Erico Verissimo, historiador da literatura
MARIA DA GLÓRIA BORDINI
PUCRS
Em 1945, Erico Verissimo lançou nos Estados Unidos Brazilian Literature; an outline, pela The Macmillan Company. Reunia, sob forma de uma apresentação sumária da história da literatura brasileira, do período colonial à Geração de 45, o conteúdo de conferências públicas que pronunciara em janeiro e fevereiro de 1944, na Universidade da Califórnia em Berkeley e no Mills College de Oakland. Reeditada em 1969, pela Greenwood Press, de Nova Iorque, a obra permaneceu inédita em português até ser traduzida como parte do Projeto de Informatização e Ampliação do Acervo Literário de Erico Verissimo do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS e sai em 1995 publicada pela Editora Globo, com o título de Breve História da Literatura Brasileira.
Erico não confiava em sua capacidade de historiador da literatura, motivo por que manifestou a sua família o desejo de que o livro nunca fosse publicado em português. Essa atitude defensiva já aparece no "Prefácio", advertindo o leitor de que seu trabalho é esquemático, incompleto, eventualmente pouco fiável, porque fundado mais na memória do que nas fontes. Faz questão de salientar que não pretende senão introduzir o processo de formação e desenvolvimento da literatura nacional para um público que o desconhece, visando estreitar laços de mútua compreensão entre norte-americanos e brasileiros, ao estilo do discurso da política da Boa Vizinhança de Franklin Delano Roosevelt, que ele representava como convidado do Departamento de Estado nos Estados Unidos.
De fato, seu trabalho não institui um projeto inovador no âmbito da historiografia literária. De acordo com o molde romântico de Dilthey, divide a história em períodos, unificados internamente por uma visão de mundo singular, expressa nas obras que os compõem. Por outro lado, o fio condutor que faz a costura dessa divisão peca pela ingenuidade política: Erico quer provar aos americanos que o Brasil possui uma literatura diferenciada, em virtude do caráter mais "humano" do povo brasileiro, a que os escritores só gradualmente fazem jus, à medida que abandonam modelos importados e preocupações elitistas, como o jogo formal ou a relação imitativa com os clássicos europeus.
Sua incursão na história da literatura, entretanto, não é tão inepta nem tão previsível como ele dá a entender. Em primeiro lugar, tem uma consciência de romancista quanto às limitações do trabalho do historiador. Não é outro o sentido da observação que faz (à p.1) sobre a impossibilidade de reconstituir ou localizar rigidamente os fatos históricos, e sobre a facilidade do ficcionista em recriá-los sem as peias da cronologia ou da busca de objetividade. Essa consciência da falibilidade do historiador ante os acontecimentos a serem narrados, que reduz o rigor do discurso histórico e o impele para as fronteiras da ficção, leva-o a desculpar-se por acentuar ainda mais a incerteza de suas informações, fazendo mais ou menos um esboço da literatura brasileira. Para Erico, o fato literário não é objeto científico, mensurável ou quantificável, mas questão de gosto e opinião (p.2) – um objeto a ser fruído conforme as convenções de um determinado tempo e das diferentes nacionalidades.
Essa atitude ao mesmo tempo rebatia possíveis exigências de cientificidade, esperáveis no ambiente acadêmico norte-americano ainda modelado por teorias positivistas da História, e induzia a platéia leiga a encarar a literatura brasileira como a de um povo irmão, cujo bom caráter e pacifismo lhe eram constantemente frisados.
Recorde-se que Erico Verissimo proferia essas conferências ante um público que vivia os conflitos finais da Segunda Grande Guerra, e que desconfiava dos países latino-americanos, vistos em geral como selvagens e preguiçosos, mas naquele momento como ameaça porque neles a penetração nazista fora relativamente fácil e as alianças com a América não haviam se mostrado estáveis.
Estruturalmente, essa história possui elementos recorrentes no desenrolar de seus doze capítulos. No primeiro, intitulado "Tão boa é a terra", delineia-se o modelo epistemológico a ser adotado. Ao descrever o primeiro momento de nossa história da literatura, o que Erico faz é arrolar, em séries paralelas, a história mundial e a brasileira, contextualizando a vida literária nas suas raízes sócio-econômicas. O desprezo pela subserviência à Metrópole o induz a valorizar, no período da colonização, as manifestações folclóricas, com destaque único a Gregório de Matos como autor erudito, fazendo antes a história do povo do que das elites, que apresenta como espoliadoras – à maneira de certos povos desenvolvidos contemporâneos, em que ele inclui sutilmente a sua platéia, pela ironia com que retrata os progressos do colonialismo no Brasil.
Exemplo dessa apresentação inter-relacionada de História e Estética é o Capítulo 3, "Problemas na Arcádia". Fala nas bandeiras, no ciclo de expansão territorial, na Província do Ouro, na Ilustração enciclopedista, na independência dos Estados Unidos, nos aeróstatos, na Revolução Francesa, para explicar o deslocamento da vida intelectual das academias para as arcádias, sob o conservadorismo contraditoriamente revolucionário dos jesuítas, e destaca Antônio José da Silva, o Judeu, como representante do período, sem deixar de sublinhar sua condenação à fogueira pela Inquisição.
No Capítulo 4, "Minha terra tem palmeiras", dedica-se ao Romantismo: o cultivo da voluptuosidade do tédio, no dizer machadiano. Castro Alves é o único destaque na poesia por seu compromisso social. Na prosa, a atenção recai sobre José de Alencar. Não vejo nenhum outro escritor em língua portuguesa que possa comparar-se a ele no que se refere a enredo e ação. (...) Você pode achá-las muito superpovoadas de improbabilidades, sentimentalismos e algumas platitudes literárias. Mas assim mesmo ficará fascinado pelas coisas que acontecem em suas histórias, por seu colorido, e às vezes pela limpidez e beleza de aquarela de sua escritura (p.49).
Nota-se que o Autor demonstra certa impaciência para com nossos românticos, exigindo-lhes uma masculinidade – traduza-se por menos sentimentalismo – de focalização e dicção que só encontra em Castro Alves, José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida. Esses requisitos, a boa história, apaixonante pelo pathos, ou o poema viril, não intimista, mas participante, coadunam-se com o interesse pelo nacionalismo e pela emancipação do povo, típicos da chamada Geração de Trinta, que Erico integrava, e também com o desejo de formar um público leitor cativado pela narratividade, traço este que tanto marcou a literatura de Verissimo.
O Capítulo 5, "Sim, mas serpentes e escravos também", centra-se no Segundo Império e vê com olhos favoráveis D. Pedro II. Concede a O Ateneu de Raul Pompéia a honra de ser um dos dez melhores livros brasileiros de todos os tempos (p.65). Quanto a Machado de Assis, reprova-lhe a filosofia cínica, embora louve sua agudeza psicológica e seu manejo da ironia. Explica o cinismo machadiano pelas desvantagens físicas do autor e não o percebe determinado pelo próprio mundo narrativo. Essa interpretação positivista de Machado permite deduzir-se que o universo literário, para Erico, nessa época, é uma espécie de reflexo não fingido da cosmovisão do escritor.
Curiosamente, no Capítulo 6, "Largas são as asas de Pégaso", retoma o tema do positivismo, para opor-se ao ideário que resultou numa proclamação operística da República. Tangencia o Parnasianismo europeu e brasileiro, valorizando o Bilac erótico, e o simbolismo francês e caboclo, em que prefere exaltar Cruz e Souza. Sem dedicar longo espaço à literatura de ficção, desenvolve mais o registro do ensaísmo histórico e crítico, e nele avalia as histórias da literatura de Sílvio Romero e José Veríssimo como pesadas e acumuladoras de informação não interpretada.
Quando aborda, no Capítulo 8, "Os movimentados anos 20", utiliza, como abertura, a metáfora de um avião que sobrevoa uma ilha – alto, dá contornos bem delineados, baixo, detalha insuspeitados e intrincados padrões (mais tarde utilizaria a mesma metáfora em O arquipélago). Vai daí que o olhar ao passado é fácil, porque o tempo é o nosso melhor aliado e conselheiro: já fez a sua escolha confiável. Entretanto, a literatura contemporânea é o problema do historiador, porque não há distanciamento perspectivista e as escolhas se tingem de interesses mais imediatos, não apenas estéticos. É assim que confessa sua dificuldade em avaliar a década. Não a está observando de cima, é parte dela e ali estão amigos e adversários, lugares amados ou abominados.
Nessa década, sublinha a atividade literária e intelectual de Lobato, por razões dignas de exame. É legível, inteligente, comprometido com a transformação do País, um agente e não mero testemunha da História. A exigência de comprometimento, que atravessa longitudinalmente a obra, faz-se mais insistente no presente e passado próximos e fundamenta a evidente preocupação de Erico Verissimo em atribuir à vida literária uma função ética, por utópica que seja, no cenário da História geral.
A análise dos anos 20 se completa no Capítulo 9, "A pedra e o caminho", dedicado à Semana de 22, e no Capítulo 10, "A maturidade de uma literatura". Vendo o Modernismo como uma encruzilhada, aponta os três rumos mais importantes que dela partem: o socialista dos Andrades, o cristão de Tristão de Athayde e o fascista, de Plínio Salgado. Macunaíma, para Erico, é o livro paradigmático da época. Foge às três tendências e fornece uma imagem total do País, fortemente enraizada na realidade do povo e da língua. Alegoria do Brasil, pela informidade e desordem aparente da composição, dá conta da heterogeneidade da nação e ainda por cima narra-se em brasileiro.
No levantamento do ensaísmo desse período, ressalta a Pequena história da literatura brasileira, de Ronald de Carvalho – que parece ter orientado a sua própria tentativa – e a produção de Nelson Werneck Sodré e Afrânio Peixoto, Tristão de Athayde, Álvaro Lins, Moysés Vellinho, Augusto Meyer e outros mineiros e sulistas, bem como a de Antonio Candido, homem maduro ao fim dos vinte anos (p.127), revelando amplo conhecimento da atividade intelectual do País.
A atenção dada aos líricos modernistas, que se manifesta não apenas sob forma de juízos apreciativos, confirmados pela tradição crítica posterior a essa obra de Verissimo, mas pelas citações escolhidas a partir de um conhecimento bem fundado do funcionamento do texto poético desvela um lado ignorado do romancista: seu desembaraço diante da poesia, fruto de uma intimidade que só uma experiência de leitura continuada e particularmente sensível à construção do verso poderia alcançar.
Esse leitor apurado de poesia, porém, não renuncia à busca de um vínculo ético entre a autonomia da obra de arte e realidade social. Ao falar logo em seguida dos anos 30, dedica longo espaço à análise política da emergência do Estado Novo e das relações Brasil-Alemanha, sem omitir suas repercussões entre os intelectuais. Condena radicalizações de esquerda ou direita e reclama um conceito de compromisso apartidário, sob pena de arruinar-se o fazer literário.
O romance de 30 é examinado no Capítulo 12, "A colcha de retalhos", sob o pano de fundo da vastidão territorial e diversidade regional, quando se vale da tese do arquipélago cultural de Moog. Apresenta a produção ficcional de todas as regiões, prognosticando os nomes que a história da literatura posterior consagraria.
Alonga-se mais quando fala de amigos pessoais, como Jorge Amado, Oswald de Andrade ou Dyonélio Machado. Clarice Lispector é vista como uma estreante de que só teve notícias por amigos e Graciliano recebe uma concisa menção como notável contador de histórias. Seu estilo é seco, preciso e correto (p.152). Em virtude da proximidade com os protagonistas desse período literário, nesse capítulo Erico faz pouco mais do que mencionar nomes e tomar posições quanto a eles, sem alongar-se na análise do conjunto ou em juízos estéticos que poderiam revelar-se parciais.
Essa história da literatura de Verissimo é encerrada com uma apologia do brasileiro boêmio, que valoriza mais o afeto que o dinheiro, numa espécie de crítica velada ao primado do capital na sociedade norte-americana. Em seguida, o Autor faz sua profissão de fé política pela democracia livre, com o máximo de liberdade individual e de bem-estar geral e defende uma atividade literária não subserviente, de pés fincados no chão nacional e de mãos dadas às do homem comum na batalha pela paz e fraternidade.
O que individualiza a atitude de Erico Verissimo como historiador da literatura é, principalmente, que se trata de um escritor falando de outros escritores. O fato de estes estarem distanciados ou próximos na linha de tempo não invalida as valorações pela posição no presente que Erico realiza. Não os julga a partir das condições sociais que teriam influído sobre eles e sim por seu credo literário constante, o do compromisso entre literatura e vida, não ao estilo marxista, mas ao seu: o da eficácia da relação texto-leitor.
Sua simples disposição em esboçar uma história geral de nossa literatura já é inusitada. Outros escritores não empreenderam tarefa igual e se detiveram preferencialmente em certos setores, como Bandeira, com a poesia – embora tenha escrito uma história da literatura ocidental, ele não tentou descrever a brasileira – ou Mário de Andrade, com a música, ou em seus ensaios críticos. O conhecimento do outro, do colega escritor, evidenciado na escolha hábil das citações e igualmente na dificuldade em esgotar as contribuições contemporâneas sem omitir nomes, atesta que Erico escreveu sua história não só com base em outros historiadores mas a partir de uma experiência pessoal de leitura.
A história da literatura, tal como a exerce, se não pode emular a força efabulatória e liberadora que ele vê na literatura, pelo menos deixa-se contaminar por ela e propõe interpretações, cai em paradoxos, arbitra sobre quais obras ficarão contidas em tal ou tal recorte do tempo, exerce atos sintéticos e, portanto, criativos. Se o historiador Erico lê esses recortes pelo ângulo limitado do horizonte em que se encontra na década de 40, não se pode negar que também é desafiado por eles, resultando sua narração em constatações não previstas, que emergem do próprio processo do historiar, provenientes do intercâmbio com as obras.