29/07/2019 - 21h18

InsCer na mídia – Memória do medo pode ser extinta, revela estudo

Matéria publicada no jornal Zero Hora no dia 25 de julho.

Pesquisa mostrou que essa associação não depende do hipocampo como se pensava.

Imagine a cena: você vai com frequência a uma mesma agência bancária. Em dado dia, você é vítima de um assalto. Traumatizado, você associa o local a experiências desagradáveis. Agora, que tal seria se pudesse extinguir essas memórias?

De acordo com um estudo conduzido na Gerontologia Biomédica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a presença de uma pessoa familiar pode ajudar nesse processo.

Publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences of United States of America, o trabalho de mestrado de Clarissa Penha Farias, formada em Educação Física, sugere que, com aporte social, é possível criar novas associações sem sofrimento ou medo.

– Se você tiver condições de ir novamente ao banco no decorrer dos dias, vai associando que houve um assalto, mas aquilo não é assustador. Mas esse processo é lento. Agora, se você vai ao banco, é assaltado e no outro dia volta com alguém familiar, todos os sinais de ansiedade são amenizados – exemplifica Clarissa.

Ela explica que, ao contrário do que possa se pensar, a extinção de uma memória de medo não consiste em apagá-la, mas, sim, de associá-la a uma nova lembrança.

Cada vez mais, a gente se distancia das pessoas. Estamos muito nas redes sociais, mas não tem ninguém fisicamente. O trabalho lança o alerta para essa questão: precisamos ter mais contato com pessoas, não só virtualmente. Isso faz diferença.

– Extinção é uma nova associação, uma nova memória que se sobrepõe à original. Essa memória de medo se mantém guardada em algum lugar – diz.

Na prática, a pesquisa mostrou que um aporte social pode ser benéfico quando utilizado junto à terapia de exposição, na qual o paciente é exposto àquilo que gera medo. Além de amenizar a memória de medo, essa nova associação depende de uma região do cérebro chamada de córtex pré-frontal, e não do hipocampo, como se acreditava.

– Gosto do trabalho porque ele é simples, no sentido da ideia, e tem novidade porque é a primeira vez que a gente fez um protocolo para estudar o suporte social, os mecanismos dessa memória em termos neurobiológicos – avalia a orientadora, Jociane de Carvalho Myskiw, professora da Escola de Medicina da PUCRS e pesquisadora do Instituto do Cérebro.

– Cada vez mais, a gente se distancia das pessoas. Estamos muito nas redes sociais, mas não tem ninguém fisicamente. O trabalho lança o alerta para essa questão: precisamos ter mais contato com pessoas, não só virtualmente. Isso faz diferença – avalia a docente.

Como foi feita a pesquisa

Feita com ratos, a pesquisa foi dividida em três momentos: no primeiro, os animais foram expostos a um contexto no qual receberam estímulos elétricos. Depois, divididos em dois grupos, os animais foram colocados no mesmo ambiente. Um grupo teve aporte social de ratos que moram na mesma caixa e outros, não. Por fim, os pesquisadores usaram drogas para evidenciar as regiões do cérebro que eram acionadas.

– Vimos que animais que fizeram a extinção com suporte não evocaram a memória de medo – conclui a pesquisadora.

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