Como Escrever um Fluxo de Consciência


1. Introdução

     Escrever em / um fluxo de consciência é como instalar uma câmera na cabeça da personagem, retratando fielmente sua imaginação, seus pensamentos. Como o pensamento, a consciência não é ordenada, o texto-fluxo-de-consciência também não o é. Presente e passado, realidade e desejos, anseios e reminiscências, falas e ações se misturam na narrativa num jorro desarticulado, descontínuo, numa sintaxe caótica, apresentando as reações íntimas da personagem fluindo diretamente da consciência, livres e espontâneas.

     É como se o autor "largasse" a personagem, deixando-a entregue a si mesma, às suas divagações, resultando um texto que lembra a associação livre de idéias, de feitio incoerente, desconexo, sem os nexos ou enlaces sintáticos de um texto "bem comportado".

     É como se fosse um depoimento, a expressão livre, desenfreada, desinibida, ininterrupta, difusa, alógica de pensamentos e emoções, muitas vezes de uma mente conturbada e atônita.

     No fluxo de consciência o pensamento simplesmente flui, pois a personagem não pensa de maneira ordenada, coerente, razão por que o texto se apresenta sem parágrafos, sem pontos, ininterrupto; numa palavra, caótica.

     Na literatura universal, os grandes mestres desta técnica são James Joyce ("Ulysses"), Virgínia Woolf ("Mrs. Dalloway" (filme: As Horas)) e William Faulkner ("O Som e a Fúria"; "As Lay Dying").

     Em nosso meio, entre tantos escritores, poderiam ser citados Antônio Callado ("Assunção de Salviano'), Autran Dourado ("A Barca dos Homens") e Clarice Lispector ("Perto do Coração Selvagem"; "A Hora da Estrela").



2. Textos

2.1 Textos-modelos

 
Tléquete/Tlíquete

Gilberto Scarton

     O Zaffari da Ipiranga não deixa de ser um ponto de encontro, talvez meu novo ponto de referência, te vi lá, ontem, teu carrinho (tinha uma roda defeituosa?) fazia tléquete-tléquete, e te segui, sabes, eu queria saber de ti, afinal lá se vão alguns anos desde que... deixa pra lá... paraste na seção de artigos para aniversário, balões, copos de plástico, canudinhos, alguém de aniversário? a Júlia? dez anos! tléquete-tléquete na imensidão da loja, e se eu desse a volta e, em vez de te seguir, fosse a teu encontro, fosse de encontro ao teu carrinho e batesse "oh! desculpa!" tua olharias o infrator e... deixa pra lá... minha timidez, bem sabes, me impediria a tanto, de modo que fui te seguindo, tu compravas guardanapos e eu remexia nas prateleiras um pouco bastante atrás, um pouco atrás que eu quisera quase nada, anseio do meu coração para chegar a ti, bastante atrás que é a distância do meu medo, numa ponta pude avistar que compravas refrigerantes, e na outra disfarçavas examinando uma nova marca de cerveja, depois, erguendo a cabeça sobre compradores e produtos pude ver que desaparecias, caminhei então mais rápido e ouvi o tléquete-tléquete logo mais adiante, eu-na-paixaria, tu-na-fila-do-cafezinho, quem sabe aí pelo menos um "oi!" que eu pudesse te dar, a que tu responderias, talvez com um ar de surpresa, quem sabe de espanto, ou de indiferença, que repercutiria no meu coração como um tlíquete, um tlíquete de coisa partida, quase silenciosamente partida, doidamente partida, irrecuperavelmente partida, mas quem sabe, houvesse dois "oh!", vindos lá do fundo de nossas almas e "estava mesmo com vontade de te ver", "eu também", "saber como tu vais", "eu também", e te tendo assim tão perto comparar teu rosto com teu rosto de antigamente, a cor dos alhos, a mesma, o cabelo mais curto, o mesmo talhe esguio do teu corpo, óleo Violeta X azeite Beira Alta, Isabela X Coroa, tléquete-tlíquete, pepino/palmito, cebola/tomate, eu-fazendo-de-conta-de-escolher-batata/tu-alface, teu carrinho/meu coração, "vê como subiu o preço de ervilha?", "que bom te ver", "como o palmito está caro!", mas nada disso, nem isso, nem uma palavra, nem um cruzamento de olhares, nem um esbarrão casual, nem uma ultrapassagem rápida (e perigosa!), nada, discos/bebidas, Al de lá/conhaque macieira, chocolate/balas, livros/revistas, aqui/aí, des/encontros, um tléquete na loja, um tlíquete no coração.

 


2.2 Textos de Alunos

 
puts!

Gabriel da Costa Schmidt

     Tô de aniversário, me disseram que estou fazendo três anos, como? se eu nem sei o que são anos, só sei que estou fazendo três e que hoje sou importante, mas por outro lado vou ter que agüentar um monte de velhos me bajulando, apertando minhas bochechas e dizendo: como tá grandinho! se aquela gorda bigoduda, da creche, vier pra cima de mim vou cuspir, cuspir no meio da cara dela, e vai ser daqueles bem verdes, ainda mais que tô encatarrado, depois dou uma choradinha e pronto, todos vão me perdoar... cadê a mãe, hein?! será que ela não notou que eu tô todo cagado, já tá até ardendo... aí vem ela, puts, banho! a mãe tá achando que eu vou usar este uniformizinho babaca, não mesmo, ainda mais que tem um patinho amarelo desenhado, acho que ela não se deu conta que eu estou ficando velho, puts, acho que ela não está muito preocupada com a minha simplória opinião, não, nããããããããoooooooo, estou parecendo um daqueles babaquinhas dos comerciais da Parmalat, mas não vai durar muito tempo, puts, quanta gente! cadê os presentes? sem beijos, sem beijos, eu disse presen... ugh! argh! irc! ecs! outs, me pegaram... tu não, sai fora, eu tô avisando hein, não te aproxima, sai, saaaaaaai hec cusp, toma, bem no narigão, hahahá, acho que a tia vai ter que assoar o nariz, tô precisando de uma gelatina, só uma gelatina, ali, me dá, plec! acho que a mãe vai ter trocar a minha roupinha, sem gritos, sem gritos... tô de aniversário, que saco: só ganho roupa, deve ter roupa pro resto da minha vida em cima do meu berço, vai me dar um trabalhão para destruí-las, mas vai ser legal, onde estão os brinquedos, estou falando de brinquedos, não destas coisinhas para babaquinhas que estão infestando o meu quarto, acho que se juntar todos os chocalhos e as roupinhas que eu tenho daria para montar uma escola de samba, pelo menos a bateria e as fantasias estariam garantidas, o tema seria: "dura vida de bebê", por que aquele gurizinho tá olhando para a minha moto? nem pense nisto, olha que eu tô com a minha espada justiceira, acho bom você desistir, ah é, é? então toma, POFT... papai? foi ele que começou, buaaaaá... tudo bem, pai, nós vamos ser amigos, né panacão? hahahá, não acredito, logo no MEU aniversário, mas isto não fica assim, ah não fica, ainda mais agora que estou com a minha espada justiceira, vou pegá-lo, juro que vou pegar esta toupeira que colocou o CD do Tiririca, esta música está destruindo os meus ouvidos, pior que isto, se é que existe algo pior, só mesmo o CD dos Mamonas, bom... estes já foram, como diz o ditado: "Deus tarda mas não falha" hahahá, ô DJ, coloca uma lenta aí que eu vou chegar naquela ali ó, de vermelho, que gracinha né, agora que eu já tô com a minha camisa do Inter, hahahá, ela não vai resistir, vem cá, querida, sei que por trás desta fralda está escondida a bundinha mais linda e fofinha da festa. Agora o Dj mandou bem, a Xuxa é mesmo demais! o nome desta música é: Meu cãozinho Xuxo e ela fez pro seu cachorrinho que morreu, vou chegar por trás e mandar a minha melhor cantada: "ficar pertinho de você é melhor do que tirar aquele tatuzão do nariz, aquele que ao invés de minhoca parece mais um mussum", não disse, essa não falha, ela já se derreteu todinha, agora é só uma questão de tempo, puts, foto não, foto não, logo agora que eu estava com a mina, pô tia, cadê a espada justiceira, quando eu falo não, é não e pronto, buáááááá... deixa eu brincar com esta máquina... crash, puts, caiu, tira o raio destas fotos agora, hahahá, até que eu me divirto nestes aniversários, hahahá...
 


 
Olhos verdes no retrovisor

Stefani Leiria Ligocki

     Dou a segunda volta na fechadura de casa no momento em que olho para o relógio, são oito horas, horário em que deveria estar no escritório, naquela reunião com meu chefe e assessores, mas estou aqui, ainda virando a chave do meu carro que não quer pegar, não deveria ter comprado carro a álcool, enfim o carro pega, saio da garagem do prédio, piso fundo no acelerador rumo ao primeiro engarrafamento do dia, já tem uma Brasília caindo aos pedaços na minha frente, não anda, se arrasta, buzino, outro carro buzina, todos buzinam, o sinal abre, os carros se movem um pouco, já estamos parados outra vez, abre uma brecha no trânsito, faço sinal para mudar de faixa, um Vectra se adianta e toma o meu lugar, entro logo atrás dele, quero saber quem cortou a minha frente, encosto meu Opala bem perto da traseira do Vectra, vejo os cabelos loiros colados ao banco do motorista, me parece uma mulher, quero ver seu rosto, apressadinha, anda me mostra, vira pra cá, no vidro traseiro do carro tem um adesivo com dizeres irônicos: "se você consegue ler isto é porque está muito perto", sim, estou perto do teu paralama, longe do trabalho e do provável esporro do chefe, mas faço questão de ver quem é a barbeira da frente, desvio o olhar para o seu retrovisor interno e............... estou hipnotizado, são os olhos mais lindos que já vi, verdes, luminosos, radiantes a me olhar ironicamente, me desafiando, sim, aquela mulher tem olhos extraordinários, meus olhos estão fixos naqueles olhos que se mexem na direção do semáforo que está verde, ela arranca, vou atrás, quero ver o rosto da dona daqueles olhos estupendos, se os seus olhos são lindos desse jeito como será o resto? como serão os traços do rosto que contém esses olhos, será que são tão hipnotizantes e resplandescentes como aquele olhar? O sinal fecha de novo, os carros vão se posicionando, consigo ficar ao lado do Vectra, e agora vou virar a cabeça para a esquerda e aqueles olhos que só vi pelo retrovisor vão estar esperando a minha correspondência, viro a cabeça como num movimento cinematográfico, em câmera lenta, neste momento vejo o rosto que não frustra as minhas expectativas, é um rosto tão lindo quanto aqueles olhos verdes, sorrio para a moça como que perguntando "Por que você fez aquilo?", ela me responde com outro sorriso que escancara toda a sua beleza, leio seus lábios vermelhos que dizem "desculpe, estou com pressa", faço menção de perguntar se nome, telefone, sei lá, entretanto o semáforo é implacável, se torna verde, o Vectra sai cantando os pneus e entra rapidamente à esquerda, sem ao menos me dar tempo de mirar mais uma vez aqueles olhos verdes, o motorista de trás já ofende minha mãe pela demora que levo para arrancar em direção ao trabalho, onde meu chefe já deve estar verde de raiva.
 


 
Meu mundinho

Scheila Feijó Fantinel

     Ai, como é bom aqui dentro: quentinho, escuro, só quero dormir, às vezes dou uns chutes e soquinhos, é a forma que tenho de chamar a atenção, ouvi mamãe dizer que devo chegar no próximo mês, mas chegar aonde? Será que vou ter que deixar essa vidinha maravilhosa? Sei lá, o papai e a mamãe falam coisas que eu não entendo, me chamam de Carolzinha e enfeitam meu quarto de rosa pink, que coisa mais feia! Eu gosto é de cor-de-laranja e o meu nome é José, JO-SÉ, e não zezinho... outro dia me senti mal, estava muito apertado, eu crescendo e o espaço diminuindo, daí pensei em sair daqui, mas bateu uma deprê ao me imaginar longe de todos, lutando pelo meu alimento, sofrendo agressões, sendo um ser humano comum, desisti! Vou ficar no meu canto, quietinho, recebendo carinho, alimento e esperando a minha hora... nas últimas semanas resolvi dar uma virada na minha vida: coloquei os pés para cima e a cabeça para baixo e entrei em uma fase zen, de muita meditação e descoberta interna... percebi que está tudo agitado lá fora, todos correndo de um lado para outro, apenas mamãe está calma, no entanto, comecei a sentir uma grande pressão e aí a correria foi total, no caminho de casa para sei lá aonde, percebi que chegou a hora... faz isso, faz aquilo, mexe aqui, aperta li, deita, senta, É AGORAAAAAAAAAA! Vi um clarão, ouvi gritos e fui expelido, que nojento! Me bateram e depois me embrulharam, me senti um nada, depois todos queriam me ver e alguns choravam na minha presença, acho que não me amam! Será que sou feio? Essa vida externa é bastante complicada...
 


 
Controle remoto

Fernanda Silva Dora

     Txxxxx... ó meu Deus não faça isso, não faça isso, nãããããããããããão! ...txxxxx... realmente, houve a intenção do jogador, e isso caracteriza o pênalti, está correto o árbitro ...txxxxx... quinta-feira, nove da noite, rock história e acústico Nirvana ...txxxxx... não Jack, largue esta arma, pense Jack, não vai valer a pena, pare Jack, pare ...txxxxx... sem querer interromper, já interrompendo, qual a sua aituação em relação à CPI dos Precatórios... bem, eu não tenho nada a ver com isto, quem está me envolvendo nisso está mentindo ...txxxxx... mama África, a minha mãe, é mãe solteira, e tem que fazer mamadeira todo o dia, além de trabalha como empacotadeira nas Casas Bahia ...txxxxx... Carly, please, open the door, c'mom, open the door, I love you, I love...txxxxx... daí o senhor Jesus me libertou daquela angústia …txxxxx… o Cineview chegou ao fim, mas não fique triste, semana que vem tem mais ...txxxxx... incêndio em prédio no centro de São Paulo assusta moradores... txxxxx... uhhh, aahhh, ligue, estou esperando você, 0900211076 ...txxxxx... and the Chigaco Bullls have the last shot...txxxxx... boa noite ...txxxxx... e, um beijo do gordo.