A Inteligência Lingüística no Espectro de Competências Humanas


     A idéia que temos sobre inteligência, concebida culturalmente ao longo de nossas vivências, geralmente encontra-se assentada na noção de destreza mental, peculiar a alguns indivíduos que se destacam em determinado campo de atividade ou do saber. A essa faculdade humana - a inteligência - costuma ser atribuída uma condição especial, à qual têm acesso poucos privilegiados. E nos anos 50 do século passado, reafirma-se tal noção com os testes de Quociente de Inteligência (QI), em nome dos quais se acreditava ser possível medir a referida capacidade.

     A década de oitenta do mesmo século, entretanto, mostra-se prolífera nas revisões sobre o assunto. Howard Gardner, por exemplo, em sua obra Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas, inclui em seus estudos a idéia de que o intelecto humano deve ser avaliado à luz de uma série de elementos, dentre os quais os diferentes cenários sócio-culturais em que o indivíduo se insere. Para o autor, a inteligência deve ser considerada muito mais como um espectro de competências do que apenas como a capacidade que se expressa na resolução de provas e de testes objetivos. Ser inteligente vai muito além de conseguir gabaritar um rol de exercícios. Ser inteligente, nessa concepção, significa pôr em realização potencialidades no âmbito lingüístico, lógico-matemático, artístico, religioso, ecológico, espacial, corporal-cinestésico, intra e interpessoal.

     Pelas razões apontadas, Gardner opta pela designação inteligências e não inteligência. Destaca as múltiplas potencialidades de que são portadores os seres humanos (sem patologias cerebrais), distanciando-se da noção de que a expressão da inteligência deva se restringir apenas a gabaritar testes.

     Tal postura conceitual coloca-o, juntamente com outros estudiosos que se alinham a esse pensamento, numa dimensão de complexidade na avaliação das capacidades humanas. Sujeito inteligente, nessa perspectiva, deixa de ser aquele que se instala sozinho na torre de marfim de determinada área do saber e não compartilha o conhecimento com os atores sociais do seu tempo. É aquele que, além de ser portador de conhecimentos técnico-científicos, relaciona-se bem consigo mesmo, com seus semelhantes e com a natureza. A vida, assim concebida, estrutura-se em rede, em cadeias associativas, não cabendo aos sujeitos posturas isoladas. Partilhar todas as dimensões do conhecimento constitui tarefa humana não apenas urgente e necessária, mas inexorável.

     A chamada Inteligência Lingüística, segundo Gardner, capacidade mais fortemente partilhada entre os humanos, merece uma atenção especial no âmbito das instituições de ensino. Nelas, exercita-se com maior propriedade, até por força dos ditames historicamente reservados à educação formal, os processos de comunicação nos quais a palavra inscreve-se imperiosa. Falar bem e escrever bem constituem aprendizagens essenciais a serem mobilizadas e aperfeiçoadas em todos os níveis de escolarização.

     Base, portanto, de toda a comunicação humana, a linguagem constitui ferramenta essencial do pesquisador para comunicar seus achados à comunidade científica; do profissional da área de saúde para interagir com os pacientes; do administrador para realizar negócios; do magistrado para expressar a justiça em relação ao julgamento dos fatos; do professor para interagir com os alunos. Enfim, não há atividade humana que se constitua sem linguagem.

     Assim, importante tarefa que a universidade pode cumprir, extrapolando as comportas exclusivas dos campos específicos de saber de cada área de formação profissional, é a de oferecer aperfeiçoamento permanente da chamada Inteligência Lingüística. Com este site, a PUCRS pretende contribuir no âmbito da língua-pátria com a comunidade de alunos, ex-alunos, professores, funcionários e demais usuários desta página, mesmo ciente de que as demais competências humanas também constituem matéria de constante aperfeiçoamento.


Solange Medina Ketzer
Pró-Reitora de Ensino de Graduação