um cruzamento de olhares, nem um esbarrão casual, nem uma ultrapassagem rápida (e perigosa!), nada, discos/bebidas, Al de lá/conhaque macieira, chocolate/balas, livros/revistas, aqui/aí, des/encontros, um tléquete na loja, um tlíquete no coração.

     In "Contos de Oficina"
 


1.2 Textos de Alunos

 
puts!

Gabriel da Costa Schmidt

     Tô de aniversário, me disseram que estou fazendo três anos, como? se eu nem sei o que são anos, só sei que estou fazendo três e que hoje sou importante, mas por outro lado vou ter que agüentar um monte de velhos me bajulando, apertando minhas bochechas e dizendo: como tá grandinho! se aquela gorda bigoduda, da creche, vier pra cima de mim vou cuspir, cuspir no meio da cara dela, e vai ser daqueles bem verdes, ainda mais que tô encatarrado, depois dou uma choradinha e pronto, todos vão me perdoar... cadê a mãe, hein?! será que ela não notou que eu tô todo cagado, já tá até ardendo... aí vem ela, puts, banho! a mãe tá achando que eu vou usar este uniformizinho babaca, não mesmo, ainda mais que tem um patinho amarelo desenhado, acho que ela não se deu conta que eu estou ficando velho, puts, acho que ela não está muito preocupada com a minha simplória opinião, não, nããããããããoooooooo, estou parecendo um daqueles babaquinhas dos comerciais da Parmalat, mas não vai durar muito tempo, puts, quanta gente! cadê os presentes? sem beijos, sem beijos, eu disse presen... ugh! argh! irc! ecs! outs, me pegaram... tu não, sai fora januru, eu tô avisando hein, não te aproxima, sai, saaaaaaai hec cusp, toma, bem no narigão, hahahá, acho que a tia vai ter que assoar o nariz, tô precisando de uma gelatina, só uma gelatina, ali, me dá, plec! acho que a mãe vai ter trocar a minha roupinha, sem gritos, sem gritos... tô de aniversário, que saco: só ganho roupa, deve ter roupa pro resto da minha vida em cima do meu berço, vai me dar um trabalhão para destruí-las, mas vai ser legal, onde estão os brinquedos, estou falando de brinquedos, não destas coisinhas para babaquinhas que estão infestando o meu quarto, acho que se juntar todos os chocalhos e as roupinhas que eu tenho daria para montar uma escola de samba, pelo menos a bateria e as fantasias estariam garantidas, o tema seria: "Dura vida de bebê", por que aquele gurizinho tá olhando para a minha moto? nem pense nisto, olha que eu tô com a minha Espada Justiceira, acho bom você desistir, ah é, é? então toma, POFT... papai? foi ele que começou, buaaaaá... tudo bem, pai, nós vamos ser amigos, né panacão? hahahá, não acredito, logo no MEU aniversário, mas isto não fica assim, ah se não fica, ainda mais agora que estou com a minha Espada Justiceira, vou pegá-lo, juro que vou pegar esta toupeira que colocou o CD do Tiririca, esta música está destruindo os meus ouvidos, pior que isto, se é que existe algo pior, só mesmo o CD dos Mamonas, bom... estes já foram, como diz o ditado: "Deus tarda mas não falha" hahahá, ô DJ, coloca uma lenta aí que eu vou chegar naquela ali ó, de vermelho, que gracinha né, agora que eu já tô com a minha camisa do Inter, hahahá, ela não vai resistir, vem cá, querida, sei que por trás desta fralda está escondida a bundinha mais linda e fofinha da festa. Agora o Dj mandou bem, a Xuxa é mesmo demais! o nome desta música é: Meu cãozinho Xuxo e ela fez pro seu cachorrinho que morreu, vou chegar por trás e mandar a minha melhor cantada: "ficar pertinho de você é melhor do que tirar aquele tatuzão do nariz, aquele que ao invés de minhoca parece mais um mussum", não disse, essa não falha, ela já se derreteu todinha, agora é só uma questão de tempo, puts, foto não, foto não, logo agora que eu estava com a mina, pô tia, cadê a Espada Justiceira, quando eu falo não, é não e pronto, buáááááá... deixa eu brincar com esta máquina... crash, puts, caiu, tira o raio destas fotos agora, hahahá, até que eu me divirto nestes aniversários, hahahá...
 


 
Olhos verdes no retrovisor

Stefani Leiria Ligocki

     Dou a segunda volta na fechadura de casa no momento em que olho para o relógio, são oito horas, horário em que deveria estar no escritório, naquela reunião com meu chefe e assessores, mas estou aqui, ainda virando a chave do meu carro que não quer pegar, não deveria ter comprado carro a álcool, enfim o carro pega, saio da garagem do prédio, piso fundo no acelerador rumo ao primeiro engarrafamento do dia, já tem uma Brasília caindo aos pedaços na minha frente, não anda, se arrasta, buzino, outro carro buzina, todos buzinam, o sinal abre, os carros se movem um pouco, já estamos parados outra vez, abre uma brecha no trânsito, faço sinal para mudar de faixa, um Vectra se adianta e toma o meu lugar, entro logo atrás dele, quero saber quem cortou a minha frente, encosto meu Opala bem perto da traseira do Vectra, vejo os cabelos loiros colados ao banco do motorista, me parece uma mulher, quero ver seu rosto, apressadinha, anda me mostra, vira pra cá, no vidro traseiro do carro tem um adesivo com dizeres irônicos: "se você consegue ler isto é porque está muito perto", sim, estou perto do teu paralama, longe do trabalho e do provável esporro do chefe, mas faço questão de ver quem é a barbeira da frente, desvio o olhar para o seu retrovisor interno e............... estou hipnotizado, são os olhos mais lindos que já vi, verdes, luminosos, radiantes a me olhar ironicamente, me desafiando, sim, aquela mulher tem olhos extraordinários, meus olhos estão fixos naqueles olhos que se mexem na direção do semáforo que está verde, ela arranca, vou atrás, quero ver o rosto da dona daqueles olhos estupendos, se os seus olhos são lindos desse jeito como será o resto? como serão os traços do rosto que contém esses olhos, será que são tão hipnotizantes e resplandescentes como aquele olhar? O sinal fecha de novo, os carros vão se posicionando, consigo ficar ao lado do Vectra, e agora vou virar a cabeça para a esquerda e aqueles olhos que só vi pelo retrovisor vão estar esperando a minha correspondência, viro a cabeça como num movimento cinematográfico, em câmera lenta, neste momento vejo o rosto que não frustra as minhas expectativas, é um rosto tão lindo quanto aqueles olhos verdes, sorrio para a moça como que perguntando "Por que você fez aquilo?", ela me responde com outro sorriso que escancara toda a sua beleza, leio seus lábios vermelhos que dizem "desculpe, estou com pressa", faço menção de perguntar se nome, telefone, sei lá, entretanto o semáforo é implacável, se torna verde, o Vectra sai cantando os pneus e entra rapidamente à esquerda, sem ao menos me dar tempo de mirar mais uma vezaqueles olhos verdes, o motorista de trás já ofende minha mãe pela demora que levo para arrancar em direção ao trabalho, onde meu chefe já deve estar verde de raiva.
 


 
Meu mundinho

Scheila Feijó Fantinel

     Ai, como é bom aqui dentro: quentinho, escuro, só quero dormir, às vezes dou uns chutes e soquinhos, é a forma que tenho de chamar a atenção, ouvi mamãe dizer que devo chegar no próximo mês, mas chegar aonde? Será que vou ter que deixar essa vidinha maravilhosa? Sei lá, o papai e a mamãe falam coisas que eu não entendo, me chamam de Carolzinha e enfeitam meu quarto de rosa pink, que coisa mais feia! Eu gosto é de cor-de-laranja e o meu nome é José, JO-SÉ, e não zezinho... outro dia me senti mal, estava muito apertado, eu crescendo e o espaço diminuindo, daí pensei em sair daqui, mas bateu uma deprê ao me imaginar longe de todos, lutando pelo meu alimento, sofrendo agressões, sendo um ser humano comum, desisti! Vou ficar no meu canto, quietinho, recebendo carinho, alimento e esperando a minha hora... nas últimas semanas resolvi dar uma virada na minha vida: coloquei os pés para cima e a cabeça para baixo e entrei em uma fase zen, de muita meditação e descoberta interna... percebi que está tudo agitado lá fora, todos correndo de um lado para outro, apenas mamãe está calma, no entanto, comecei a sentir uma grande pressão e aí a correria foi total, no caminho de casa para sei lá aonde, percebi que chegou a hora... faz isso, faz aquilo, mexe aqui, aperta li, deita, senta, É AGORAAAAAAAAAA! Vi um clarão, ouvi gritos e fui expelido, que nojento! Me bateram e depois me embrulharam, me senti um nada, depois todos queriam me ver e alguns choravam na minha presença, acho que não me amam! Será que sou feio? Essa vida externa é bastante complicada...
 


 
Controle remoto

Fernanda Silva Dora

     Txxxxx... ó meu Deus não faça isso, não faça isso, nãããããããããããão! ...txxxxx... realmente, houve a intenção do jogador, e isso caracteriza o pênalti, está correto o árbitro ...txxxxx... quinta-feira, nove da noite, rockhistória e acústico Nirvana ...txxxxx... não Jack, largue esta arma, pense Jack, não vai valer a pena, pare Jack, pare ...txxxxx... sem querer interromper, já interrompendo, qual a sua aituação em relação à CPI dos Precatórios... bem, eu não tenho nada a ver com isto, quem está me envolvendo nisso está mentindo ...txxxxx... mama África, a minha mãe, é mãe solteira, e tem que fazer mamadeira todo o dia, além de trabalha como empacotadeira nas Casas Bahia ...txxxxx... Carly, please, open the door, c'mom, open the door, I love you, I love...txxxxx... daí o senhor Jesus me libertou daquela angústia …txxxxx… o Cineview chegou ao fim, mas não fique triste, semana que vem tem mais ...txxxxx... incêndio em prédio no centro de São Paulo assusta moradores... txxxxx... uhhh, aahhh, ligue, estou esperando você, 0900211076 ...txxxxx... and the Chigaco Bullls have the last shot ...txxxxx... boa noite ...txxxxx... e, um beijo do gordo.
 



2. O emprego da figura da repetição


     "Se a repetição resultante de pobreza de vocabulário ou de falta de imaginação para variar a estrutura da frase constitui defeito bastante considerável, a repetição intencional representa um dos recursos mais férteis de que dispõe a linguagem para realçar as idéias: 'Tudo se encadeia, tudo se prolonga, tudo se continua no mundo...(O. Bilac)' Se à repetição se aliam ainda outros artifícios de estilo como a gradação (ascendente ou descendente) e efeitos melódicos, a frase chega a saturar-se de intensificações, como o seguinte exemplo de Rui Barbosa: 'Mentira de tudo, em tudo e por tudo (...) Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos, nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações, nos blocos.' Note-se a superabundância dos recursos de que se serve o Autor para realçar as idéias: a repetição intencional da palavra-chave mentira as aliterações (protestos, promessas, programas, projetos, progressos), os ecos (convicções, transmutações, soluções) as gradações ascendentes (clímax) das três frases finais, constituídas pela enumeração dos adjuntos, a começar de "nos homens" até "nos blocos". Assinale-se ainda a estrutura nominal das frases e o seu feitio entrecortado ou asmático. (Garcia, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 2 ed. Rio de Janeiro:Fundação Getúlio Vargas, 1969, p. 255-256).


2.1 Textos-modelos
- Último discurso de Martin Luther King
      Martin Luther King

- Mentira
      Rui Barbosa

- Dia de agradecer
      Ivete Brandalise


2.2 Textos de Alunos
- Arriscar é Viver
      Deise Konhardt Ribeiro

- Medo
      Juliana Duzzo

- Saudades
      Kátia Simone Menegat

-............................
      Fabio Abreu dos Santos


2.1 Textos-modelos

 
Último discurso de Martin Luther King

Martin Luther King

     Freqüentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é o denominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos morte.
Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num sentido angustiante.
Freqüentemente pergunto a mim mesmo o que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui com vocês a resposta.
Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembrem-se de que não quero um longo funeral.
Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe:

  • para não falar muito;
  • para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante;
  • para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que

  • eu tentei dar minha vida a serviço dos outros;
  • eu tentei amar alguém;
  • eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo;
  • eu tentei visitar os que estavam na prisão;
  • eu tentei vestir um mendigo;
  • eu tentei amar e servir a humanidade.
Sim, se quiserem dizer algo, digam que
      EU FUI ARAUTO:

  • arauto da justiça;
  • arauto da paz;
  • arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar atrás

  • nenhum dinheiro;
  • coisas finas e luxuosas.
Só quero deixar atrás

  • uma vida de dedicação.
E isto é tudo o que eu tenho a dizer:
      SE EU PUDER

  • ajudar alguém a seguir adiante;
  • animar alguém com uma canção;
  • mostra a alguém o caminho certo;
  • cumprir meu dever de cristão;
  • levar a solução para alguém;
  • divulgar a mensagem que o Senhor deixou;
então,
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO.
 


 
Mentira

Rui Barbosa

     Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, no céu. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos progressos. Mentira nos projetos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. (...) Mentira nas instituições, mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira.
 


 
Dia de Agradecer

Ivete Brandalise

     Obrigada por esse céu que se fez azul depois de tanta tempestade. Obrigada pela tempestade que me fez sonhar e desejar e descobrir o azul do céu.
     Obrigada pelo horizonte que meus olhos não alcançam, embora o concreto tente limitar meu mundo. Obrigada pelas frestas que ainda existem e que me deixam encontrar o céu, saber das nuvens, navegar pela mansidão do Guaíba, percorrendo ilhas e pontes, me perdendo e me achando em espaços indefinidos.
     Obrigada pela primavera que aconteceu em mim, pelas flores que brotaram na noite e se ofereceram regadas de orvalho na manhã. Obrigada pela manhã que veio luminosa.
     Obrigada pela noite que veio banhada de lua. Obrigada pelas estrelas que passearam por meus olhos. Obrigada pelos olhos que ainda se deixam salpicar de estrelas.
     Obrigada pelo riso, que ainda povoa minha vida. Obrigada pelos encantamentos que eu ainda encontro no riso fácil dos meus anjos loiros. Obrigada pelos anjos que fazem a minha poesia, as minhas canções, a minha alegria, o meu amor, até as minhas apreensões.
     Obrigada pelo amor que ainda existe em mim e me faz reviver na possibilidade de entrega. Obrigada pela ternura que a criança ainda sente num beijo meu.
     Obrigada pelas saudades que eu tenho, pelo bem-querer que não morreu.
     Obrigada pelo meu trabalho, pelo meu dia, pela minha noite, pelo meu ontem, pelo meu amanhã. Obrigada pelo alimento, pelo abrigo, pela vida, pelo amigo.
     Mas não agradeço o amigo que não tive, muito menos o amigo que partiu. Não agradeço a fome, o ódio, a guerra. Não agradeço a solidão. Não posso agradecer o sofrimento, o desamparo, o desemprego. Não posso agradecer as injustiças. Não posso agradecer a angústia, as tensões, a poluição. Não posso agradecer as perdas, os desencontros, os desencantos.
     Perco o jeito de agradecer quando encontro criança perdida na noite e me calo e me omito e deixo que ela se encolha na porta de um edifício e cubra seu frio com os jornais, e cubra sua miséria com o meu descaso e cubra sua infância sofrida com sonhos de um tempo melhor.
     Perco o jeito de agradecer quando vejo a flor murchando nas mãos magras e sujas da criança esmoleira. Perco o jeito de agradecer quando vejo que as cores não pertencem a todas as criança, as flores não brotam para toda a gente, o dia é luminoso para muito poucos. E perco o jeito de agradecer quando descubro que o "obrigada" deve vir no singular, que o amor, a ternura, o alimento, a alegria não existem para todo mundo.
     Perco o jeito de agradecer quando me sinto culpada de agradecer.
 


2.2 Textos de Alunos

 
Arriscar é Viver...

Deise Konhardt Ribero

Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor se eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Viver é arriscar-se a morrer.
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.
Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...
 


 
Medo

Juliana Duzzo

Medo de falar, de ouvir...
De falar muito e muito pouco, de ouvir o que não se quer, ou o que se queria ouvir, mas imaginava que jamais ouviria.
Medo de encarar...
Medo de encarar os medos, medo de dizer oi, de dizer tchau...
Medo de rir na hora errada e chorar de assustada.
Medo de não saber o que dizer... de ir, de ficar, de não saber se ficar, se ir...
Medo de discar o último dígito, alguém atender e não se saber o que falar...
Medo de discar e não atender nunca mais.
Medo de ter medo. Medo de ter coragem de fazer a coisa errada. Ou, a coisa certa e acertar. Mas mesmo assim sofrer, mesmo assim chorar.
Medo de tudo, medo do escuro, medo da luz, da noite, do dia, da tarde...
Medo do telefone, do e-mail, do carteiro, dos conhecidos, dos amigos, dos parentes, dos pais.
Medo de qualquer um que possa dizer o que não se quer ouvir.
Ou dos que não dizem o que se precisa dizer.
Medo de se enganar, ou de já saber demais, mesmo sem nada saber.
Medo de ti.
Medo de mim.
 


 
Saudade

Kátia Simone Menegat

     Lembrar das coisas ruins, das que me fizeram sofrer, dos sonhos não realizados, eu não queria. Para que sofrer com coisas inúteis, como o acidente que sofremos há muitos anos, a mentira que nos contaram, como quando nos difamaram? Eu não queria.
     Se eu pudesse, esqueceria daquele amor não correspondido, das brigas que me fizeram sofrer, das pessoas que por mim passaram e causaram muitos estragos. Lembrar, eu não queria.
     Mas por que, então? Por que guardamos um espaço em nossa mente e coração para a imagem de quem não gostamos, de quem desprezamos, de quem não queremos ouvir falar? Por que ainda memorizamos seus rostos, e também os acontecimento passados e tão nocivos ao nosso presente, que só nos fazem sofrer? Sinceramente, eu não queria.
     As lembranças que ficam não podem ser apagadas, embora muitas vezes as tentamos mascarar. E aquela pessoa, aquele acontecimento, aquilo que queríamos esquecer vai estar sempre lá, mesmo que não a queiramos. E eu, realmente, não os queria.
     Mas a memória tem seu valor, e é isso que faz com que lembremos das coisas boas que vivemos, apesar dos acontecimento ruins; das pessoas maravilhosas que encontramos, apesar daquelas com quem nos desencontramos; e dos momentos preciosos pelos quais passamos, apesar daqueles que apenas passaram por nós.
     Mesmo que haja o mau, haverá sempre o bom a ser lembrado, e mesmo que existam coisas que queríamos esquecer, sem o que lembramos, quem haveríamos de ser? Sem nossas lembrança, esqueceríamos de muitas coisas, mas mais do que isso, desconheceríamos o significado de uma coisa que nos faz crescer, idealizar, sonhar e sorrir: a saudade.
     Dizer que não quero lembrar é, então, dizer que não a queria.
 


 
....................

Fabio Abreu dos Santos

     Droga. Oito da manhã e ele estava, novamente, atrasado para o serviço. Seu chefe iria querer sua cabeça. Levanta-se correndo e vai até o banheiro. Ao lavar o rosto, fita seu reflexo no espelho. Pára por um momento e analisa as rugas que traz na face. Não pode deixar de sentir um pouco de tristeza. Afinal, já passou da casa dos quarenta anos, e julgava-se, em suas próprias palavras, um perdedor. Como sua vida fora parar naquele ponto? Não suportava sua mulher, depois de mais de vinte anos de casamento. Seus dois filhos, um de dezoito e outra de quinze, só lhe traziam problemas. Problemas e despesas. O mais velho não queria saber de trabalhar e a mais nova gastava todo seu tempo em passeios pelo shopping e saídas com as amigas.
     Mas o pior de tudo era o seu emprego. Não suportava seu chefe, não suportava seus colegas, não suportava sua função. Era contador, o que por si só já seria motivo de um eterno tédio. Mas tinha um agravante, era contador já há vinte e dois anos, na mesma empresa, no mesmo cargo. Nunca fora promovido. Seu salário estava longe de poder sustentar a família. Por isso, tinha de conseguir rendas extras, fazendo vários serviços como free-lance. Em resumo, sentia-se velho, cansado, triste e, pior, fracassado.
     Mas de repente, ao olhar-se no espelho, não sabe bem por que, lembra-se de uma história em quadrinhos que havia lido em sua infância, quando tinha a maior coleção de revistinhas de ficção científica de seu bairro. A história se passava em um universo paralelo ao nosso, o universo X14, onde existiam clones de todas as pessoas que existem em nosso próprio universo. Se lembrava bem, a historieta mostrava que o único momento em que os dois, clone e original, se encontravam, era quando estavam frente a um espelho. O espelho seria, então uma passagem, ou uma janela, entre os dois universos, o nosso universo e o universo paralelo.
     Se isso fosse verdade, continua com seus pensamentos, o seu clone do universo paralelo, o seu clone do universo X14, poderia ser uma pessoa bem diferente. Não fisicamente é lógico, mas em relação à vida que levava. Na verdade no universo X14, seu clone poderia ser muito feliz. Poderia, não. Era muito feliz. No universo X14, seu clone deveria estar levantando àquela hora e indo até o espelho, só para se arrumar e ir fazer jogging matinal. Afinal, era muito importante manter a forma. No universo X14, seu clone teria deixado, deitada na cama, uma de suas inúmeras amantes maravilhosas. No universo X14, seu clone não deveria se preocupar com chefes. Aliás, no universo X14, seu clone deveria ser o chefe. E não de uma firma de contabilidade qualquer, mas sim de uma poderosa multinacional. No universo X14, seu clone não deveria ter preocupações com filhos. No universo X14, seu clone já deveria ter se separado da mulher com o qual casara e, sem dúvida, ela teria ficado com as pestes das crianças.
     Não pode deixar de sorrir. Na verdade, ele era um cúmplice da tão estupenda vida que levava seu clone no universo X14. Estava orgulhoso de ter um clone tão importante e poder fazer parte de sua vida, mesmo que fosse apenas por alguns momentos, quando o clone procurasse o espelho para se mirar. Se não fosse ele, seu clone seria um infeliz sem reflexo. Quase inconscientemente, leva a mão até o espelho e toca seu reflexo, como que felicitando seu clone por ter proporcionado um momento de alegria em sua porcaria de existência.
     Engraçada a vida. Como, às vezes,pequenos detalhes ou grandes fantasias podem torná-la tão melhor, tão mais feliz, tão mais maravilhosa.
     Enquanto isso, no universo X14...
     Droga. Oito da manhã e ele estava, novamente, atrasado para o serviço. Seu chefe iria querer sua cabeça. Levanta-se correndo e vai até o banheiro. Ao lavar o rosto, fita seu reflexo no espelho...
 



3. O emprego de frases curtas, construções nominais e fragmentadas

     A respeito das frases fragmentadas, Othon Garcia escreve:

"Ora, o estilo da literatura moderna, brasileira ou não, principalmente a do período entre as duas grandes guerras, distingue-se pelo feitio da sua frase fragmentária, em conseqüência quase exclusiva de um critério de pontuação não ortodoxo. Não obstante, são formas de expressão legítimas sob o aspecto estilístico e não estritamente gramatical. Quando intencionais e praticados com habilidade, constituem virtudes estilísticas; quando resultam de incúria ou ignorância, tornam-se vícios lastimáveis.
(...)
O trecho que damos abaixo, adaptado de redação de aluno, dá bem uma idéia do que é frase fragmentária.

A festa da inauguração da nova sede estava esplêndida. Gente que não acabava mais. Todos muito animados. Mas uma confusão tremenda. E um calor insuportável. De rachar. De modo que grande parte dos convivas saiu antes de terminar, muito antes mesmo da chegada do Governador. Porque não era possível agüentar aquele apêrto, aquela confusão. E principalmente o calor.

Está aí um exemplo de linguagem coloquial entrecortada, fragmentada ao extremo. Muitos trechos postos entre pontos são pedaços de períodos, "aparas" ou "lascas" de frase. Esse estilo ajusta-se perfeitamente à língua falada: é vivaz, espontâneo, desinibido. Mas seria necessário, ou pelo menos conveniente, "reajustá-lo" ao estilo da língua escrita, podando-lhe os excessos resultantes em grande parte de uma pontuação heterodoxa.
(Garcia, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 2 ed. Rio de Janeiro:Fundação Getúlio Vargas, 1969, p. 98 - 100)

     Sobre a frase curta:

"É um estilo entrecortado ou soluçante. É a phrase coupée dos franceses, que JOSÉ OITICICA chamava, com certa indignação, de "estilo picadinho" ou "frase picadinha".
Essa atomização do pensamento apresenta, é certo, a vantagem de lhe tornar mais fácil a compreensão. O leitor apreende prontamente o enunciado de cada unidade nas pausas que se intercalam. Se não há necessidade de mostrar a coesão íntima entre as idéias, suas relações de mútua dependência, esse tipo de construção se torna bastante expressivo. Por isso é que se ajusta satisfatoriamente às narrações e descrições, em que o autor focaliza de maneira sumária as fases de uma cena ou incidente ou os elementos de um quadro. Daí decorre, por certo, a sua predominância no romance e no conto modernos assim como na crônica. Mas será difícil encontrar exemplos de frase soluçante no ensaio crítico ou filosófico, na argumentação, nas dissertações doutrinárias, a não ser ocasionalmente.
(...)
Quando fragmentos de frase, frases nominais e frases soluçantes se misturam, o resultado é um estilo como que estertorante, convulsivo ou asmático:
Sou um homem, pesou. Riu satisfeito. O silvo. A mata escura que de repente se fechou sobre ele. Um homem. Maura deitada ao seu lado, o corpo nu. As veiazinhas azuis nas virilhas. O ventre arredondado. Como é estranho e fechado um ventre que a gente alisa de mansinho. Pela primeira vez. Brilhante, os pelinhos eram como pele de pêssego. Precisava voltar lá. E se começasse a gostar dela? Parecia diferente das outras. Amanhã mesmo vou levar para ela um vidro de cheiro. Gostam dessas coisas.(AUTRAN DOURADO, A Barca dos Homens, p.225)
(Garcia, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 2 ed. Rio de Janeiro:Fundação Getúlio Vargas, 1969, p. 89-90).

3.1 Textos-modelos
- Letra de Música
     Germano Jacobs

- Felicidades
     Beertolt Brecht

3.2 Textos de Alunos
- Inocentes reflexões
      Renata Eichenberg

- Devastação
      Scheila Feijó Fantinel


3.1 Textos-modelos

 
Letra de Música

Germano Jacobs

     Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Àquela hora, sete da noite, o bar estava cheio. Ele se encontrava sozinho, numa mesa no canto, quase escondido. Devia ter 45 anos e gostava de conversar consigo mesmo, de relembrar os bons tempos, aqueles que não voltam mais, essas coisas sentimentais do lugar-comum.
     Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Vai ao banheiro. Volta. Continua o ritual. Droga de vida, os bons tempos não resolvem coisa alguma. Parece letra de música destas duplas que infestam o rádio, mas os últimos anos foram uma sucessão de dramas. Dramas, não, dramalhões. Encontrar a mulher na cama com seu melhor amigo foi o começo. Bem que andava desconfiado, mas como é que podia imaginar, tamanha sem-vergonhice? Ela ainda riu na sua cara,o seu amigo vestiu-se calmamente, fazendo pouco caso de sua presença. Quase que pediu desculpas por encontrá-los em adultério. Mais tarde perdoou a mulher, mas ela preferiu mesmo ficar com seu melhor amigo.
     Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Tosse. A desgraçada está voltando. Tosse. Vinte anos na mesma empresa. Auxiliar de contabilidade. Cumpridor de seus deveres, de jamais faltar ao serviço. Certo dia, sem mais nem menos, o aviso de demissão. "Por que eu, o que fiz, em que falha incorri?" "Contenção de despesa", a resposta, "a crise está braba". Sem mulher e sem emprego. E o emprego? Faz a escrita contábil do bar que freqüenta, da verdureira da esquina, da sapataria de um compadre seu, vai se virando. Ganha para comer, pagar o quartinho da pensão e tomar a cerveja de todos os dias. É o único luxo que se permite.
     Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. O dois filhos, de 19 e 17 anos, estão por aí, no mundo. Eles que se virem. Ele quer ficar só, os outros que se danem. Se conseguisse esquecer da mulher, tudo seria diferente. Aí é que está, mesmo que continuasse a traí-lo, com seu melhor amigo, com quem quer que fosse, não importa, suportaria tudo para estar junto dela. Isso o deixa louco de raiva: "Que merda de homem sou eu?", se pergunta, e encontra à sua frente o copo de cerveja e o cigarro.
     Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Tem certeza que nunca vai encontrar resposta. E continua o ritual.
 


 
Felicidades

Beertolt Brecht - Poemas

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro perdido e reencontrado
Rostos animados
A neve, a sucessão das estações
Jornais
O cachorro
A dialética
Tomar um banho, nadar um pouco
A música antiga
Sapatos macios
Compreender
A música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser Camarada
 


3.2 Textos de alunos

 
Inocentes Reflexões

Renata Eichenberg

     Viver é desejar. Realizar nossos sonhos. Crescer. Amadurecer. Amar. Descobrir. Procurar. Acredito ser a vida preciosa, atraente, misteriosa, surpreendente. Não basta apenas vivê-la, temos que sonhá-la, imaginá-la, supô-la, adivinhá-la.
     Se eu pudesse ter sete vidas, certamente teria sete desejos, sete anseios, sete amores, sete pais, sete filhos, sete sonhos.
     Como só tenho uma, porém intensa e preciosa, espero, durante a minha vivência terrena:
  • conhecer muitos lugares, povos, costumes, tradições;
  • provar todas as formas e tipos de chocolates;
  • escrever, pelo menos, uma obra;
  • ter dois filhos, uma menina e um menino;
  • viver em uma praia tranqüila;
  • sentir, todo o dia, o cheiro de terra, mar, areia;
  • ter coragem de mergulhar, conhecendo os mistérios da água;
  • ver o pôr-do-sol sem a sombra de um arranha-céu;
  • viver a vida inteira ao lado de um único homem;
  • amar e ser amada;
  • sugar a essência do mundo;
  • provar de todos os vinhos;
  • arrancar suspiros;
  • simplesmente viver.
 


 
Devastação

Scheila Feijó Fantinels

Noite escura. Chuva caindo lá fora.
Continua chovendo. O cachorro late prevendo alguma coisa.
Aumenta a chuva.
Granizo. Vento. Chuva.
Começo a sentir medo.
A água ultrapassa as portas.
Telhas voam e não ouço nada. Pavor. Choro.
Os minutos parecem horas. Rezo...
Silêncio. O pesadelo acabou.
Devastação.
Árvores caídas, casas derrubadas, lágrimas, alguns feridos.
Ninguém segura a natureza.
 



4. O texto de substantivos

     A apropriação deste tipo de texto ou técnica por parte do aluno é tarefa muito fácil.
     Mesmo assim, a produção de textos calcados neste esquema é muito útil, uma vez que abre espaço para que se discuta com os alunos a originalidade ou a informatividade do texto. Dito de outro modo, é preciso alertar os alunos de que eles deverão criar, recriar a partir de outros textos, uma vez que "escrever é aproveitar criativamente outros materiais interdiscursivos". É preciso alertá-los de que deverão ser originais, criativos na escolha da situação a ser narrada mediante esta técnica, e não repetir os esquemas dos modelos.

4.1 Textos-modelos
- Circuito fechado
      Ricardo Ramos

- A pesca
     Affonso Romano de Sant'Anna

4.2 Textos de Alunos
- Vidinha Redonda
      Kátia da Costa Aguiar

- Trânsito
      Luzia Fialho, Leandro Rangel, Paola Teodoro

- Dona-de-casa
     Carine Vargas

- 500 anos sem respirar
      Fabio Canatta


4.1 Textos-modelos

 
Circuito Fechado

Ricardo Ramos

     Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
 


 
A Pesca

Affonso Ramos de Sant'Anna

o anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe

a agulha
   vertical
   mergulha

a água
a linha
a espuma

o tempo
a âncora
o peixe

a boca
o arranco
o rasgão

aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol

aquelíneo
ágilclaro
estabanado

o peixe
a areia
o sol
 


4.2 Textos de alunos

 
Vidinha Redonda

Kátia da Costa Aguiar

     Esperma, óvulo, embrião, parto. Bebê, choro, sobressalto, cocô, xixi, fralda, leite, colo, sono. Doença, vômito, pavor, pediatra, remédio, preço. Murmúrio, passos, fala. Escola, lancheira, material, professora. Curiosidade, descoberta. Crescimento, desenvolvimento, pêlos pubianos, seios, curvas, menstruação, modess, cólica, atroveran, adolescência. Primeiro beijo, paixão, shopping center. Batom, esmalte, rinsagem, depilação. namorado, pressão, intimidade, culpa. Festa, pai, ciúme, relógio, motel, desculpa, dissimulação. Faculdade, trabalho, consciência, cansaço, sossego, idade. Noivado, loja, fogão, geladeira, cama, mesa, banho, aliança, chá-de-panela. Cartório, igreja, núpcias. Sexo, trabalho, sexo, trabalho, sexo, esperma, óvulo, licença, parto.
 


 
Trânsito

Luzia Fialho, Leandro Rangel, Paola Teodoro

Porta, banco, cinto
chave, afogador
Ufa!

Acelera, engata, foi!
2ª, 3º, 4ª
sinaleira
freio

Laranja,
jornal,
esmola,
acelera, engata, foi!

Salvador França,
Ipiranga

Acelera, engata, foi!
Ôpa! ficou
congestionamento

Liga rádio
Voz do Brasil...
Desliga

Calor,
cigarro,
estacionamento lotado!

Fila
Espera
Vaga
8 horas...
Atrasado
 


 
Dona-de-casa

Carine Vargas

Sol,
Bom dia, dentes, filhos, uniforme,
merenda, café, carro, escola, carro, supermercado,
carne, pão, banana, refrigerante, alface, cebola,tomate. Carro,
casa, cama, lençol, travesseiro, colcha, roupa, lavanderia, máquina, sabão, sala,
almofada, pano, pó, cortina, tapete, feiticeira. Banheiro, descarga, balde, água,
desinfetante, toalha molhada, lavanderia, arame, prendedor. Cozinha, pia,
tábua, faca, panela, fogão, bife, arroz, molho, feijão, salada, mesa, toalha,
pratos, talheres, copos, guardanapos, carro, escola, filhos, carro, almoço, mesa,
pia, louça, armário, fogão, piso. Televisão, jornal, filhos, tema, lanche, leite,
nescau, pão, margarina, banana, louça, pia, armário. Carro, filhos, natação,
futebol, mensalidade, espera, revista, filhos, carro, casa. Vizinha, conversa
rápida, lavanderia, arame, roupas, agulha, linha, camisa, calça, ferro de passar.
Janta, marido, filhos, sala, televisão, família reunida, dinheiro, discussão,
cozinha, mesa, louça, pia, armário. Filhos, sono, escova, creme dental, cama,
beijo, durmam com os anjos. Portas chaveadas, janelas fechadas,
banho, sabonete, água, toalha, creme no corpo, camisola,
renda, escova, cabelo, perfume, dentes limpos,
cama, marido, sexo, sono, boa noite,
lua.
 


 
Quinhentos anos sem respirar

Fábio Canatta

     Oca, pajé, tribo, mata, virgem, caça, pesca, coleta, pureza, perfeição. Santa Maria, Pinta e Nina. Descoberta. Portugueses, povoamento, contato, colonização, dominação. Pau-brasil, devastação, comércio. África, negro, banzo, trabalho, humilhação, escravidão. Engenho, moenda, caldeira, senzala, sofrimento, agressão. Senhores, quilombo, Palmares, luta, liberdade, prisão. Entradas, bandeiras, violência, domesticação. Ouro, extração, arrobas, derrama, inconfidentes, esgotamento, rebelião. Brasil, império, D. Pedro, proclamação. Primeiro, segundo, reinado, constituição, regência, continuação. Conturbação, agitação, guerras: Balaiada, Sabinada, Farrapos (separação). Chimangos, maragatos, República Rio-Grandense do Prata, sonho, revolução. Café, crise, comércio, importação, abolição, imigração. Suíços, belgas, italianos, alemães. República. Café-com-leite, Hermes, Nilo, Pena e Venceslau. Canudos, Conselheiro, revolta, Antonio, misticismo, monarquia, sertão, genocídio e covardia. Operário, indústria, crise, revoltas, tenentes, dezoito, constituição, de novo. Estado, novo? Autoritarismo, Getúlio, Guerra, Segunda. Redemocratização, atentados, mortes, ricos, poucos, pobres, muitos. Jk, Brasília, vários, outros. Ameaça, comunismo - comunismo? - Estados Unidos da América, Brother Sam, Jango, golpe, tirania e repressão. Opressão, medo, violência, ditadura. Castelo, Geisel, Médici. Mais, crise, multinacionais, abertura, burrice, degradação. Guerrilha, luta, seqüestro, tortura, política, submissão. resistência. Gabeira, Marighela, Lamarca, extradição. AI-5. Protesto, passeata, Herzog, 100 mil, pressão, povo, rua, emoção. Lágrimas, marchas e contramarchas. Manifestos, anistia, abertura, lenta, gradual. Diretas, já, povo, cidadãos. Tancredo, civil, conciliação, transição. Tumor, benigno, cirurgias, seis, fé, rezas, medo, morte. Frustração. Choro, Sarney, Constituição, cruzado, verão, fiscais, recorde, inflação. Eleições, Fernando, Lula, Brizola. Campanha, segundo, turno, Globo, Collor, Lula. Baixarias, ofensas, comunismo, medo. Lula, ignorante, operário, feio, burro. Collor, vitória. caçador, marajás. marajá, caçado. Globalização, abertura, de novo, tudo, crise, poupança, confisco. Povo, de novo, rua, manifesto, passeata, impeachment. Itamar, moeda, real, ministro, futuro, candidato. Eleições, sociólogo-ex-ministro, versus, torneiro-mecânico. Plim-plim. De novo. Fernando, de novo, tudo, de novo, crise, pobreza e humilhação. Imperialismo, colônia, my brother, desnacionalização, economia, pobreza, real, irreal, medo, aniversário, 500, anos. Brasil, país, futuro, incerto.
 



5. O texto que 'esconde' o objeto (ou a idéia)

     A par de outros ganhos que podem advir da produção de textos dentro deste modelo, é preciso ter presente que essa tarefa, de cunho lúdico e desafiador, se presta, ao lado de outras aqui apresentadas, a desenvolver ou resgatar o gosto pela escrita.
     Tenho observado, com freqüência, a satisfação do aluno, a auto-estima aumentada, por ter produzido algo novo, criativo, surpreendente.
     O aluno sente-se mais confiante, pois se reconhece como um ser criativo, com poderes de linguagem.

5.1 Textos-modelos
- Objeto estranho
     Carlos Drummond de Andrade

- Chega, basta e fora!
     Cyro Silveira Martins Fº

5.2 Texto de Aluno
- ........................
     Fábio Abreu dos Santos


5.1 Textos-modelos

 
Objeto Estranho

Carlos Drummond de Andrade

     Um objeto estranho ameaça incorporar-se à elegância masculina, segundo informa o colega Zózimo. Seu aparecimento ocorreu na Itália, e sua presença já se faz sentir em outras capitais européias.
     É a maçaranduba.
     A primeira singularidade da maçaranduba consiste em que ela absolutamente não participa da sorte das demais peças do equipamento humano a que se junta. É que a maçaranduba fica perto do vestuário, sem se ligar a ele. É ciosa de sua independência, ao contrário dos outros elementos que colaboram na apresentação do homem em público. Estes seguem conosco na condição de servos dóceis, ao passo que ela mantém liberdade de movimentos. E exige de nossa parte atenções especiais, sob pena de abandonar-nos à primeira distração. Concorda em fazer-nos companhia, mas sem o compromisso de aturar-nos o dia inteiro. Dir-se-ia, mesmo, que nós é que a acompanhamos no seu ir e vir pretenciosamente pelas ruas.
     A maçaranduba está sempre à mostra, ostensiva e vaidosa. Sua tendência é para assumir a liderança do conjunto e exibir-se em envoluções fantasistas, que exigem certas habilidades do portador. Assim, quando não tem o que fazer (e de ordinário não tem) descreve círculos e volteios que pretendem ser graciosos em sua gratuidade.
     A maçaranduba parece ter mau gênio? Parece, não: tem. Já o demonstrou sempre que algum transeunte lhe despertou antipatia ou lhe recordou episódios menos agradáveis. Pois é. A maçaranduba não é de suportar opiniões contrárias às suas. À falta de melhor argumento, na polêmica, ergue-se inopinadamente, avança como um raio e procura alcançar a parte doutrinária alheia nos pontos mais vulneráveis, desde o lombo até os óculos. Sua agressividade impulsiva costuma levá-la à polícia, quando não se recolhe inerte e indiferente a um canto deixando que seu portador pague a nota dos estragos.
     A maçaranduba é basicamente feita de madeira, às vezes se beneficia de espécies vegetais não compactas, o que lhe permite estocar recursos ofensivos de grande temibilidade. Ao vê-la se aproximar, tome cuidado, pois sua ira não se satisfaz com simples esquimoses.
     A maçaranduba costuma gostar de ornatos, e uma que pertencia a Balzac era cravejada de pedras preciosas...
     A impertinência da maçaranduba, para não dizer arrogância, deve-se talvez ao fato de que em outras eras foi símbolo de poder e, sob formas diversas, esteve ligada à realeza e a seu irmão gêmeo, o absolutismo. Em mãos governamentais, era duplamente terrível: pela contundência material e pela espiritual.
     Ter sido a maçaranduba elemento de garridice feminina, durante a Idade Média até a Renascença, não lhe adoçou o temperamento. Passando a andar só com os homens, nem por isso dispensa maior cortesia às mulheres e, na hora de zangar-se, é incapaz de distinguir is sexos.
     Diga-se em favor da maçaranduba, para que o retrato não fique excessivamente carregado, que algumas espécimes são inclinadas à generosidade, e se comprazem em ajudar pessoas encanecidas ou faltas de visão. Contudo trata-se de exceção.
     A maçaranduba tem um irmão soturno, que paradoxalmente só se anima a passear quando começa a chuva, e sob o aguaceiro se diverte disputando lugar. Muitas vezes este irmão gêmeo imita a mania elegante, no ataque ao próximo.
     Cuidado com a maçaranduba, amigos pacíficos: trata-se de objeto às vezes voador, identificado.
 


5.1 Textos-modelos

 
Chega, Basta e Fora!

Cyro Silveira Martins Fº

     Os acontecimento que o Brasil viveu nessa quinta-feira mostram que caminhamos para um terreno perigosamente pantanoso.
     As trevas rondam.
     A anarquia ressurge dos bueiros com poder e majestática soberba.
     A autoridade que deveria se impor parece inerte e o Brasil hesita e titubeia diante da vontade de uma minoria hábil, atuante e turbulenta, que consegue utilizar-se com destreza da mídia - impressa, falada e televisionada - e consegue impor sua vontade à imensa maior parte dos cidadãos contribuintes e votantes.
     E, mais, consegue arrastar em sua cantinela de sereia curvilínea os ingênuos e os que ainda têm a consciência em formação.
     Poucos gatos, pingados, mas ardorosos e ousados, que não respeitam leis, regulamentos, regras nem lógica, história, tradição ou costumes.
     Nós, os brasileiros verdadeiramente patriotas, não podemos assistir placidamente ao Brasil tendo seu leme quebrado, perdendo o rumo, submetido pela força das idéias exóticas, totalmente desvinculadas de nossa realidade de povo manemolente. Idéias que em nada dizem respeito à nossa natureza espontânea, à nossa exuberância criativa de nação multifacetada étnica, cultural e geograficamente.
     Esses, que tentam se impor pela força, desprezando a opinião da avassaladora maioria, se opondo à opinião pública manifestada democraticamente, só contribuem para fragilizar o Brasil diante dos outros países.      E para transformar o país numa presa fácil para os predadores estrangeiros. Porque tanto Europa como América Latina só esperam um momento de fraqueza nosso para arremeter e tentar nos colocar de joelhos diante de seus ataques.
     Mais ainda.
     A arrogância desses que se autoconcedem a onisciência de apenas eles, e ninguém mais que eles, saberem o que é bom para o Brasil, esses que se julgam certos ab initio ad infinitum, esses, que sequer se dignam a explicar aos demais o raciocínio anterior a suas atitudes, a arrogância dessa casta, diante da estupefação de milhões de pessoas, prenuncia uma tempestade de efeitos terríveis sobre a vida, o coração e alma de nós, brasileiros e patriotas.
     Não é possível que isso seja levado adiante.
     Não podemos, nós, que estamos vendo o Brasil ameaçado, permanecer calados.
     Há cheiro de 1974 no ar.
     Por isso: chega e basta.
     Fora Zagalo.
 


5.2 Texto de aluno

 
.....................

Fábio Abreu dos Santos

     No começo, ela era minha companheira nos momentos mais difíceis. Sempre que eu estava só, magoado com alguma coisa, houvesse brigado com minha esposa, discutido com os colegas do trabalho, me irritado com meus filhos, eu ia à sua procura. Aliás, com o tempo, qualquer motivo era suficiente para que corresse até ela, tal era o prazer que tal encontro me proporcionava. Ela sempre estava lá, de braços abertos, pronta para me receber, sem me fazer perguntas. Conseguia, de forma milagrosa, confortar-me e fazer-me novamente feliz em questão de segundos. Seu brilho me seduzia, sua voz era como música para meus ouvidos. Uma aura emanava em torno dela. às vezes na sala, às vezes no quarto, com as luzes apagadas, eu era seduzido por ela, de tal forma que respondia, sem dizer não, a todos os seus apelos. Mas hoje, parece que ela já perdeu um pouco daquele brilho, aquela cor que enfeitava sua fronte. Nossa relação amorosa foi, pouco a pouco, se deteriorando. Talvez fosse a idade dela, talvez fosse seu tamanho. Afinal, convenhamos,14 é muito pouco. Resolvi trocá-la por outra, muito mais bonita, maior, um pouco usada, mas nem tanto. Minha família, após descobrir minhas intenções, até deu-me incentivo para realizar a troca. As crianças, agora, não saem da frente dela. Minha mulher é sua fã número um. Sinceramente, não sei como conseguimos viver até hoje sem uma tv de vinte e uma polegadas.
 



O Intertexto

I

     Trata-se de produzir uma crônica a partir de uma notícia de jornal: uma mãe dá à luz um filho, às portas do hospital, e é socorrida por populares, que envolvem a criança na Bandeira do Brasil, pois participavam do desfile de 7 de Setembro.
     Para a realização do texto, apresenta-se a crônica de Fernando Sabino, em que o aluno observa, entre outros fatos, o estilo (frases curtas, nominais, repetições, etc.). Apresenta-se também pequeno trecho do poema "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto.
     A tarefa consiste em produzir a crônica apropriando-se do estilo de Fernando Sabino e inserindo adequadamente passagens do poema.

II

     No item II, apresenta-se um texto de aluno com importantes relações intertextuais.

III

     Finalmente, neste último item, transcrevem-se textos-paródias.
     A inclusão desses três conjuntos é resultado da reflexão sobre a intertextualidade , de modo especial sobre dois postulados da leitura/escrita:
     1. Só é legível o já lido, ou seja, para entender textos é preciso ter lido outros textos.
     2. Escrever é aproveitar criativamente outros materiais interdiscursivos.


I

6.1 Textos dos quais os alunos devem se apropriar (estilo e conteúdo)
- Notícia de jornal
      Fernando Sabino

- Morte e vida Severina
     João Cabral de Melo Neto

6.2 Textos de Alunos
- Pariu no corredor do hospital
      Renata Appel

- A pátria amiga
     Márcia Jaeger Sirangelo

- Mulher dá à luz nas portas do HPS
      Laurie Wather


6.1 Texto dos quais os alunos devem se apropriar

 
Notícia de Jornal

Fernando Sabino

     Leio no jornal a noticia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante 72 horas, para finalmente morrer de fome.
     Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância do Pronto Socorro e uma rádiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
     Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
     O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.
     Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa - não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
     Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da rádiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
     E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, dez o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
     E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, um homem morreu de fome.
 


 
Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto

De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já adivinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
Belo porque é uma porta
abrindo-se me muitas saídas.
Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
 


6.2 Textos de alunos

 
Pariu no Corredor do Hospital

Renata Appel

     Leio no jornal a notícia de uma mulher que pariu no corredor do Hospital Fêmina. Jovem, negra, pobre, pariu no corredor do hospital, com poucos socorros, em pleno banco estofado, em meio a enfermeiras, médicos e pacientes. Somente abriu as pernas e deu à luz.
     Pariu no corredor do hospital. Gritou por ajuda, clamou por assistência médica. No entanto, o tempo não pôde esperar e acabou parindo em pleno corredor.
     Gestante pariu no corredor de hospital. A enfermeira disse que havia falta de quartos. Fêmina apresentava super lotação de parturientes. E a pobre negra somente abriu as pernas e deu à luz.
     Eis que de seu ventre surge um menino magro. De muito peso não é, mas tem peso de homem, de obra de ventre de mulher. É uma criança pálida e franzina. Mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.
      Pariu no corredor do hospital. Entre diversas enfermeiras, médicos e pacientes. Mulher pobre. Sozinha. Miserável. Gestante. Jovem demais. Negra. Baixo nível. Ignorante. Um bicho, uma coisa - não foi tratada como digna parturiente. E pariu no corredor do hospital. E eis que de seu ventre salta uma criança pequena. É tão bela como um sim numa sala negativa.
     Não é responsabilidade dos profissionais, nem do hospital, nem das autoridades. O que têm a ver com o fato? Deixa a mulher parir em pleno corredor.
     E ela, o que faz? Jovem e destemida dá à luz sobre um banco estofado, sem recursos e com pouco auxílio. E eis que de seu ventre nasce o menino. Somente após o ocorrido, a jovem é amparada. Nos braços, o rebento abençoado infecciona a miséria com vida nova e sadia.
 


 
A Pátria Amiga

Márcia Jaeger Sirangelo

     Em pleno 7 de setembro, Maria dos Santos dá à luz a um menino, nas portas de um hospital de Porto Alegre. Nasce o belo menino, com a ajuda de populares que comemoravam o dia 7 de setembro naquele momento. Nasce o belo menino, magro e de não muito peso, uma criança pálida e franzina, mas que tem a marca de um homem, marca de humana oficina.
     Maria não chegou a entrar no hospital e então nasce o belo menino, enrolado na bandeira brasileira de 7 de setembro, trazida por um homem na passeata. O belo menino parecia a última onda que o fim do mar sempre adia. Chorando no meio de gritos de independência, nasce o belo menino.
     Por não haver um leito no hospital, Maria se deita ali mesmo e nasce o belo menino, quase no meio da rua. Muito belo por que representa uma porta se abrindo sem mais saída. Sem cuidados nem higiene, nasce o belo menino somente com as cores da pátria o acolhendo em meio a tanta gritaria).
     Em 7 de setembro nasce o belo menino, belo porque tem o novo, a surpresa, a alegria de vir ao mundo no dia da independência. Com um olhar amável e sem mais preocupação, Maria dizia: "como é belo esse menino" e nem se importava com a tal situação.
     O tumulto intenso parou a avenida em frente ao hospital. Para ver o belo menino, que foi vítima do caos da vida, muita s pessoas fizeram fila. Em pleno 7 de setembro, com sua bandeira envolvida, o menino passa bem e já comemora a data festiva.
     No colo dos homens do Brasil, nasce o belo menino, que já não é angústia para Maria e sim uma criança abençoada pela pátria amiga. Em 7 de setembro, nasce Deodoro, o belo menino!
 


 
Mulher dá à luz nas portas do HPS

Laurie Wather

     Numa típica segunda-feira, sete de setembro, exatamente no dia da Independência do Brasil, abro o jornal e ali tenho a clara certeza de que vivo no Brasil. Estampada na primeira página consta a seguinte manchete: Mulher dá à luz ao filho nas portas do HPS. Ora, era só mais uma cidadã (cidadã?) brasileira que não tinha leito no hospital para ter o seu filho nas mínimas condições. Até aí, normal. As pessoas que ali assistiam horrorizadas, ao fato, nada puderam fazer senão amparar em seus braços o pobre menino que acabara de vir a este mundo, e enrolá-lo na bandeira de nosso país. E assim, a mulher deu à luz ao filho nas portas do HPS.
     "De sua formosura já venho dizer: é um menino magro, de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher". Depois de nascido, o menino tornou-se símbolo do descaso. Coitado. Nasceu, viveu e já morreu. Enrolado na bandeira do Brasil.
     Uma mulher dá à luz ao seu filho nas portas do HPS. Engraçado. Já vi este fato em algum lugar. Mas onde será? De repente não era sete de setembro, mas poderia ser em qualquer outra segunda-feira, não tão menos típica que esta. E o menino continuou enrolado na bandeira do Brasil.
     Socorro. Não veio ninguém. Quem sabe os médicos de plantão estivessem jogando, cantando, comendo, dançando...Sei lá, se ocupando com outros afazeres se não o da sua profissão: ajudar ao próximo. E assim, a mulher deu à luz ao seu filho nas portas do HPS. É só mais uma dentre tantas!
     Tristeza. Da formosura do menino, deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. Grande coisa, ele já nasceu, viveu e morreu. Enrolado na bandeira do Brasil. O que nos importa isto? O fato é que uma mulher deu à luz ao seu filho nas portas do HPS.
     O jornal, só narra mais uma notícia: uma mulher deu à luz ao seu filho nas portas de um hospital. Não havia vaga para ela. Uma mulher pobre, negra, mal trapilha, esfomeada e brasileira. Deu à luz a seu filho nas portas de um hospital. Era sete de setembro (grande coisa). E a criança? Ah era só mais um menino, porém enrolado na bandeira do Brasil. Isto o revelou para o país inteiro. De sua formosura deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. E daí? Já morreu.
 


6.3 Texto de aluno sobre leitura

 
Outras Vidas

Vanessa Mello

     Acredita-se que, para viver outras vidas, é necessário morrer primeiro e, depois de algum tempo, voltar. Eu já vivi muitas vidas e nada disso foi preciso. Morei em outros países, em épocas diferentes e até em séculos passados. Tudo em uma única vida, a minha.
     Beber "Cherry Brand" nos bares de Paris era uma das coisas que eu adorava fazer, mas um dia, algo terrível aconteceu e acabou com minha alegria. Me transformei em barata. Todos se afastaram de mim, tinham medo e nojo. Até que conheci uma velha, acho que era vidente, que me falou sobre meu amor, tão perto de mim e eu o desconhecia. Foi na Ilha de Paquetá e eu realmente encontrei o amor. Estava naquele garoto que eu conhecia desde criança.
     Casei-me com um homem incorrigível, que amava e odiava ao mesmo tempo. Ele morreu, mas não me deixou e passei pela deliciosa experiência de ter dois maridos. Vivi uma paixão impossível e valsei sem melancolia, sem arrependimento.
     Presenciei a ditadura, no ano de 1968 e, apesar de algum tempo, parece que ainda não acabou. Construí o império dos Diários e Emissoras Associados e muito contribuí para a comunicação. Passava os dias na Praça da Alfândega, convivendo com os mais variados tipos, na época de seus Anos Dourados.
     Conheci muitos lugares. Viajei de barco durante cem dias e fiquei maravilhado com a natureza, com o litoral brasileira e até com a África que nunca chamou minha atenção. Ainda sinto o cheiro do mar. Outra viagem interessante que fiz me revelou fatos que não conhecia sobre o descobrimento do Brasil.
     Integrei o Clube do Picadinho, que diminuía a cada encontro. Sabíamos de quem era a vez, mas nunca desistimos. A emoção e o perigo faziam com que essas fossem as melhores refeições.
     Esses são apenas alguns relatos de minha vida. Poderia ficar por horas contando minhas aventuras, descrevendo todas as pessoas que conheci e relembrando os infinitos amores que tive. Talvez em outro encontro. Mas antes de me despedir, quero contar como foi o meu primeiro contato com esse mundo maravilhoso.
     Aconteceu quando eu ainda era criança e minha mãe me apresentou à Turma da Mônica e depois ao palhacinho Alegria. Eles se tornaram meus companheiros e à medida que fui crescendo, ganhei novos amigos.
     Tenho um poder espantoso. Através dele, conheci novo sentimentos, senti o gosto de novas comidas e bebidas, sem nem mesmo ter experimentado, vesti-me como as "sinhazinhas" do século passado, senti fome como Fabiano. Essa capacidade mágica que tenho não é exclusividade minha, ela está adequada a minha personalidade, mas todos podem ter, é só querer.
     Além de adquir cultura e informação, desenvolvi minha criatividade, tive uma visão mais ampla de certos assuntos. Dou asa a minha imaginação, e permito conhecer novos costume, lugares, vidas, mundos, sentimentos.
 


6.4 Textos-paródias

 
Texto-Base: Ao Meio do Caminho

Carlos Drumond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei
que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha uma pedra
 


 
Paródia no Meio do Caminho

Deise Konhardt Ribeeiro

No meio do caminho tinha um fuquinha
Tinha um fuquinha no meio do caminho
tinha um fuquinha
no meio do caminho tinha um fuquinha
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na ida de minhas noitadas tão agitadas
Nunca me esquecerei
que no meio do caminho
tinha um fuquinha
tinha um fuquinha no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha um fuquinha
 


 
Texto-Base: Primeiro Ato

Gilberto Scarton

Sem professor. Sem aula. Sem provas. Sem notas
Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração.
Sem estresse!
Só tu.
Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco.
Que impassível espera ser preenchida, para entretecer
contigo a teia de palavras que liga todas as dimensões de
tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para
contigo, de ti para o outro.
Sem.
Só tu.
Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando
esperanças. Denunciando injustiças. In(en)formando o
mundo com tua-vida-toda-linguagem.
Sem!
Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência,
da sociedade, tu tens a palavra.
A tua palavra. Tua voz. E tua vez.
 


 
Paródia: Primeiro Filho

Antonio Carlos Paim Terra

Sem telefone. Sem campainha. Sem cachorro.
Sem estresse. Sem vizinho. Sem tudo. Sem nada.
Sem roupa!
Só tu.
Eu e tu. Tu e o teu corpo. Tu e o clima romântico.
Eu impassível espero por ti, para entrelaçar
contigo uma teia de carinhos que liga toda a dimensão de
nossos corpos, nesta travessia de vibrações de ti para
comigo, de mim para contigo.
Sem camisinha.
Só prazer.
Com nosso ritmo. Com minha pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De rasgar a tua roupa.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando
um bebê. Informando ao mundo
o nascimento de uma vida.
Sem preparativos!
Levemos o fato para a sociedade.
Nós temos a felicidade.
O nosso filho. Daqui a nove meses. Será a tua vez.
 


 
Texto-Base: Carreira Hereditária


BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!

ANALISANDO ESSA CARREIRA HEREDITÁRIA
QUERO ME LIVRAR DESSA SITUAÇÃO PRECÁRIA
(REPETE)
ONDE O RICO CADA VEZ FICA MAIS RICO
E O POBRE CADA VEZ MAIS POBRE
E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE
É QUE O "DE CIMA" SOBE
E O "DE BAIXO" DESCE...
 


 
Texto-Base: Carreira Estagiária

Luciana da Silva Rocha

BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!

ANALISANDO MINHA CARREIRA ESTAGIÁRIA
QUERO ME LIVRA DESSA SITUAÇÃO PRIMÁRIA...
ONDE O EFETIVO CADA VEZ FICA MAIS RICO
E O ESTAGIÁRIO CADA VEZ É MAIS OTÁRIO,
E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE...
O EFETIVO SOBE, O ESTAGIÁRIO DESCE.

BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!

MAS EU SÓ QUERO É COMPRAR MEUS LIVROS,
PAGAR A MINHA MENSALIDADE COM MUITA DIGNIDADE,
EU QUERO VIVER BEM,
TERMINAR DE ESTUDAR,
MAS A GRANA QUE EU GANHO
NÃO DÁ NEM PARA CONTAR...
E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE...
 


 
Texto-Base: Ser Mãe

Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio, que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor cantando vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormido! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso
 


 
Paródia: Ser Moderna

Marco Antonio F. Conde

Se moderna é remontar fibra por fibra
o peitão! Ser moderna é não ter o receio
de ficar bonita, botando silicone no seio,
onde a natureza, recriada, balançando vibra!

Ser moderna é ter um marmanjo que se libra
sobre o busto rígido! É ser dois seios,
é não necessitar de outros meios,
é ter força, onde o vestido se equilibra!

Todo o bem que goza é bem da humanidade,
espelho onde se mira, sem culpa,
ser menina, em qualquer idade!

Ser moderna é ser siliconada!
Ser moderna é ter prótese mamária!
ser moderna é ser um colírio pra gurizada!
 



7. Textos-Avaliação

     Apresento, finalmente, neste último bloco, reflexões de alunos relativas à auto-avaliação e à avaliação do processo ao longo do semestre.
     É de se notar que vários traços estilísticos trabalhados ao longo da experiência se refletem nestes textos

- 7 Magos, 21 aprendizados
      Renata Eichenberg

- Por uma aprendizagem natural
      Luciana Schmid Alcover

- Uma forma inédita de ensinar
      Clarissa Laux

- Fluxo gramatical de inconsciência
      Aluísio B. Ribeiro

- Criticando o ensino da gramática
      Liane Volpe



 
7 Magos
21 Aprendizados

Renata Eichenberg

     Frank Smith
     Aprendi que escrever requer uma enorme bagagem de conhecimentos específicos, adquiridos apenas através da leitura.
     Aprendi que somente através da leitura o escritor aprende todos os mistérios que conhece.
     Aprendi que aprendemos a escrever muitas vezes sem saber que estamos aprendendo.
     Aprendi que a ênfase na eliminação de erros resulta na eliminação da escrita.

Celso Luft
     Aprendi que o conhecimento e domínio da língua se dá por um processo natural, através do auto-ensino.

Moacyr Scliar
     Aprendi que a cópia não é crime,pelo contrário, é inevitável e natural no início do processo da escrita. Agora me sinto com a consciência leve, pois já perdi a conta de quantos autores já me foram úteis na composição dos meus textos.

Nilson Souza
     Aprendi que escrever é rescrever. Um bom texto necessita ser relido e rescrito quantas vezes forem necessárias. A idéia precisa ser clara. Toda a escrita obedece a um ciclo: escrever, cortar e rescrever repetidamente.
     Aprendi que todo o escritor tem que ser autocrítico para eliminar tudo que estiver "sobrando" ou "atrapalhando" o texto, e paciente e corajoso para apagar um texto e recomeçar, quando este não foi bem escrito.
     Aprendi que todo o escritor deve ser persistente, lutar pela melhor palavra ou expressão para aquela frase, dentro daquele texto.
     Aprendi que o escritor necessita ler, porém escrever também. E, se possível, submeter seus textos à apreciação de leitores qualificados.
     Aprendi que o melhor amigo do escritor é a lata do lixo, uma vez que uma boa redação só pode ser alcançada com humildade, com o reconhecimento da má obra.
     Aprendi que a pontuação é o cimento do texto. Uma vírgula mal colocada pode mudar significativamente o sentido da frase.

Samuel Johnson
     Aprendi que o que é escrito sem esforço, geralmente é lido sem prazer.

Arnaldo Jabor
     Aprendi que o escritor possui um desejo de enganar, atrair, mentir, roubar o leitor.
     Aprendi que o escritor, constantemente, está em busca do elogio à sua obra, nem que seja o seu próprio elogio.
     Aprendi que o escritor é muito mais falado pelas palavras do que as fala.

Liberato Vieira da Cunha
     Aprendi que o escritor deve dominar todas as armadilhas do idioma, mantendo boas relações mesmo com as mais exóticas entidades.
     Aprendi que é essencial para um escritor ousar a criação de algo novo, original, único.
     Aprendi que o escritor deve ser disciplinado, obstinado quase.
     Aprendi que o escritor precisa provocar os demônios interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível.
     Aprendi, finalmente, que o escritor, em hipótese alguma, deve desistir quando um branco se instala em sua mente e nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia circula nesse vácuo, por mais persistente que o escritor seja.
 


 
Por uma aprendizagem natural

Luciana Schmidt Alcover

     Sete e meia da noite, sexta-feira (véspera de carnaval), sala de aula vazia, seis alunos e um professor. Oito horas da noite, o professor se apresenta e inicia aula, que mais parece uma conversa informal. Algo que eu nunca havia vivenciado antes.
     Existe um ditado popular que diz "a primeira vez a gente nunca esquece", eu concordo. Impossível esquecer e não me surpreender com tudo o que foi dito em pouco mais de uma hora e meia de aula. O professor informou aos alunos que seria um semestre sem provas, sem aulas monótonas, sem livros obrigatórios, sem regras, sem decorebas e, principalmente, sem aprendizagem forçada. Parecia que tudo aquilo que eu sempre esperava ser um modelo ideal de aprendizagem realmente existia. Um método eficaz, chamado pelo professor de Método Natural.
     Desde as épocas de colégio, fui acostumada a estudar português da seguinte forma: assistindo às aulas, decorando regras, fazendo exercícios e lendo os livros solicitados. Meus professores sempre foram rígidos com horários e muito críticos em suas avaliações. Por isso, escrever se tornava em problema. As redações, assim como no vestibular, tinham tema definidos na hora, eram feitas em sala de aula, em curto espaço de tempo. E ainda, deveria ter como características um texto original e sem erros de pontuação ou ortografia. Caso contrário, poderia aguardar como resultado notas baixíssimas. Foi dessa forma que perdi um pouco o gosto pela leitura e escrita.
     Mas, o tempo passou. Hoje, já recuperada dessas experiências, consegui resgatar novamente o meu gosto pela leitura e escrita, com a ajuda de...
 


 
Uma Forma Inédita de Ensinar

Clarissa Laux

     Durante o sucessivos anos em que estive na escola,sempre ouvi os professore de Língua Portuguesa repetirem, sacal e incessantemente, as regras gramaticais, como se apenas àqueles que tivessem memória suficiente para armazená-las estivesse reservado o sucesso. Era um desfile pavoroso de análises sintáticas, morfológicas, ditongos, tritongos, e outros de seus comparsas. Perdida, eu me perguntava: será que um dia eu serei capaz de gravar tudo isto?
     Terminei o segundo grau sem conseguir compreender nem a metade das tais regras, mas, surpreendentemente, com ótimas notas em Português. Quando, no entanto, comecei a preparar-me para o tão temido vestibular, achei que era chegada a hora de aprendê-las. Depois de aulas e mais aulas, horas de decoreba sem fim, concluí, estupefata, que ainda não havia assimilado a maioria delas. Resolvi, então, desenvolver e aperfeiçoar aquilo que utilizara durante os anos de colegial: o instinto. Por resultado, obtive quase que a nota máxima em Língua Portuguesa e Redação, e entrei para a faculdade.
     O leitor deve estar se perguntando, agora, o que quero dizer por instinto. "Terá ela um sexto sentido?", deve estar pensando, com um misto de ironia e incredulidade, em sua cabeça. A resposta é não. E, para afastar qualquer tipo de antipatia precipitada, me explico.
     Em primeiro lugar, sempre gostei muito de ler. A leitura, além de nos abrir horizontes, nos ensina muito mais do que podemos perceber conscientemente. Isto porque, quando tentamos decorar algo pura e simplesmente, sem muitas vezes nem ao menos entender as razões, criamos como que uma barreira, uma parede por onde os conhecimentos não conseguem passar. Quando, no entanto, nos entregamos à leitura, absorvemos as informações de um jeito que o cérebro aceita, registra e ainda pede mais. E quando fazemos dela um hábito, acabamos por gravar, efetivamente, as tão amedrontadoras regras em nosso subconsciente. Daí por diante, parece que passamos a reconhecer quando algo está errado, mal construído ou mal colocado, apenas pela visão. Mágica? Não. Condicionamento do olhar.
     Da mesma forma que as regras, todo esse pensamento sempre esteve guardado em algum canto de minha cabeça. Ao mesmo tempo em que acreditava nisto, repreendia-me, pois o que os professores diziam era, senão o contrário total, ao menos discordante. Aí, na primeira aula de Português Aplicado à Comunicação, o professor introduz um conceito completamente novo de ministrar conhecimentos, ao qual ele chama "Método Natural de Aprendizagem". Estupefata, vejo ele pregar o ensino do Português através da leitura, sem a costumeira devoção à Gramática, de forma crítica e interessante. Consigo, então dar voz àquele sentimento de que devia haver algo de errado nas aulas que sempre freqüentei, onde aprender a nossa Língua parecia muito mais um martírio do que algo em que se pudesse encontrar prazer.
     Assim, o Método Natural de Aprendizado veio ao encontro das idéias que eu tinha. Concordo total e irrestritamente com ele, pois penso que o ensino de Língua Portuguesa deva se dar de forma tal que o aluno se aproxime dela, e não se sinta amedrontado. Deve-se ensinar mais do que regras; o importante é que os alunos aprendam a ler de forma construtiva, tirando deste prazer tudo o que ele pode lhes proporcionar. Este,sem, é um conhecimento efetivo e perene.
 


 
Fluxo Gramatical de Consciência

Aluísio B. Pinheiro

     Vogais, consoantes, fonemas, dígrafos, sílaba, palavra, oxítona, paroxítona, proparoxítona. Encontros vocálicos, ditongo, tritongo, hiato e encontros consonantais. Hífen, minúscula, maiúscula, homônimas, parônimas, por quê?
     Radicais, afixos, tema e desinência, prefixos, sufixos e radicais gregos e latinos. Derivação e composição, onomatopéia, abreviação e hibridismo. Substantivo, artigo, adjetivo, numeral e pronome, verbo, advérbio, preposição e conjunção, interjeição, por quê?
     Frase, oração e período, verbo transitivo, intransitivo, direto e indireto ou de ligação. Tempos, predicado e predicativo, complementos nominais, agente da passiva, adjuntos adnominais e adverbiais, apostos e vocativos, por quê?
     Orações sindéticas, períodos compostos, sintaxe, concordância nominal, regência, crase, por que crase? Pronomes oblíquos, vírgula, ponto-e-vírgula, infinitivo conjugável, sinônimos, antônimos, homônimos, parônimos. Figuras de linguagem, metáforas, metonímias, catacrese, elipse, pleonasmo, anacoluto, silepse, hipérbato, hipérbole, eufemismos e ironias, prosopopéias e antítese, por que, por quê???
 


 
Criticando o Ensino da Gramática

Liane Volpe

     A língua portuguesa é matéria das quais mais tive aulas, tanto na minha vida escolar quanto na acadêmica. Gramática foi, sem dúvida, o conteúdo mais ensinado pelos professores. Vou lhes dar um exemplo da aluna aplicada que fui, escrevendo um texto com aspectos da minha aprendizagem.
     Ditongo crescente: quatro, água, vácuo, ágio, série.
     Ditongo decrescente: boi, papai, dormiu, véu, jóia.
     Ditongo oral: mau, céu, gênio.
     Ditongo nasal: porém, hífen, pólen.
     Tritongo oral: quais, apaziguou.
     Hiato: ateísmo, suíno, poeta.
     Dígrafo: milho, pomba, florescer, enxoval.
     Aprendi com empregar o trema, o til, acentos diferenciais, diferenciais morfológicos. Crase? Sou perita. Truques de ortografia? Nem se fala. Pontuação gráfica? Pergunte o que quiser.
     Sei tudo isso e ainda mais. Quanto ao hífen, não me restam dúvidas. Os prefixos de origem latina e grega, tenho memorizados na winchester do meu cérebro, é só ativá-lo. E por aí segue uma lista infindável: concordância nominal e verbal, regência nominal, pronomes pessoais oblíquos átonos...
     Puxa, professores, muito obrigada. Vocês me transformaram em uma gramática ambulante. Se estou satisfeita? Não. Me sento na frente de um papel em branco e tudo que me vem à cabeça são seus quadros e tabelas de memorização. Fui transformada em uma máquina de memória. Minha sensibilidade de escritora nunca foi trabalhada, e a palavra-chave de um texto, a coesão, ah, essa vocês nunca me falaram a respeito. A vocês todos, que contribuíram para a maquinização do meu ser, nada além do meu desprezo.