O regionalismo literário e a Província de São Pedro 1
Carlos Alexandre Baungarten
FURG
O regionalismo literário é, no Rio Grande do Sul, objeto de reflexão teórico-crítica desde os textos publicados nas páginas da Arcádia 2 no final dos anos 60 do século XIX, quando, sob a inspiração do ideário romântico, os primeiros críticos sulinos apontavam para a necessidade da exploração literária do espaço e do tipo humano locais como o único caminho para a consecução de uma literatura que se pretendia original e emancipada. O discurso crítico então formulado, embora tributário do nacionalismo romântico, abre caminho para a discussão em torno da criação de uma literatura fundada em motivos essencialmente regionais, como se pode depreender de afirmações como a seguinte:
Já me quer parecer que vejo um Bernardim Ribeiro a descrever a vida do gaúcho, o ser nacional por excelência, tão cheia de lances poetizáveis. (...) O Rio Grande que, moralmente, forma uma nação à parte, também terá uma literatura, propriedade sua, tão sua, como seus são esses moutados que se azalecem ao sol de maio... 3 (Grifos meus)
Concebidas em uma época em que o Rio Grande e seu homem ainda não haviam se constituído em motivo literário, as idéias de Glodomiro Paredes são originais e, de certo modo, antecipam o que autores como Apolinário Porto Alegre com O vaqueano (1872), Paisagens (1875) e Tapera (1875), e Bernardo Taveira Júnior com Provincianas (1886) realizam no campo da produção literária local nos anos imediatamente posteriores. Contudo, mais importante do que a originalidade que possa ter, é o caráter ambivalente que marca o discurso crítico que está na origem do regionalismo, pois, ao mesmo tempo em que o gaúcho é elevado à condição de símbolo da nacionalidade brasileira, o Estado é concebido como uma nação à parte e, portanto, merecedor de uma literatura que o represente e o distinga no contexto geral do País. No primeiro caso, abre-se a possibilidade para a concretização de uma literatura regionalista como mera variante do nacionalismo romântico, uma vez que a perspectiva dominante é a da integração do Rio Grande ao restante do território brasileiro; no segundo, pelo isolamento da região, estimula-se o desenvolvimento de um regionalismo de cunho separatista.
Nos anos subseqüentes, a discussão sobre o regionalismo é praticamente abandonada pelo ensaio crítico produzido no Estado. Somente na virada do século XIX para o XX, é que ela retorna com força, especialmente através da obra de Alcides Maya. Em Através da Imprensa,4 coletânea de textos divulgados originalmente em espaços jornalísticos entre 1898 e 1900, o autor de Ruínas vivas recoloca a questão na ordem do dia e, não obstante a influência de pressupostos oriundos do cientificismo em voga a partir da segunda metade do século passado, conserva muitas das orientações concebidas pelo ensaio de base romântica. Esse é o caso da exaltação que faz do Rio Grande, fundada principalmente em seu passado histórico e de lutas, e do perfil que traça do gaúcho:
A psicologia sobre todas interessante e complexa do gaúcho, saturando o ambiente em que respiramos, de vigor anímico, de ingenuidade cavalheiresca, de fluidos de rebeldia indiana e de cruzados elementos da audácia inexcedível dos ibéricos – as duas correntes hereditárias que o dominam, disciplinadas pelo meio físico-histórico –, ativará sempre em nosso sangue (...) o princípio da combatividade. 5 (Grifo meu)
A afirmação do ensaísta aponta para a superioridade do solo e do tipo humano sulino, uma vez que sua psicologia é sobre todas interessante e complexa. Além disso, a configuração psicológica do gaúcho aparece com as marcas do vigor, do cavalheirismo, da rebeldia, da audácia e da combatividade, características do tipo regional sul-rio-grandense concebido literariamente pelo regionalismo, como o comprovam os trabalhos de Lígia Chiappini Moraes Leite 6 e Maria Eunice Moreira. 7 Ainda que inscrita no âmbito das reflexões em torno do problema da nacionalidade da literatura brasileira, a posição assumida por Alcides Maya mantém, a exemplo da de seu antecessor, um caráter dúbio, uma vez que reafirma a diferença e a superioridade do gaúcho no contexto da Nação, pois o mestiço mais característico da história americana é o gaúcho e que em nenhuma outra região, (...) apareceu uma figura tão soberana e de ação tão decisiva, como o monarca das coxilhas sul-rio-grandenses, das solidões pampeanas. 8 Contudo, anos mais tarde, ao publicar O Rio Grande Independente, 9 o próprio Alcides Maya trata de refutar as teses que vêem no regionalismo um movimento de cunho separatista, percebendo-o, então, como a contribuição do Rio Grande ao trabalho desenvolvido pelo País em busca da criação de uma literatura original e autônoma.
Idêntica posição será defendida por João Pinto da Silva, quando, em 1930, publica A Província de São Pedro, 10 estabelecendo o caminho que seria predominantemente percorrido pelo ensaio e pela historiografia literária posteriores, ao afirmar:
O regionalismo literário, no Rio Grande, não é órgão, nem o foi nunca, do novo tão falado – mais falado do que real – separatismo político.
Até agora, romanceando, poetizando os nossos gestos e pendores mais típicos, o que tem tido em mira é a exaltação da personalidade do Rio Grande, dentro do Brasil e sem prejuízo do Brasil. 11
A contribuição mais importante de João Pinto da Silva para o estudo do regionalismo, contudo, fora dada anos antes quando, ao publicar a História literária do Rio Grande do Sul, 12 inscreveu o tema no âmbito da historiografia literária. Dedicando o capítulo VI, – "O regionalismo, no conto, no romance e na poesia – Suas primeiras manifestações" –, ao exame da literatura regionalista, o historiador registra o pioneirismo de Apolinário Porto Alegre, situando-o na primeira fase do movimento, aponta sua fragilidade no campo da poesia e reconhece na obra de Alcides Maya e Simões Lopes Neto um desdobramento, já então sob novos pressupostos, do trabalho iniciado pelo autor de O vaqueano. Além disso, identifica as características tipológicas do regionalismo que, guardadas as devidas diferenças de tempo e de instrumental teórico utilizado, em muito se aproximam dos resultados alcançados por pesquisas empreendidas por estudiosos contemporâneos, já que
o nosso regionalismo é fértil em conteurs e paisagistas. Seus refletores focam os assuntos, parceladamente, por zonas, em episódios avulsos e fragmentários. Há situações e tipos que se repetem com freqüência. Pouco diferem, de um livro a outro livro, os cenários, a mise-en-scène. É indisfarçável, por isso mesmo, a monotonia que, às vezes, de muitas de suas melhores páginas se evola. 13
A atualidade do juízo crítico de João Pinto da Silva revela-se inteira nessa passagem, uma vez que estudos recentes são igualmente unânimes em reconhecer o paisagismo, a supremacia do conto e a reiteração de cenários e personagens como marcas da ficção regionalista produzida no Rio Grande, no período compreendido entre 1870 e 1920.
O regionalismo, após a síntese levada a termo por João Pinto da Silva, volta a ser objeto de exame segundo uma perspectiva historiográfica nas páginas da Província de São Pedro, especialmente através de três textos: "Os fundamentos econômicos do regionalismo", 14 de Dyonélio Machado, publicado no número de setembro de 1945; "Apreciações sobre a literatura regional rio-grandense", 15 de José Salgado Martins, divulgado em número de dezembro de 1947, e "Condições histórico-sociais da literatura rio-grandense", 16 de Carlos Dante de Moraes, presente no único número do ano de 1954.
Segundo Dyonélio Machado, apesar de freqüentemente estudado, o regionalismo permanece incompreendido, uma vez que jamais foi analisado em seus fundamentos econômicos e à luz da história econômico-social que, de modo dissimulado, está na sua base. Buscando suprir tal lacuna, o ensaísta reconhece a existência de dois períodos distintos na produção regionalista: um primeiro, que denomina de clássico, abarcando as obras de Simões Lopes Neto e Alcides Maya; um segundo, que nomeia de localismo, referente às obras de Ivan Pedro de Martins e Cyro Martins.
O regionalismo clássico promove a fixação do camponês rio-grandense à moda gaúcha, isto é, heróico e fanfarrão mesmo na miséria, e é expressão de um tempo em que a guerra em defesa do território e a atividade pastoril se confundem no âmbito de um espaço ainda não demarcado definitivamente. Mais do que isso, esse espaço revela-se distante do modo de produção capitalista.
O localismo, contrapondo-se ao modelo anterior, apresenta o gaúcho como um semi-proletário rural, destituído dos antigos atributos, mutilado, e anuncia a morte do centauro, tão forte nas representações literárias precedentes. O surgimento da figura do gaúcho a pé, – sinal evidente da mudança de orientação observada pela prosa de ficção –, deve-se, segundo o articulista, essencialmente às transformações ocorridas no campo, que vive um tempo de paz e de crescente modernização através da industrialização da pecuária.
A reflexão de Dyonélio Machado se, de um lado, aponta para a afirmação de um novo tipo de narrativa no Rio Grande, – a da década de 30 –, por outro, desconsidera a produzida ao tempo do Romantismo, restringindo o alcance do regionalismo tal como fora concebido por João Pinto da Silva. Além disso, ao estabelecer a distinção entre regionalismo e localismo, igualmente exclui a ficção de 30 do âmbito do primeiro, que fica restrito à produção ficcional das duas primeiras décadas do século XX. É interessante observar, ainda, que o Autor não menciona a obra de Darcy Azambuja, considerada pela crítica e historiografia literárias um marco importante na trajetória do regionalismo sulino, uma vez que anunciadora da presença do Modernismo no Rio Grande.
Divulgado dois anos mais tarde, o texto de Salgado Martins reveste-se de uma preocupação predominantemente historiográfica, cujo objetivo é a definição da trajetória empreendida pelo regionalismo ao longo de sua história. Nesse sentido, propõe a existência de três períodos distintos: um primeiro, inaugurado por Apolinário Porto Alegre, que se caracteriza pela presença de uma concepção puramente romântica do gaúcho e em que o conto e o romance aparecem destituídos de qualquer intenção psicológica; um segundo que, sob a influência do Naturalismo, além de focalizar a geografia do pampa, busca fixar a psicologia dos tipos humanos; e, por fim, o surgido a partir da década de 30, em que à fixação da psicologia dos tipos alia-se a reivindicação de cunho social.
Como se pode observar, Salgado Martins retoma a proposição inicial de João Pinto da Silva e a ela acrescenta a ficção de 30, como um desdobramento da vertente regionalista cuja origem está situada no Romantismo. Entretanto, diferentemente do autor da História literária do Rio Grande do Sul, valoriza a obra de Alcides Maya no confronto com a de Simões Lopes Neto, formulando um juízo que em tudo se contrapõe ao estabelecido tanto pelo ensaio crítico anterior, quanto por aquele que o sucede. Assim, para Salgado Martins
Simões Lopes Neto fez a transposição para o plano literário das cenas e dos homens do campo com a singeleza com que se desenham e reacionam na vida real. Não tentou interpretá-los. (...) Alcides Maya não era um simples copista de quadros e tipos humanos. No anseio de decifração filosófica da vida, pela intuição sutilíssima de seu engenho artístico, Alcides Maya foi muito além: em qualquer passagem de sua obra, fixando um personagem, não se limita aos efeitos pinturescos, ao contorno exterior. 17
Numa época em que a obra de Simões Lopes vinha sendo resgatada pela historiografia, através da reedição de textos e publicação de inéditos nas páginas da própria Província de São Pedro, e sendo reconhecida como a expressão mais talentosa e universal do regionalismo sul-rio-grandense, a posição de Salgado Martins mostra-se saudosista e, ao mesmo tempo, conservadora do ponto de vista ideológico. O mesmo se pode dizer da avaliação que faz da narrativa de 30 na qual surpreende uma inclinação negativista bem nítida dos nossos valores tradicionais, um desencanto ou decepção em torno do nosso passado heróico e de tudo que constituiu os velhos padrões da vida rio-grandense. 18 Posicionando-se contrariamente à crítica social nos moldes em que era realizada pelo romance de 30, conclui: Não contestamos o realismo do atual romance rio-grandense. Divergimos das intenções que dele se insinuam. 19
O texto de Carlos Dante de Moraes, publicado já no curso da década de 50, situa-se também no campo da historiografia literária. Na abertura do ensaio, o autor estabelece o critério que observará no exame do processo literário sulino, ao afirmar que considerará escritores sul-rio-grandenses não apenas os nascidos no Rio Grande, mas também os que aqui se radicaram e influíram literariamente, ou ainda aqueles que escreveram obra de expressão rio-grandense, pouco importando sua proveniência natal. A estratégia adotada pelo autor, além de permitir a consideração de Ivan Pedro de Martins como escritor gaúcho, inobstante sua origem capixaba, revela a existência de obras de expressão rio-grandense, fato que no mínimo sugere que o Rio Grande possui uma literatura distinta da realizada no restante do País. Nessa medida, observa-se a reedição do discurso ambíguo que está na origem do pensamento desenvolvido em torno da produção de caráter regionalista.
Fiel ao critério inicialmente estabelecido, Carlos Dante de Moraes descarta a obra dos românticos, que realizaram uma literatura de imitação fácil, sem nenhuma raiz local, 20 em que o gaúcho aparece como mero pretexto para a idealização romântica. Por isso, quem abre o ciclo regionalista é o seu mais acabado, mais perfeito representante: João Simões Lopes Neto. 21 A ele se associam Darcy Azambuja, na ficção, e Vargas Neto, na poesia, uma vez que o Modernismo, no entendimento do ensaísta, determinou que o Rio Grande se voltasse para o regionalismo. Integram ainda o ciclo regionalista Alcides Maya e seus seguidores, embora tenham realizado uma obra marcada por uma nostalgia nitidamente de inspiração romântica. A partir da década de 30, contudo, pela complexidade atingida pelos processos de criação literária, não mais se pode falar em regionalismo no sentido estrito.
A perspectiva historiográfica defendida por Carlos Dante de Moraes, como se constata, restringe a abrangência do regionalismo, se comparada à proposta original de João Pinto da Silva, à divulgada em outros ensaios da Província de São Pedro e mesmo à presente na historiografia contemporânea, que tendem a considerar como regionalistas tanto a obra dos românticos sulinos quanto a que se afirmou a partir dos anos 30.
Nessa medida, o exame dos textos divulgados na Província de São Pedro mostra que, longe de se alcançar uma uniformidade de pensamento em torno do regionalismo, acentuam-se as divergências no que diz respeito à definição de sua natureza e abrangência. A questão, em verdade, parece ser de natureza conceitual, já que termos como regionalismo, regional e localismo são freqüentemente utilizados como se sinônimos fossem, ou como se as produções e períodos literários por eles nomeados se constituíssem em mero desdobramento uns dos outros. A resolução do problema reside na resposta às seguintes perguntas que, embora freqüentes na reflexão acerca do regionalismo, não foram ainda suficientemente elucidadas pela historiografia literária:
a) O que se deve entender por regionalismo na literatura sulina?
b) Qual a sua abrangência?
c) Foi ou é o regionalismo literário instrumento de separação/distinção do Rio Grande em relação ao restante do País?
O equacionamento dessas questões, que ainda está por ser realizado, permitirá que se passe a navegar por águas certamente menos turvas.
NOTAS:
1 A Província de São Pedro, publicação de caráter interdisciplinar, circulou em Porto Alegre, sob a direção de Moysés Vellinho, entre os anos de 1945 e 1957. A revista, que teve 21 números publicados, não apenas aglutinou em torno de si os nomes mais significativos da intelectualidade sulina da época, como divulgou trabalhos de autores importantes e em atividade no centro do País, como Paulo Rónai, Otto Maria Carpeaux, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, entre tantos outros.
2 A Arcádia, jornal ilustrado, literário, biográfico e histórico, de propriedade e direção do português Antônio Joaquim Dias, circulou inicialmente na cidade do Rio Grande, quando teve as suas três primeiras séries (1867-1869) publicadas. A quarta e última série (1870) foi publicada em Pelotas, para onde se transferira seu diretor. A Arcádia foi responsável pela publicação do mais importante conjunto de textos produzidos no Estado sob a inspiração do ideário crítico formulado no curso do Romantismo.
3 PAREDES, Glodomiro. Poetas e poesia. Arcádia, Jornal ilustrado, literário, histórico e biográfico, Rio Grande, 1869. 3. série. p.273.
4 MAYA, Alcides. Através da imprensa. Porto Alegre: Otaviano Borba & Cia, 1900.
5 Op. cit. nota n.4, p.02.
6 LEITE, Lígia Chiappini Moraes. Regionalismo e modernismo. São Paulo: Ática, 1978.
7 MOREIRA, Maria Eunice. Regionalismo e literatura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST/ICP, 1982
8 Op. cit. nota n. 4, p.102.
9 MAYA, Alcides. O Rio Grande independente. Porto Alegre: Otaviano Borba & Cia, 1909.
10 SILVA, João Pinto da. A Província de São Pedro. Interpretação da história do Rio Grande. Porto Alegre: Globo, 1930.
11 Op. cit. nota n. 10, p.113.
12 SILVA, João Pinto da. História literária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1924.
13 SILVA, João Pinto da. História literária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1930. p.132.
14 MACHADO, Dyonélio. Os fundamentos econômicos do regionalismo. Província de São Pedro, Porto Alegre, n. 2, p.128-130, set. 1945.
15 MARTINS, José Salgado. Apreciações sobre a literatura regional rio-grandense. Província de São Pedro, Porto Alegre, n. 10, p.105-108, set./dez. 1947.
16 MORAES, Carlos Dante de. Condições histórico-sociais da literatura rio-grandense. Província de São Pedro, Porto Alegre, n. 19, p.7-18, 1954