Fronteiras entre Teoria e História da Literatura




Maria da Glória Bordini
PUCRS




       Heidrun Krieger Olinto, em seu substantivo ensaio intitulado 1001 Histórias (de Literatura), apresentado no XV Encontro Nacional da ANPOLL, em Niterói, no ano de 2000, discute a relação entre as novas teorias da história e da literatura e refere a necessidade de de que se construam modelos historiográficos que se coadunem com os tempos atuais, vistos pelo Ocidente hegemônico como pós-modernos. A idéia ordenadora de seu texto é a de que os historiadores da literatura dêem conta dos processos heterogêneos de transformação dos sistemas literários ao redor do mundo, sem que suas tentativas de regulação e classificação, tradicionais na área, recaiam no essencialismo ou no substancialismo que as alimentaram desde o Romantismo.

      Lembrando seu texto Interesses e Paixões: Histórias de Literatura, em que ela chamava a atenção sobre os efeitos da atual pulverização dos eventos e atores históricos sobre o esforço historiográfico (como nas histórias da vida privada, do cotidiano, etc.) e sobre o número crescente de variáveis a serem consideradas sem o apoio em esquemas globalizantes e unificadores, nesse novo trabalho a autora aceita que o esquema classificatório da história em períodos, atitude dominante na área de Letras, não se sustenta ante um pensamento historiográfico dirigido pelo princípio da incerteza, como requer a ciência hoje, e analisa três obras de história da literatura contemporâneas, as quais, fundamentadas em várias teorias literárias do século XX, abandonam a ambição periodológica.

      O princípio que a orienta, no texto anterior e no atual, continua o mesmo: revoga o poder explanatório das teorias autonomistas da literatura em favor das teorias pragmáticas, cuja pergunta não é mais "o que é a literatura" e sim "o que se considera literatura", levando em conta o onde, quando, como, por que e por quem. Coerente com seu projeto de verificar a aplicabilidade das teorias da ação lingüística à historiografia e induzida pela rejeição pós-moderna às narrativas-mestras, busca na produção de hoje exemplos que ilustrem sua orientação teórica eleita.

      Nessa perspectiva, pende decisivamente para o modelo pragmático, em que o sujeito da comunicação é agente social e o valor da obra literária depende de uma adesão consensual. Se nele a literatura é pensada como uma rede de processos interativos e instáveis, que abarcam o circuito de produção e recepção e suas circunstâncias sócio-históricas, impede-se a consideração da significação – e do valor - como implícitos na estrutura textual, à maneira do imanentismo.

      No texto anterior, ela ponderava que teorias como o desconstrutivismo e a estética da recepção ainda se centralizam no texto, enquanto as teorias da leitura reativa e do empirismo construtivista se ocupam da formação dos contextos de produção e leitura em que o texto é mais um dos fatores. Para os contextualistas, a identidade do literário não parte exclusivamente do texto, mas inclui o sistema de comunicação, com papel mais decisivo, e é essa corrente, segundo seu entender, que opera modificações sensíveis nas novas histórias da literatura.

      Reconstituindo as contribuições do Formalismo Russo, do dialogismo bakhtiniano, da École des Annales e especialmente da Estética da Recepção alemã, Heidrun Krieger Olinto indicava a guinada dos estudos do textualismo para o contextualismo, que acarretara uma definição pragmática de literatura. Apontava para a transformação dos manuais de teoria literária em coletâneas de autoria múltipla, para a transdisciplinaridade e internacionalização do saber literário, para a autoria consensual/dissensória, para uma terminologia "miscigenada" (p.28). Assim como a literatura se pulverizou e disseminou globalmente, assim também os temas da complexidade e da contingência dos estudos literários tornaram-se correntes, determinando o deslocamento para além dos nacionalismos e das tentativas de teorização unitária.

      Esse problema das mudanças localizadas e disseminadas sem uniformidade seria, segundo a autora, tratado magistralmente pela Estética da Recepção, na década de 70, quando Jauss põe em dúvida o imanentismo estruturalista e o causalismo unidirecional marxista, erigindo a recepção como a instância formadora do literário e dando à figura do historiador, portanto, o papel de selecionar e ordenar os fatos e de preencher os vazios do tempo conforme a noção de fusão de horizontes (de Gadamer). É na noção de horizonte de expectativas que a autora situa a contribuição de Jauss para a reformulação das concepções de história literária, sobretudo a partir do reconhecimento deste que as alterações desse horizonte não dependem apenas da concretização do leitor a partir de normas reconstituíveis e de relações entre obras e cenário literário-histórico ou da oposição entre função poética e prática da linguagem, como queriam os estruturalistas tchecos, mas exigem o contexto social e histórico da recepção.

      Toda essa dinâmica teria determinado três posições modelares para a história literária: a da idéia de rizoma, "uma teoria das multiplicidades das multiplicidades", constante em Mille Plateaux, de Deleuze e Guattari, em oposição ao binarismo opositivo estruturalista; a de uma teoria transdisciplinar, caracterizada por Jonathan Culler como ecletismo flexível e descrita por Rorty como algo híbrido entre crítica valorativa, história intelectual, filosofia moral, epistemologia e profecia social; que caracteriza o Novo Historicismo norte-americano; e a de uma ciência da literatura empírica, de Siegfried J. Schmidt, fundada sobre o funcionalismo sociológico de Niklas Luhmann, em que é possível fazer análises de componentes sistêmicos sem referência a estruturas globais subjacentes, pela fórmula da complementariedade, do isto e aquilo.

      O que mais entusiasmava, então, a autora era última alternativa, pois nessa a literatura seria entendida "como modo de organização de ações comunitárias literárias múltiplas interativas" (p.35), uma "síndrome de texto-ação-comunicação-contexto" que só permite descrições empíricas. Como se trata de um objeto muito heterogêneo e complexo, ela prudentemente recorria a Gebhard Rusch, o qual salienta o perigo de que o modelo teórico destinado a explicar a literatura assim entendida se dilua ou se torne generalizante demais.

      Comporiam esse modelo, segundo ele, os textos dos meios de comunicação, os instrumentos de produção e todas as ações de produção, divulgação, recepção e processamento da informação. Como as articulações seriam instáveis e dependentes entre si e de fatores provenientes da política, da economia, do direito, da educação, da tecnologia, dos grupos e movimentos, do desejo e da emoção individuais, o dinamismo desses processos muito complexos seria o grande desafio para a história literária.

      No texto atual, Heidrun Krieger Olinto demonstra como esses três modelos têm sido concretizados, enfrentando a advertência de Rusch quanto à hipercomplexidade e fluidez dos elementos a serem investidos de algum tipo de ordenamento pelo historiador de literatura. As propostas historiográficas privilegiadas são, em primeiro lugar, as da História Literária dos Estados Unidos da Universidade de Columbia (1988), constituída por ensaios dispostos como numa galeria de arte, com várias entradas e corredores, acentuando sua diversidade, complexidade e contradição, sem esforços de sintetização ou uniformização.

      Em segundo lugar, vêm as da Nova História da Literatura Francesa (1989), da Universidade de Harvard, com direção editorial de Denis Hollier, com uma estruturação aberta, a partir da idéia de campo, semelhante à de Bourdieu, dando vez a inúmeras perspectivas críticas, numa organização não enciclopédica, por verbetes alfabetados, nem linear, em que as divisões são efetuadas por manchetes relativas a eventos literários que se situam como ponto de partida para uma dispersão, numa técnica de mosaico.

      Em terceiro, Em 1926: Vivendo no Limite do Tempo (1997), de Hans Ulrich Gumbrecht, publicação da Universidade de Harvard, com 51 verbetes alfabetados em três seções, indicia a ausência de hierarquização e cronologia, como num hipertexto, em que o objetivo é sentir-se na época através de descrições empíricas, sem intenção pedagógica, constituindo uma história sensorial da experiência vivida, antes que uma tentativa de reflexão sobre ela: um ensaio de simultaneidades, nas palavras do autor.

      A nova experiência espaço-temporal pós-moderna, exemplificada por Gumbrecht com a imagem dos saguões de aeroportos internacionais, em que tempos e espaços diversos co-existem numa trama complexa, vive num presente em expansão, onde passado e futuro são trazidos ao mesmo horizonte, alcançável pela tecnologia, seja a da informação, seja a da reprodução. Fazer jus a essa temporalidade é um exercício de risco para a história da literatura, pois não há parâmetros para lidar com sua dispersão, imobilidade e seu caráter de construto. O que Heidrun Krieger Olinto realça como pressupostos para essa empreitada são os conceitos de parcialidade, perspectividade, objetividade, relatividade e construtividade, que encontra nessas novas obras históricas, todas grandes sucessos de crítica e de público.

      No seu texto anterior, o percurso seguro pelos insidiosos meandros das teorias contemporâneas da literatura, acompanhando deslocamentos e condensações que efetuam em torno de seu objeto sempre redefinido, e mais – a tentativa de pensar suas conexões possíveis com as narrativas da historicidade desse objeto tão fugidio e multifatorial - tornavam o trabalho de Heidrun Krieger Olinto um modelo de reflexão criativa, dentro da dimensão comunicativa e transdisciplinar que ela mesma erigia como uma das alternativas mais adequadas para o pensamento de uma história da literatura que respondesse às mudanças de concepção do objeto literário nesses tempos pós-modernos.

      Entretanto, esse diálogo estabelecido entre teoria e história da literatura apresentava alguns paradoxos, a demonstrar que também a autora sofria a força dos "interesses e paixões" – tema, aliás, que aparece no título de seu trabalho publicado na coletânea que organizou –, os quais convulsionavam a objetividade buscada na revisão dos pressupostos e motivações dos postulados teóricos a serem invocados em auxílio à historiografia literária.

      O primeiro ponto paradoxal estava na centralidade, num trabalho que a recusava, da ciência da literatura empírica de Schmidt. Na verdade, esse lingüista do texto ingressou nas discussões teóricas da literatura pelos anos 70, transladando a concepção pragmática da lingüística para a literatura, sem contudo, conseguir propor um modelo explanatório factível para esta. O resultado é que, a partir de seu modelo, que não é bem a teoria sistêmica de Luhmann - a qual repercutiu, talvez, sobre o pós-estruturalismo francês, mais exequível em termos de narração historiográfica -, a história da literatura se inviabilizaria, fragmentada numa sucessão de descrições pontuais, cuja interligação se tornaria tão ramificada e complexa que escaparia ao esforço do historiador.

      Atribuir, como ela o fazia, a origem dessa visão pragmática à desestruturação da história linear positivista efetivada pelos formalistas russos era também buscar um começo que não há, pois muito antes deles já Heródoto e Tucídides contavam uma história episódica, não causalista, embora voltada para a compreensão dos eventos. Além disso, a lembrança de Tinianov, com sua hipótese dialética, assincrônica e serial – que poderia se beneficiar de uma extensão tcheca sobre as repercussões da literatura com Vodicka –, tinha em seu cerne um entrave ideológico: a crença marxista de que a história é evolutiva, e que os movimentos de desautomatização são melhores, porque, assim como a Revolução, impulsionam a marcha da história para a frente e para um estado aperfeiçoado.

      Igualmente a visão de Deleuze e Guattari sobre o sistema literário como rizoma era sedutora porque parece afinar-se com a concepção reticular de hipertexto da Informática e também com a história dos eventos de Foucault, em que se articulam continuidade e descontinuidade sem linearidade e plenitude. A imagem, porém, não parece fornecer uma metáfora menos centralizadora para a historiografia. Afinal, um rizoma tem suas ramificações e filamentos unificados pelo núcleo da raiz, por mais emaranhados e desordenados que pareçam. Se transferida a metáfora para a história literária, no fundo o texto continuaria central, seria o núcleo das múltiplas circunstâncias socio-históricas de produção e recepção.

      Pode-se perguntar, maliciosamente, com Stanley Fish, se há um texto nessa sala de aula, mas haverá, em contrapartida, história da literatura sem literatura, mesmo que a própria história construa o conceito de literatura a cada época? Por mais que se pense em redefinir o literário, não é numa noção de texto que se imbricam os filamentos da ação comunicativa, ou do contexto, que constituem o sistema literário e suas interações com os demais sistemas da cultura? Não é isso que faz Gumbrecht em seu Em 1926?

      Por último, por que a história da literatura tem de ser pensada em termos de classificações e divisões? O que obriga o historiador, senão o hábito – acadêmico ou histórico – a cortar o tempo antropológico em segmentos sucessivos, sejam eles de conteúdo homogeneizado ou não, quando fenomenologicamente o tempo da consciência, tempo próprio do homem, se fundamenta num fluxo sem origem nem finalidade, numa estrutura de foco e horizonte, um caos de memória, razão, emoção, vontade e fantasia, em que se pode ir para frente e para trás, se pode justapor e contrapor, seguir a sucessão ou contrariá-la?

      O que seria, possivelmente, um modelo viável de história literária – o que parece, pelas experiências de Harvard e de Columbia, não ser um contra-senso - seria aquele que levasse em conta a temporalidade da consciência e suas estruturas de sentido, capturando nessas a descontinuidade dos eventos. Como a história não resulta de ações individuais, o conceito de intersubjetividade forneceria o elemento consensual/dissensório, mas o tempo intersubjetivo teria no mundo da vida o seu fundamento, garantindo-se, assim, através de sua empiria, um ponto de apoio para as múltiplas intencionalidades que o visariam.

      Essa temporalidade não poderia ser segmentada e classificada, no máximo poderia ser narrada segundo um fio arbitrário que costurasse sua matéria instável, a literatura intersubjetivamente reconhecida como tal, e que fizesse as associações possíveis com os dados contextuais, tanto os inconscientes quanto os aparentes. Nesse sentido, o fundamento para essa ação intencional estaria nos vestígios materiais a que ela se dirigisse para dar-lhes sentido, o que reforçaria a função, no sistema assim constituído e constituinte, das fontes documentais primárias.

      Uma história da literatura que se quer científica, quando se sabe que a posição do observador afeta o objeto observado, precisa levar em conta o lugar de onde fala o historiador, o que poderia ser regulado pela materialidade das fontes documentais. Embora tais fontes também impliquem intenções, desvestidas das camadas históricas de discursos definidores por um historiador que ao mesmo tempo seja um colecionador atento e inclusivo e um arqueólogo em busca de sentido onde só há ruínas, expressariam todo o jogo de poderes que as teriam instituído enquanto matéria para a história literária, revelando, nesse ato, também de onde estariam sendo consideradas.

      Essa história dos fenômenos literários não poderia ser discriminatória, hierárquica ou periodológica. Valendo-se da noção de transtextualidade, partiria de algum lugar à luz dos interesses do historiador e de seu tempo, de um texto-chave, e, num moto-contínuo de associações com as circunstâncias de produção-recepção, tanto psíquicas, quanto econômico-sociais, manifestas ou veladas, com a tradição literária e os movimentos de ruptura, com os intertextos com que dialoga, reconstituiria os espaços de tempo que essa chave pudesse abrir. A inumerabilidade de conexões possíveis seria controlada bipolarmente, pela intencionalidade do historiador, intersubjetivamente ligado a sua época, e pelos documentos-fonte relacionados à obra-objeto.

      O trabalho de Gumbrecht atesta a viabilidade da idéia, mas não considera o lugar dos vestígios materiais do processo histórico na construção do mosaico de descrições obtido. A história só tem uma orientação: quer recuperar o passado, algo que já não é a cada instante. Não interessa saber se esse intento deseja deter o tempo ou projetar o futuro a partir da experiência vivida. História e passado, assim como memória e olhar retrospectivo, seja com que intenção for, são binômios inseparáveis. A fonte documental seria o instrumento de controle para a tessitura da rede de associações espaço-temporais, afim de conferir-lhe o estatuto de objetividade ameaçado pela inelutável parcialidade da visada nesse campo do aqui-e-agora evanescente, o único possível de ser apreendido com algum sentido.

      O agenciamento de fontes primárias para a investigação histórica da literatura, entretanto, também não prescinde da precaução ante a consciência ingênua. Toda fonte adquire sua condição através de um ato significativo, o de quem a preserva para o futuro, tanto quanto o de quem a recupera para o presente: é um construto, como a narração ou descrição histórica o são. Tem a seu favor, porém, uma vantagem - sua materialidade, que lhe garante um núcleo estável, mesmo que ao seu redor gravitem interesses e paixões. Apoiado em fontes primárias, o mosaico de Gumbrecht deixa de ser uma construção voluntarista, o risco que enfrenta entre os mil e um fenômenos que se oferecem ao historiador para matéria de sua montagem.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

OLINTO, Heidrun Krieger. Interesses e paixões: histórias da literatura. In: ____ (Org.). Histórias de literatura: as novas teorias alemãs. São Paulo: Ática, 1996. p.15-45.

____. 1001 histórias (de literatura). In: www.unicamp.br/iel/histlist/heidrun.htm, 06/04/ 2000.