Arinos, mestre de Bilac
Antonio Dimas
USP
Na fase turbulenta da implantação da república brasileira, a Revolta da Armada de 1893 provocou verdadeira diáspora entre intelectuais brasileiros sediados no Rio. Entre eles estava Olavo Bilac que, vítima de recente prisão anterior, preferiu refugiar-se entre as sossegadas montanhas de Ouro Preto. Próximo dos 30 anos e já aclamado como poeta de prestígio, além de jornalista com espaço próprio na imprensa carioca e fluminense, Bilac aventurava-se pelo interior do País, pela primeira vez, ao que parece. Entre novembro de 1893 e junho de 1894 escondeu-se ele em Ouro Preto, primeiro, e Juiz de Fora, depois. Disso dão-nos contas detalhadas Raymundo Magalhães Jr. e Eloy Pontes na biografia do poeta. 1
Antes desse episódio, sua incursão mais funda dentro do país dera-se por cerca de doze meses, anos antes, entre 1887 e 1888, quando tentara o curso de Direito na São Francisco, que deixou interrompido como interrompera antes o de Medicina no Rio. São Paulo enfastiou o poeta. Longe do círculo de amigos e de um namoro incipiente com a irmã de Alberto de Oliveira; avesso ao estudo sistemático; arrepiado com a pasmaceira da capital paulista; enjoado com a obrigação de ter de trabalhar num jornal de políticos e de agüentar uma cidade onde só existiam frios, garoa, lama, republicanos, separatistas, camelos e Tupinambás, 2 o poeta preferiu retornar ao Rio, onde poderia lambuzar-se com a notoriedade alcançada pelos seus poemas recém-publicados. Dessa experiência paulista pouco ficou de marcante, exceto uma crônica de recordação, escrita mais de dez anos depois, na qual o cronista se revela espantado com as modificações materiais da cidade, um de seus assuntos queridos. (GazNot, 3 mar. 1901). 3
Aliás, falar de cidades era a paixão de Bilac, o cronista.
Em sua atividade nos jornais, que se estende por quase vinte anos assíduos, encontra-se uma variedade enorme de assuntos, que se aglomeram, de preferência, em torno do tema do "progresso", dentro do que a cidade e seus "mores" ocupam lugar mais que privilegiado. O progresso urbano, eis seu grande tema e o grande personagem de suas crônicas.
Na sua geração, sempre suspeita de estouvamento e de leviandade, não houve quem se batesse com tanta continuidade e de modo tão público pela melhoria da condição urbana, mesmo que isso implicasse contradições freqüentes, nascidas, talvez, do dilaceramento entre o natural desejo de conforto material coletivo e o respeito pela preservação histórica; do dilaceramento entre o desejo do cidadão e o dever do intelectual. A seu ver, a cidade que reunia de maneira harmoniosa a preservação do passado com as exigências últimas da vida moderna era Paris, cidade que ele divide tão bem: na margem esquerda, o recolhimento e a erudição lastreada no passado; na direita, a frivolidade e mundanidade fazendo alarde do presente. (GazNot, 17 jun. 1904).
Sua primeira viagem à capital francesa dera-se em 1890, e dela restou-nos um depoimento retrospectivo de humor involuntário, em que Bilac conta visita que fizera a Rouen, na companhia de Eduardo Prado, Paulo Prado e Domício da Gama, com o objetivo de assistir às homenagens a Flaubert, filho dileto daquela cidade normanda. (CorPau, 24 out. 1907). O passeio, carregado de pequenos incidentes, acabou por desencantar o cronista e, hoje, à distância, pode ser entendido como uma espécie de adeus às ilusões literárias que alimentaram aquela geração que tanto movimentou o fim do 19 brasileiro. Por volta de 1890, apenas dois anos, portanto, depois do enorme sucesso da primeira edição de seus poemas, Bilac via reduzir-se a amplitude de seus mitos literários contemporâneos que, sem ele saber, estavam prestes a serem substituídos por outros.
No estágio forçado de Ouro Preto, iniciado em novembro de 1893, o cronista acamaradou-se logo com Afonso Arinos que se transferira, em 1890, para a capital mineira mal se formara na Faculdade de Direito de São Paulo, em cujos corredores e salas provavelmente haviam-se cruzado antes. Na calmaria da capital provinciana dilatou-se a disponibilidade do poeta fujão que preferiu preencher seu ócio com extensas excursões pelas redondezas e intensas incursões pela História, sob a tutela do contista mineiro. Afinal, nada melhor que um descendente de troncos rijos e ilustres de Paracatu de Minas, irmão de senador recém-eleito para a Constituinte estadual, participante ativo na criação do Arquivo Público Mineiro, futuro esposo de uma sobrinha de Eduardo Prado para lhe servir de guia. Com todos estes títulos, Afonso Arinos acabou por se converter numa espécie de professor de Brasil para Bilac.
Aparentemente, porque não contamos com documentação nitidamente comprobatória, mas tão-somente nos apoiamos em dedução, deu-se nesse lugar e nesse momento a conversão de um intelectual que, até então, granjeara seu prestígio por causa das musas helênicas. Antecipando futuras conversões dos modernistas, nos anos 10 e 20, Mário de Andrade à frente, Vila Rica laçava um poeta parnasiano e o transformava em jornalista verde-amarelo, numa perspectiva ligeiramente diferente de seu conversor Arinos, no entanto. Enquanto o escritor mineiro construía seu nacionalismo com base numa exploração geográfica, e, portanto espacial, do Brasil, Bilac articulava o seu nacionalismo inicial a partir de uma perspectiva histórica, e portanto, temporal. Em resumo: Arinos é o regionalista; Bilac, o historicista.
Num espaço convidativo dava-se o encontro com a pessoa certa, o que foi publicamente admitido, anos mais tarde, quando o contista mineiro foi recebido por Bilac na Academia Brasileira de Letras: Tivemos, diz este último, meses de uma vida singular, intensamente vivida, cheia de completos prazeres intelectuais, – que só podem ser bem contados aqui, a uma assistência escolhida e culta como esta, capaz de compreender como dois homens em pleno viço da mocidade puderam passar semanas e semanas entre os vivos, não os vendo nem ouvindo, e só tendo ouvidos e olhos para um estranho mundo de sombras e de fantasmas. 4
O momento era mais que adequado, porque o provável receio do jornalista de enfastiar-se com a solidão desfez-se quando ali se juntaram outros exilados com intelectuais da região, tais como Sabino Barroso, Aurélio Pires e Diogo de Vasconcelos. Foi na casa deste historiador que Bilac se recolheu nos primeiros dias, levado pela mão de Afonso Arinos. 5 Oculto numa cidade em que os traços coloniais de opulência desfeita e de autonomia política ainda eram muito fortes e recebido por um descendente de estirpe histórica que batalhou pela instalação condigna do Arquivo Público Mineiro e avesso à república recém-instalada com Afonso Arinos, Bilac é imediatamente recebido por um intelectual versado em História, como Diogo de Vasconcelos, autor de livros clássicos sobre as Minas Gerais e que teria inaugurado, naquele estado, o método de pesquisas, através de interpretações. 6 Tudo indica, portanto, que o fugitivo caiu de cabeça no meio favorável à vigília e ao recolhimento histórico. Juntavam-se, pois, a fome e a vontade de comer. Difícil encontrar melhores mestres de nacionalismo que Arinos e Diogo de Vasconcelos, defensores ambos de uma concepção utilitária de História como mestra de civismo, de aperfeiçoamento moral e de instrumento de progresso, 7 o que explicita, aliás, muito claramente o historiador das Minas Gerais, Diogo de Vasconcelos: convencido sou da influência moral que a história exerce no próprio sentimentalismo dos moços, oferecendo-se-lhes um inventário exato e verdadeiro do passado. (…) a história é o quadro magistral (…) pelo qual poderá a mocidade evitar os erros, condenar os vícios, fortificar as virtudes, e converter a força de suas próprias paixões em generoso instrumento do progresso. A companhia disponível do contista e do historiador, pautada por conversas intermináveis e hidratada pelos bons vinhos da adega de Arinos, deve ter picado a veia histórica de quem vinha se dedicando à crônica, em jornais cariocas e fluminenses, desde o início da década de 80.
Anos depois, ao receber Afonso Arinos na Academia Brasileira de Letras, em 1903, Bilac destampa o baú da recordação e confessa: Enquanto pelas ruas de Ouro Preto, naquele ano trágico de 1893, os vivos comentavam com calor os episódios da revolta naval, e os bombardeios, e as prisões, e as loucuras, – nós dois, mergulhados no passado, conversávamos com espectros. Toda a gente do século XVIII, – capitães-generais, ouvidores, milicianos de El-Rei, aventureiros, traficantes de pretos, frades e freiras, tiranos e peralvilhos, fidalgos brilhantes e pobres bateadores de ouro e cateadores de cascalho, garimpeiros, senhores e escravos, damas de casta orgulhosa e imundas pretas descalças, ricos proprietários e contrabandistas farroupilhas, – toda essa gente acudia ao chamado da nossa curiosidade, e, saltando das casas arruinadas do Padre Faria e de Antônio Dias, evadindo-se do mistério dos arquivos, repovoando as ruas cheias de escombros, vinha reviver conosco a sua antiga vida pitoresca. (…) Assim, no estudo dos tempos mortos, consumíamos as horas... 8
O texto em si já dá margem à compreensão do que Bilac concebia como fato histórico: um naco de passado emoldurado pela imaginação carinhosa, mas romântica e idealizadora. Nas palavras finais desse seu depoimento, o qualificativo pitoresco, reportado à sua etimologia primeira que encerra a acepção de plasticidade e de cor, enquadra o cronista, cujo comportamento na recuperação do fato histórico regula-se, sobretudo, pela exploração das formas, dos volumes e dos movimentos e pelo descritivismo plástico, interessado mais na recriação do clima do que do fato em si.
Na verdade, Bilac reivindica a exploração do passado com instrumento de compreensão do presente e verbera a negligência brasileira diante de sua própria história. No entanto, alerta ele, a recuperação e a preservação desse passado não poderá ser alcançada à custa do sacrifício da qualidade lingüística do texto e isso fica implícito no elogio que faz a Afonso Arinos quando o recebe na Academia. O historiador e o elitista competem, medem forças, não por simples exibicionismo verbal, mas porque a língua bem cuidada é sintoma de preservação da nacionalidade, além de fator de persuasão. Em outras palavras: uma vez que não dispunha de método histórico, nem era esse o seu interesse, já que escrevia para jornais e não para acadêmicos, Bilac supria sua carência pelo manuseio exemplar da língua, instrumento eficaz para reconstruções históricas por intermédio da imaginação. Onde faltava o método de investigação, instalava-se o método poético, o que não pode e nem deve ser confundido com devaneio gratuito e menos ainda com o uso meramente retórico da língua.
Seu trabalho imediatista era o de persuadir, de convencer, de catequizar. Daí ser feito, de preferência, em jornais e não em livros, onde, tempos depois, iriam repousar suas crônicas, aparadas pela seleção e remodeladas para se ajustarem a um veículo com outra intenção.
Despreocupado com o rigor da pesquisa sistemática, o que não se encaixava dentro de seus objetivos jornalísticos, embora não o desprezasse, seu cuidado se volta para a lacuna escancarada que reclamava atenção imediata, antes que as traças corrompessem o que restava da memória. Nas andanças por Ouro Preto, Afonso Arinos orientou-se pelos arquivos e ensinou-lhe a rastrear papéis velhos, cujo conteúdo poderia esconder uma proibição do Conde de Assumar aos jogos de rifa (GazNot, 27 nov. 1893) ou servir como convite à especulação sobre os amores entre Maria Joaquina Dorotéia de Seixas e Tomás Antônio Gonzaga (GazNot, 9 nov. 1893).
Se o documento escrito inexiste ou é insuficiente, o jornalista abandona-se ao ambiente, rodeia-se de suas leituras anteriores e abre caminho para que o poeta culto invada sua escrita e recrie um adro coruscante de cores e coleante e formas em um domingo de manhã: Passam cabeleiras trançadas, de rabicho, caindo sobre costas de compridas casacas amarelas, azuis, vermelhas e verdes, amplamente degoladas, com enormes canhões dobrados; coletes de setim [sic] macau, bordados a lantejoulas, com abotoaduras fulgurando como estrelas; camisas de folhos sobre cujas rendas se agitam, à maneira de grandes borboletas brancas, as largas gravatas de lenço bordado; chapéus à Frederico, de três pancadas, calções de seda, sobre cujas fivelas de ouro roçam de quando em quando tilintantes bainhas de prata de floretes ricos. E, sobre as lajes, rit-mando a cadência do passeio, batem grossos bastões, de castão recamado de gemas preciosas. 9
O ar puro das montanhas e o viço da natureza reanimam o jornalista escorraçado do Rio, que salta cem ou cento e cincoenta anos para trás, em busca de um tempo menos áspero. Favorece-o a iluminação escassa e precária da cidade em cujas sombras desenvolvem-se o sonho e a imaginação que restauram um passado longínquo, cuja reconstrução se pauta mais pela categoria do verossímil do que da veracidade: Oh! deliciosa, oh! encantadora cidade para passeios à noite com a alma embebida nas recordações do tempo colonial, sem destino, ao acaso das ladeiras!… Concentrado o espírito nessas recordações, por uma espécie de auto-sugestão, vêem-se as ruas povoadas de fantasmas. (GazNot, 7 nov. 1893).
Plenamente enquadrado na noção da cidade que vicia em oposição ao campo que tonifica, o jornalista acrescenta a esse mito um outro, aquele que reserva ao campo o dom da revitalização nacionalista, o dom da redescoberta das raízes nacionais que no litoral se deterioravam por causa do invasionismo estrangeiro. Em suma, o campo restabelece não só as forças físicas como também as cívicas. Segundo ele, longe do burburinho da cidade grande e litorânea, descaracterizada pelas levas incessantes de emigrantes estrangeiros que chegam e a deformam e onde o espírito vai perdendo a consciência da nacionalidade, 10 encontra-se o ar puro que faz bem aos pulmões e que se mistura com as manifestações mais autênticas de nossa nacionalidade. Nas casas velhas e decaídas de Ouro Preto, que cambaleiam colinas a baixo, explica o cronista, nessas mesmas casas apoiando-se umas às outras em prodígios de equilíbrio; nas suas velhas igrejas, em cujas esculturas vive perpétuo o gênio do Aleijadinho, e cuja ornamentação relembra o fausto religioso da opulenta Vila Rica; e, mais do que tudo, nas suas ruínas venerandas, alicerces colossais da pedra benta, pilastras quebradas que as heras mordem, pórticos esboroados, cujos destroços se aconchegam de líquens, – perdura religiosamente conservada a tradição dos primeiros brasileiros (GazNot, 7 nov. 1893).
Para ele, a percepção do tempo obriga a reparar nas coisas e nos objetos, elementos que servem para materializar o passado remoto ou próximo. Para ele, o respeito à cultura material indica aceitação madura do passado. O contrário disso é o desprezo, a destruição ou a alienação por interesse financeiro (CorPau, 10 jun. 1908), sinais de quem é incapaz de conviver com as próprias origens. Numa comparação zombeteira, que hoje cairia mal, Bilac afirma que a verdade é que abafamos dentro d’alma a idéia do passado, como sufocaríamos um remorso importuno. Somos todos, mais ou menos, como o mulatinho idiota que unta os cabelos com óleo de babosa para lhes disfarçar o comprometedor encrespamento, e para explicar a cor morena da pele, pretende descender de algum velho caboclo, cacique autêntico, – como se fosse mais vergonhoso provir de um preto das malocas de Angola do que provir de um bugre do Tocantins… (GazNot, 1 set. 1901). É por isso que, em momentos de impaciência, perguntava-se ele: Quem se preocupa, nesta abençoada terra, com guardar e zelar cousas do passado (GazNot, 10 fev. 1901) ou Que nos importa a História? (GazNot, 1 set. 1901).
Essa reação de desalento era-lhe ditada pela indiferença particular ou pública aos documentos e objetos históricos (GazNot, 10 fev. 1901) ou pelo vandalismo popular, que não poupava os monumentos públicos (GazNot, 1 set. 1901).
Diante do desrespeito ostensivo às obras públicas – jardins, praças, grades, portões, estátuas, monumentos, chafarizes, edifícios, etc. – o cronista sucumbe ao pessimismo e despeja seu mau humor, porque lhe parece que a depredação de bens materiais funciona como atestado inequívoco de imaturidade cultural e de rejeição sumária ao progresso urbano. Instala-se, então, nessa constatação horrorizada – a de que o brasileiro não respeita o bem público porque rejeita o progresso – uma das chaves do comportamento opinativo de Bilac, enquanto formador de opinião pública através da imprensa.
O respeito ao passado, segundo ele, revelar-se-ia por meio da preservação cuidadosa dos bens materiais postos à disposição da população para o seu próprio conforto. Se não se observa esse cuidado, por ignorância da população ou por sua indigência (CorPau, 10 jun. 1908), pouco ou nada se pode esperar do futuro, porque o presente também é maltratado. Como exigir algum respeito às obras de arte, pergunta-se ele, de uma gente que arrebenta às patadas as bacias de mármore dos mictórios, e que retorce hastes de ferro e bronze com a mesma facilidade com que retorceria o mais frágil dos vimes? (GazNot, 1 set. 1901).
Inconformado com nosso comportamento perdulário perante o passado e com nosso vandalismo no presente, resta ao cronista a projeção de um futuro auspicioso, cheio de realizações materiais, carregado de conforto e de distinção, o que nos situaria próximo aos padrões de países europeus adiantados. Uma vez que o presente agressivo não satisfaz, qual é a saída? Aparentemente, duas apenas: ou se volta para a recriação idealizada do passado, em que as ladeiras da antiga Ouro Preto enchiam-se de fantasmas adamados, ou se projeta uma cidade nova, uma futura Belo Horizonte, num espaço próximo à antiga capital, que ainda detém a designação antiquada e solene de Curral del Rei. O que não se pode, adverte o cronista, é adulterar o espaço sagrado da antiga Vila Rica, dotando-o, como querem alguns apressados e insensíveis, de luz elétrica, invento incompatível com a poesia da cidade (GazNot, 7 nov. 1893), porque a claridade inconveniente espanta o passado que se quer emoldurado e porque alumia demais o passado indigesto.
Do centro privilegiado de Ouro Preto e protegido pela sombra do Itacolomi, o cronista olha para trás e contempla a Vila Rica luxuosa que, um dia, ele transportou para um livro, em cujo título, Crônicas e Novelas, misturam-se, como que de propósito, o gosto pela factualidade e o pendor para a fantasia.
Nesse primeiro livro de prosa, a primeira parte é arrematada, de modo muitíssimo pouco inocente, por uma crônica sobre um relato que cristalizou o fausto mineiro: o Triunfo Eucarístico de Simão Ferreira de Vasconcelos, publicado em 1734. Por um lado, esse arremate bilaqueano vincula, de maneira sintomática, o esplendor da corte de Versalhes, em pleno século 17, com as origens do reinado de D. João V em Portugal, iniciado em 1706. Suspeito que estaria escondida nessa falsa coincidência o desejo incontrito de recuperação de uma idade literalmente dourada. Por outro lado, associando os dois contextos marcados pela ostentação material, o francês e o português, Bilac acentua a beatice e a libidinagem que caracterizaram o reinado do monarca lusitano para juntá-las à atmosfera de gozo pagão e religioso, de expectativas miraculosas e de intimidade hagiológica que teriam prevalecido na Vila Rica de então. Nesse clima em que se embaralham santos, pedrarias, milagres, carolas, ademanes e pecados, devoção e irreverência, escravos e senhores, Bilac localiza um viés gongórico e simultaneísta que, mais tarde, haveria de ser o prato preferencial de muitos intérpretes da cultura brasileira. 11
Atrás do poeta, ainda o alcance da vista, o fascínio de uma Vila Rica repleta de ouro e de poesia; na frente do cronista, desdobra-se o Curral del Rei, onde uma capital nova vai surgir, lugar em que se pode construir a mais bela cidade da América. (GazNot, 28 jan. 1894).
Numa ponta e na outra desse arco que se retesa entre o passado e o futuro, suprime-se o presente, que não interessa, porque marcado por muitos conflitos. 12
Notas:
1 Raymundo Magalhães Jr. Olavo Bilac e sua época. Rio de Janeiro: Americana, 1974. cap.17-18-19.
2 Eloy Pontes. A vida exuberante de Olavo Bilac. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944. v.1. cap. "Por vales, grotas e montanhas".
3 As cartas ranzinzas de Bilac sobre São Paulo estão no v. 399 da Revista da Academia Brasileira de Letras, mai., jun. e jul. de 1932.
4 GazNot é abreviatura para Gazeta de Notícias, jornal carioca. CorPau é abreviatura para o Correio Paulistano. Estes dois jornais são a base deste fragmento.
5 Discursos acadêmicos (1897-1919). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1965. v.1. p.139-140.
6 Ver Afonso Arinos de Melo Franco - O sertanejo Afonso Arinos. In: ARINOS, Afonso. Obra completa. Org. por Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969. p.19.
7 OLIVEIRA, Martins de. História da literatura mineira (Esquema de interpretação e notícias bibliográficas). 2. ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1963. p.189.
8 VASCONCELOS, Diogo de. História antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1904. p.418-419.
9 BILAC, Olavo. Discursos acadêmicos (1897-1919). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1965. v.1. p.140-141.
10 BILAC, Olavo. Crônicas e novelas. Rio de Janeiro: Cunha e Irmão, 1894. p.44.
11 Id. Ib., p.14.
12 Ver Crônicas e novelas, p.102, 108 e 114.
13 Esta pesquisa, em fase de acabamento, contou com auxílio da FAPESP, do CNPq e da Reitoria da USP em várias etapas. A essas entidades, os meus agradecimentos.