Leituras da História da Literatura: o nacionalismo de Alencar




João Roberto Faria
USP




      O tema desta mesa-redonda – Leituras da História da Literatura – é um convite, na verdade, para se pensar em possibilidades de revisões e reavaliações de algumas idéias talvez já cristalizadas pelo tempo. Assim, meu ponto de partida é a seguinte pergunta: como os nossos principais historiadores e críticos literários têm compreendido o nacionalismo de José de Alencar?

      Do primeiro estudo crítico e biográfico de autoria de Araripe Júnior aos trabalhos recentíssimos de Valéria De Marco, passando por José Veríssimo, Augusto Meyer, Manuel Cavalcanti Proença, José Aderaldo Castello, Afrânio Coutinho, Antonio Candido e Alfredo Bosi, entre muitos outros, a tendência geral é considerar José de Alencar como o mais brasileiro dos nossos escritores românticos, o mais empenhado em dotar o país de uma nacionalidade literária.

      É muito correto e natural que seja assim. O próprio Alencar, tanto em sua obra de criação, que é uma espécie de painel da vida brasileira, quanto em seus prefácios, pós-escritos, cartas, polêmicas e mesmo numa autobiografia, deixa transparecer com nitidez que sempre teve em mente um projeto de literatura nacional. O indianismo, a exaltação do passado lendário, a idealização da natureza, o sertanismo, o regionalismo, a descrição dos costumes urbanos, a língua portuguesa abrasileirada, tudo são faces de uma obra de combate, abrangente, motivada por um inabalável ardor patriótico, como confessa o escritor: em cerca de quarenta volumes de minha lavra ainda não produzi uma página inspirada por outra musa que não seja o amor e admiração deste nosso Brasil. 1

      Palavras como essas, cujo teor se repete em toda a obra de Alencar, levaram historiadores e críticos a definirem o seu nacionalismo em bases inteiramente românticas, ligando-o ao culto das tradições do país, ao elogio do passado histórico nacional e à criação de símbolos da nacionalidade nascente, como a natureza exuberante e o índio.

      Nesse sentido, o nacionalismo de Alencar tem sido considerado como conseqüência do clima instaurado pela independência política, ou seja, como parte do esforço generalizado dos nossos escritores românticos para criar uma literatura própria, individualizada, independente da literatura portuguesa e da qual os brasileiros pudessem se orgulhar.

      É bem provável que a principal fonte de nossos historiadores e críticos tenha sido o prefácio de Sonhos d'Ouro, "Bênção paterna", de 1872, no qual Alencar apresenta as coordenadas de seu projeto de literatura nacional e aponta os objetivos que perseguiu em cada um dos romances que tinha escrito até aquela data. Também não é fora de propósito considerar uma segunda fonte não menos importante: o ensaio "Instinto de nacionalidade", de Machado de Assis, datado de 1873, que fixa o alcance e as limitações do nacionalismo romântico. Quer dizer, se por um lado Machado enxerga no romance brasileiro algumas qualidades como a pintura dos costumes, a luta das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos caracteres, por outro não deixa de mostrá-lo distanciado das questões políticas e sociais: Esta casta de obras conserva-se aqui no puro domínio da imaginação, desinteressada dos problemas do dia e do século, alheia às crises sociais e filosóficas. 2

      Nacionalismo em país novo não poderia ser diferente. Para uma literatura ainda em formação, mais valia ostentar a cor local e trazer à tona os aspectos positivos da nacionalidade do que discutir os problemas do país.

      É por esse prisma, enfim, já entrevisto por Machado, que nossos críticos e historiadores da literatura têm compreendido o nacionalismo de Alencar. Se evidentemente não há equívoco nessa concepção já tradicional dos nossos estudos literários, eu diria que, centrada unicamente nas considerações em torno do romance alencariano, ela é pelo menos incompleta. Ou seja: há uma outra faceta do nacionalismo de Alencar, de natureza mais crítica e voltada para a organização da vida urbana brasileira, que só pode ser percebida no estudo da sua obra dramática, tarefa, aliás, que apenas recentemente começou a ser feita.

      O que pouca gente sabe é que Alencar, entre 1857 e 1862, foi o principal dramaturgo brasileiro de seu tempo. Estimulado pela importância do teatro na vida social do Rio de Janeiro, ele interrompeu a carreira de romancista depois de escrever O Guarani, para lançar-se numa empreitada que lhe proporcionou grandes alegrias e grandes decepções. Inicialmente, o que o moveu foi o sentimento de que a primeira geração romântica não conseguira "criar" o teatro nacional. Parecia-lhe necessário renovar o gênero dramático, fazê-lo participar daquele momento de emancipação literária, à semelhança do que vinha ocorrendo com a poesia e a prosa. No entanto, ao escolher os caminhos da renovação, Alencar voltou-se não para o modelo romântico do drama, mas para a comédia realista de Alexandre Dumas Filho e Emile Augier.

      As conseqüências desse passo não foram pequenas. O drama romântico no Brasil, principalmente o de fundo histórico, punha em cena as grandes causas da nacionalidade, em particular a independência, como se observa em Calabar, de Agrário de Meneses, Sangue Limpo, de Paulo Eiró, Gonzaga ou A Revolução de Minas, de Castro Alves e o único drama histórico de Alencar, O Jesuíta. São peças que podem ser equiparadas a romances como O Guarani ou As Minas de Prata, no que diz respeito às preocupações com os fundamentos mais gerais da nacionalidade brasileira. Em contrapartida, a comédia realista, já em seu país de origem, não só abandona o argumento histórico e as grandes questões nacionais como se detém no tempo presente, pondo em cena os problemas do cotidiano da vida social e especialmente da família burguesa.

      Apesar das diferenças apontadas, o drama histórico e a comédia realista apresentam uma semelhança de fundo ideológico. Enquanto o primeiro idealiza um conceito de nação, a segunda valoriza e exalta a classe dominante dessa nação. Nas peças de Dumas Filho e Augier a burguesia é protagonista dos enredos em que são vergastados alguns vícios sociais como o adultério, o culto do dinheiro, a prostituição, o jogo, em nome de valores como o casamento, a família, a honra e a honestidade. De um modo geral, são peças maniqueístas, que ao final apresentam um retrato melhorado da sociedade burguesa, apreendida em sua faceta moralizada, civilizada e moderna.

      É bem provável que Alencar tenha vislumbrado nesse tipo de peça um caminho para fortalecer a nossa burguesia emergente naqueles anos de turbulência econômica que se seguiram à interrupção do tráfico de escravos. Assim, suas peças abordam a vida brasileira de uma camada da população já identificada com os valores burgueses. Alencar percebeu que a própria forma da comédia realista, através do personagem raisonneur, abria-lhe o caminho para a discussão aberta das questões sociais. Quer dizer, no palco, em plena representação, a voz do autor se fazia presente nas palavras do raisonneur, de modo que o teatro, mais que o romance, permitia de certa forma influir na organização da vida social. Afinal, os espectadores levavam para casa uma série de lições edificantes, que deviam pôr em prática no dia-a-dia. Em suma, nas peças de Alencar, encontramos o retrato de uma sociedade em transformação, depurada de todos os vícios, voltada para a construção de um grande país e modernizando-se pela adoção do ideário burguês. Os personagens, inspirados pela burguesia emergente no Rio de Janeiro de então, deploram o lucro ilícito, a prostituição, o adultério e a escravidão, antecipando, neste último aspecto, as idéias políticas do Partido Liberal, anti-escravista a partir da década de 1860.

      Quero crer que o teatro de Alencar nos revela o lado menos evidente dos seus anseios nacionalistas. Porque para ele não era importante apenas fixar as origens da nacionalidade, idealizando o índio e a natureza ou alegorizando os primeiros contatos do colonizador com o elemento nativo. Igualmente fundamental era defender a modernização do país, apontando-lhe o mesmo caminho que fora percorrido pelas grandes nações européias. Ao defender os valores éticos da burguesia, tais como o trabalho, a família, a honestidade e a honra, e ao torná-los modelares para a sociedade brasileira, Alencar fez de seu teatro uma autêntica cruzada moralizadora e civilizadora.

      Uma peça como O Demônio Familiar, por exemplo, expõe os inconvenientes da escravidão doméstica no interior de uma família burguesa. A solução, ao final, não poderia ser outra: o escravo é libertado pelo jovem médico, que assim se desfaz da herança colonial que o prendia aos antigos valores. Em O que é o Casamento? o próprio título da peça já é um programa. Alencar não só desromantiza o amor como o redefine em termos de "amor conjugal": o herói não é mais o amante apaixonado, mas o pai de família, cônscio de seus deveres junto ao lar e à sociedade. Além disso, a peça louva a fidelidade conjugal e censura duramente o adultério. Já em O Crédito, o trabalho é o valor que se contrapõe ao casamento por dinheiro, à usura e à agiotagem. E em As Asas de um Anjo a prostituição é a chaga a ser extirpada da sociedade, pelo perigo que representa para os jovens e as jovens de famílias honestas.

      Alencar estrutura as suas peças de maneira maniqueísta, o que lhe permite um duplo movimento: ao mesmo tempo em que faz a crítica ao que considera moralmente errado na vida social brasileira, propõe caminhos para o seu aprimoramento. Essa tarefa só é possível, vale lembrar, graças à presença do personagem raisonneur, que tem a função de explicitar as idéias do autor. Enquanto dramaturgo, Alencar pôde dirigir-se quase que diretamente ao seu público, revelando-lhe as vantagens de uma organização social com base nos valores éticos da burguesia. Como um capitalismo incipiente proporcionara a formação de uma classe média de profissionais liberais, comerciantes e negociantes na década de 1850, o teatro tornou-se por excelência o espaço adequado para o debate dos problemas da vida urbana.

      Assim, se no romance de Alencar o nacionalismo se mostra presente nos largos horizontes da formação da nacionalidade, por meio de símbolos como o índio e a natureza ou do amplo painel da vida brasileira, na sua dramaturgia o foco se concentra na construção de um projeto de sociedade, igualmente motivado por anseios nacionalistas. Alencar, afinal, deseja o melhor para o país, quando aponta um caminho para o futuro, reivindicando o progresso e a modernização em moldes europeus.

      Sei que as considerações aqui apresentadas podem gerar alguma polêmica, sobretudo quando se tem em mente o papel desempenhado por Alencar como político conservador, contrário inclusive à abolição da escravidão. Mas faço duas ressalvas: em primeiro lugar, não tratei do político, mas do escritor; em segundo, a obra dramática de Alencar é produção que antecede o seu ingresso nas fileiras do Partido Conservador. Meu ponto de vista resulta de uma leitura que parte da obra para o seu universo de referências e não o contrário. Daí a possibilidade de encontrar nos textos escritos por Alencar antes dos trinta anos de idade um traço novo, que pode nos levar a retocar o retrato que dele nos legaram os historiadores e críticos literários.



Notas:


1 ALENCAR, 1960:1.024

2 ASSIS, 1951:144.