Deixem o hífen em paz


Ana Maria Wertheimer
Gilberto Scarton


1. INTRODUÇÃO

O hífen - dizem - é tracinho diabólico. O calcanhar de aquiles dos regimes e reformas ortográficas. Traço de (des)união. Hifenização – uma infernização. E – afirmam - continua, mesmo com o Acordo de 1990, agora em vigor: foi nosso arquiinimigo, e continua sendo nosso arqui-inimigo.

Pois este artigo pretende dar pequena contribuição para entender onde está o nó do tracinho. Quem sabe nos tornemos mais condescendentes com esse sinal diacrítico... Para tanto, distingue na questão dois aspectos: o emprego do hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos; e o emprego nas chamadas palavras compostas.


2. O EMPREGO DO HÍFEN

2.1 O emprego do hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos

A bem da verdade, diga-se que o Acordo de 1990 trouxe considerável simplificação quanto a esse aspecto. Para constatar a afirmação, basta cotejar o que é/era estabelecido pela norma ortográfica do Formulário Ortográfico de 1943 com as novas disposições de 1990.

2.1.1 As regras do Formulário Ortográfico de 1943

Com base no Formulário Ortográfico , gramáticos, autores de livros didáticos, professores sistematiza(va)m as regras do emprego do hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos em quatro grupos, que abaixo reproduzimos.

A. Prefixos e elementos prefixados sempre seguidos de hífen

Prefixos Exemplos
Além- além-túmulo; além-fronteiras; além-mundo
Aquém- aquém-fronteiras; aquém-mar
Bem- bem-aventurado; bem-querer;bem-apresentado
Co(m)- co-autor; co-educação; co-produção
Ex- ex-aluno; ex-prefeito; ex-diretor
Grã- grã-cruz; grã-fino; grã-ducado
Grão- grão-mestre; grão-duque; grão-rabino
Pós- pós-datar; pós-escrito; pós-guerra
Pré- pré-alfabetizado; pré-datado; pré-história
Pró- pró-reitor; pró-americano;pró-britânico
Recém- recém-chegado; recém-nascido; recém-fabricado
Sem- sem-vergonha; sem-fim; sem-amor
Vice- vice-diretor; vice-reitor; vice-prefeito


B. Prefixos e elementos prefixados seguidos de hífen antes de...

Prefixos Antes de Exemplos com hífen Exemplos sem hífen
  Vogal H R S B    
AB-     X     ab-rogar Abjurar
AD-     X     ad-renal advérbio; adjunto
ANTE-   X X X   ante-histórico; ante-solar antecâmera; antediluviano
ANTI-   X X X   anti-herói; anti-social antiaéreo; anticristo
ARQUI-   X X X   arqui-rival arquiinimigo
AUTO- X X X X   auto-estima; auto-retrato autobiografia; autocontrole
CIRCUM- X X       circum-adjacente circunscrever
CONTRA- X X X X   contra-ataque; contra-senso contracheque
ENTRE-   X       entre-hostil entrelinhas
EXTRA- X X X X   extra-oficial; extra-regimental extraconjugal
HIPER-   X X     hiper-humano; hiper-raivoso hipermercado
INFRA- X X X X   infra-estrutura infracitado
INTER-   X X     inter-humano; inter-regional intercolegial
INTRA- X X X X   intra-ocular; intra-regional intramuscular
MAL- X X       mal-educado; mal-humorado malcheiroso
NEO- X X X X   neo-humanista; neo-republicano neoclássico
OB-     X     ob-rogar obdentado
PAN- X X       pan-americano pandemônio
PROTO- X X X X   proto-história protoplasma
PSEUDO- X X X X   pseudo-herói; pseudo-sábio pseudopoeta
SEMI- X X X X   semi-selvagem semifinal
SOB-     X     sob-roda sobpor
SOBRE-   X X X   sobre-humano; sobre-saia sobrecapa
SUB-     X   X sub-ramo; sub-bibliotecário subchefe
SUPER-   X X     super-requintado supermercado
SUPRA X X X X supra-esofágico; supra-hepático supracitado


C. Prefixos e elementos prefixados nunca seguidos de hífen

Prefixos Exemplos Prefixos Exemplos
Aero- Aerotransporte Mega- Megassismo
Agro- Agroindústria Micro- Microcomputador
Ambi- Ambidestro Mono- Monocultura
Anfi- Anfiteatro Morfo- Morfossintático
Arterio- Arterioesclerose Moto- Motocasa
Astro- Astrofísica Multi- Multiangular
Audio- Audiovisual Neuro- Neurocirurgião
Auri- Auricular Octo- Octocampeão
Bi(s)- Bicentenário Oni- Onipresente
Bio- Biossocial Orto- Ortocentro
Bronco- Broncodilatador Para- Parapsicologia
Cardio- Cardiovascular Penta- Pentacampeão
Cata- Catabiótico Per- Perpassar
Centro- Centroavante Peri- Pericentral
Cis- Cisandino Pluri- Plurianual
De(s)- Desfazer Pneu- Pneumococo
Di(s)- Distrofia Poli- Poliácido
Ego- Egolatria Pos- (átono) Posfácio
Eletro- Eletrocardiograma Pre- (átono) Predeterminar
Endo- Endovenoso Pro- (átono) Proclítico
Estereo- Estereótipo Psico- Psicomotor
Filo- Filogenético Quadri- Quadrigêmeos
Fisio- Fisioterapia Quilo- Quilograma
Foto- Fotogravura Rádio- Radioterapia
Gastro- Gastropulmonar Re- Refazer
Geo- Geopolítico Retro- Retrovisor
Hemi- Hemiciclo Rino- Rinoceronte
Hepta- Heptacampeão Sacro- Sacrossanto
Hetero- Heterossexual Sesqui- Sesquicentenário
Hexa- Hexacampeão Socio- Sociolingüístico
Hidro- Hidroginástica Tele- Telecomando
Hipo- Hipoderme Termo- Termodinâmico
Homo- Homossexual Tetra- Tetracampeão
Idio- Idioadaptação Trans- Transcontinental
Ido- Idolatria Traqueo- Traqueotomia
In- Infeliz Trans- Transamazônico
Intro- Introjeção Tres- Tresavô
Iso- Isométrico Tri- Tridimensional
Justa- Justapor Turbo- Turbomotor
Iso- Isométrico Uni- Unicelular
Justa- Justapor Vaso- Vasodilatador
Labio- Labiodental Xanto- Xantocéfalo
Linguo- Linguodental Xilo- Xilogravura
Macro- Macroeconomia Zoo- Zootecnia


D. Sufixos sempre antecedidos de hífen

Quanto a sufixos, o Formulário Ortográfico de 1943 prescrevia o uso do hífen antes dos sufixos tupi-guaranis –açu (capim-açu) , -guaçu (araçá-guaçu) e –mirin (araçá-mirin); e do sufixo –mor (altar-mor)1.

É evidente que uma pessoa normal ou tinha enormes dificuldades de memorizar tal quantidade de elementos e as respectivas regras para seu emprego, ou simplesmente recusava-se a fazê-lo.

2.1.2 As regras do Acordo de 1990, que passaram a valer a partir de 2009

O Acordo de 1990 veio, como se disse, simplificar a questão. Com base no que prescreve sobre o assunto, é possível estabelecer DUAS regras básicas acerca do emprego do hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos:

REGRA 1 - CASOS QUE SEMPRE EXIGEM HÍFEN

a) As formações com os seguintes prefixos, elementos prefixados e sufixos:
além-, aquém-, bem-, recém-, sem-, grã-, grão-, ex-, vice-, sota-, soto-, vizo-2 , pré-(tônico), pós-(tônico), pró-(tônico), -açu, -guaçu, -mirim.
Exemplos: além-fronteiras, aquém-mar, bem-dizer, recém-nascido, sem-cerimônia, Grã-Bretanha, Grão-Pará, ex-diretor, vice-presidente, sota-mestre, soto-capitães, vizo-rei, pré-datado, pró-africano, pós-graduação, andá-açu, amoré-guaçu, Ceará-Mirim.

b) As formações com prefixos e elementos prefixados, quando o segundo elemento inicia com h (exceto com des- e in-, pois nessas formações o segundo elemento perde o h inicial como em desumano, desumidificar, inábil, inumano).
Exemplos: ante-herói, auto-hemoterapia, micro-história, semi-hospitalar.

REGRA 2: CASOS QUE EXIGEM HÍFEN SOMENTE EM CERTOS CONTEXTOS

a) Nas formações em que o prefixo ou elemento prefixado termina na mesma letra com que se inicia o segundo elemento.
Exemplos: anti-ibérico, contra-almirante, semi-interno, micro-onda, anti-inflamatório, hiper-requintado, inter-racial, super-revista.

b) Nas formações com circum- e pan-, quando o segundo elemento começa por vogal, m, n, b ou p, além de h.
Exemplos: pan-africano, pan-mágico, pan-negritude, pan-brasileiro, pan-psiquismo, circum-navegação, circum-hospitalar.

c) Nas formações de substantivos e adjetivos com mal, quando combinado com elementos iniciados por vogal ou h.
Exemplos: mal-afamado, mal-entendido, mal-estar, mal-humorado, mal-informado.

d) Nas formações com ab-, ob-, sob-, sub-, quando combinados com elementos iniciados por b, h ou r: ab-rogar, ob-rogar, sob-roda, sub-raça.

e) Nas formações com ad-, quando combinado com elementos iniciados por d, h ou r: ad-digital, ad-rogar.

A par da explicitação das regras acima apresentadas, ressaltam-se dois pontos:

(1) nunca se emprega o hífen antes dos prefixos e elementos prefixados não, quase, co-, re-, pre-(átono), pro-(átono), pos-(átono).
Exemplos: não fumante, não cumprimento, quase nada, copiloto, coadjunto, recomeço, reerguer, preliminar, prolongar, pospor.

(2) nos casos em que não está previsto o uso do hífen, dobra-se a letra r ou s do segundo elemento: antessala, antissemita, contrarregra, microssistema, minissaia.

As novas regras do emprego do hífen assim podem ser resenhadas: permanece inalterado o que fora estabelecido em 1943 em relação a prefixos sempre seguidos de hífen (cf. letra A, em 2.1.1), bem como em relação a certos sufixos (cf. letra D, em 2.1.1); e juntam-se numa mesma regra os prefixos e elementos prefixados que não admitiam hífen ou admitiam em certos contextos. É claro que tal configuração pode ser memorizada, com uma dose de boa vontade...

2.2 O emprego do hífen em palavras compostas

É aqui que reside o problema. O nó do tracinho. O busílis.

Veja-se, em primeiro lugar, o que preceituam as duas normas, a de 1943 e a de 1990.

2.2.1 O Formulário Ortográfico de 1943 e o Acordo de 1990: convergências

O Formulário Ortográfico de 1943 reza:

HÍFEN

45 Só se ligam por hífen os elementos das palavras compostas em que se mantém a noção da composição, isto é, os elementos das palavras compostas que mantêm a sua independência fonética, conservando cada um a sua própria acentuação, porém formando o conjunto perfeita unidade de sentido.
46 Dentro desse princípio, deve-se empregar o hífen nos seguintes casos:
1º -Nas palavras compostas em que os elementos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, mas o conjunto constitui uma unidade semântica: água-marinha, arco-íris, galinha-d'água, couve-flor, guarda-pó, pé-de-meia (mealheiro; pecúlio), pára-choque, porta-chapéus,etc. Observação 1ª - Incluem-se nesta norma os compostos em que figuram elementos foneticamente reduzidos: bel-prazer, ês-sueste, mal-pecado, su-sueste, etc.


Por seu turno, a Base XV – Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares – do Acordo de 1990, estabelece:

1º) Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arce-bispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, cifro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.
Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.

Do cotejo dos dois preceitos, conclui-se que há uma diferença significativa: o Acordo de 1990 introduziu a seguinte cláusula: que não contêm formas de ligação. No mais se equivalem.

Dito isso, cumpre afirmar que esse princípio norteador do emprego do hífen é extremamente complexo e exige, por isso, que se proceda passo a passo, detalhando os diversos requisitos, o que se fará adiante.

2.2.2 Requisitos para o emprego do hífen em palavras compostas

São vários, portanto, os requisitos a serem levados em conta para utilização do hífen, observando-se, agora, tão somente o que dispõe o Acordo de 1990:

a) Palavras compostas...
b) ...por justaposição...
c) ...que não contêm formas de ligação...
d) ...e cujos elementos de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal...
e) ...constituem uma unidade sintagmática e semântica...
f) ... e mantêm acento próprio...
g) ...podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido.

Por partes.

a) Palavras compostas

Uma palavra composta é uma única unidade lexical, com entrada própria no dicionário (verbete), cujos elementos constitutivos ( dois, três e até mais ) designam, mediante a composição , um referente ( ser, fenômeno, etc.).

Um dos motivos principais pelo qual se formam novas palavras (compostas) é a necessidade de nomeação de seres, fenômenos, invenções: secretária-eletrônica, bolsa-família, vale-transporte, licença-paternidade, etc.

Os constituintes de uma palavra composta perdem muitas vezes seu sentido original, em benefício da significação nova – uma significação metafórica, figurada. Exemplos:

Uma coisa é Outra coisa bem diferente é
mesa redonda mesa-redonda
cachorro quente cachorro-quente
dedo duro dedo-duro
onça pintada onça-pintada
boina verde boina-verde


Em exemplos dessa natureza, o sentido é coeso, não analisável na base de seus componentes: uma mesa-redonda, não é, na verdade, uma mesa redonda, circular, mas é determinada forma de debater, expor um assunto; um cachorro-quente não é um cachorro escaldado, mas um tipo de alimento. E assim sucessivamente. Pode-se dizer, em consequência, que, nesses casos, não há maiores dificuldades quanto ao emprego do sinal.

Deve-se mencionar finalmente que, dada a evolução da língua, algumas palavras compostas perderam, em certa medida, a noção de composição, e passaram a ser escritas aglutinadamente: mandachuva, vaivém, passatempo, reviravolta, madrepérola, rodapé, sobremesa, sobremaneira, bancarrota, cantochão, claraboia, girassol.

b) Composição por justaposição

As palavras compostas são formadas por dois processos: justaposição e aglutinação. No processo de justaposição, as palavras (os radicais) se dispõem lado a lado conservando sua integridade gráfica, fonológica: beija-flor, guarda-chuva, cachorro-quente, etc.; já na aglutinação, como o próprio nome diz, os constituintes, ao se unirem, perdem fonemas (letras), sílabas: aguardente ( água+ardente ), viandante ( via+andante), etc.

c) Palavras compostas por justaposição sem elemento de ligação.

É elevado o número de palavras compostas que apresentam elemento de ligação: pé de moleque; olho de sogra, ele é um maria vai com as outras, pau para toda obra, chove e não molha, pôr de sol, mula sem cabeça, calcanhar de aquiles; comum de dois, general de divisão, etc.

Mandava o Formulário Ortográfico de 1943 grafar com hífen tais palavras. O Acordo de 1990 aboliu essa exigência, vindo a simplificar consideravelmente o emprego do traço de união nesse caso. Acabaram-se, por exemplo, divergências como as que existiam antes do Acordo:

fim-de-semana (Portugal) fim de semana (Brasil)
caminho-de-ferro (Portugal) estrada de ferro (Brasil)
fogos-de-artifício (Portugal) fogos de artifício (Brasil)
dona-de-casa (Aurélio) dona de casa (Houaiss)
café-da-manhã (Houaiss) café da manhã (registro mais comum)


Acabaram-se também as dúvidas, as hesitações, as perplexidades quanto a esse particular, suscitadas pelo Formulário: carro de combate (tanque) e carro de boi grafavam-se com e sem hífen, respectivamente.

É de se registrar, todavia, nesta questão, que o hífen permanece nos compostos que designam espécies botânicas, zoológicas e áreas afins, estejam ou não seus constituintes ligados por preposição ou outro elemento: andorinha-do-mar, bem-me-quer, fava-de-santo-inácio, lesma-do-mar, feijão-cabeludo-da-índia, feijão-de-olho-preto, feijão-rei-dos-come-se-tudo, etc. Permanece igualmente, como exceção, nas palavras água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa e em compostos entre cujos elementos há o emprego do apóstrofo, como em mãe-d’água.

d) Compostos de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal

Essa passagem da regra do emprego do tracinho diz respeito às diferentes formações de palavras compostas, assim sistematizadas:

1. Substantivo + substantivo: decreto-lei, cirurgião-dentista, etc.

Nesse caso, é importante sublinhar que muitas vezes o segundo elemento limita a significação do primeiro, expressando idéia de semelhança, finalidade, forma, espécie, função, conforme os seguintes exemplos: auxílio–doença, licença–maternidade, vale-refeição, vale–transporte, navio-escola, cidade-satélite, etc.

Vale ressaltar também que não se deve confundir com expressões em que um dos elementos é adjetivo (ou um substantivo em função de adjetivo), que mantêm seu sentido literal, como é o caso de diretor comercial, professor adjunto, professor horista, professor orientador, secretário nacional, secretário executivo, etc.

2. Substantivo + adjetivo: guarda-noturno, etc.

Em relação a esse tipo de formação não se pode esquecer compostos que indicam função, divisão ou cargo, em que o segundo elemento é o adjetivo geral: cônsul-geral, procuradoria-geral, secretário-geral, etc. e que não se deve confundir com outros casos do tipo assembleia geral, reunião geral, ensaio geral, etc.

3. Adjetivo + substantivo: alto-relevo, etc.

4. Forma verbal + substantivo: guarda-roupa, porta-estandarte, etc.

5. Adjetivo + adjetivo: amarelo-ouro, azul-celeste, greco-latino, etc.

6. Numeral + substantivo: quando indicam função, posto, cargo: primeiro-ministro, primeiro-tenente, etc.

7. Advérbio + adjetivo: meio-morto, etc.

e) Unidade sintagmática e semântica

O hífen sinaliza a aderência semântica, isto é, que a palavra é composta, formada, como já se mencionou, por dois ou mais constituintes que se juntam para estruturarem uma ÚNICA UNIDADE LEXICAL (com entrada no dicionário), passando a denotar, mediante essa associação, um único referente. Os compostos formam, pois, um bloco único.

No entanto, ao lado das palavras compostas existem também as locuções, que são agrupamentos, sequências de duas ou mais palavras que igualmente funcionam em blocos, sem constituírem uma única unidade lexical e semântica. Na escrita, o hífen, em princípio, distingue essas duas realidades linguísticas.

Observe o exemplo hipotético do título de um livro O Dedo Duro. Não existisse o hífen para diferenciar sequências, o título seria ambíguo: tratar-se-ia de um dedo que está duro ou de um delator? O emprego ou não do hífen desambiguaria o enunciado: com hífen indicaria o delator, uma palavra composta; sem, que o dedo estaria duro, uma locução.

Acontece, no entanto, que a distinção entre palavra composta e locução é extremamente complexa muitas vezes, principalmente quando se trata de sequências substantivo+de+substantivo (fim de semana, dona de casa, etc.) e, no caso presente, de substantivo+adjetivo, uma vez que seus limites são tênues.

Não é sem razão, pois, que a linguística moderna (e mais ainda a gramática tradicional) deixem a desejar quanto a um esclarecimento definitivo ou satisfatório acerca do assunto. Não é sem razão que lexicógrafos, professores, estudiosos divirjam, portanto, quanto ao emprego ou não do sinal diacrítico em muitos casos. De se mencionar ainda a contradição: certas palavras compostas sem e locuções com hífen.
Levem-se em conta os exemplos para melhor ilustrar a questão:

(1) amor livre
     amor materno


(2) ventre inchado
     ventre livre


(3) guerra atômica
     guerra fria


(4) conta-corrente
     conta bancária


Trata-se de duas sequências formadas por substantivo+adjetivo. Em termos estruturais seriam idênticas? São palavras compostas? Locuções? Uma é palavra composta e a outra é uma locução? Alguma delas formaria uma unidade sintagmática e semântica? Hífen onde?

O que está em jogo aqui, insista-se, é a distinção entre palavra composta (que possui unidade semântica e, portanto, seus elementos perdem mais ou menos o sentido individual em proveito de uma sentido global, grupal, muitas vezes figurado); e locução (que não forma um todo com perfeita unidade semântica, pois seus elementos associados preservam seu sentido individual). E, como já referido, o principio geral do emprego do hífen é marcar com o sinal diacrítico só as palavras compostas, não as locuções (embora, deixe-se bem claro, isso nem sempre aconteça na prática).

A dificuldade se torna ainda maior por parte do falante que, por sua intuição linguística, não percebe essa diferença nas sequências a seguir, citadas como exemplo:

carro-pipa x carro fúnebre
carro-forte x carro esporte
diretor-geral x diretor comercial
carta-bomba x carta circular
cirurgião-dentista x professor doutor


É neste particular, portanto, que reside hoje em dia a maior dificuldade no que diz respeito ao emprego do hífen.

A tentativa de acordo ortográfico levada a cabo em 1986, para fugir a essa dificuldade, estabeleceu que (a) as palavras compostas com flexão no primeiro elemento ou ligadas por preposição ou artigo escrever-se-iam sem aglutinação e sem hífen (amor perfeito, guarda noturno, couve flor, médico cirurgião); b) os compostos formados por elementos sem flexão interna escrever-se-iam aglutinadamente (portoalegrense, sulafricano, afrolusobrasileiro).

Esse acordo, no entanto, por ter sido considerado radical nos dois lados do Atlântico (haja vista também que eliminava os acentos nas proparoxítonas e paroxítonas ), morreu na origem.

f) Manutenção do acento próprio

A manutenção do acento nos constituintes é característica das palavras compostas. Por exemplo, em couves-flores, os dois constituintes mantêm a acentuação (tônica); em médico-cirúrgico também e, nesse caso, recebem acento gráfico; já em mandachuva, em que se perdeu a noção de composição, ocorre apenas um acento.

g) Redução do primeiro elemento.

A redução do primeiro elemento ocorre em pouquíssimas palavras compostas, a exemplo de bel-prazer, és-sueste, su-sueste.



1 Os sufixos -açu e -guaçu significam grande, e -mirim significa pequeno.

2 Soto- (sota-) prefixo que significa posição inferior, subordinação: sota-vento, soto-pôr, soto-posto.
Vizo- prefixo que significa vice- usado no português antigo.



3. CONCLUSÃO

Este artigo é uma primeira tentativa de desatar o nó do hífen ao procurar trazer alguns elementos para explicar a má fama desse tracinho e de nossos “legisladores“, que dele se ocupam no labirinto oficial das normas e dos acordos ortográficos. Não é para menos: é questão complicada essa do hífen, o vilão das reformas, da normatização ortográfica. Mas explicável: Como distinguir locução de composição? Que é unidade semântica? Que é todo semântico? Etecétera. E tem mais: se simplifica muito (como no Acordo de 1986) é porque simplifica muito, tacham o acordo de radical, que vai contra a tradição, que as novas formas gráficas - couvesflores, sulafricano, etc. - ferem a vista... Se simplifica pouco é porque simplifica pouco, é um acordinho, acordo pífio. Em suma...

Quanto ao emprego do hífen, há que se distinguir as seguintes situações: - o emprego com prefixos, elementos prefixados e sufixos: a) há um pequeno número de prefixos e sufixos com os quais sempre se emprega o sinal; b) há um pequeno conjunto de regras que mandam empregá-lo em determinados contextos. Nesses dois casos, o Acordo 1990 trouxe simplificação.

- o emprego do hífen em palavras compostas: a) há casos que não oferecem dificuldade, pois os elementos da palavra composta hifenizada têm o sentido alterado, não analisável na base de seus componentes individualizados (mesa-redonda, cachorro-quente, etc.); b) há outros, porém, em que a distinção entre palavra composta e locução (com hífen/sem hífen) se torna difícil, pois nem mesmo os dicionaristas se entendem. Nesse caso, é melhor sempre consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras...

Fugia da competência dos autores e do propósito do artigo entrar na discussão do que é uma palavra, um composto, uma locução. Nossas gramáticas não esclarecem satisfatoriamente os limites entre os dois processos, nem mesmo as abordagens feitas no âmbito da linguística moderna. Fica, no entanto, como sugestão de pesquisa preliminar na área as referências feitas na bibliografia.

Para finalizar, consideramos oportuno apresentar um quadro resumo acerca do emprego do hífen com (1) prefixos, elementos prefixados e sufixos e com (2) palavras compostas.

 
I. Hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos

Regra 1- Casos que sempre exigem hífen

a) além-, aquém-, bem-, recém-, sem-, grã-, grão-, ex-, vice-, sota-, soto-, vizo-, pré-(tônico), pós-(tônico), pró-(tônico), -açu, -guaçu, -mirim.
b) As formações com prefixos e elementos prefixados, quando o segundo elemento inicia com h (exceto com des- e in-, pois nessas formações o segundo elemento perde o h inicial como em desumano e inábil).

Regra 2 Casos que exigem hífen somente em certos contextos

a) Nas formações em que o prefixo ou elemento prefixado termina na mesma letra com que se inicia o segundo elemento.

b) Nas formações com circum- e pan-, quando o segundo elemento começa por vogal, m, n, b ou p, além de h.

c) Nas formações de substantivos e adjetivos com mal, quando combinado com elementos iniciados por vogal ou h.

d) Nas formações com ab-, ob-, sob-, sub-, quando combinados com elementos iniciados por b, h ou r.

e) Nas formações com ad-, quando combinado com elementos iniciados por d, h ou r.

II. Hífen com palavras compostas

Emprega-se o hífen nas palavras compostas (ou seja, nas palavras que exprimem um conceito novo, independente do sentido individual de seus componentes), quando elas não contêm elemento de ligação.


 


BIBLIOGRAFIA

CÂMARA JR. J.M. Dicionário de lingüística e gramática. 21 ed. Petrópolis: Vozes,1972

BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001

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LUFT, Celso Pedro. Novo guia ortográfico. Porto Alegre: Globo, 1973

------, Moderna gramática brasileira. 3 ed. Porto Alegre: Globo, 1979

MONTEIRO, L. Morfologia portuguesa. 4 ed. Campinas: Pontes, 2002

SANDDMANN,A.j. O que é um composto. In : D.E.L.T,A .São Paulo: EDUC, 1990,n 1 v 6. p.01-18

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