Um visconde e duas literaturas
Maria Eunice Moreira
PUCRS
Em fins do ano de 1851, poucos dias antes de partir para a Europa, um audacioso súdito brasileiro enviava ao Imperador D. Pedro II um memorial em que expunha as alegações pelas quais julgava-se merecedor de uma recompensa imperial. A solicitação verbal, encaminhada por intermédio do Ministro do Império, extensa e fundamentada em vários tópicos, culminava com as seguintes palavras:
O Suplicante crê que pelo que acima alega, e em vista do uso de outras nações, de contemplar a par dos feitos nas armas as lucubrações nas letras, pode pedir a única Graça que deseja e anhela por alcançar da Imperial munificência: – o Oficialato do Cruzeiro.1/2
Em nova correspondência datada em Madri, em 1o de fevereiro de 1852, o jovem volta a se dirigir ao soberano brasileiro, para lhe comunicar que, pela primeira vez, teria a honra de gozar da graça que lhe havia sido concedida e, com palavras de agradecimento, assim se expressa:
Então beijei muito reconhecido a Augusta Mão de V.M.I., e desde esse momento nem um só dia tem passado sem que eu me sinta mais feliz com essa graça do que com todas que já havia recebido de V.M.I. 3
Se corretas as datações do Ministro do Império, entre a partida do suplicante do Rio de Janeiro, a 15 de dezembro de 1851 e sua carta de Madri mediaram apenas 47 dias, numa correspondência que cruzara o oceano ao menos duas vezes: uma para comunicar a concessão e outra para acusar seu recebimento.
Quem era então esse súdito que merecia tanta atenção do Imperador, solicitava seus favores e era atendido com louvores em tão pouco espaço de tempo? Chamava-se Francisco Adolpho de Varnhagen, tinha na ocasião 35 anos, e chefiava a missão diplomática em Madri. Mais tarde, Visconde de Porto Seguro, o brasileiro de Sorocaba ficaria conhecido como pai da história brasileira. Sua obra História geral do Brasil, escrita a pedido do Império, lhe daria reconhecimento e fama, constituindo-se em fonte historiográfica permanente para os historiadores. No papel de futuro narrador da história do Brasil, não causaria surpresa a petição de Varnhagen, não fosse apenas a prematuridade do pedido. Também não causaria surpresa o reclame para si de títulos e comendas. Ao longo dos quarenta anos nos quais manteve regular correspondência com o Imperador Pedro II reiteradas são as solicitações desse súdito, que advogaria postos e missões, chegando até a sugerir ao monarca o reconhecimento de um gênero varnhageriano 4 para individualizar seus escritos.
Desprezadas essas características pessoais, que dizem respeito à história particular de cada personagem, voltemos à questão motivadora da carta de dezembro de 1851. Por que Varnhagen julgava-se merecedor de reconhecimento pelo seu trabalho no campo das letras? A que lucubrações aludia quando solicitava a comenda mais elevada do Império? A resposta a essas indagações encaminham para a revelação de uma outra faceta do autor da História geral do Brasil: a do historiador da literatura.
1 – O historiador e a literatura
O interesse de Varnhagen pela literatura e pelos assuntos brasileiros iniciou-se já na sua fase de formação escolar, em Portugal. Seus estudos não se limitaram às Ciências Físicas e Naturais: fez complementações em Paleografia e Diplomática, freqüentou Economia Política e aprendeu vários idiomas europeus. O conhecimento das línguas lhe permitiu consultar os relatos dos viajantes e cronistas estrangeiros que se ocuparam do Novo Continente, especialmente do Brasil, e abriu-lhe as portas para a escrita da história de sua pátria; pela base adquirida nos estudos de Paleografia e Diplomática podia ler e interpretar os documentos em cursiva processual ou cortesã que atulhavam os arquivos portugueses; os recursos das disciplinas de Economia habilitaram-no a compreender as condições e as necessidades materiais dos primeiros colonizadores brasileiros, por um prisma diferente do até então adotado por seus contemporâneos.
Se os papéis da Torre do Tombo, da Biblioteca Nacional e da Biblioteca da Ajuda, onde passa a maior parte de seus dias, remetiam Varnhagen a um passado distante, isso não o isolava do tempo e do meio em que vivia. A Europa cristã revivia seu interesse pelos estudos históricos e procurava na Idade Média as raízes do liberalismo contemporâneo. Um grupo de estudiosos, onde se destacava a figura de Alexandre Herculano, aglutinava-se em torno da revista O Panorama e voltava-se para o estudo do passado medieval, especialmente os monumentos arquitetônicos e jurídicos. Admitido nesta confraria, Varnhagen partilhava com os portugueses as afinidades de grupo, mas definia objetivos opostos. Enquanto para os primeiros importava a criação do Reino e seu foco dirigia-se à história de Portugal, para o jovem brasileiro prevalecia o interesse pela fundação e desenvolvimento da nova nação e seus olhos focalizavam a história da antiga colônia. Por isso, ao mesmo tempo que se encantava com as xácaras e os romances que povoavam o mundo poético medieval, não esquecia as praias e os habitantes da terra americana. O estudo arquitetônico e estético do Mosteiro de Belém, que publica em 1840, indica para onde converge seu olhar:
É com efeito a Torre do Tombo, onde (com a devida autorização do Governo Fidelíssimo) trabalhamos em nossas investigações brasílicas, que nos vem deixar em toda clareza a história da edificação desse Mosteiro que além de figurar na primeira página da História do Brasil às despedidas do descobridor Pedro Álvares Cabral, contém em si mesmo o símbolo de seu descobrimento, bem como do da India. 5
Varnhagen tem 24 anos e prepara-se para uma viagem ao Brasil, a fim de cumprir uma temporada de estudos e expedições às províncias. No país natal, convive particularmente com o Cônego Januário da Cunha Barbosa e com os membros do recém fundado Instituto Histórico e Geográfico, para o qual fora admitido em 1840, com as Reflexões críticas sobre a obra de Gabriel Soares de Souza. A permanência mais longa no Brasil é impedida pelo precário estado de saúde de seu pai e Varnhagen volta a Portugal, em 1841. À fase pessoal adversa, corresponderia outra no campo profissional. Dispensado do serviço público português, Varnhagen vê-se estrangeiro e sem emprego no Reino, como escreve ao Diretor da Biblioteca de Évora, seu amigo Rivara, convivendo apenas com as literaturas, até sua nomeação como adido diplomático, em 1842.
O convívio com as literaturas de que fala Varnhagen realiza-se nas suas contribuições para O Panorama, para a Revista Universal Lisbonense e para o Jornal das Belas Artes, onde escrevia sobre crítica literária, mas se concretizaria, de modo mais particular, no exercício dos estudos biográficos que começa a redigir sobre seus patrícios brasileiros para publicação na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1843, inicia a série de biografias dos homens ilustres nas armas, letras e virtudes, com Melo Franco; em 1846, focaliza Santa Rita Durão e Eusébio de Matos; em 1847, escreve sobre Antônio José e Manuel Botelho de Oliveira; em 1848, biografa Santa Rita Durão a que se segue, nos dois anos seguintes, o estudo sobre Gonzaga; em 1850, trata de Alvarenga Peixoto e Bento Teixeira Pinto, para encerrar a série, em 1852, com o dicionarista Antônio de Morais Silva. Durante a redação dessa série de estudos biográficos, ainda publica o livro Épicos brasileiros, em 1845, onde reúne Basílio da Gama e Santa Rita Durão.
A voz do historiador prevalece sobre a do crítico, quando se examinam esses textos. Varnhagen excede-se em detalhes pessoais sobre cada personagem, busca a documentação mais fiel, mas deixa recair seu olhar sobre os dados históricos particulares de cada um. Assim, por exemplo, em Melo Franco, anota a boa reputação de médico, em Lisboa, mas prefere registrar a perseguição que lhe foi movida pela Inquisição; em Santa Rita Durão, interessam-lhe os motivos da saída de Portugal e da fuga pela Europa como espião; em Eusébio de Matos, registra sua convivência com os jesuítas, na Bahia; em Gonzaga, explora as circunstâncias do amor infeliz e os fatos de sua prisão e degredo; em Antônio José explora o envolvimento com a Inquisição. Em todos, privilegia a vida pessoal sobre a obra, mas também busca determinar o papel dos escritores na formação da literatura brasileira, com o intuito de ressaltar que a produção artística corresponde a determinadas condições sociais que a moldaram. Varnhagen não só procura delimitar o espaço de cada um na constituição do patrimônio artístico, definindo-lhes lugares e posições (Bento Teixeira Pinto é o primeiro literato nascido no Brasil), como tem lucidez suficiente para reconhecer que a autonomia literária não poderia pleitear reconhecimento sem a afirmação de uma épica nacional.
No entanto, os estudos biográficos não constituíam meros exercícios do historiador, mas atenderiam a outros propósitos, expostos pelo próprio autor. Em outra carta ao Imperador, Varnhagen salienta os motivos pelos quais reunira as biografias e que culmina com a publicação do Florilégio da poesia brasileira, em 1850:
E aqui repetirei de novo a V.M.I. o que já Lhe disse em 1851, que o motivo principal por que eu empreendera o florilégio e escrevia biografias de brasileiros de todas as províncias era para ir assim enfeixando-as todas e fazendo bater os corações dos de umas províncias em favor dos das outras, infiltrando a todos nobres sentimentos de patriotismo de nação, único sentimento que é capaz de desterrar o provincialismo excessivo, do mesmo modo que desterra o egoísmo, levando-nos a morrer pela pátria ou pelo soberano que personifica seus interesses, sua honra e sua glória. 6
A incursão do historiador ao campo da literatura fica plenamente compreendida quando se analisam as condições e circunstâncias em que a obra é apresentada. Varnhagen rejeita a denominação de parnaso a sua antologia, por estar de briga com a mitologia, mas principalmente por pretendê-la distinguir de outra, anterior que teve aquele título, numa referência direta ao Parnaso lusitano, de Garrett. A posição adotada sugere a separação entre as duas literaturas – portuguesa e brasileira – pedra de toque da geração romântica brasileira – e aponta os critérios que regem a organização da obra: integram o Florilégio o autor brasileiro (isto é, nascido no Brasil) e a obra com tema brasileiro. Com essa definição, Varnhagen reafirma a presença dos índices que interessam ao historiador: representação do espaço político, histórico e geográfico, porque entende que esses elementos são suficientes para caracterizar a nação, mas, são esses tópicos que, em sua opinião, permitem declarar a individualização do patrimônio literário brasileiro em relação ao português.
Enfocado à luz dos ideais do grupo que se aglutina em torno de O Panorama, o Florilégio revela a adequação de seu autor aos princípios que regiam o grupo. Como seu próprio nome expressa, o periódico apresentava-se como um panorama da vida e dos pensamentos em circulação, podendo publicar, nas suas páginas uma lenda ou artigos de economia, a gravura de um cavaleiro com sua roupagem de malha ou de um indígena de tacape e tanga das florestas americanas, o documento histórico ou a manifestação literária. Toda a matéria em circulação na sociedade interessava a seus editores, mas principalmente o novo tinha lugar de destaque. E o que representava o novo? Concretamente, duas idéias o expressavam: o americanismo e o medievalismo.
Como homem d’O Panorama, Varnhagen expressa o americanismo ao escrever o Florilégio, mas não deixará de atender ao medievalismo que interessa a seus componentes. Adentrando cada vez mais à literatura, o historiador tomaria o fio da Idade Média para centrar sua atenção nos cancioneiros medievais. O gosto medieval imprimido por Garrett ao grupo de O Panorama, com a publicação do primeiro volume de seu Romanceiro e a sugestão de Cunha Rivara, o diretor da Biblioteca de Évora, com quem Varnhagen partilha descobertas e informações, o estimulam a buscar no cancioneiro medieval as raízes de uma outra história: a da poesia popular. Em 1849, publica em Madri, um volume das Trovas e cantares de um códice do século XIV: ou antes, mais provavelmente o livro das cantigas do Conde Barcelos, cuja autoria mais tarde o próprio Varnhagen se encarregaria de corrigir. Mas estava aberto um flanco que teria continuidade: em 1870, aparece a pequena antologia do códice da Vaticana, que intitula Cancioneirinho de trovas antigas; publica o opúsculo Novas páginas de notas às Trovas e cantares; em 1872, por ocasião da 2.a edição do Cancioneirinho, lança em Viena, Da literatura e dos livros de cavalaria, que resulta numa polêmica com Teófilo Braga; e ainda no mesmo ano, edita o Memorial das proezas da Segunda Távola Redonda.
Nestes anos, a anemia que tomava conta de seu corpo parecia inversamente proporcional a sua capacidade de trabalho. Continua ele a pesquisar e a vasculhar arquivos, a exercer a função de historiador, onde uma batalha ou um texto medieval importam como objeto de investigação. É por essa razão que tanto lhe interessa um poema de Bento Teixeira ou um texto de Gabriel Soares de Souza, um documento encontrado no sertão brasileiro ou uma certidão da Torre do Tombo, uma trova popular ou uma cantiga em uma língua erudita. Em todas as suas investigações, manifesta-se o historiador, inclusive quando o objeto de estudo é o texto literário.
Historiando a literatura brasileira ou a portuguesa, Varnhagen vai, cada vez mais profundamente, tomando o fato literário como objeto de sua investigação, numa trajetória que acentua sua preocupação para com a literatura. Das biografias dos escritores brasileiros que constituíram seu interesse, numa primeira fase, ele aprofunda-se na busca, recolhimento e registro de trovas, canções, cantigas, novelas. De outra parte, assim sintetizada, sua caminhada pela literatura denuncia outra característica: a investigação, que privilegiava o espaço de sua origem, vai cedendo terreno a outro e o sorocabano, distanciado de suas terras, adentra pelo espaço da literatura européia.
Ao final, parece restar a imagem de um Varnhagen que, inicialmente comprometido com o Brasil, vira suas costas a seu país e abandona a posição com que granjeou reconhecimento e favores: a do historiador brasileiro. Contudo, este aspecto merece ser analisado sob a perspectiva do próprio historiador, para entender o lugar que ocupa na historiografia e que decorre do entendimento de seu conceito de história. Para Varnhagen, a história exige o gosto pela investigação, a revelação da pesquisa, a descoberta de um dado inédito. É, pois, uma criação que se fundamenta no testemunho e no documento, de modo a esclarecer e a elucidar o errado ou o incompleto, ou trazer à luz o inédito. A história da literatura não difere da outra história, a dos episódios, porquanto ela não prescinde desses recursos, mas também exige a consulta, busca o esclarecimento e almeja o ineditismo. A diferença encontra-se no fato de que constituem documentos da história da literatura a vida do autor, a bibliografia, as condições particulares do processo de criação e um documento específico, que lhe concede feição particular e que não se encontra na outra história: o texto literário. Daí entender-se por que Varnhagen foi um antologista e foi também um copista das produções literárias: era desse modo que ele oferecia à história da literatura os documentos essenciais para sua realização. E era nesse ponto também que podia conciliar as duas áreas de seu interesse – a história e a literatura.
Dentro dessa concepção, torna-se também mais fácil entender por que, ao final de sua vida, Varnhagen não se acanharia em pegar da pena e solicitar ainda uma vez ao Imperador a posição de ministro plenipotenciário na Áustria ou lhe preceituar uma boa dose de azeite de bacalhau e caldos fortes com uma colher de extrato de Liebig, para curar os achaques imperiais. Afinal, seguramente sabia o Visconde de Porto Seguro que história também se faz com os registros da intimidade epistolar de seus condutores.
NOTAS:
1 VARNHAGEN, F.A. Correspondência ativa. Coligida e anotada por Clado Ribeiro de Lessa. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1961. p.168-169.
2 Idem, p.170.
3 Idem, p.170.
4 A passagem em que Varnhagen faz a sugestão é a seguinte: Termino felicitando-me de haver salvado este livro de ir a outras mãos e de haver tido ocasião de o emprestar a V.S. que aproveitará dele com glória para o nosso país. Creio que o serviço valia um gênero varnhageniano. Op. cit. nota n.1, p.192.
5 Este registro encontra-se no seguinte artigo: MOREIRA, Thiers Martins. Varnhagen e a história da literatura portuguesa e brasileira. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de janeiro, n. 275, p.155-169, abr./jun. 1967.
6 Op. cit. nota n.1, p.246.