Como realizar a intertextualidade


1. Introdução

     A competência em leitura e em produção textual não depende apenas do conhecimento do código lingüístico. Para ler e escrever com proficiência é imprescindível conhecer outros textos, estar imerso nas relações intertextuais, pois um texto é produto de outro texto, nasce de/em outros textos.

     A essa relação (que pode ser explícita ou implícita) que se estabelece entre textos dá-se o nome de intertextualidade. Ela influencia decisivamente, como estamos afirmando, o processo de compreensão e de produção de textos.

     Quem lê deve identificar, reconhecer, entender a remissão a outras obras, textos ou trechos. As obras científicas, os ensaios, as monografias, as dissertações, as teses, por exemplo, remetem explicitamente a autores reconhecidos, que corroboram os pontos de vista defendidos. A compreensão de uma charge de jornal implica o conhecimento das notícias do dia. A leitura de um romance, conto ou crônica aponta para outras obras, muitas vezes de forma implícita.

     Nossa compreensão de um texto depende assim de nossas experiências de vida, de nossas vivências, de nosso conhecimento de mundo, de nossas leituras. Quanto mais amplo o cabedal de conhecimentos do leitor maior será sua competência para perceber que o texto dialoga com outros, por meio de referências, alusões ou citações, e mais ampla será sua compreensão.

     As referências são muitas vezes facilmente perceptíveis, identificadas pelo leitor. Por exemplo, no anúncio publicitário sobre meias "Os fins justificam as meias", o leitor percebe de imediato a recriação da máxima "Os fins justificam os meios". Há, por outro lado, referências, alusões muito sutis, compartilhadas ou identificadas apenas por alguns leitores, que têm um universo cultural, um conhecimento de mundo muito amplo. O texto a seguir ilustra o que foi dito.

 
Outras Vidas

Vanessa Mello

     Acredita-se que, para viver outras vidas, é necessário morrer primeiro e, depois de algum tempo, voltar. Eu já vivi muitas vidas, e nada disso foi preciso. Morei em outros países, em épocas diferentes e até em séculos passados. Tudo em uma única vida, a minha.
     Beber "Cherry Brand" nos bares de Paris era uma das coisas que eu adorava fazer, mas um dia, algo terrível aconteceu e acabou com minha alegria. Me transformei em barata. Todos se afastaram de mim, tinham medo e nojo. Até que conheci uma velha, acho que era vidente, que me falou sobre meu amor, tão perto de mim e eu o desconhecia. Foi na Ilha de Paquetá e eu realmente encontrei o amor. Estava naquele garoto que eu conhecia desde criança.
     Casei-me com um homem incorrigível, que amava e odiava ao mesmo tempo. Ele morreu, mas não me deixou e passei pela deliciosa experiência de ter dois maridos. Vivi uma paixão impossível e valsei sem melancolia, sem arrependimento.
     Presenciei a ditadura, no ano de 1968 e, apesar de algum tempo, parece que ainda não acabou. Construí o império dos Diários e Emissoras Associados e muito contribuí para a comunicação. Passava os dias na Praça da Alfândega, convivendo com os mais variados tipos, na época de seus Anos Dourados.
     Conheci muitos lugares. Viajei de barco durante cem dias e fiquei maravilhado com a natureza, com o litoral brasileira e até com a África que nunca chamou minha atenção. Ainda sinto o cheiro do mar. Outra viagem interessante que fiz me revelou fatos que não conhecia sobre o descobrimento do Brasil.
     Integrei o Clube do Picadinho, que diminuía a cada encontro. Sabíamos de quem era a vez, mas nunca desistimos. A emoção e o perigo faziam com que essas fossem as melhores refeições.
     Esses são apenas alguns relatos de minha vida. Poderia ficar por horas contando minhas aventuras, descrevendo todas as pessoas que conheci e relembrando os infinitos amores que tive. Talvez em outro encontro. Mas antes de me despedir, quero contar como foi o meu primeiro contato com esse mundo maravilhoso.
     Aconteceu quando eu ainda era criança e minha mãe me apresentou à Turma da Mônica e depois ao palhacinho Alegria. Eles se tornaram meus companheiros e, à medida que fui crescendo, ganhei novos amigos.
     Tenho um poder espantoso. Através dele, conheci novo sentimentos, senti o gosto de novas comidas e bebidas, sem nem mesmo ter experimentado, vesti-me como as "sinhazinhas" do século passado, senti fome como Fabiano. Essa capacidade mágica que tenho não é exclusividade minha, ela está adequada a minha personalidade, mas todos podem ter, é só querer.
     Além de adquir cultura e informação, desenvolvi minha criatividade, tive uma visão mais ampla de certos assuntos. Dou asa a minha imaginação, e permito-me conhecer novos costume, lugares, vidas, mundos, sentimentos.
 


     No segundo parágrafo, a autora faz referência a três livros: "Paris é uma festa" (E. Hemingway), "A moreninha" (J. M. de Macedo) e "Metamorfose" (F. Kafka). No terceiro, a "Dona Flor e seus dois maridos" (J. Amado) e "Valsa para Bruno Stein" (C. Kiefer). No quarto, a "Chateau, o rei do Brasil" (F. Moraes). No quinto, a um livro de Amir Link. Mais adiante, a Maurício Cardoso e finalmente, a "Vidas Secas" (G. Ramos). O texto se refere às experiências de leitura da autora.

     Os teóricos costumam identificar tipos de intertextualidade, entre os quais podemos destacar:
     A intertextualidade, como dissemos, também diz respeito à possibilidade de um texto ser criado a partir de outro(s) texto(s).

     Quem escreve não escreve no vazio, pois um texto não surge do nada. Nasce de/em outro(s) texto(s). Pode-se dizer que escrever é a habilidade de aproveitar criticamente, criativamente outros materiais interdiscursivos, outros textos. É por isso que quem lê (de forma inteligente, conforme expusemos no capítulo "Como desenvolver a competência textual") está em situaçõa privilegiada para escrever, uma vez que se apropria, mediante a leitura, de idéias e de recursos de expressão.

     Para ilustrar o fenômeno da intertextualidade bem como para pôr em destaque sua relevância no momento da produção textual, apresentamos a proposta de trabalho aplicada nas salas de aula da Famecos / PUCRS.

     Trata-se de produzir uma crônica a partir de uma notícia de jornal: uma mãe dá à luz um filho, às portas do hospital, e é socorrida por populares, que envolvem a criança na Bandeira do Brasil, pois participavam do desfile de 7 de Setembro.

     Para a realização do texto, apresenta-se a crônica de Fernando Sabino, em que o aluno observa, entre outros fatos, o estilo (frases curtas, nominais, repetições, etc.). Apresenta-se também pequeno trecho do poema "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto.

     A tarefa consiste em produzir a crônica apropriando-se do estilo de Fernando Sabino e inserindo adequadamente passagens do poema.


2. Textos

2.1 Textos dos quais os alunos devem se apropriar

 
Notícia de Jornal

Fernando Sabino

     Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante 72 horas, para finalmente morrer de fome.
     Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
     Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
     O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.
     Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa - não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
     Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da rádiopatrulha, por que haveria de ser daminha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
     E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
     E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, um homem morreu de fome.
 


 
Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto

De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já adivinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
Belo porque é uma porta
abrindo-se me muitas saídas.
Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
 


2.2 Textos de alunos

 
Pariu no Corredor do Hospital

Renata Appel

     Leio no jornal a notícia de uma mulher que pariu no corredor do Hospital Fêmina. Jovem, negra, pobre, pariu no corredor do hospital, com poucos socorros, em pleno banco estofado, em meio a enfermeiras, médicos e pacientes. Somente abriu as pernas e deu à luz.
     Pariu no corredor do hospital. Gritou por ajuda, clamou por assistência médica. No entanto, o tempo não pôde esperar e acabou parindo em pleno corredor.
     Gestante pariu no corredor de hospital. A enfermeira disse que havia falta de quartos. Fêmina apresentava super lotação de parturientes. E a pobre negra somente abriu as pernas e deu à luz.
     Eis que de seu ventre surge um menino magro. De muito peso não é, mas tem peso de homem, de obra de ventre de mulher. É uma criança pálida e franzina. Mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.
      Pariu no corredor do hospital. Entre diversas enfermeiras, médicos e pacientes. Mulher pobre. Sozinha. Miserável. Gestante. Jovem demais. Negra. Baixo nível. Ignorante. Um bicho, uma coisa - não foi tratada como digna parturiente. E pariu no corredor do hospital. E eis que de seu ventre salta uma criança pequena. É tão bela como um sim numa sala negativa.
     Não é responsabilidade dos profissionais, nem do hospital, nem das autoridades. O que têm a ver com o fato? Deixa a mulher parir em pleno corredor.
     E ela, o que faz? Jovem e destemida dá à luz sobre um banco estofado, sem recursos e com pouco auxílio. E eis que de seu ventre nasce o menino. Somente após o ocorrido, a jovem é amparada. Nos braços, o rebento abençoado infecciona a miséria com vida nova e sadia.
 


     Observe-se como a autora se apropria habilmente de recursos lingüísticos encontrados na crônica de Fernando Sabino:

 
Crônica de Fernando Sabino

A repetição "morreu de fome"
(18 ocorrências)

Frases nominais: "Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa - não é um um homem."
Texo de Renata Appel

A repetição "pariu no corredor do Hospital"
(7 ocorrências)

Frases nominais: "Mulher pobre. Sozinha. Miserável. Gestante. Jovem demais. Negra. Baixo nível. Ignorante. Um bicho, uma coisa - não foi tratada como digna parturiente."
 


     Observe-se igualmente como a autora insere passagens do poema de João Cabral de Melo Neto:

 

  • " Eis que de seu ventre surge um menino negro. De muito peso não é, mas tem peso de homem, e franzina. Mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.

  • É tão bela quanto um sim numa sala negativa

  • ... infecciona a miséria com vida nova e sadia.

  •  


         É evidente que a repetição de expressões, o uso adequado de frases curtas, nominais, fragmentadas e a referência aos versos do poema "Morte e vida severina" conferem à crônica traços de literariedade.