Como Ler e Escrever Poesia


Haverá,
ainda,
no mundo
coisas tão simples
e tão puras
como a água
bebida na
concha
das mãos?
(Mário Quintana)



Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhes deres:
Trouxeste a chave?

(Carlos Dummond de Andrade)



1. Introdução

     Para escrever poesia, é preciso ler poesia e saber onde se encontra a essência dessa forma de expressão.

     A seguir, transcrevemos seis poemas (cuja autoria foi omitida). Pedimos que faça uma avaliação: atribua a cada um deles um conceito - ótimo, muito bom, bom, regular, fraco.

     Trata-se, evidentemente, de um teste: ele pode servir para avaliar a noção que você tem acerca de poesia.


LUAR

A lua majestosa
passeia
no tapete das nuvens
na imensa quietude
do universo.


E com seus raios argentinos
rompe o véu negro da noite
com claridade branda e suave,
e faz da terra
um manto branco de virgem.



LUA CHEIA

Boião de leite
que a noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.
E que, embora levado
muito devagarinho,
vai derramando pingos brancos
pelo caminho.



POEMA DA PARTIDA

Perdoa, se fui
a pedra,
a nuvem,
ou o espinho
e não flores
em teu caminho...

Esquece o que fui.

Esquece esta nota desafinada
que soou perdida
na harmoniosa tranqüilidade
de teus dias...

Perdoa esta nuvem
que pousou inconsciente
sobre o brilho de teus dias...

Esquece tudo.
E vê como os horizontes
te são azuis
e quanta promessa de luzes
e de festas
tuas manhãs te reservam.

Ouve e vê
como todas as coisas
parecem orquestrar
para ti
uma linda canção
de felicidade.

Então, depois, esquece.

Foste sempre
a longe estrela do céu
e eu o lago
a possuir-te em minhas águas
ilusoriamente...



SONETO DA SEPARAÇÂO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



AMOR

Quisera nas cordas de uma harpa de arcanjo
tanger de mansinho com dedos divinos
meus mais ternos versos, pra ti, ó meu anjo,
pra ti, ó meu anjo, meus mais belos hinos.

Quisera num berço de rosa macias
teu sono formoso feliz embalar
ao som das cantigas que a brisa cicia,
ao som das espumas e das ondas do mar.

E ouvir com os ouvidos colados em teu peito
a música leve de teu respirar
e em êxtase casto de amor neste leito
dormir para sempre, não mais acordar.



CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios).
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.



     Ao longo de nossa exposição, vamos comentar os poemas transcritos e a avaliação que você fez.


2. Que é poesia

Que é Poesia?
        uma ilha
        cercada
        de palavras
        por todos os lados.

Que é o Poeta?
        um homem
que trabalha o poema
com o suor de seu rosto
        um homem
        que tem fome
        como qualquer outro
        homem.

               (Cassiano Ricardo)


     Poesia é um texto literário, em prosa ou em verso, que se caracteriza pela linguagem sugestiva, conotativa, metafórica, figurada, criativa, inusitada - a chamada função poética.

     Retomaremos adiante essa definição. Por ora, vamos nos deter em algumas considerações sobre prosa e verso.


3. Prosa e verso

Vou cantar a vida
Em verso e prosa
Vou me vestir de rosas
E me fazer toda prosa
Pra conquistar teu coração.


               (Letícia Thompson)


3.1. A distinção entre prosa e verso

     Os textos em prosa apresentam uma característica marcante: as linhas são contínuas e se agrupam em parágrafos. Quando você lê uma carta, uma crônica, uma notícia ou reportagem de jornal, um conto ou um romance, você está lendo textos em prosa.

     Nos textos em verso, as palavras são dispostas graficamente em linhas descontínuas chamadas versos, como nos poemas que aparecem no início desta parte ou no texto Cajueiro Pequenino, a seguir:

3.2. O verso: classificação

     Os versos podem ser de duas espécies:
     - verso medido ou tradicional
     - verso livre ou moderno

3.2.1. O verso medido ou tradicional é o verso que tem o mesmo número de sílabas em toda a estrofe ou em todo o poema.

     Observe o número de sílabas na primeira estrofe do poema Cajueiro Pequenino, de Juvenal Galeno:



     No verso medido ou tradicional, contam-se as sílabas até a última sílaba tônica. Os versos do poema Cajueiro Pequenino têm, portanto, sete sílabas.

     Duas ou mais vogais, quando se encontram no fim de uma palavra e no começo de outra e podem ser pronunciadas numa só emissão de voz, unem-se numa única sílaba.

     Observe o exemplo:

Tu és um sonho querido
De minha vida infantil.
Desde esse dia... Me lembro...
Era uma aurora de abril.




     O verso tradicional ou medido, além de ter o mesmo número de sílabas em todas as estrofes do poema, apresenta uma disposição regular das sílabas tônicas.

     Nos versos do poema Cajueiro Pequenino são sílabas tônicas:

- a 1ª, a 3ª, a 5ª e a 7ª
- a 1ª, a 3ª e a 7ª
- a 1ª, a 4ª e a 7ª
- a 3ª, a 5ª e a 7ª
- a 2ª, a 4ª e a 7ª
- a 2ª, a 5ª e a 7ª
- a 3ª e a 7ª
- a 4ª e a 7ª

     Observe a distribuição das sílabas tônicas na quinta estrofe. Nós negritamos as sílabas tônicas que obedecem à disposição mencionada:



     É necessário mencionar ainda outro elemento do verso tradicional ou medido: a rima.

     Rima é a coincidência de sons no fim de palavras ou versos.

     As rimas não estão presentes apenas nos poemas tradicionais. Elas aparecem com a mesma força também:

nos provérbios:
Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.


na linguagem do dia-a-dia:
Como vai, vai bem? Veio a pé ou veio de trem?
Sol e chuva, casamento da viúva; chuva e sol, casamento do espanhol.


na linguagem publicitária:
Amor com Primor se paga.

nos jogos e nas brincadeiras:
Uni, duni, tê
Salamê, mingüê
Um sorvete colored
O escolhido foi você!


nas trovas ou quadras populares:
Tudo acaba... Tudo passa...
Tudo quebra... Tudo cansa...
Mas mesmo em uma desgraça
Há sempre um fio de esperança.

               (Inocêncio T. Souto)

Esperanças são jangadas
No porto de nossos dias:
De manhã vão carregadas,
De noite voltam vazias.

               (E. Sebastião Soares)

Quando a gente é criancinha
Canta quadras pra brincar
Quando fica gente grande
Ouve quadras a chorar.

               (Dorival Caymi)

Quem diz que de muitos gosta,
Quem diz que a muitos quer bem,
Finge carinhos a todos,
Mas não gosta de ninguém.

               (Quadra Popular)


     Nas estrofes, as disposições mais freqüentes das rimas são as seguintes:

     Rimas emparelhadas, quando se sucedem duas a duas:

Ele deixava atrás tanta recordação!
E o pesar, a saudade até no próprio chão,
Debaixo dos seus pés, parece que gemia,
Levantava-se o sol, vinha rompendo o dia,
E o bosque, a selva, o campo, a pradaria em flor
Vestiam-se de luz, como um peito de amor.
               (Alberto de Oliveira)

     Rimas alternadas, quando, de um lado, rimam entre si os versos ímpares e, de outro, os versos pares:

Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos...
               (Mário Quintana)

     Rimas opostas, quando o 1º verso rima com o 4º e o 2º com o 3º:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

               (Vinícius de Morais)

     O verso tradicional pode conter até doze sílabas. Versos com uma sílaba são muito raros. Os com duas sílabas são mais comuns. Observe os que seguem:

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co' as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa,
Tão falsa
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam,
No colo
Que é meu:
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
Pra outro
Não eu!

(Casimiro de Abreu)


     Os versos de Vinícius de Moraes contêm quatro sílabas.

Vamos conferir?

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus.



     Nas quadras e trovas populares, nas cantigas de roda e nos desafios, os versos têm, em geral, sete sílabas, como os do poema Cajueiro Pequenino.

Quando a trova é mesmo boa,
é sempre assim que acontece:
- o dono fica esquecido...
mas a trova não esquece.

               (Luiz Otávio)



Eu não quero nem brincando,
Dizer adeus a ninguém:
Quem parte leva saudades.
Quem fica sofre também.

               (Quadra Popular)



     Os versos a seguir têm dez sílabas. Confira:

O que eu adoro em ti é no teu rosto
O angélico perfume da pureza;
São teus quinze anos numa fronte santa
O que adoro em ti, minha Tereza!

São os loiros anéis de teus cabelos,
O esmero da cintura pequenina,
Da face a rosa viva, e de teus olhos
A safira que a alma te ilumina!

               (Álvares de Azevedo)



3.2.2 Verso livre ou moderno

     O verso livre ou moderno não tem um número fixo de sílabas em cada verso, nem uma disposição regular das sílabas tônicas, nem rimas, muitas vezes.

     Os poemas a seguir são belos exemplos de poemas com versos livres.


Projeto

Quando eu morrer com certeza vou
                          pro céu.
O céu é uma cidade de férias, férias
boas que não acabam mais.

Chegando, pergunto pela
minha gente que foi na frente.
Dou beijos, dou abraços, pergunto
uma porção de coisas e depois,
depois quero ir na casa de
São Francisco de Assis, ficar amigo dele,
tão amigo, tão amigo, que ele
há de me chamar: - Alvinho! e
eu hei de lhe chamar:
- Chiquinho!...

               (Álvaro Moreyra)

Verso avulso

O meu amor é belo como um barco!
               (Mário Quintana)

Imagem

O gato é preguiçoso como uma segunda-feira.
               (Mário Quintana)

O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou, cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste, mas toda cheia de mangas.
Mangas tão doces, tão bonitas, a mangueira nunca deu.
Deu agora de saudades, porque a mangueira sofreu...
Quanta mulher-sabiá!
Quanto homem-mangueira!...

               (Álvaro Moreyra)

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Na era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

               (Manuel Bandeira)

A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

               (Miguel Torga)

Coisas

Uma rãzinha verde no gris da manhã...
Um sorriso na face de um ceguinho...
Uma nota aguda como uma pergunta de criança...
Um cheiro agradecido de terra molhada...
Um olhar que nos enche subitamente de azul...

               (Mário Quintana)

Gastei uma hora pensando um verso,
que a pena não quer escrever.
No entanto, ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

               (Carlos Drummond de Andrade)


4. Retomando a definição de poesia

"Que é Poesia?
          uma ilha
          cercada de palavras
          por todos os lados (...)"
               (Cassiano Ricardo)

     Poesia é palavra. É linguagem. Todo o gênio do poeta reside na invenção verbal (Jean Cohen - crítico de literatura). Poesia é uma forma peculiar de dizer, de expressar.

     Poesia não é, pois, a mera expressão de sentimentos. De uma dor de cotovelo. De uma decepção amorosa. De uma canção de amor.

     Poesia não é a comoção diante de um pôr-do-sol ou diante de uma paisagem. Até pode haver poesia numa declaração de amor ou num poema que descreva o entardecer. Mas - insista-se - a essência da poesia não está no próprio assunto, na expressão do sentimento, da comoção, do encantamento. Poesia é palavra.

"Não é com idéias que se fazem
versos, é com palavras".

               (Mallarmé, poeta francês)

"O poeta é poeta não pelo que
pensou ou sentiu, mas pelo que disse.
Ele não é criador de idéias, mas de palavras.
Todo seu gênio reside na invenção verbal."
               (Jean Cohen, professor e crítico literário)

     Na poesia, a língua ultrapassa sua função meramente comunicativa e se torna, ela própria, a matéria prima para a obra de arte. Dito de outro modo, na função poética o esforço do autor incide sobre a estrutura da mensagem, sobre a forma de dizer.

     Na poesia se evidenciam as potencialidades da linguagem: a conotação, a metáfora, todas as figuras de linguagem, a sonoridade, o ritmo; em suma, a maneira peculiar, diferente, nova, artística, criativa de expressar.

     Vamos aos exemplos?

     Como você avaliou o primeiro poema - "Luar"? Ótimo? Muito bom? Pois saiba que ali não há poesia. Não há poesia nesse poema simplesmente porque não existe ali a função poética, a linguagem poética, a maneira peculiar, diferente, nova, artística, criativa de expressar. A linguagem do poema "Luar" é um amontoado de lugares-comuns - palavras e expressões que andam na boca de todo mundo ou de um escritor ou poeta principiante. "Lua majestosa", "tapete de nuvens", "imensa quietude do universo", "raios argentinos", "véu negro da noite", "claridade branda e suave" e "manto branco de virgem" são expressões gastas pelo uso, surradas, sem originalidade, sem criatividade. E poesia é justamente a antítese de lugar-comum.

     A primeira pessoa que assim tivesse se expressado seria poeta, e seu poema poderia ser classificado de poesia.

     O poema "Luar" é de autoria de Gil Dumont Vêneto. Trata-se de um poema "ad hoc" (escrito para esse fim), para exemplificar o que não é poesia.


     O segundo poema - "Lua Cheia" - é de Cassiano Ricardo. Observe como o poeta é original ao identificar a lua cheia com um boião de leite, isto é, com um recipiente de vidro, cheio de leite. Trata-se de uma metáfora. Originalíssima. Criativa. Poética. Surpreendente. Observe também que Cassiano Ricardo considera a noite uma pessoa (personificação): "que a noite leva com mãos de treva". Há, finalmente, mais uma metáfora: o poeta concebe os raios do luar como se fossem "pingos brancos", que caem do "boião de leite".

     Não bastasse, o autor imprimir ritmo ao seu poema: há o predomínio de versos com quatro e seis sílabas, com acentuação bem definida.

     Em resumo, as metáforas originais, a personificação, o ritmo e a acentuação dão ao poema "status" de poesia.


     Vamos ao terceiro poema - "Poema da Partida". Talvez você já tenha condições de rever seus conceitos... sua avaliação. Pode-se dizer que no poema há poesia?

     Não, não há! E o motivo você já sabe: a linguagem não é poética, original, inusitada, artística. O poema é (quase) todo uma seqüência de lugares-comuns. Não deixa, no entanto, de ser um trabalho válido como iniciação à arte de escrever poesia. Talvez seja assim que os poetas comecem a escrever: repetindo o que os outros já disseram até chegar à originalidade.

     Para não deixar de citar a autoria do poema... ele também foi escrito por Gil Dumont Vêneto.

     É de Vinícius de Moraes o quarto poema. Mas não é por ser de Vinícius que há poesia nesse poema. É porque ali está presente a linguagem poética.

     Eis alguns aspectos, presentes no texto de Vinícius de Moraes, que caracterizam a função poética:

1. Os versos contêm o mesmo número de sílabas.
1    2   3   4   5  6  7    8       9    10
De/re/pen/te/do/ri/so/fez-/se o/ pran/to
si/len/ci/o/so e/bran/co/co/mo a/bru/ma
e/das/bo/cas/u/ni/das/fez-/se a es/pu/ma
e/das/mãos/es/pal/ma/das/fez-/se o/pran/to

Observações:
  1. A contagem das sílabas dos versos vai até a última sílaba tônica.
  2. Quando duas (ou mais) vogais se encontram no fim de uma palavra e no começo de outra, podendo ser pronunciadas numa única emissão de voz, unem-se numa só sílaba.
2. As palavras rimam.
pranto          vento               de repente
bruma          chama               amante
espuma        pressentimento   contente
espanto       drama               distante
                                        errante
                                        de repente

3. A sílabas tônicas repetem-se com intervalos regulares. Observe a incidência da sílaba tônica na 6ª e na 10ª sílabas:

 1   2   3    4  5  6   7   8     9      10
De/re/pen/te/do/ri/so/fez-/se o/ pran/to
  1  2   3   4   5   6    7    8     9      10
De/re/pen/te/da/cal/ma/fez-/se o/ ven/to
1    2   3    4    5     6     7    8  9  10
De/re/pen/te,/não/mais/que/de/re/pen/te


     A sucessão de sílabas tônicas e átonas com intervalos regulares cadenciam o verso, tornando-o melodioso.


4. Os versos agrupam-se dentro de uma fórmula especial.

     duas primeiras estrofes contêm quatro versos cada uma e as duas últimas, três. A essa disposição dá-se o nome de soneto.


5. Há a repetição intencional da expressão de repente, e do verso de repente, não mais que de repente.

     A reiteração mencionada, além de dar ritmo e melodia ao poema, é uma maneira (insistente) de o poeta expressar como se deu a separação.


6. Há a utilização de figuras como a antítese, a comparação, a metáfora.

Antítese
A antítese consiste na aproximação de palavras ou expressões de sentido oposto. Observe como o poema de Vinícius de Moraes é antitético:

riso x pranto
calma x vento
amigo próximo x o distante


Comparação
A comparação, como o próprio nome diz, é o fato de confrontar, de estabelecer semelhanças entre seres ou coisas, tendo por finalidade tornar mais clara, mais compreensível e mais expressiva a idéia que se quer expressar:

     De repente do riso fez-se o pranto
     Silencioso e brando como a bruma

Metáfora
Metáfora é o uso de uma palavra ou expressão num sentido diferente daquele que lhe é comum. As metáforas, portanto, por serem palavras e expressões usadas em sentido figurado devem ser "traduzidas", ou melhor, bem decodificadas.

METÁFORAS
(linguagem artística)
DECODIFICAÇÃO
(linguagem comum)
De repente do riso fez-se o pranto De repente a felicidade virou tristeza
De repente da calma fez-se o vento De repente a paz virou desarmonia


     O quinto poema também é de Gil Dumont Vêneto. Tem rima. Tem ritmo: é uma valsa. É romântico. É delicado. Expressa o amor. Com certeza, agrada à maioria dos jovens. Mas não é poesia!

     Não basta rimar para escrever poesia. Não basta ter ritmo para ser poesia. Um texto não é poesia por ser romântico, por emocionar, por ser uma declaração de amor.

     Poesia é palavra, é linguagem, é invenção verbal, é originalidade. E no poema "Amor" não há isso. Há só lugares-comuns.

     "Tanger de mansinho", "ternos versos", "berço de rosas macias", "sono formoso", "ao som das cantigas que a brisa cicia", "ao som das espumas e das ondas do mar", "música leve do teu respirar", etc. são exemplos de que não há invenção verbal, exemplos de lugares-comuns, de expressões que, de tão repetidas, se tornaram gastas, surradas, sem originalidade.

     O sentir, o amar, o apaixonar-se é comum a todos; cabe ao poeta expressar o sentimento, o amor, a paixão de uma maneira singular. Tudo já foi dito. O poeta expressa o que foi dito mediante uma forma inusitada.

     Para finalizar, Manuel Bandeira, em "Consoada", dá uma lição de poesia.

     Em dez linhas apenas, com palavras simples, conhecidas (com exceção, talvez, de "consoada", "caroável" e "sortilégios"), expressa sua preparação para receber a morte (a Indesejada das gentes), que vem para um último encontro, para uma "consoada" (refeição ao final do dia) e encontrará o poeta com o dever cumprido ("encontrará lavrado o campo") e preparado para recebê-la ("a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar.").

     Não há rimas (a rima nem sempre é a solução). Os versos não apresentam o mesmo número de sílabas. O ritmo não é marcado. Isso tudo não importa. O que confere "status" de poesia ao poema é a maneira peculiar (a linguagem figurada) com que o poeta expressa sua alta preparação para receber a morte, que vem para um "jantar", um encontro a dois, e "Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar."

     Ao concluirmos esta seção, queremos sublinhar, uma vez mais, o seguinte: para escrever poesia, é preciso ter cuidado especial com a forma, com a maneira de expressar, explorando com originalidade todos os recursos que o sistema lingüístico oferece nos planos fônicos (rimas, ritmos, etc.), léxico (escolha das palavras), sintático (combinação de palavras de forma inusitada, singular) e semântico (emprego da linguagem figurada, etc.), revelando assim novas formas de ver o mundo.

     Poesia é isso: uma aventura de linguagem. A arte de dizer o comum de forma incomum.

     O texto poético assim construído se torna intocável, isto é, as palavras que o autor utilizou, as combinações que fez, os recursos que empregou não podem ser alterados sob pena de comprometer a obra, desconstruí-la, despoetizá-la.

     Cabe lembrar, para encerrar, que um texto em forma de prosa pode ser considerado poesia, se a função predominante for a função poética, se nele estiver presente a linguagem poética. Trata-se de um texto em prosa, em sua forma; poesia - em sua essência. Dito de outro modo é prosa poética.


5. O poeta: um lutador

     Retomemos a segunda estrofe do poema de Cassiano Ricardo:

Que é o poeta?
         um homem
que trabalha o poema
com o suor de seu rosto
         um homem
         que tem fome
         como qualquer outro
         homem.

     Fixemo-nos na definição de que o poeta é "um homem que trabalha o poema com o suor de seu rosto." De imediato, percebemos que escrever poesia não é tarefa fácil... não é algo que se produz num momento de inspiração. Implica trabalho. Esforço. Suor. Busca de originalidade. Da metáfora iluminadora. É uma dura estiva de desembarcar no papel e idéias novas, novas concepções de mundo.

     Muitos poetas escreveram a respeito de seu esforço criador. Por exemplo, Olavo Bilac, no soneto "A um poeta"

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

     Um dos mais importantes poemas da poética de Carlos Drummond de Andrade é o poema "O Lutador", em que fala de seu processo criador.

O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.


(Carlos Drummond de Andrade)


     No poema, é necessário ressaltar que

a. poesia é palavra:
-"as palavras" são muitas (...) /Algumas, tão fortes /como o javali,"
- "apareço e tento /apanhar algumas /para meu sustento /num dia de vida."
- "e um sapiente amor /me ensina a fruir /de cada palavra /a essência captada, /o sutil queixume".

b. o poeta é um lutador: luta com as palavras:
- "Luto corpo a corpo, /luto todo o tempo"
- "Cerradas as portas, /a luta prossegue /nas ruas do sono."
- etc.

c. a luta com as palavras é tarefa difícil (o que significa que construir um poema envolve muito esforço):
- "Lutar com palavras /é a luta mais vã."
- "Deixam-se enlaçar, /tontas à carícia /e súbito fogem"
- "Sem me ouvir deslizam, /perpassam levíssimas, /e viram-me o rosto."
- etc.


     A luta que o poeta trava com a palavra, a busca pela perfeição formal, a ânsia de almejar, alcançar a beleza a qualquer custo, e a impotência, a angústia experimentada pelo poeta para a realização dessa tarefa - isso tudo está expresso no poema clássico de Olavo Bilac, "Inania verba" (Fúteis palavras).


Inania verba

Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo
Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho e o céu que foge à mão que se levanta

E a ira muda e o asco mudo e o desespero mudo
E as palavras de fé que nunca foram ditas
E as confissões de amor que morrem na garganta

(Olavo Bilac)


     É tamanha a ânsia, o esforço do poeta na busca do ideal poético que chega a sentir-se um fracassado, considerando impossível a expressão correta das idéias pelas palavras. Para Bilac, a construção de um poema é também comparada a uma cidadela inconquistável:

     Nunca estarei jamais no teu recinto;
     na sedução e no fulgor que exalas,
     ficas vedada, num radiante cinto
     de riquezas, de gozos e de galas. (Perfeição)


     É a mesma a concepção de João Cabral de Melo Neto acerca do processo de criação de um poema em "O ferrageiro de Carmona" (ferrageiro = ferreiro; Carmona= cidade da Espanha e, também, uma espécie de tranca).

     O poema distingue duas maneiras de trabalhar o ferro: a fundição e o forjamento. Na fundição, o ferro é derretido e derramado no molde. Ao esfriar, torna-se sólido, tomando o formato do molde. Já no forjamento, o ferro é aquecido e trabalhado/moldado pelo ferreiro com o auxílio do malho (um grande martelo de ferro).

     Segundo o poema, o trabalho com a linguagem é análogo ao trabalho com o ferro. A "fundição" deve ser entendida como a construção de um poema a partir de uma fórmula, em que, por isso, não há originalidade; o "forjamento" é criação, é enfrentar dificuldades no fazer artístico. Assim, o poema "forjado" é fruto do esforço, do suor, resultado do trabalho intenso e não de uma inspiração fugaz, da imitação - sinônimo de facilidade.

     Eis o poema na íntegra:

O ferrageiro de Carmona

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde
quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra
língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.


(João Cabral de Melo Neto)


     Dignas de nota são também as cartas de Rainer Maria Rilke (1875-1926), o maior poeta da língua alemã do séc. XX.

     Rilke recebe uma carta de um jovem chamado Franz Kappus, que aspira a se tornar poeta e que pede conselhos ao já famoso escritor. O fato dá início a uma troca de correspondências na qual o poeta responde aos questionamentos do rapaz e expõe suas opiniões a respeito de ser poeta, da necessidade de escrever, da criação artística, entre outros assuntos.

     Foram dez as cartas, das quais transcrevemos a primeira.


Primeira Carta de Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento.
Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.
(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande
estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,


Rainer Maria Rilke


     (Esta Primeira Carta do livro "Cartas a um jovem poeta" foi traduzida por Cecília Meireles, retirada da edição: "Cartas a um jovem poeta e Canção morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke", ed. Globo, 1983.)

     Não poderíamos também deixar de transcrever a "Carta a um jovem poeta (por um não-poeta)", de Paulo Avelino (http://fla.matrix.com.br/pavelino/carta.html).

     Paulo Avelino toca com extrema habilidade em aspectos essenciais da poesia.

     - "Não confunda tema com poema. Nunca, nunca." E vale a pena ver como o autor do poema explica esse aspecto.

     - "Outro Nunca: nunca veja a poesia como expressão de sentimentos ou expressão do seu eu ou coisa parecida." A explicação da afirmação você já sabe, mas é importante reforçar essa convicção. Por isso transcrevemos a carta.


Carta a um jovem poeta (por um não poeta)
Paulo Avelino

[Um jovem poeta me escreveu. Essa é a resposta que fiz a ele.]

Caro Caio,

Você tem catorze anos e revela que quer ser poeta. É uma boa idade para isso, e não digo isso poeticamente (!), mas por que com essa idade você terá tempo para se aperfeiçoar. Há grandes poetas que se decidiram aos nove. É uma boa idade a sua.

Você enviou um poema falando de mães. Mães são um tema válido. Namoradas são um tema válido. A pátria, também. Pulgas, cachorros vadios, latas enferrujadas que um menino de rua chuta distraidamente na calçada, a derrota do meu time, as proezas do arcanjo Gabriel no combate aos demônios, tudo isso são temas válidos.

Dizem que Churchill, quando pediram que dissesse uma mensagem à juventude, disse apenas: "Nunca se dêem por vencidos. Nunca, nunca, nunca..." Eu poderia dizer algo parecido: "Não confunda o tema com o poema. Nunca, nunca..."

O tema é uma coisa, o poema é outra completamente diferente, e as virtudes de um simplesmente não se comunicam para o outro. Se você escreve um poema e as respostas que você tiver se referirem ao tema, elogiando o tema, tome isso como sinal de que está no caminho errado.

Por isso, não precisa se preocupar em escolher Os Grandes Temas (assim mesmo, com maiúsculas): Amor, Mãe, Morte, Solidão... O que não significa que sejam proibidos.

Pense em quantas pessoas já passaram por esse mundo antes de você. Quantas pessoas escreveram. A cada dia eu me surpreendo mais com quanta coisa maravilhosa se encontra escondida em prateleiras de bibliotecas. Será que essas pessoas deixaram algum tema original, não tocado, para você? A resposta é não. Todos os temas, caro Caio, já foram explorados (e muito bem explorados) por gente muito boa. E isso não é de hoje, creio que quando os gregos entraram em decadência todos os temas já tinham sido devidamente visitados.
Então, há algum sentido em escrever hoje? Por que não ficamos simplesmente reeditando e lendo as maravilhas do passado?
Porque as coisas precisam ser ditas e reditas de forma nova e impactante. As palavras e expressões são como facas, elas se desgastam. E a mesma coisa precisa ser dita de outra forma, de uma forma original. Esse é o sentido de você escrever, é o sentido de qualquer um escrever.
Diga as coisas de forma original. Invente metáforas novas, comparações inusitadas. Existe um veneno para o poema ou para qualquer tipo de literatura, que se chama lugar comum. Não diga que sua amada é linda e você não poderia viver sem ela. Não diga que se sente só. Ou melhor, diga... mas de forma original, nova.
Outro Nunca: não veja a poesia como expressão de sentimentos ou expressão do seu eu ou coisa parecida. Poesia é uma arte, é um fazer, é um trabalho. Se diante de um poema seu uma pessoa elogiar a sua pessoa, do tipo "que pessoa linda que você é" aceite educadamente, mas sempre se conscientize de que essa pessoa elogiou um autor que não é você, é o autor do poema, que não se confunde com você pessoa física. Vou tentar explicar melhor.

Existiu um poeta português no começo do século que escreveu alguns dos poemas mais conhecidos da língua. Além da qualidade indiscutível do seu trabalho esse poeta tinha um diferencial em relação a outros grandes poetas, ele escreveu coisas importantes sobre o fazer poético. Ele disse uma coisa bem conhecida mas que muita gente boa passa por cima: "o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente". Ou seja, você não precisa estar apaixonado para escrever um poema de amor. Você pode escrever um belo poema de louvor a Deus e ser um ateu. Sobre a pátria e não ser patriota. Quem tem de ficar com/movido com o seu poema é o seu leitor, não você! Assim, se alguém lhe diz que você é uma pessoa linda, ou uma bela alma, pense assim, a pessoa que eu fingi ser é linda, não necessariamente eu. E como diz o poeta, essa pessoa (ou essa Pessoa) fingida pode ser até você mesmo, e nem por isso será menos fingimento! Não precisa fazer de sua poesia um strip-tease das próprias emoções. Esse poeta tem uma frase cortante a respeito: "Sentir? Sinta quem lê!" Claro que você sabe que estou falando do velho Fernando.

Você está tendo, e terá por algum tempo, aulas de literatura. Saiba que seu professor de literatura vive noutro mundo, bem diferente do seu. Não se trata de inferioridade ou superioridade, apenas de tarefas e visões diferentes. O professor, ou qualquer crítico, tem uma função de analisar e depois fazer uma síntese. Ele busca dar um significado. É a função dele. Ele chega ao macro. Você tem de partir do micro. Atribuir grandes significados não é tarefa sua. Você tem que buscar uma técnica. E com o tempo você dominará essa técnica, você ficará à vontade com ela, brincará com ela (como sempre gostamos de brincar com algo que fazemos bem), e as sínteses devem primordialmente ficar a cargo de outros. Seu professor, por exemplo, dirá que tal poeta "é a autêntica expressão do seu tempo", ou que tal poetisa "expressa perfeitamente a alma feminina". Nunca tente partir de tais afirmações gerais para a sua poesia. Você poderia ficar pensando "como fazer esse poema ser a expressão do meu tempo, ou dos anseios da minha geração"? Não pense assim. Crie uma técnica, coisas originais, que funcionem, que dêem certo. Para isso precisa ler muito. Leia os clássicos e fique atento ao que foi publicado hoje na resenha do jornal. E as grandes sínteses do significado da sua poesia, deixe para os outros.

Bem, é isso. Você escolheu ser poeta. É uma vida difícil. Mas qual não é? Se você me dissesse que queria ser médico eu diria a mesma coisa, analista de sistemas, a mesma, professor... engenheiro... Você vai navegar num mar de amadorismo e muitas vezes vai se sentir imensamente só. Mesmo que esteja cercado de mulher, parentes e amigos e pessoas que o amam, sua solidão profissional vai tão espessa que você vai poder até tocá-la. E os resultados vão demorar, talvez quando surjam você nem esteja mais interessado em louvores dos outros. Mas se é chamado é chamado, e nisso eu não diferencio a literatura de qualquer outra profissão. O cara tem uma tendência para aquilo. Se vai ter determinação e coragem para atender o chamado é outra história. E sequer você pode se orgulhar de ter vocação. Não foi você que escolheu, foi escolhido, e portanto não é mérito.

Enfim, coragem, firmeza e paciência.

Abraços,


Paulo Avelino


6. Conclusão

     No uso comum, "poesia" é termo utilizado para nomear o texto escrito em forma de verso. No rigor do termo, no entanto, "poesia" não é sinônimo de verso metrificado, rimado. A essência da poesia é a palavra. O trabalho com a palavra. O dizer o comum de forma incomum. O dizer poeticamente. De forma original. Inventando metáforas novas. Comparações inusitadas. Impactando. Oferecendo a palavra como espetáculo.

     Esqueça, pois, que poesia é sentimento. Comoção. A expressão do amor. De uma saudade. De uma dor de amor. Não diga a sua amada que quer vê-la repousando num berço de rosas macias, ao som das cantigas que a brisa cicia, no doce balanço das ondas do mar. Que ela é o sol de sua vida, o pão com que você saciará sua sede de carinho. Seu ontem. Seu hoje. Seu amanhã. Seu sempre. Aliás, diga tudo isso, mas de forma poética, nova, original. Afinal, poesia é a arte de dizer. Da palavra. Nova.