O problema da nacionalidade na crítica e historiografia literária sul-rio-grandense




Carlos Alexandre Baungarten
FURG




      O ensaio literário sul-rio-grandense apresenta uma história recente se comparada à produção do centro do País, uma vez que somente no final da década de 60 do século passado é que se fizeram presentes no Estado as condições mínimas para que então se estabelecesse a prática crítica. É com o surgimento de uma série de associações literárias e revistas e jornais a elas vinculados, ao longo dos anos 60 e 70 do século XIX, que se inaugura a reflexão em torno da literatura.

      A despeito desse descompasso, o ensaio crítico sulino não deixou de colocar em discussão os principais temas que já vinham sendo abordados pela crítica e historiografia literária dos centros culturais então mais desenvolvidos, Rio de Janeiro e São Paulo. Entre eles, destaca-se a reflexão em torno do problema da nacionalidade da literatura produzida em solo brasileiro, cuja discussão no Rio Grande do Sul iniciou-se sob a égide dos pressupostos estabelecidos pelo Romantismo. Ao focalizarem a questão, os ensaístas sul-rio-grandenses articularam-se basicamente em torno das seguintes idéias: a) a relação entre independência política e emancipação literária; b) a necessidade do aproveitamento da natureza brasileira como caminho indispensável para a originalidade em literatura; c) a distinção do português falado e escrito no Brasil em relação ao utilizado em Portugal; d) a discussão em torno da literatura produzida no Estado e a conseqüente elaboração das teses regionalistas.

      A vinculação entre a literatura romântica e o fato político da independência constitui-se em uma tradição na crítica e história literária brasileiras. Desde a vigência do Romantismo até os dias atuais, não são poucos os críticos e historiadores que vêem na autonomia política, conquistada em 1822, um dos elementos determinantes da literatura produzida no Brasil a partir dos anos 30 do século XIX. Haja vista a existência de trabalhos como o de Antonio Candido, em sua Formação da literatura brasileira, 1 ou mesmo de Afrânio Coutinho 2 que, apesar da orientação teórica diversa, igualmente insiste na relação entre Romantismo e independência política como elemento caracterizador da produção intelectual brasileira concebida sob os pressupostos românticos. O mesmo princípio manifesta-se no ensaio sulino formulado sob o influxo do Romantismo, como se pode observar na seguinte nota crítica, de autoria desconhecida, em que o articulista afirma:



     No mesmo dia em que o Brasil conquistou a sua autonomia política, nesse mesmo dia rasgou sob o solo o espaço em que devia erguer o monumento grandioso de sua literatura. A aurora esplêndida do dia sete de setembro assinalou não só a nossa independência política, como a emancipação de nossa literatura. Trabalhar pois para o seu realce, animar e despertar o estímulo dos que se dedicam às letras para que dêem às suas produções a cor nacional é render cultos ao belo, a Deus e à pátria.3



      Publicada nas páginas d'O Mosquito, 4 no ano de 1874, a nota anterior reproduz e sintetiza algumas idéias básicas da crítica romântica brasileira, elaboradas no curso da primeira metade do século XIX. Trata-se aqui de vincular a independência política à emancipação literária, sendo a separação entre Brasil e Portugal no plano político considerada fator determinante de uma autonomia cultural então desejada. A criação de uma literatura independente coloca-se para o escritor como dever patriótico, uma vez que de sua ação depende a completa libertação do País.

      A nota d'O Mosquito mostra, por outro lado, que o ensaio crítico no Rio Grande desenvolveu trajetória semelhante ao do praticado no centro do País, do qual é tributário. Apesar de apresentar história mais tardia, a crítica produzida no Rio Grande do Sul, ao retomar idéias presentes na historiografia literária brasileira desde Ferdinand Denis, – a relação entre autonomia política e literária –, revela que o Estado estava culturalmente integrado ao restante da Nação e, ao mesmo tempo, engajado na luta geral pela construção de uma literatura independente. Este é também o sentido das palavras de Taveira Júnior, outro ensaísta do período, que afirma:



     Um povo que é livre por suas instituições, deve sê-lo também pelo pensamento. Nada há que o autorize a mendigar a estranhos o colorido para as suas imagens e descrições, a beleza e o perfume para as suas flores, o arrojo e elevação para os seus tropos e figuras. 5



      O texto de Taveira Júnior aponta, ainda, para outra questão fundamental no desenvolvimento da idéia romântica: o problema da nacionalidade da literatura brasileira vinculado ao aproveitamento da natureza americana, cuja incorporação pela produção literária coloca-se como pressuposto indispensável para a consecução de uma expressão artística de cunho nacional, pois



     a natureza é uma fonte inexaurível das mais mimosas e gigantescas inspirações; para que não recorremos a ela quando os seus painéis belos e sublimes, oferecem-se majestosos, cheios de encanto, ao olhar animado do escritor e do poeta? E a natureza da América é tão rica e nós a desprezamos!

     É necessário muitas vezes que Saint Pierre, Chateaubriand e muitos outros venham decantar-lhe as belezas! 6




      As idéias de originalidade e nacionalidade, não raras vezes, fundem-se no ensaio dos críticos gaúchos, uma vez que ambas têm origem no aproveitamento da natureza local. Nessa medida, para ser original e representativa do País, a literatura devia amoldar-se à paisagem brasileira, princípio este proposto no âmbito da crítica literária brasileira desde Ferdinand Denis.

      A questão da originalidade vem, por outro lado, aliada ao princípio da não-imitação, que assume diferentes sentidos no interior do ensaio literário do período. Numa primeira acepção, prega-se a não-imitação dos modelos estrangeiros, especialmente os portugueses, numa evidente tentativa de afastamento e emancipação no que diz respeito a Portugal. O desejo de liberdade em relação à antiga Metrópole, ao alcançar o plano literário, conduziu os críticos à defesa de duas idéias básicas: de um lado, o reconhecimento da existência de uma literatura brasileira emancipada da portuguesa; de outro, a caracterização desta como envelhecida e ultrapassada, opondo-se ao novo, próprio da expressão literária nacional.

      Num segundo sentido, o princípio da não-imitação, e conseqüentemente a questão da originalidade, refere-se ao aproveitamento da natureza não mais como a entendiam os neoclássicos, mas de acordo com o sentimento nacionalista romântico, que via a paisagem tropical como um índice capaz de conferir especificidade à literatura brasileira, distinguindo-a da européia, como esclarece Bernardo Taveira Júnior:



     A nossa poesia deve inspirar-se nas belezas da riquíssima natureza com que dotou-nos o Criador; deve trescalar o doce perfume das flores da pátria. (...) Deve-se fugir o mais possível de imitar a literatura de estranhos. A imitação, além de arrefecer e enervar a faculdade de criar, enxerta quase sempre no tronco que se cultiva, frutos diversos da sua natureza.7



      Partindo deste posicionamento, os críticos sulinos enfatizam o aproveitamento da natureza brasileira como critério para a avaliação das obras literárias então produzidas. Nesse sentido, maior mérito tinham os textos em que era flagrante a presença da paisagem americana, contribuindo para a diferenciação e afirmação da literatura nacional. Este é o espírito da seguinte apreciação crítica de um drama de José de Sá Brito, publicada anonimamente:



     Ali revela-se muito gosto, cor local, a naturalidade, sem faltar imaginação. (...) Transparece nele o reflexo da poesia nacional, e com ela a idéia de liberdade; nada é emprestado do velho mundo; são cenas puramente desta terra, rica de perfumes e luz, onde a idéia consubstancia-se com a natureza esplêndida, onde cada arbusto que balança à viração de cada monte que se doira do sol da tarde, o poeta encontra um canto de epopéia. 8



      A passagem transcrita revela, além disso, o caráter político da crítica literária romântica praticada no Rio Grande do Sul que, como a de outros centros brasileiros, mostra-se mais preocupada em realizar uma louvação ao País do que com a análise do texto literário, mero pretexto para uma apologia de cunho nacionalista.

      O princípio da não-imitação assume, ainda, outras significações, como a que o vincula ao trabalho com uma temática referente à realidade social do Brasil. Glodomiro Paredes, jornalista da Arcádia, 9 em artigo sobre a produção poética brasileira, tece críticas à vertente romântica de inspiração byroniana por ela se distanciar das questões nacionais, optando por um modelo literário fundado na imitação e, por isso mesmo, destituído de originalidade.

      Finalmente, a questão da originalidade aparece vinculada a um tópico que considera a literatura como expressão do clima e dos costumes. No plano nacional, a idéia já vinha sendo desenvolvida desde os trabalhos da Sociedade Filomática, de Santiago Nunes Ribeiro, de Joaquim Norberto, de José de Alencar, entre outros, numa prova de que os ensaístas da Província acompanhavam de perto a produção crítica dos principais centros culturais brasileiros. Em síntese, o ensaio crítico sulino, ao eleger a originalidade como condição indispensável para a consecução de uma expressão literária nacional e autônoma, manifestou-se basicamente: a) pelo desejo de adaptar a literatura à natureza brasileira, único caminho para se atingir o específico nacional então procurado; b) pelo afastamento dos modelos literários europeus, especialmente os portugueses; c) pela necessidade de se tematizarem os aspectos referentes à realidade sócio-política brasileira; d) pela criação de uma literatura que fosse expressão do clima e dos costumes brasileiros.

      O problema da nacionalidade está também na origem da discussão, instaurada no curso da crítica literária romântica, a respeito da língua brasileira, presente na produção da Sociedade Filomática, nos escritos de Santiago Nunes Ribeiro e de José de Alencar. O ensaio crítico sulino, através de Apolinário Porto Alegre, integrou-se, embora tardiamente, ao mesmo debate. Ao publicar José de Alencar – estudo biográfico, 10 réplica às críticas feitas ao romancista cearense pelo português Pinheiro Chagas, o ensaísta gaúcho reconhece a obra alencariana como o melhor exemplo da fusão da língua portuguesa dos quinhentistas com o que chama de língua portuguesa do período brasílico. Assim, referindo-se a Alencar, afirma:



     Eis um nome, eis uma literatura e uma nacionalidade.(...)

     São também o sábio e sobretudo o filólogo que ali encontrarão o que até hoje os dicionários não conseguiram reunir: a língua portuguesa dos quinhentistas e a língua portuguesa no auge do esplendor, no período brasílico. Entre os nossos escritores e os de além-mar, ninguém escreveu ainda com mais mimo e flexibilidade, doçura e fluência, nem com mais riquezas, flores e viço. É ele no mundo da arte o fidedigno representante do espírito da América, essa colônia que já a passos de gigante assoberba a metrópole. 11




      Além de assumir posição nacionalista, ao tratar da língua portuguesa do período brasílico, Apolinário Porto Alegre defende a utilização de neologismos e termos regionais por parte dos escritores brasileiros. Nessa medida, manifesta atitude distanciada do purismo demonstrado por Pinheiro Chagas, em seus Novos ensaios críticos. 12 A reflexão de Apolinário Porto Alegre, na defesa de um uso diferenciado da língua portuguesa por parte dos brasileiros, vale-se também de uma argumentação de natureza antropológica, já que a nacionalidade brasileira aparece como fruto da miscigenação, entre o branco (português), o índio e o negro, configurando-se a concepção que entende o Brasil e sua cultura como uma expressão da mestiçagem racial, teoria desenvolvida com maior profundidade a partir do final do século XIX. Assim, a língua como manifestação da nova raça deve necessariamente diferir da matriz portuguesa. O reconhecimento da existência de uma língua brasileira por parte do crítico gaúcho deve-se provavelmente à influência exercida pelo próprio Alencar que, três anos antes, publicara o pós-escrito à segunda edição de Iracema, onde desenvolve raciocínio semelhante e rebate as acusações de Pinheiro Chagas.

      Apolinário retomaria a mesma argumentação em torno da questão da língua brasileira nas Notas presentes no final do livro de contos Paisagens, 13 publicado em 1875, onde se refere a uma obra de título Dialeto nacional, que estava preparando. Tanto neste texto quanto no José de Alencar – estudo biográfico, o emprego diferenciado da língua coloca-se para os escritores como uma exigência, já que todos devem contribuir para a construção da nova nacionalidade, cuja realidade lingüística é necessariamente diferente da portuguesa, pois em Portugal tudo é estacionário, porque ele vive da tradição; no Brasil tudo caminha, é impetuoso, porque ele vive da esperança, o futuro é seu norte. 14

      O problema da nacionalidade aparece também vinculado às reflexões iniciais em torno do processo literário gaúcho. Ao se voltar para a realidade sul-rio-grandense, o ensaio crítico da época parte do questionamento a respeito da própria existência de uma literatura gaúcha, quando se fazem presentes duas posições distintas: na primeira, colocam-se aqueles que situam a origem da literatura da Província no trabalho desenvolvido por Félix da Cunha e seus companheiros em torno d'O Guaíba, 15 na segunda, aqueles que entendem encontrar-se a literatura sulina, enquanto manifestação específica da região, ainda exclusivamente no plano da oralidade. Ao primeiro grupo pertence Taveira Júnior que reconhece na publicação d'O Guaíba a pedra fundamental para o levantamento do edifício de nossas letras. 16 Outra, contudo, é a visão de Glodomiro Paredes ao refletir sobre o estágio em que se encontrava a literatura gaúcha:



     Entre nós eu distingo duas classes de poesia. A natural, que eu nem mesmo sei o que seja, e a poesia dos poetas. Esta, carrancuda, coriscando raios e aterradora, abunda e solidifica-se na imitação; aquela, toda harmonia, doce como um favo da mandassaia, não é feita à arte, não é escrita, está no coração de nosso campônio, que a verte em palavras, cantando as belezas que a natureza como que quis esperdiçar conosco, e funda-se em motivos nacionais, em coisas de nossa pátria. A poesia dos poetas é imitação, e que imitação santo Deus! A seguidilha do campônio, a poesia rio-grandense, ainda está em estado de feto, mas há de nascer. 17



      O crítico não reconhece a existência de uma literatura sul-rio-grandense, já que constata na produção do período a marca da imitação. No entanto, é significativa a divisão que oferece entre o que chama de poesia natural e poesia dos poetas: a primeira, embora restrita à oralidade, corresponde à literatura do Rio Grande, porque fundada em motivos nacionais; a segunda, ainda que escrita e mais abundante, configura-se como pura imitação. A importância dessa classificação deve-se ao fato de ela introduzir um elemento novo no âmbito do debate sobre a questão da nacionalidade, porquanto pela primeira vez não só se registra a presença de uma produção literária oral na Província, como nela se reconhece a marca do específico nacional. Nesse sentido, impõe-se aos escritores a pesquisa da literatura popular, entendida como o caminho indispensável para a originalidade e conseqüente autonomia em relação aos modelos externos.

      Constatada a ausência de caráter nacional na literatura praticada no Rio Grande do Sul, o ensaísta reivindica uma nova atitude por parte dos escritores, ao afirmar:



     Já me quer parecer que vejo um Bernardim Ribeiro a descrever a vida do gaúcho, o ser nacional por excelência, tão cheia de lances poetizáveis. (...) O Rio Grande que, moralmente, forma uma nação à parte, também terá uma literatura, propriedade sua, tão sua, como seus são esses moutados que se azalecem ao sol de maio, estas capoeiras marchetadas com as flores alvas do camboim.18

     Já me quer parecer que vejo um Bernardim Ribeiro a descrever a vida do gaúcho, o ser nacional por excelência, tão cheia de lances poetizáveis. (...) O Rio Grande que, moralmente, forma uma nação à parte, também terá uma literatura, propriedade sua, tão sua, como seus são esses moutados que se azalecem ao sol de maio, estas capoeiras marchetadas com as flores alvas do camboim. 18



      A formulação reveste-se de um duplo sentido, pois, ao mesmo tempo em que o gaúcho é elevado à condição de símbolo da nacionalidade brasileira, a Província é concebida como uma nação à parte e, portanto, merecedora de uma literatura que a represente e a distinga no contexto geral do País. No primeiro caso, abre-se a possibilidade para a concretização de uma literatura regionalista como mera variante do nacionalismo romântico, uma vez que a perspectiva dominante é a da integração do Rio Grande ao território brasileiro; no segundo, pelo isolamento da região, estimula-se o desenvolvimento de um regionalismo de cunho separatista. Este caráter ambivalente do discurso de Glodomiro Paredes é, provavelmente, o responsável pela leitura que dele fizeram os críticos posteriores, principalmente Alcides Maya e João Pinto da Silva, ao elaborarem as teses regionalistas.

      Ainda que expressão do nacionalismo literário romântico, o ensaio de Glodomiro Paredes conserva até o final a ambigüidade anteriormente referida, pois se encerra com uma exortação aos escritores gaúchos em que o conceito de pátria confunde-se com o de região. Por essa razão, pode-se dizer que a análise da produção literária local sob o prisma da nacionalidade continua a oscilar entre a defesa de uma atitude integracionista, que sugere a participação do Rio Grande no esforço comum em prol da construção de uma literatura para o País, e uma posição segregacionista, pela qual os sulinos afirmariam sua diferença em relação ao conjunto maior da Nação:



     Vós, mancebos inteligentes, obreiros do futuro, que esperdiçais vosso estro com futilidades balofas, deixai o ramerranismo que se tem seguido até hoje, e pensai em criar uma literatura para vossa pátria, para o vosso Rio Grande. 19



      O texto de Glodomiro Paredes teve o mérito de instaurar o debate especificamente em torno do processo literário sul-rio-grandense que, a partir dele, apresenta continuidade no ensaio do período. Nessa medida, a questão da nacionalidade, compreendida sob este matiz, torna-se uma constante na crítica literária sulina de base romântica. A valorização do local, sem dúvida um dos alicerces da crítica romântica brasileira, é encampada pelo ensaio sulino. Debruçando-se sobre a realidade que conheciam, – o Rio Grande do Sul, seu homem e seu cenário –, os críticos gaúchos inscreveram a Província no âmbito das reflexões teórico-críticas do Romantismo.

      A partir dos anos 80 do século XIX, sob o influxo de um novo instrumental teórico oriundo dos cientificismos que passaram a dominar a reflexão sobre a literatura, tem continuidade a discussão a respeito do problema da nacionalidade. Com a edição, em 1883, de Esboços literários, 20 de João Damasceno Vieira, inaugura-se uma nova fase do ensaio crítico sulino que, contemporâneo do Naturalismo na ficção e do Parnasianismo na poesia, revela influências do positivismo comteano, do evolucionismo darwinista e também do positivismo dissidente de Littré. A mudança de rumo observada determina que a questão da nacionalidade passe a ser focalizada sob um prisma renovado, porquanto a preocupação com a independência em relação a Portugal, agora entendida como ultrapassada, é substituída pela censura à imitação do modelo literário francês, visto como um obstáculo à consolidação de uma literatura de caráter nacional. Referindo-se à Inocência, de Taunay, afirma Carlos von Koseritz, um dos críticos do período:



     É um "conto de aldeia brasileiro", como não é possível imaginá-lo mais encantador; absolutamente original e livre do tom da moda francesa. 21



      Nacionalidade e originalidade, tal como no período de dominação romântica, são idéias tratadas de forma entrelaçada no ensaio de base naturalista. A diferença entre uma fase e outra está no fato de o questionamento dos ensaístas voltar-se agora para a presença forte da cultura francesa. Contudo, a continuidade do debate em torno dessa questão mostra que a despeito dos esforços desenvolvidos, a emancipação literária do País estava longe de ser alcançada, pois o modelo cultural europeu (francês) permanecia hegemônico.

      Outro aspecto importante relativo ao problema da nacionalidade é a substituição do louvor à natureza, nos moldes românticos, pelo elogio aos textos de cunho patriótico, como é o caso de um livro de Tobias Barreto, assim considerado por Damasceno Vieira:



     Apesar de atrasado como sentimentalista, o Dr. Tobias Barreto torna-se assaz recomendável quando vê interposta, entre a sua lira e a musa dos amorosos devaneios, a imagem veneranda da pátria, a quem sempre dirige soberbas, inspiradas estrofes. 22



      A exaltação da natureza americana, notadamente em seus aspectos exóticos e grandiosos, fora largamente explorada pelo Romantismo. Os ensaístas, situados no período de transição para a crítica de base naturalista, apoiados agora em novos princípios, vão paulatinamente abandonando o antigo filão que é substituído pela ênfase nos símbolos pátrios e nas datas importantes da história recente da Nação.

      Alcides Maya, que estréia no exercício da crítica na passagem do século XIX para o XX, é o ensaísta mais importante do período. Seus dois primeiros livros, Pelo futuro 23 e Através da imprensa, 24 respectivamente de 1897 e 1900, revelam sua preocupação principal: a reflexão sobre a nacionalidade da literatura brasileira, tópico responsável pela unidade existente entre os textos presentes nas duas publicações. Ao tratar desse tema, Alcides Maya desenvolve três caminhos: a) o da discussão e questionamento das idéias veiculadas pelos críticos seus contemporâneos; b) o da recuperação de parte do ideário romântico; c) o da contribuição do Rio Grande na construção da identidade nacional.

      A análise dos critérios utilizados pelos ensaístas brasileiros relativamente à questão da nacionalidade é realizada por Alcides Maya a partir da comparação entre as propostas de Araripe Júnior e Sílvio Romero. Inicialmente, questiona a importância conferida pelo autor cearense ao fenômeno da obnubilação, por este não ser capaz de isoladamente justificar a formação cultural do País. O caminho apontado por Sílvio Romero parece-lhe mais completo e fundamentado, uma vez que leva em consideração, além da influência do meio físico, a ação do ambiente social, as qualidades etnológicas dos povos primitivos e, principalmente, a fusão racial responsável pela formação do tipo nacional. A opção de Alcides Maya pelos princípios romerianos torna-se clara na seguinte afirmação:



     No Brasil, o "meio" foi e é um estimulante; para a história brasileira não consiste unicamente na ação do meio.

     A etnologia deve ser muito considerada, porque o problema da nossa nacionalidade depende, em última análise, da osmose cultural e da fusão étnica de muitos povos. 25



      Proclamando a miscigenação étnica e cultural como elementos essenciais para a compreensão do problema da nacionalidade, Alcides Maya acompanha o projeto de Sílvio Romero. A identificação com a proposta romeriana não vai, contudo, muito além disso, já que discorda frontalmente dos juízos emitidos pelo crítico sergipano a respeito das obras de Alencar, Machado e Castro Alves, nos quais reconhecia significativa contribuição, dentro dos limites impostos por sua época, na construção de uma literatura de caráter nacional. O reconhecimento do papel desempenhado por poetas e ficcionistas do Romantismo em prol da autonomia literária brasileira está intimamente relacionado à recuperação de parte do ideário romântico no que tange aos aspectos referentes à questão da nacionalidade. No ensaio Arte americana, publicado em Através da imprensa, são retomados conceitos enfaticamente difundidos pela crítica brasileira desde os seus primórdios, como é o caso dos relativos à originalidade, ao princípio da não-imitação de modelos estrangeiros e ao aproveitamento da natureza americana como fonte de inspiração literária:



     O Brasil é um dos países modernos mais acentuadamente literários e, todavia, um daqueles que menos originalidade artística apresenta à crítica. Literatura e política, ambas copiadas, ambas de princípios alienígenos, ambas servilmente seguidas conforme estranhos modelos: eis as nossas duas obsessoras paixões. (...) Raciocinamos por alheios cérebros, somos uns tutelados do sentimento. 26



      A ausência de originalidade na literatura produzida em solo brasileiro, se é atribuída à permanente imitação de modelos literários estrangeiros, notadamente franceses e ingleses, é também conseqüência da não integração entre o homem e a natureza, já que esta ainda não o seduziu com seus encantos virgens, nem ele a esposou com seu temperamento. Vivem indiferentes, uma quase esquecida, quase de todo abandonada, seduzido o outro por longínquas plagas, mal entrevistas à distância e enganadoras de beleza nos atavios estilísticos dos poetas e escritores que as habitam. 27

      Ao vincular a autonomia literária do País ao princípio da não-imitação e ao aproveitamento da natureza americana, Alcides Maya desenvolve um raciocínio idêntico à teorização presente nas formulações dos românticos, comprovando a permanência de determinadas teses, inobstante a ruptura ocasionada pelas teorias científicas da segunda metade do século XIX e pelos movimentos literários delas tributários. Além disso, as idéias de nacionalidade e originalidade continuam unidas, pois a concretização de ambas está na dependência da adequação da literatura à paisagem brasileira.

      A análise do processo literário sul-rio-grandense também é discutida na obra inicial de Alcides Maya e se inscreve no âmbito das reflexões a respeito do problema da nacionalidade. Vários são os textos nos quais a literatura e a produção cultural do Estado são abordadas, destacando-se entres eles os ensaios Rio Grande mental e Poesia popular, em cujas páginas são discutidas as principais teses de sustentação do regionalismo literário. Este é o caso da argumentação que visa ao enaltecimento do Rio Grande, seja nas características de seu meio físico, seja na tradição guerreira adquirida nos campos de batalha em defesa da integridade do território nacional, elementos a conferirem originalidade e virilidade ao espaço gaúcho, e responsáveis pelo lugar distinto e de destaque do Estado no contexto maior do País.

      A exaltação do Rio Grande, fundada principalmente no seu passado histórico e de lutas, permite ao articulista a composição da figura do gaúcho. O tipo surge, em sua opinião, como fruto do meio natural e da mestiçagem entre o índio e o ibérico, perfil exaustivamente explorado pela literatura regionalista e do qual, como se constata, fica afastado o negro:



     A psicologia sobre todas interessante e complexa do gaúcho, saturando o ambiente em que respiramos, de vigor anímico, de ingenuidade cavalheiresca, de fluidos de rebeldia indiana e de cruzados elementos da audácia inexcedível dos ibéricos – as duas correntes hereditárias que o dominam, disciplinadas pelo meio físico-histórico –, ativará sempre em nosso sangue (...) o princípio da combatividade. 28



      A afirmação aponta para a superioridade do solo e do tipo humano sulino, pois sua psicologia é sobre todas interessante e complexa. Além disso, o perfil psicológico do gaúcho aparece com as marcas do vigor, do cavalheirismo, da rebeldia, da audácia e da combatividade, características do tipo regional sul-rio-grandense concebido literariamente pelo Regionalismo, como o comprovam os trabalhos realizados por Ligia Chiappini e Maria Eunice Moreira. A caracterização essencialmente positiva do gaúcho permite também que o ensaísta nele reconheça um digno representante da nacionalidade brasileira, pois mestiço mais característico da história americana é o gaúcho e que em nenhuma outra região, (...) apareceu uma figura tão soberana e de ação tão decisiva, como o monarca das coxilhas rio-grandenses, das solidões pampeanas. 29

      A visão ufanista do meio e do homem sulino, herança do pensamento romântico, conduz o crítico a prenunciar um futuro brilhante para a literatura do Rio Grande e a indicar o caminho a ser por ela trilhado:



     Imaginai no futuro, conservadas as qualidades peculiares à raça, e dispondo esta de um esplêndido cenário de legendas, onde se move todo um mundo de seletos personagens de bravura, galhardia, de medievalismo bélico, com usos, vestuários, diversões, labores seus, de um delicioso pitoresco, de uma perfeita identificação com a natureza e uma expressiva originalidade, imaginai no futuro que opulenta literatura nós teremos, que dramas, que romances, que poesia, que trabalhos de revivescência histórica e crítica popular empreenderemos. 30



      Percebe-se no pensamento de Alcides Maya a permanência de uma série de índices cuja origem remonta ao ensaio romântico, como é o caso da insistência em conceitos como os de originalidade e natureza, a revelarem que a questão da nacionalidade, embora tenha evoluído sob o influxo do Naturalismo, continua atrelada a princípios elaborados na primeira metade do século XIX. Por outro lado, estes princípios são fornecedores dos fundamentos para a produção literária de cunho regionalista, praticamente exclusiva no plano da narrativa sulina produzida entre os anos de 1870 e 1920. Situam-se neste caso, como se observa pela leitura da transcrição anterior, a noção de raça gaúcha, a visão épica do passado do Rio Grande, o caráter pitoresco das tradições e o telurismo, decorrente da perfeita integração do homem com o meio natural.

      O exame da nacionalidade da literatura brasileira, via Regionalismo, renova-se no ensaio de Alcides Maya. O crítico o propõe através de formulações, como a que o vincula à necessidade da pesquisa e recuperação das criações literárias de caráter popular, pois há na história do Rio Grande um período de produção popular, caracteristicamente local, versando sobre lendas e fatos do passado rio-grandense, celebrando em formas pronunciadamente gaúchas os rasgos de antepassados heróis e conservando, no entrecho de suas peças, o sainete da campanha. 31

      O reconhecimento de originalidade na produção de cunho popular mostra que o ensaio de Alcides Maya está intimamente relacionado a um dos textos pioneiros da crítica literária sulina, de autoria de Glodomiro Paredes. Apesar de três décadas separarem os dois escritos, verifica-se uma unidade entre eles: o aproveitamento do lendário e das tradições para a criação de uma literatura original e representativa do País. A preocupação de um e outro ensaísta volta-se, em verdade, para a questão da autonomia da literatura brasileira que, para ser alcançada, tem na pesquisa das fontes culturais populares e regionais uma das vias a percorrer. Nessa perspectiva, o Regionalismo sulino deve ser entendido não como uma postura separatista e segregadora, mas como a contribuição do Rio Grande para a construção da nacionalidade, sendo este o sentido da seguinte afirmação, em nada diferente das expressas no ensaio romântico:



     Quando teremos a satisfação de ver os nossos jovens literatos dedicarem parte do seu tempo gasto perniciosamente na imitação servil do estrangeiro, ao estudo dos assuntos brasileiros, tão abandonados e esquecidos? 32



      A questão envolvendo a produção literária regionalista reveste-se de uma dupla natureza: de um lado, corresponde ao desejo de afirmação do Rio Grande, em virtude de sua condição de região periférica, no conjunto maior da Nação; de outro, caracteriza-se como um esforço do Estado no sentido de se associar à luta em busca de uma literatura autônoma e, portanto, nacional. Daí o tom ambíguo que marca o discurso acerca do Regionalismo, como já foi observado anteriormente, e que permanece no alvorecer do século XX, sendo provavelmente o responsável pelas interpretações que vêem na literatura sul-rio-grandense um anseio separatista.

      O panorama do ensaio literário sulino, após a consolidação atingida através da obra de Alcides Maya, é enriquecido com o aparecimento de João Pinto da Silva que, segundo Flávio Loureiro Chaves, é a primeira e legítima vocação crítica na literatura rio-grandense. 33 Como todos os ensaístas que o precederam, João Pinto dedica boa parte de seus textos à reflexão sobre o problema da nacionalidade. Nesse sentido, desde os escritos inicias de Vultos do meu caminho 34 (1918) até suas últimas incursões pela crítica literária, a questão é freqüentemente levantada e discutida, assumindo contornos distintos dos encontrados no ensaio sulino. Este é o caso, por exemplo, das idéias desenvolvidas no estudo consagrado à análise do escritor José Enrique Rodó, em que a antiga preocupação com a influência européia é substituída pelo temor ante a crescente ascendência norte-americana na América Latina, visto que




     a influência daquele grande país, em todo o Continente, nesta hora, é vinte ou trinta vezes mais poderosa do que ontem.

     Surdamente, em torno de nós, de maneira envolvente, dia a dia cresce uma força estranha, que, de qualquer forma, debilita a nossa autonomia.35




      O exame da influência norte-americana no Continente reveste-se de uma significação maior quando o autor busca justificativas na História e na Economia, atitude que confere a seu ensaio uma perspectiva sociológica e moderna. Assim, a primeira grande guerra é vista como responsável pelo crescimento econômico dos Estados Unidos, elemento determinante do papel polarizador que passa a desempenhar com relação à América Latina:



     A conflagração, deslocando, enfim, da Grã-Bretanha, o centro de operações bancárias mundiais, deu, e de graça, aos Estados Unidos, o almejado domínio sobre a América que não fala o inglês. 36



      Apesar de escrito em 1918, o texto sobre Rodó apresenta idéias extremamente atuais, como a da necessidade da constituição de uma grande pátria latino-americana, único meio capaz de combater a influência econômica, política e cultural dos Estados Unidos e preservar a autonomia dos países da América Latina. A obra El mirador de Próspero, do autor uruguaio, tem, segundo o ensaísta, esta significação, que é



     a de agir como força agremiadora, numa atração irresistível de ímã, apurando na América Latina a consciência do valor que ela encerra, tornando-a solidária consigo mesma, contribuindo para manter entre nós, forte e intangível, o instinto de raça – instinto que, em verdade, é para os povos tanto quanto para os indivíduos é o instinto de conservação. 37



      Se, no plano geral, a idéia de pátria latino-americana mostra-se ainda como uma meta a ser atingida, no âmbito restrito do Rio Grande e suas regiões limítrofes, é ele uma realidade, uma vez que na fronteira, (...) rio-grandenses e uruguaios ficam, para alguns casos, espiritualmente, numa situação de dupla nacionalidade.38 Mais do que isso:




     criados com um pé de cada lado da linha divisória, em nós há sempre, em se tratando dos pagos, uma interessante duplicidade de motivos evocativos. Porque os motivos que são exclusivamente de cada um, de cada região, incorporamos, de modo recíproco, em intérmina permuta, os dos vizinhos. 39



      A questão da nacionalidade volta a ser debatida no texto A poesia nova e o Rio Grande, quando assume matizes até então ausentes na crítica elaborada no Rio Grande. Neste ensaio, o autor coloca-se contra aqueles que intransigentemente vêm exigindo dos homens de letras a produção de uma literatura autônoma e original, por entender que o estágio de desenvolvimento do País ainda não apresenta as condições indispensáveis para a concretização desse desejo. Assim, após rápida análise do percurso histórico brasileiro, afirma:



     Quando proclamamos que a nossa literatura é como cera plástica, sob influências transatlânticas, e reclamamos os moldes nossos, autóctones, que lhe fixem, de vez, os contornos legítimos e típicos, o que pretendemos é uma antecipação impossível, algo como o juro de um capital ainda não adquirido.40




      A mesma argumentação é utilizada na avaliação da experiência indianista, primeira tentativa forte de realização de uma literatura autônoma, desvinculada dos modelos europeus. Segundo o crítico, afora alguns poemas de Gonçalves Dias e dois ou três romances de Alencar, quase nada restou do Indianismo, uma vez que era prematuro, como ainda hoje, qualquer ensaio de rompimento. 41 O autor está trabalhando com o problema relativo à necessidade da formação de uma tradição cultural como elemento imprescindível para o florescimento de uma experiência literária independente. Esta atitude afasta-o definitivamente do ufanismo nacionalista de inspiração romântica, presente na crítica literária sulina até as primeiras décadas do século XX. Mas assinala o reaproveitamento de idéia há muito divulgada por Machado de Assis no seu Instinto de nacionalidade.

      João Pinto da Silva aprofunda a discussão em torno do problema da nacionalidade da literatura brasileira, quando o relaciona com os tempos modernos, marcados pelo desenvolvimento tecnológico sobretudo nas áreas dos transportes e das comunicações, fato a favorecer uma permanente troca de informações e influências entre os países. Em virtude desse intercâmbio característico da vida moderna, não há mais como pensar a questão da autonomia literária segundo os parâmetros estabelecidos ainda no século XIX, pois a luta pela formação de uma literatura especificamente nossa, particularista e exclusivista, não se coaduna, já agora, nem com as realidades, nem com o espírito do Século. 42 Esta posição já havia sido defendida cinco anos antes, no livro Fisionomias de novos, 43 oportunidade em que o ensaísta alertava para o caráter cosmopolita da sociedade moderna como uma decorrência natural do progresso tecnológico, elemento determinante do fim de um tempo de países e regiões diferençados para os efeitos da produção intelectual. 44

      A partir deste diagnóstico, a reflexão de João Pinto avança por um terreno até então não trilhado pelo ensaio literário do Rio Grande, isto é, o do reconhecimento da inviabilidade de se construir no País uma literatura independente, já que a nossa época é de interdependências e interpenetrações gerais [e] o povo que ainda não realizou, em Arte, traços fisionômicos distintivos, com selo nacional ou racial inconfundível, não os realizará mais. 45

      João Pinto da Silva examina o Regionalismo sulino, relacionando-o à questão da nacionalidade, especialmente no livro A Província de São Pedro, 46 cujo quarto capítulo é todo ele destinado à análise deste tópico. Neste texto, reconhece ser a literatura regionalista do Rio Grande mais forte e característica do que a existente em outras unidades da Federação, e credita tal força à experiência histórica do Estado, cujas lutas em prol da fixação das fronteiras do País conferem ao sul-rio-grandense uma feição particular. Por essa razão, afirma:



     De todas as circunscrições do Brasil, é provavelmente o Rio Grande aquela cuja vida literária acusa mais nítidos pendores de diversificação das tonalidades dominantes nos restante do País. 47



      O selo peculiar percebido na literatura gaúcha leva o autor à seguinte indagação: É o regionalismo literário, no Rio Grande, um reflexo do separatismo político? 48 A resposta, assim como a questão que a motiva, vem também de uma forma clara e direta:



     O regionalismo literário, no Rio Grande, não é órgão, nem o foi nunca, do novo tão falado – mais falado do que real – separatismo político.

     Até agora, romanceando, poetizando os nossos gestos e pendores mais típicos, o que tem tido em mira é a exaltação da personalidade do Rio Grande, dentro do Brasil e sem prejuízo do Brasil. 49




      Distanciando-se daqueles que o antecedem no tratamento do tema, João Pinto da Silva assume uma posição integracionista, que não deixa dúvidas quanto às suas intenções. Inviabiliza, nessa medida, uma interpretação como aquela que se pode fazer de outros autores, cujos textos autorizam a leitura tanto pela ótica separatista quanto pela via aglutinadora.

      O crescimento conhecido pela vertente regionalista, sobretudo a partir da publicação de Ruínas vivas e Tapera, de Alcides Maya, ao início da segunda década do século XX, longe de assinalar e incentivar o separatismo por meio da literatura, objetiva, ao contrário, a integração do Rio Grande no contexto geral do País. Variação do nacionalismo romântico, a literatura regionalista do Sul deve ser entendida como um esforço desenvolvido pelos homens de letras no sentido de se engajarem no projeto maior da construção da nacionalidade brasileira.

      O posicionamento de João Pinto da Silva a respeito do problema da nacionalidade, considerando o conjunto de sua produção, aponta, nessa medida, para dois aspectos: atesta o esgotamento do ideário romântico sobre a questão; registra a entrada em cena de um novo conceito de nacionalidade, em que as condições determinadas pelo avanço tecnológico do mundo moderno desempenham papel de relevo.

      João Pinto não ficou restrito ao campo do ensaio crítico, sendo de sua autoria também o primeiro grande inventário da literatura sul-rio-grandense, considerada desde suas manifestações iniciais até o alvorecer do Modernismo. Trata-se da publicação, em 1924, da História literária do Rio Grande do Sul, 50 que registra a primeira incursão abrangente e significativa produzida no Estado no plano da historiografia. Reeditada em 1930, com alguns acréscimos e modificações, a obra é, até o aparecimento da História da literatura do Rio Grande do Sul, 51 de Guilhermino César, em 1956, exemplo solitário de estudo de sistematização envolvendo a produção literária sulina.

      O objetivo do autor, ao escrever a História literária do Rio Grande do Sul, reveste-se de um significado que está intimamente vinculado ao problema da nacionalidade da literatura brasileira e à condição periférica ocupada pelo Estado no contexto da Nação. A questão diz respeito à importância assumida pela historiografia literária brasileira, desde as suas primeiras formulações, no início do século XIX, até as propostas mais amplas de Sílvio Romero e José Veríssimo.

      A historiografia da literatura, nos moldes em que é concebida no Brasil – e isto não a torna distinta da escrita de outras histórias literárias nacionais – constitui o mecanismo utilizado para comprovar a existência da literatura brasileira, enquanto patrimônio particular do País. Trata-se de concebê-la como atestado indispensável para a afirmação da autonomia literária do Brasil em relação ao conjunto cultural europeu. Assim entendida, a história literária representa uma resposta às indagações colocadas pelos historiadores estrangeiros, especialmente Bouterwek e Denis. Pioneiros no exame da produção literária do Brasil, os críticos europeus não só constataram a ausência de uma sistematização em torno das obras e dos escritores existentes na colônia portuguesa, como diagnosticaram a falta de um espírito nacional a caracterizar a produção local. Nessa medida, foram os europeus que estimularam os brasileiros a recolher e a ordenar o patrimônio literário existente, como ofereceram sugestões para organizá-lo em torno de um critério – a expressão do nacional.

      A proposta tem seus seguidores, no centro do País, nos anos imediatamente posteriores à Independência. As experiências anotadas registram a preocupação da intelectualidade nacional em recuperar e organizar, pela via da história, as obras e autores que, desde o período colonial, escreveram no Brasil, orientando sua seleção pelo maior ou menor grau de nacionalidade presente em suas realizações literárias.

      Neste sentido, a história da literatura cumpre o seu papel de estabelecer a diferenciação com o tronco cultural comum – o europeu – ao decretar a existência de um patrimônio literário distinto. É a forma que ela tem de reforçar, no plano cultural, a independência alcançada no âmbito político.

      O projeto atinge as províncias brasileiras que passam, então, a recuperar autores e obras de sua região, na tentativa de ampliar o acervo nacional, como forma de reforçar a declaração da autonomia literária pretendida. Ao formular a história da literatura sulina, João Pinto da Silva engaja-se no projeto nacional, oferecendo a contribuição do Rio Grande, que assim se associa ao esforço desenvolvido pela historiografia brasileira na legitimação de uma independência cultural almejada. Nesse sentido, a História literária do Rio Grande do Sul tem uma intenção agregadora, a partir da qual o Estado é visto como parte integrante da Nação e, portanto, como elemento responsável pela construção de sua identidade.

      Por outro lado, a história literária escrita por João Pinto da Silva reveste-se de um segundo significado, quando se atenta para o fato da condição geográfica, política e cultural do Rio Grande, periférica em relação ao continente brasileiro. Este aspecto também pode ser analisado em relação ao processo brasileiro e ao sentido da escrita da história literária nacional. No que diz respeito à Europa, os brasileiros sentiam-se marginalizados, porque não constavam os nomes de seus autores e obras nas sistematizações por eles organizadas. Bouterwek, Sismondi e Denis, primeiros a introduzir os nomes de alguns nacionais nas histórias literárias, fizeram-no em acréscimos e apêndices a seus trabalhos e, em poucos momentos, – principalmente o segundo –, reconheceram as obras escritas no Brasil como manifestações de brasileiros. Na maior parte de seus textos, os escritos produzidos no Brasil eram produções de escritores nascidos na Colônia e, portanto, pertencentes à Metrópole eram suas criações. A história da literatura brasileira escrita pelos nacionais também cumpre o papel de inscrever e afirmar a capacidade intelectual dos brasileiros em relação à matriz européia.

      Semelhante função cumpre a história literária escrita por João Pinto da Silva. Vendo os autores do Estado invariavelmente alijados das antologias organizadas no centro do País, o historiador gaúcho afirma a capacidade intelectual dos sulinos perante os brasileiros, ao reunir e divulgar sua produção. Desse modo, a História literária do Rio Grande do Sul vem para legitimar e ser o instrumento comprobatório da existência dessa literatura.

      Desincumbindo-se satisfatoriamente dessa dupla atribuição, – integrar o patrimônio cultural do Rio Grande no âmbito nacional e firmar a existência de uma expressão literária em solo gaúcho – a História literária do Rio Grande do Sul, de João Pinto da Silva, assinala o término de um ciclo do ensaio crítico sulino, que depois dela desenvolve-se definitivamente sob o influxo do Modernismo, quando então o problema da nacionalidade passa a ser focalizado sob novas perspectivas.




NOTAS

1 CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1975.

2 COUTINHO, Afranio (org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: UFF, 1986.

3 Anônima, a nota crítica foi publicada n'O Mosquito, periódico joco-sério, de Porto Alegre, em número de 18 de outubro de 1874, p. 1.

4 O Mosquito circulou em Porto Alegre entre fevereiro e outubro de 1874. Apesar de seu subtítulo, "periódico joco-sério", o jornal dedicou-se quase exclusivamente à literatura, publicando narrativas e poesias de autores nacionais e estrangeiros, além de freqüentes comentários sobre o movimento literário da Província.

5 TAVEIRA JÚNIOR, Bernardo. Reflexões sobre a literatura rio-grandense. Arcádia, jornal ilustrado, literário, histórico e biográfico. Pelotas, p. 10. 1869. 4ª série.

6 PINTO, Antonio M. A literatura no Rio Grande. Arcádia, jornal ilustrado, literário, histórico e biográfico. Rio Grande, p. 131, 1869. 3ª série.

7 TAVEIRA JÚNIOR, Bernardo. op. cit. nota n. 5. p. 10.

8 Nota crítica anônima, publicada n'A Reforma, órgão do Partido Liberal. Porto Alegre, número de 16 de outubro de 1874, p. 1.

9 A Arcádia, periódico dedicado essencialmente à literatura e à história, circulou entre 1867 e 1870, concluindo quatro séries. As três primeiras foram editadas na cidade do Rio Grande e a última na cidade de Pelotas, para onde se transferira seu proprietário, o português Antonio Joaquim Dias.

10 PORTO ALEGRE, Apolinário. José de Alencar. Estudo biográfico. Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário, Porto Alegre, v. 2, n. 9-12, 1873-1874. Tal texto encontra-se reproduzido em ZILBERMAN, Regina et alii. O Partenon Literário : poesia e prosa. Porto Alegre: ICP/EST, 1980. p. 98-121.

11 PORTO ALEGRE, Apolinário. José de Alencar. Estudo biográfico. In: ZILBERMAN, Regina et alii. op. cit. nota n. 10. p. 98.

12 CHAGAS, Manuel Pinheiro. Novos ensaios críticos. Porto, 1867.

13 PORTO ALEGRE, Apolinário. Paisagens. Contos. Porto Alegre: Tip. Imprensa Literária, 1875.

14 PORTO ALEGRE, Apolinário. op. cit. nota n. 10. p. 102.

15 O Guaíba, primeiro jornal exclusivamente literário surgido no Rio Grande do Sul, circulou em Porto Alegre entre os anos de 1856 e 1858 e agrupou em torno de si os autores da chamada primeira geração romântica do Estado.

16 TAVEIRA JÚNIOR, Bernardo. op. cit. nota n. 5. p. 9.

17 PAREDES, Glodomiro. Poetas e poesia. Arcádia, jornal ilustrado, literário, histórico e biográfico. Rio Grande, 1869. 3ª série. p. 273.

18 Ibid. p. 273.

19 Ibid. p. 275.

20 VIEIRA, João Damasceno. Esboços literários. Poesia e crítica. Porto Alegre: Tip. da Deutsche Zeitung, 1883.

21 KOSERITZ, Carlos von. Alfredo d'Escragnolle Taunay; esboço carcaterístico. Rio de Janeiro: Tip. de G. Leuzinger & Filhos, 1886. p. 15.

22 VIEIRA, João Damasceno. op. cit. nota n. 20. p. 60 - 61.

23 MAYA, Alcides. Pelo futuro. Porto Alegre: Tip. de Franco & Irmão, 1897.

24 ___. Através da imprensa. Porto Alegre: Otaviano Borba & Cia, 1900.

25 MAYA, Alcides. op. cit. nota n. 23. p. 14.

26 MAYA, Alcides. op. cit. nota n. 24. p. 123.

27 Ibid. p. 124.

28 Ibid. p. 124.

29 Ibid. p. 102.

30 Ibid. p. 104.

31 Ibid. p. 115.

32 Ibid. p. 117.

33 CHAVES, Flávio Loureiro. O ensaio literário no Rio Grande do Sul, 1868/1960. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; Brasília: INL, 1979. p. XX.

34 SILVA, João Pinto da. Vultos do meu caminho. Estudos e impressões de literatura. Porto Alegre: Globo, 1918.

35 SILVA, João Pinto da. op. cit. nota n. 34. p. 15.

36 Ibid. p. 15.

37 Ibid. p. 33.

38 Ibid. p. 5.

39 Ibid. p. 5.

40 SILVA, João Pinto da. Vultos do meu caminho. Estudos e impressões de literatura. Porto Alegre: Globo, 1927. 2ª série. p. 172 - 173.

41 Ibid. p. 173.

42 Ibid. p. 175.

43 SILVA, João Pinto da. Fisionomias de novos. São Paulo: Monteiro Lobato & Cia, 1922.

44 SILVA, João Pinto da. op. cit. nota n. 43. p. 49.

45 SILVA, João Pinto da. op. cit. nota n. 40. p. 175.

46 SILVA, João Pinto da. A Província de São Pedro. (interpretação da história do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930.

47 SILVA, João Pinto da. op. cit. nota n. 46. p. 111.

48 Ibid. p. 107.

49 Ibid. p. 113.

50 SILVA, João Pinto da. História literária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1924.

51 CESAR, Guilhermino. História da literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1956.