Depoimentos de escritores


     Que dizem os escritores sobre o percurso de construir-se, de tornar-se um escritor? Que dizem a respeito do desenvolvimento da competência textual? É uma simples questão de dom? Que papel atribuem à leitura? À imitação? Ao exercício constante? À persistência? Ao esforço (penoso) de redigir? À importância da inspiração e da "transpiração"?

     Levar o aluno a aprender a aprender como se desenvolve a competência textual é tarefa da escola, deve ser preocupação de um aluno-aprendiz de escritor, pois a ênfase da educação não deve recair sobre o que os professores devem fazer para ensinar bem, mas naquilo que os alunos devem fazer para aprender bem.

     Insistimos neste "Guia de Produção Textual" que o caminho para a construção da competência textual é a leitura inteligente, que leva à decodificação do texto em sua forma ... um processo com os outros - os escritores e seus textos.

     Consideramos, por isso, oportuno abrirmos espaço para depoimentos de escritores sobre o processo da produção textual na esperança de que suas experiências e vivências possam contribuir para a construção da competência textual dos aspirantes a escritor, ao trazer novas luzes acerca do ato de escrever.


 
Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Moacyr Scliar

APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.

APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, quando se começa a escrever, sempre se é autobiográfico, o que - de novo - não prejudica. Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.

APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito ( ... )

APRENDI que uma boa idéia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).

APRENDI que uma boa idéia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar. O grande teste para uma idéia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.

APRENDI que aeroportos e bares são grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias; o aeroporto, porque neles a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.

APRENDI que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar idéias (é por isso que escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conte bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...)

APRENDI que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual - como toda história - pode nos ensinar muito.

APRENDI que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloqüente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.

APRENDI a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa da auto-comiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)

APRENDI a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos, à porta de editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.

APRENDI a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.

APRENDI que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.

APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.

APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.

APRENDI a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.

APRENDI que, para um escritor, frio na barriga ou pêlos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.

 


     Selecionamos esta crônica de Moacyr Scliar porque ela reforça nossa convicção de como se desenvolve a competência textual. Dignos de nota são os parágrafos iniciais em que o cronista expressa que

a - "... o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler".
Este postulado fundamenta o "Guia de Produção Textual", conforme o exposto no capítulo "Como se desenvolve a competência textual", em que, com base em diversos autores/escritores, enfatizamos a idéia de que tudo aponta para a necessidade de aprendermos a escrever a partir do que lemos, a partir da leitura inteligente, da leitura que decodifica o texto em sua forma, ultrapassando sua superfície e o interesse por seu conteúdo.

b - "... quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores ..."
Segundo o crítico francês Albalat, "talento nada mais é do que assimilação". Assimilação que decorre de ler, do saber ler, do monitorar a própria leitura, do surpreender-se, do admirar-se diante do texto, o que leva a escrever o que se lê, a internalizar os recursos de expressão, a imitar, o plagiar, e recriar, a criar o próprio estilo.

c - "para aprender a escrever, tinha de escrever."
Quanto à passagem, esclarecemos que devemos desmitificar a idéia de que a competência textual se desenvolve unicamente ou principalmente mediante a prática constante. Não podemos nos esquecer nunca do primeiro postulado - "... o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler." Primeiro, portanto, muita leitura. Depois, o exercício da escrita.


 
O clube dos teimosos

Liberato Viera da Cunha

Componho esta crônicas para os habitantes de minha rua, para certas pessoas que residem na inconcreta cidade de Santaclara, para jovens, volúveis deusas que um dia me enfermaram de paixão. É pois com regular dose de espanto que descubro que tenho um leitor em Itaquaquecetuba, São Paulo. É de lá que me conta esse dr. N., e eu não vejo por que duvidar, que é engenheiro de profissão, tem 54 anos, uma esposa gaúcha e três filhas. Informa a seguir o dr. N. que dirige uma construtora que os negócios vão mais bem do que mal, que é vice-presidente de uma ONG ecológica, que nas férias acampa na Serra da Mantiqueira. Quem sou eu para supor que esses dados biográficos, quase cadastrais, são incorretos? Mas aí o dr. N. comete uma incorreção. O dr. N. me diz que entrou sem querer na vida errada. Que quando estava no científico ganhou um concurso literário, que na faculdade colaborou na revista do centro acadêmico. E que agora, "especialmente nos intermináveis fins de semana", fica pensando que, em vez de empresário, poderia ter sido escritor. O que é que eu acho?

Eu não acho nada, dr. N. Os cronistas são seres inconfiáveis, tratam no geral de bagatelas e de ninharias, não devem ter palpite em tão graves assuntos. No máximo posso lhe dizer, em homenagem ao apelo de seu post scriptum, que dá trabalho ficar horas a fio diante de uma tela, maquinando crônicas, contos, ameaços de novelas ou romances. Ganha-se mais pegando um cinema, assistindo a um concerto, colecionando cismares baldios. Já que isso de inspiração é como visita de médico, um aprendiz de escriba tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no teclado, dispô-las numa ordem razoável, dotá-las de algum ritmo, garimpar à procura da palavra precisa, da exata expressão, do claro conceito. Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a infinita paciência de recomeçar. Deve ainda dominar cada armadilha do idioma, manter-se em boas relações com entidades que atendem por nomes desgraciosos, tipo ênclise, próclise, mesóclise, para ficar só nessas. Embora os gregos tenham esgotado há milênios todas as situações dramáticas imagináveis, é essencial ousar a criação de algo novo, de original, de único. Mister também é ser disciplinado, obstinado quase. Provocar os demônios interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. É não desistir quando um branco se instala em sua mente e você percebe que nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia alguma circula nesse vácuo, por mais que tente convocá-los à ponta de seus dedos.

Se nada disso o assusta, dr. N., bem-vindo ao clube. Bem-vindo ao clube dos que escrevem não porque sonham com fama ou fortuna. Não porque os tente a fútil vaidade do elogio fácil. Não porque os atraia o falso brilho de um fardão. Bem-vindo ao clube dos que escrevem talvez por teimosos. Ou, quem sabe, porque nenhum outro talento lhes foi dado.

Tão-só essa tola compulsão de iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada, uma centelha a isso que chamam de condição humana.

 


     Nesta crônica queremos sublinhar o penoso esforço despendido no ato de escrever e a obstinação exigida. Eis as passagens.
     Vê-se, pois, que o ofício de escritor não é tarefa fácil, não é uma simples questão de inspiração (que é "como visita de médico", segundo o cronista). Depende, como já dissemos, da "transpiração", isto é, do trabalho, do esforço na "dura estiva de desembarcar idéias no teclado."


 
No mundo das vírgulas

Nilson Souza (Zero Hora, 1º/9/1994)

Tive outro dia uma conversa com acadêmicos de Comunicação da PUC e notei certa ansiedade da garotada em relação a uma rotina da vida jornalística, que é a obrigatoriedade de escrever sob a pressão do horário e nos limites do espaço disponível. Tentei tranqüilizá-los: sempre é possível e, com a prática, todo o mundo consegue, não é preciso ter nenhum dom especial. Difícil mesmo é escrever bem. Para isso, não basta ter tempo, espaço ou vontade; é necessário, acima de tudo, persistência. Nunca tive a pretensão de orientar ninguém sobre esta matéria, até mesmo porque também suo diariamente para dar uma forma apresentável a meus textos - e nem sempre consigo. Mas recolhi das leituras da madrugada (leiam, leiam, leiam, mas também procurem escrever e submeter o texto à apreciação de leitores qualificados!) alguns ensinamentos que agora retransmito, na esperança de que sejam úteis a quem se interessa pelo tema.

O primeiro deles é de Isaac Bashevis Singer, para quem o melhor amigo do escritor é a lata de lixo. Pode parecer um tanto desestimulante, mas é um admirável conselho. Lembra que a boa redação - aliás, como tudo na vida - só pode ser alcançada com humildade, com o reconhecimento da má obra. Fazer, cortar e refazer repetidamente: este é o ciclo. Trabalhoso, mas necessário. O que é escrito sem esforço, disse Samuel Johnson, geralmente é lido sem prazer.

O escritor tem que se preocupar com os mínimos detalhes de sua obra, e especialmente com estes. Tom Campbell andou certa vez dez quilômetros até a gráfica que imprimia um dos seus livros (e dez quilômetros de volta) para mudar uma vírgula num ponto e vírgula. E é exatamente nas vírgulas que tropeçam os redatores iniciantes, separando o que não deve ser separado e unindo o que não pode estar junto. A pontuação é o cimento do texto. Querem um exemplo? Leiam a historinha abaixo, que retirei de uma coletânea de pensamentos de Mansour Challita:

Foi encontrado o seguinte testamento: "Deixo os meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres". Quem tinha direito ao espólio? Eram quatro os concorrentes. O sobrinho assim pontuou o texto: "deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres". A irmã pontuou assim: "deixo os bens à minha irmã. Não ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres." O alfaiate fez a sua versão. "Deixo os bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres". O procurador dos pobres pontuou assim: 'Deixo os meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres!".

O anônimo moribundo, como podem perceber os leitores, não era um bom redator. Ou então tinha - por motivos óbvios - a pressa dos jornalistas nos minutos que precedem ao fechamento da edição.

 


     Na crônica, Nilson Souza reforça uma idéia já referida neste "Guia de Produção Textual". Para escrever com desenvoltura "não é preciso ter nenhum dom especial", e indica o caminho "leiam., leiam, leiam, mas também procurem escrever e submeter o texto à apreciação de leitores qualificados". Atente-se, assim, para a ordem: em primeiro lugar está a leitura inteligente (conforme ponto de vista exposto no capítulo "Como desenvolver a competência textual"); depois, a prática.

     O cronista reforça igualmente idéias referidas na crônica anterior - a autocrítica e a obstinação que devem caracterizar o escritor - ao citar que "o melhor amigo do escritor é a lata de lixo".

     Também há referência ao esforço que é despendido na construção do texto: "Fazer, cortar e refazer repetidamente: este é o ciclo. Trabalhoso, mas necessário". A propósito, em outra ocasião o mesmo cronista escreveu que "Um texto se constrói, às vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente", o que enfatiza o pensamento de Samuel Johnson, que disse que "o que é escrito sem esforço é lido sem prazer".

     Por oportuno, transcrevemos também mais este texto do mesmo cronista e jornalista.


 
Escrever é reescrever

Nilson Souza (Zero Hora, 31-12-1990)

Qualquer pessoa pode redigir desde que tente para valer. O difícil é reler até nada mais ter para cortar ou acrescentar. A mensagem deve permanecer clara.

Primeiro, é preciso saber que o universo reservou um lugar certo para cada palavra e só ali ela faz sentido. Como disse Voltaire, uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito.

Mas ninguém nasce com esta clarividência. Um texto se constrói, às vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente. Depende do esforço do construtor. E de sua persistência para refazer a obra quando ela desabar, seja por insuficiência de alicerce cultural, seja por causa de desvios temáticos ou de implosões gramaticais.

Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. Talento natural existe e ajuda, mas não é tudo.

Uma boa maneira de começar é selecionar o que se tem a dizer e para quem. A partir daí, da forma mais simples e direta possível, narra-se o fato. Com as palavras que vierem à cabeça. Até que se esgotem. Depois, sim, começa a tarefa mais trabalhosa: reler uma, duas, tantas vezes quantas forem necessárias. E ir retirando, sem autocomiseração, tudo o que parecer duvidoso, exagerado, sem graça nem sentido. Se não sobrar nada, começa-se de novo. Se sobrar muito, talvez seja melhor fazer outra leitura.

Quando não houver mais nada para acrescentar ou tirar, e a mensagem principal permanecer clara, o texto está pronto.

Parece simples, mas dói um bocado. Só que não tem outro jeito.

 


     Com bastante freqüência encontramos escritores que se debruçam sobre o próprio ofício, para tecer considerações a respeito, expressando sua sistemática de trabalho, a postura diante da construção do texto, suas ansiedades, o penoso esforço de garimpar a palavra precisa, o caminho que percorreram para construírem-se como escritores. Por isso, numerosos outros textos poderiam ser aqui anexados. Pensamos, no entanto, que, por ora, são suficientes os que foram transcritos, e deles já se pode esboçar uma teoria acerca da produção textual, expressa mediante o "decálogo" a seguir.
  1. Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. (Nilson Souza)
  2. Talento natural existe e ajuda, mas não é tudo. (Nilson Souza)
  3. O ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. ( Moacyr Scliar)
  4. Quando se começa, plagiar não faz não mal nenhum. ( Moacyr Scliar)
  5. Um aprendiz de escrita tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no teclado. ( Liberato Vieira da Cunha)
  6. Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a infinita paciência de recomeçar. ( Liberato Vieira da Cunha)
  7. E não desistir quando um branco se instala em sua mente. ( Liberato Vieira da Cunha)
  8. O melhor amigo do escritor é a lata de lixo. (Isaac Bashevis Singer)
  9. O que é escrito sem esforço é lido sem prazer. (Samuel Johnson)
  10. Um texto se constrói, as vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente. (Nilson Souza)

     Isso "dói um bocado. Só que não tem outro jeito." Mas escrever é uma atividade que vale a pena. Não para sonhar com a fama e a fortuna. Mas pela "compulsão de iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada, uma centelha a isso que chamam de condição humana."