O Mais Você E As Telespectadoras De Ponta Porã


Thereza Helena Prates Scofield
tscofield@terra.com.br




resumo/abstract


     A principal intenção desta pesquisa é compreender como as telespectadoras de classes sociais menos abastadas se relacionam com a feminilidade através da interlocução que estabelecem com o Mais Você. A investigação aqui proposta se apóia na noção de que, diferentemente da sociedade oitocentista, o feminino é um conceito que aponta para a singularidade, a liberdade e as possibilidades das mulheres no contexto contemporâneo. Procurando fugir das concepções que abordam a mídia apenas como um instrumento de poder e manipulação das ordens dominantes, o estudo se fundamenta na visão de que o diálogo que acontece entre o programa e sua audiência se dá num processo de interação, numa construção conjunta em que as negociações são permanentes.

palavras-chave: televisão; mulheres; programas femininos.

    The main focus of this research is to understand how female television viewers from working class audiences relate with femininity through the interactive dialogue they establish with the Mais Você television program. The basic notion proposed in the investigation is that unlikely it was witnessed in the 1800s femininity is now a concept moving towards women’s singularity, liberty and opportunities. Attempting to keep a distance from those concepts that approach the media simply as a manipulative tool of hegemonic forces, this study adopts the vision that interaction takes place between the program and its audiences, established by a process of conversation and joint construction in which negotiations are permanent.

Keywords: Television; women; women’s TV programs.


1. A recepção como um processo de apreensão e produção de sentidos

Voltando um pouco no tempo, pode-se verificar na história dos estudos de mídia que a “Escola de Frankfurt”, nascida na década de 20, na Alemanha, constitui-se como um dos principais pilares de inúmeras investigações que vêm contribuindo para o fortalecimento e legitimação do Campo da Comunicação. De acordo com essa perspectiva filosófica, conhecida como Teoria Crítica, a mídia é considerada como um poderoso instrumento das classes dominantes, por sua capacidade de formatar a consciência humana e alienar o público1. O fenômeno comunicativo, pensado aí através do chamado paradigma informacional, é tratado como um processo de natureza transmissiva, linear e unilateral, em que um emissor com grande capacidade de influência transmite uma mensagem para um receptor tido como conformado e indefeso.
No entanto, nos últimos anos, essa noção da recepção como um lugar de aceitação passiva dos produtos da mídia vem sendo colocada em xeque. Eco (1985) está na esteira dos autores que questionam a idéia de que sentidos preestabelecidos são enviados do emissor para o receptor. Ele aponta para a complexidade da interpretação dos textos, em função da diversidade de códigos culturais e da dinâmica existente na produção e apreensão das mensagens.
Em sua abordagem sobre o leitor-modelo, Eco (1986) também sugere que, ao produzir um texto, os autores procuram antecipar seus possíveis leitores, organizando uma estratégia discursiva, deixando espaços vazios que só podem ser preenchidos por aqueles que conseguem compreendê-los. “Todo texto quer que alguém o ajude a funcionar” (Eco, 1986, p. 37). Segundo o autor, as pessoas que lêem uma determinada obra são capazes de interpretá-la, empreendendo movimentos cooperativos e conscientes.
Enfatizando que o destinatário já está presente na própria construção do texto, a perspectiva de Eco (1986) contribui para pensar a relação entre os meios de comunicação e seu público. Ao ser produzido, o discurso midiático se esforça para atingir uma audiência ativa que completa seu sentido, um receptor que estabelece um diálogo com aquilo que a mensagem propõe.
Hall (2003), indo além, procura relacionar os momentos de produção e apreensão de sentidos, destacando que a codificação e a decodificação das mensagens não são processos equivalentes e apresentam dinâmicas próprias. Há diferentes graus de simetria ou assimetria entre a estrutura de significação edificada pelo produtor e a construída pelo receptor. Portanto, o processo de interpretação de um produto midiático pode empreender trajetos que não são necessariamente semelhantes aos pretendidos pela mensagem.
Ao valorizar tanto os discursos instaurados pelos meios como a leitura realizada pelos sujeitos, os Estudos Culturais colocam em foco todo o processo de produção de sentidos. Os receptores apreendem os discursos da mídia a partir de suas experiências e de sua inserção sociocultural, e essa compreensão ajuda a construir e atualizar o universo simbólico da sociedade na qual estão inseridos. Assim, essa perspectiva resgata não apenas o papel ativo dos sujeitos na recepção, como também sua participação na constituição da vida social.
Seguindo nessa direção, este artigo se apóia no pensamento de que a produção midiática não se faz independentemente de seu público, ela é permanentemente modificada pelos vários sujeitos que compõem a audiência. Afinal, trata-se de uma linguagem em processo, que tanto orienta quanto é conduzida pelos espectadores. Fundamentando-se nessa perspectiva, este trabalho se volta para o processo comunicativo, mais especificamente para a interação televisiva estabelecida entre as mulheres e os programas femininos, tendo como objeto empírico o Mais Você e algumas moradoras da Vila Ponta Porã.

2. A temática feminina nos Estudos Culturais Ingleses

Principalmente a partir dos anos 1970, as preocupações oriundas do movimento feminista atingiram as investigações voltadas para os meios de comunicação. A disseminação de pesquisas pioneiras se deve principalmente aos Estudos Culturais Britânicos instituídos pelo Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), localizado em Birminghan, na Inglaterra. Foi graças ao chamado Grupo de Estudos da Mulher, formado em 1974, que o trabalho intelectual focado nas questões do sexo feminino teve sua afirmação no seio do CCCS.
Até aquele momento, somente duas ou três mulheres pesquisavam entre aproximadamente 20 homens. Apesar de isoladas, elas se interrogavam, a cada texto publicado, sobre a ausência do sexo feminino entre os objetos de estudo da instituição. Diante da dominação masculina no ambiente e no enfoque intelectual, as mulheres tinham dificuldade em desenvolver investigações de cunho feminista. Empenharam-se, então, na tarefa de reunir algumas pessoas em torno da discussão do tema. Mas foi a vinda, em 1974, de diversas pesquisadoras com a intenção de se dedicarem às temáticas femininas que finalmente tornou possível a formação do Grupo de Estudos da Mulher.
De acordo com a University of Birmingham (2007), ambos os sexos podiam participar dos encontros. No entanto, as mulheres sentiam que eram sujeito e objeto de seus estudos. Elas tinham um modo particular de trabalhar, compartilhando e tentando compreender suas incertezas no reconhecimento de suas experiências comuns de feminilidade. Essas considerações e suas implicações resultaram na necessidade de o grupo ser fechado aos homens. Assim, em 1976, foi montado o Fórum Estudos da Mulher composto somente por pesquisadoras. O conjunto maior de investigadores, reunido no Grupo de Estudos da Mulher, continuou seu projeto intelectual, discutindo as questões feministas gerais em Birmingham. O fato, no entanto, provocou longas discussões, que deixavam claro o mal-estar que o feminismo estava causando nos Estudos Culturais ingleses.
O primeiro conjunto de textos feministas foi o Images of women (1974), que trazia pesquisas de Helen Butcher, Rosalind Coward, Marcella Evarist, Jenny Garber, Rachel Harrison e Janice Winship. Foram essas autoras que deram o primeiro impulso para as investigações que até hoje trazem questionamentos em torno de temas referentes à identidade feminina, apontando para o problema de que as definições dominantes do que é considerado importante socialmente tendem a corresponder às estruturas masculinas – e de classe média – de interesse. Conforme a University of Birmingham (2007), foi exatamente na tarefa de organizar o Images que as pessoas envolvidas começaram a lidar com as dificuldades de se abordar a feminilidade: que tipo de mulher focar? Mãe, dona de casa ou operária? Os textos seriam dirigidos aos pesquisadores ou ao público leigo? Mas, sobretudo uma dúvida era constante: as feministas poderiam ser intelectuais?
De fato, foi como mulheres, não como feministas, que as primeiras mobilizações foram conduzidas na busca por liberdade e igualdade para o sexo feminino. Assim, se existia uma responsabilidade acadêmica para muitos membros no Departamento, para as pesquisadoras havia o fardo do antiintelectualismo propagado com agressividade por integrantes do Movimento. É preciso lembrar também que como o CCCS ainda estava se construindo teoricamente, voltar-se para a constituição de uma bibliografia específica para os Estudos Culturais Feministas era tarefa quase impossível. Nesse âmbito, as pesquisadoras tinham muitas perguntas. Segundo a University of Birmingham (2007), elas ignoravam se teriam que incluir apenas os livros feministas do período ou se suas leituras deveriam ser interdisciplinares. Não estavam certas sobre a necessidade de se engajarem nas interpretações marxistas dominantes nos Estudos Culturais naquela época. Também não sabiam se seriam apenas as mulheres que se empenhariam em conceituar a opressão feminina, enquanto os homens continuariam pesquisando o estado, a consciência e o público. Assim, a elaboração do Images foi permeada de poucas certezas, pois as estudiosas tinham compreensões diferenciadas e muitas dúvidas sobre o objeto que estavam investigando.
A carência de um encaminhamento teórico claro levou os pesquisadores do Grupo de Estudos da Mulher a se deslocarem para uma tentativa de considerar a subordinação feminina dentro das relações de poder, voltando-se principalmente para o trabalho doméstico das mulheres. Mas articular classe e sexo não era simples, e todos os homens e algumas mulheres desistiram do empreendimento. Foi o resíduo do grupo que retomou os estudos, buscando definir algum campo comum a partir do qual trabalhar. Passaram então a pensar a opressão da mulher no nível financeiro, observando a posição feminina em relação aos processos da acumulação capitalista. De acordo com a University of Birmingham (2007), ao utilizar conceitos econômicos marxistas, os pesquisadores sintonizaram mais com outros trabalhos de Birmingham. Foi então que a discussão do Women take issue, primeiro livro feminista no âmbito dos Estudos Culturais ingleses, começou. O Grupo de Estudos da Mulher e algumas pesquisadoras do Fórum Estudos da Mulher se reuniram para formar a base editorial. Mas, a permissão para publicar a obra parece ter ocorrido não apenas porque os estudos tinham provado sua validade teórica; os membros do CCCS ficaram verdadeiramente convencidos depois que ouviram as demonstrações da submissão feminina nas falas das mulheres entrevistadas que relatavam suas vidas como donas de casa nas fitas gravadas.
Em resumo, o Women take issue, escrito por nove mulheres e dois homens, pode ser definido como o resultado do incômodo crescente que os autores sentiam diante da pouca importância dada às mulheres na maior parte do trabalho intelectual realizado pelos Estudos Culturais Ingleses. A edição do livro nasceu de muitos desencontros, discórdias e dúvidas, não apenas no Grupo de Estudos da Mulher, mas no CCCS como um todo. Para os pesquisadores feministas foi uma tarefa muito árdua vencer o preconceito e obter reconhecimento acadêmico, fundamentando-se num saber que ainda está sendo alavancado.
Segundo Charlotte Brunsdon (1996), a chegada de novas temáticas em Birmingham foi muito traumática. Naquele momento, as noções de subjetividade colocadas contra as teorizações universalistas deixaram muitos pesquisadores magoados e enraivecidos. Conforme a autora, talvez por isso um dos grandes nomes dos Estudos Culturais britânicos, Stuart Hall, tenha descrito na Conferência de Illinois, em 1990, a chegada do feminismo no CCCS com as seguintes metáforas: “Como um ladrão na noite, ele quebrou a porta e invadiu, interrompeu, fez um barulho inesperado, roubou a ocasião.” Na prática, houve um grande abismo entre as intenções dos dirigentes da instituição em encorajar o trabalho feminista e as conseqüências inesperadas que as investigações trouxeram para o status quo dos Estudos Culturais. Essas relações de tensão ficam claras nas palavras de Hall (2003) ao abordar sua saída de Birmingham, no final dos anos 1970:

A questão do feminismo foi muito difícil de levar, por duas razões. Uma é que se eu tivesse me oposto ao feminismo, teria sido uma coisa diferente, mas eu estava a favor. Ser alvejado como “inimigo”, como a figura patriarcal principal, me colocava numa posição contraditória insuportável. É claro que as mulheres tiveram que fazer isso. Tinham que me calar, essa era a agenda política do feminismo. Se eu tivesse sido calado pela direita, tudo bem, nós todos teríamos lutado até a morte contra isso. Mas eu não podia lutar contra minhas alunas feministas. (...) Era hora de partir. (Hall, 2003, p. 429-430)

Antes de finalizar, é necessário frisar que, aos poucos, a crítica feminista conseguiu mudar a agenda original das investigações. A noção de classe deixou de ser o conceito crítico central e as atenções se voltaram para questões relacionadas à identidade, aos textos midiáticos que ocupam os domínios do doméstico e às pessoas para as quais eles se dirigem. Em outras palavras, o feminismo acabou redirecionando o campo dos Estudos Culturais, influenciando as pesquisas em vários aspectos:

...a abertura para o entendimento do âmbito pessoal como político e suas conseqüências na construção do objeto de estudo dos Estudos Culturais; a expansão da noção de poder que, embora bastante desenvolvida, tinha sido apenas trabalhada no espaço da esfera pública; a centralidade das questões de gênero e sexualidade para a compreensão da própria categoria 'poder'; a inclusão de questões em torno do subjetivo e do sujeito; e, por último, a reabertura da fronteira entre teoria social e teoria do inconsciente ? psicanálise. (Escosteguy, 1998, p. 1)

O próprio Stuart Hall considera que as novas temáticas colaboraram para o estabelecimento de novos referenciais não apenas para os estudos de mídia, mas para as ciências sociais e humanas como um todo. O movimento levou para a arena pública questões relativas à família, à sexualidade, à divisão doméstica do trabalho e ao cuidado com as crianças. O autor salienta que o feminismo tornou política a reflexão sobre “a subjetividade, a identidade e o processo de identificação” e questionou a noção de que homens e mulheres eram parte da mesma identidade, “a humanidade”, trazendo à cena a questão da diferença sexual (Hall, 2000, p. 45-46).

3. O Mais Você

Os principais canais abertos da televisão brasileira produzem vários programas femininos que ocupam a grade de programação principalmente na parte da manhã. O Mais Você se destaca entre eles, justificando ter se tornado o objeto de estudo deste artigo. Além de sua apresentadora possuir 16 anos de experiência na condução de programas femininos, o Mais Você tem a atenção de cinco milhões de telespectadores 2 em todo o Brasil, o equivalente a 35% da audiência nacional voltada para esse formato televisivo. O programa, transmitido pela Rede Globo de Televisão desde 18 de outubro de 1999, vai ao ar de segunda a sexta-feira de 8:00 às 9:30 da manhã. Desde sua estréia, é comandado por Ana Maria Braga.
No corpus analisado, formado por cinco exibições apresentadas entre os dias 8 e 12 de maio de 2006, verificou-se que a estrutura do programa é composta por uma vinheta de 40 segundos e quatro blocos, que representam uma média de 71 minutos de programação, somados sem os intervalos comerciais. No primeiro bloco, que é o maior deles, é possível verificar a presença constante de três elementos comuns: a mensagem do dia, uma matéria que gira em torno da história de vida de uma pessoa e a presença de um ou mais convidados, que podem ser as próprias personagens mostradas nas reportagens, ou se relacionam de alguma forma com elas.
A mensagem do dia é um pensamento, oração, poesia ou pequena história que Ana Maria utiliza para abrir o Mais Você. De modo geral, são textos que falam de valores positivos como persistência, coragem e bom-humor. Oferecem dicas, regras ou conselhos para que as pessoas tenham uma vida mais feliz. O segundo bloco possui variações de tempo e temas, indo de entrevistas a sorteios de prêmios, oferecidos por patrocinadores do Mais Você.
No terceiro bloco está localizado o quadro de culinária. O preparo dos pratos é bastante anunciado no decorrer do programa. As receitas são propagadas como rápidas e fáceis de preparar. No último bloco Ana Maria pode finalizar o quadro de culinária, apresentar matérias ou receber os convidados. De modo geral, as entrevistas realizadas pela apresentadora aparentam um bate-papo informal, revestindo-se, no entanto, de um caráter pedagógico.

4. Vila Ponta Porã

Ponta Porã é uma vila que fica localizada na área hospitalar do bairro Santa Efigênia, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Apesar de não se destacar pelo baixo Índice de Qualidade de Vida Urbana (I.Q.V.U.) 3 dentre as 221 favelas da capital mineira, Ponta Porã chama atenção pela altíssima concentração de pessoas por m2, apresentando-se como uma das maiores preocupações da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel). A Vila possui 237 domicílios e 986 moradores. Cerca de 52% das famílias recebem de um a três salários mínimos, mas 4% delas ganham menos de R$ 415,00. O índice de analfabetismo entre as mulheres é de 20%, taxa considerada alta diante da média da população belo-horizontina, que gira em torno de 6,57%.
É nessa realidade sócio-econômica que vivem as quatro telespectadoras que compõem o corpus deste trabalho. Na primeira etapa do estudo de recepção, as mulheres foram entrevistadas em suas casas, em horários escolhidos por elas. As perguntas procuraram traçar um breve perfil biográfico e detectar o comportamento delas diante da mídia e do programa Mais Você.

5. Identificação das entrevistadas

Luciane: não possui religião, tem 24 anos e engravidou do primeiro filho aos 15. Desde então, vive com o companheiro, com o qual teve mais duas crianças. Estudou até a 6a série e está desempregada, mas já trabalhou como vendedora e doméstica. A renda familiar é de um salário mínimo, e o barraco onde mora é alugado. Afirma que sempre quis ter filhos e, apesar de a primeira gravidez não ter sido programada, a maternidade “despertou a maturidade nela”. Luciane acha que não foi fácil cuidar das três crianças ao mesmo tempo. Mas hoje a caçula está mais crescida e o cotidiano vai se normalizando.

Luzia: tem 55 anos, é separada e possui sete filhos, um do primeiro namorado, três do companheiro, com quem viveu cinco anos, e três da segunda união que durou 27 anos. É católica e lembra pouco da infância passada com os pais numa pequena cidade de Minas Gerais, pois aos nove anos foi morar com uma família no Espírito Santo. Sua mãe permitiu que ela saísse de casa diante da promessa de que iria estudar, fazendo o serviço doméstico em troca de roupa e alimentação. No entanto, Luzia nunca freqüentou a escola. Por diversas vezes, os patrões lhe disseram que sua mãe havia morrido e que eles iriam adotá-la. Aos 14 anos, ela conseguiu fazer contato com a família e voltou para a casa. Pouco tempo depois, ficou grávida do namorado e se mudou para Belo Horizonte. Ela já foi doméstica, cozinheira e faxineira. Recentemente teve vários problemas de saúde e está desempregada.

Sueli: tem 32 anos, é católica, estudou até a 6a série e possui dois filhos. Ela trabalha como lavadeira em uma empresa. Em janeiro de 2006, sofreu um acidente de carro, teve ferimentos graves e permaneceu trinta dias hospitalizada. Ainda está fazendo fisioterapia e talvez tenha que passar por uma cirurgia para conseguir movimentar a perna direita normalmente. Sueli nasceu em Governador Valadares e possui duas irmãs. O pai veio para Belo Horizonte em busca de emprego e trouxe consigo a família. Poucos anos depois, ele faleceu, e sua mãe teve muita dificuldade para conseguir alimentar as três meninas com o dinheiro que recebia como doméstica. Diante das precárias condições financeiras da família, Sueli começou a trabalhar aos 12 anos. Já maior de idade, engravidou, mas o namorado não quis assumir a criança. Há quatro anos, ela vive com o atual companheiro, com o qual teve outro bebê.

Rose: possui 32 anos, estudou até a 4a série e durante vários anos foi catadora de papel. Ela conta que não consegue engravidar, mas adora crianças e sonha em ter um filho. Atualmente não trabalha, atendendo ao pedido do companheiro, com quem vive há três anos. Rose passou a infância em instituições católicas localizadas no interior de Minas, em regime de internato. Depois foi transferida para a Febem em Belo Horizonte, mas aos 14 anos fugiu e foi morar nas ruas. Conta que tentou viver junto a outros menores, mas como não fazia uso de bebida alcoólica e drogas era freqüentemente maltratada e expulsa dos grupos. Assim, vagou sozinha, “passando muita fome e frio” até encontrar uma instituição voltada para mulheres. Passava o dia lá, participando de atividades educativas e à noite ia para abrigos comunitários da cidade. Nesta época, conheceu um catador de papel com quem passou a viver. Com o dinheiro que ganhavam, alugaram um barraco em Ponta Porã e saíram das ruas. No decorrer do relacionamento, foi espancada violentamente inúmeras vezes, mas só depois de 15 anos teve coragem de deixá-lo. Quando esteve no abrigo para mulheres, Rose recebeu auxílio para conseguir uma cópia de sua certidão de nascimento, junto a uma das instituições na qual esteve interna quando criança. Assim, localizou os pais e foi até o interior de Minas para conhecê-los. Tinha a intenção de morar com eles, mas na primeira noite que passou em casa, viu-se obrigada a dormir ao relento, juntamente com a mãe e as irmãs, por causa do comportamento agressivo do pai. Pela manhã, voltou para Belo Horizonte sem ter coragem de perguntar para a mãe por que ela não foi criada junto à família.

6. Relação das entrevistadas com o programa

Nas conversas realizadas com as quatro mulheres foi possível perceber que elas assistem ao Mais Você diariamente, sendo que duas vêem o programa ao mesmo tempo em que cuidam das atividades domésticas. Todas disseram gostar do quadro de culinária, mas apenas uma já colocou em prática as receitas apresentadas pelo programa. Duas telespectadoras não prestam muita atenção no pensamento do dia e duas acham que esse é um dos melhores momentos do Mais Você.
Todas as entrevistadas afirmaram gostar da apresentadora. Nenhuma delas apontou defeitos em Ana Maria. Três mulheres disseram que ela dá dicas ou conselhos que ajudam a melhorar suas vidas. Afirmaram sentirem-se bem quando assistem ao programa, mas não souberam justificar concretamente o motivo desse bem-estar.
Quanto à memorização de algum quadro do Mais Você que chamou mais a atenção das entrevistadas, duas disseram não se lembrarem. Luciane e Sueli citaram os depoimentos de mulheres que relatavam suas histórias de vida. Assim, optou-se por selecionar as três reportagens do Mais Você que tinham figuras femininas como personagem principal para serem assistidas pelas entrevistadas na segunda etapa da pesquisa.
Depois que as matérias foram apresentadas às moradoras de Ponta Porã, buscou-se observar nos seus dizeres as possíveis leituras das representações das mulheres mostradas pelo programa. As questões principais giraram em torno da apreensão, por parte da audiência, de imagens positivas da condição feminina e da percepção da existência de possibilidades variadas para se construir relações com a feminilidade.

7. Categorias de análise

7.1 Fé e religiosidade

Segundo Clément e Kristeva (2001), é na religiosidade, nos cultos e rituais que inúmeras mulheres, no passado e no presente, vêm encontrando uma fresta através da qual conseguem expressar pensamentos, aliviar sofrimentos e tocar a vida adiante. De acordo com as autoras, muitas bruxas e santas foram pessoas subversivas, não conformistas, que podem ser consideradas no seu conjunto como um grupo de mulheres que contribuiu para que o feminino se insinuasse na ordem social, contrariando os pressupostos de serem naturalmente pertencentes a um sexo passivo e dócil.
E é com uma prece que o programa Mais Você se inicia em oito de maio de 2006, segunda-feira. As palavras são de alguém abnegado, uma mulher que não pede louvações nem glórias. Seu desejo parece ser o de compartilhar seu sofrimento, numa espécie de desabafo. Na oração, uma camponesa anônima de Madagascar pede ao Criador forças para conseguir silenciar seu martírio. “Que seu amor esquente a chama que eu acendi e faça calar minha vontade de gemer a minha miséria.”
A religiosidade claramente explicitada pela prece da camponesa pode ser observada no Mais Você através de outra mulher: Lílli Steffens. Ela é a personagem principal de uma matéria exibida no dia 11 de maio. A reportagem conta a história de vida da senhora de 69 anos, que é mostrada como exemplo de superação. Ainda criança, perdeu os dois braços numa moenda de cana, mas não se abateu. Confiando na ajuda divina, Lílli empreendeu inúmeras batalhas cotidianas, tornando-se capaz de realizar muitas tarefas com os pés.
Pensar que é na fé que algumas mulheres se refazem de um passado gravado na memória ou de um presente difícil de ser vivido é uma possível razão para Rose, Sueli e Luzia abordarem a religião de forma recorrente, ao falarem de seu cotidiano. Para superar as agruras diárias, a maioria delas diz se apoiar em Deus. Nas palavras das entrevistadas, a mesma providência divina que auxiliou Ana Maria Braga a curar-se de um câncer pode ajudar Luzia a recuperar sua saúde. Deus não deixou Sueli morrer no acidente de carro e permitiu também que Rose sobrevivesse às adversidades das ruas. Assim, a fala das três mulheres indica que a vida parece ser mantida graças a Deus.

7.2 Violência contra as mulheres

Com as palavras “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”, a “Oração da Camponesa Anônima de Madagascar”, abordada no tópico anterior, adianta para a audiência o principal tema que será tratado pelo programa naquele dia: a violência contra as mulheres. Aproveitando o julgamento, na semana anterior, de Antônio Pimenta Neves, assassino de Sandra Gomide, Ana Maria convida um jurista, o pai e a cunhada da moça para participarem do programa. Mas antes de falar sobre a morte de Sandra, a apresentadora chama uma reportagem que focaliza a luta de João Paes Landim para colocar o responsável pela morte de sua filha na cadeia. A matéria gira em torno do assassinato de Célia. A professora tinha dois filhos e estava grávida de quatro meses, quando foi baleada pelo marido.
O foco central da matéria é a obstinação de João Landim em conseguir que a justiça fosse feita. A vida de Célia não é relatada. A professora é apenas a vítima, apresentada para a audiência através de poucas fotografias. A passividade e o silêncio da moça diante da agressividade do marido no decorrer do casamento não são problematizados. Em nenhum momento a reportagem usa o exemplo de Célia para falar sobre a necessidade das vítimas reagirem, denunciando o agressor. Assistentes sociais e psicólogos apontam para o fato de a violência doméstica estar ancorada na baixa auto-estima e silenciamento das vítimas, problemas que precisam ser abordados e tratados por profissionais especializados antes que a tragédia aconteça. “A violência doméstica ocorre numa relação afetiva cuja ruptura demanda, via de regra, intervenção externa. Raramente uma mulher consegue desvincular-se de um homem violento sem auxílio externo” (Saffioti, 2004, p. 79).
No segundo bloco, Ana Maria recebe três convidados: o jurista Luiz Flávio Gomes, João Gomide, pai da jornalista assassinada, e Regina, cunhada de Sandra. A abordagem principal da entrevista é a morosidade da Justiça e a necessidade de se reformar o Código Penal brasileiro. Novamente Ana Maria se esquiva de tratar a violência contra as mulheres de maneira profunda, trazendo pessoas que se dedicam ao assunto de modo a repercutir melhor o tema junto às telespectadoras.
Dentre as quatro moradoras de Ponta Porã que relataram sua experiência de vida, pôde-se observar que apenas Sueli nunca foi agredida fisicamente pelo parceiro. Luciane apanhou uma vez do marido e Rose foi espancada por 15 anos consecutivos. Luzia permaneceu com o companheiro durante 27 anos num clima de muitas discussões e brigas violentas.
Na fala das telespectadoras, verificou-se que a reação diante da agressividade do companheiro foi particular, variando de uma pessoa para outra. Em inúmeras ocasiões, Luzia enfrentou a ira do marido, revidando os golpes que recebia. Luciane chamou a polícia logo que foi agredida e o fato nunca mais se repetiu. Rose conseguiu denunciar o ex-marido depois de vários anos de espancamento. Então, nota-se que as entrevistadas não demonstraram silenciamento ou passividade. Agindo assim, elas certamente evitaram o final trágico das histórias de Célia e Sandra Gomide, contadas pelo Mais Você.

7.3 Maternidade

Os programas que compõem o corpus da pesquisa foram ao ar na semana que antecedeu o segundo domingo de maio, data em que tradicionalmente se festeja o Dia das Mães. Por isso, observou-se freqüentes referências à maternidade. Além das mensagens, dicas de presentes e receitas para se comemorar a data, foi feita uma reportagem especial, cuja personagem principal, Miriam Araújo, é uma mulher representada, sobretudo, a partir de sua experiência materna.
Miriam tem três filhas: Milena, Érica e Gabriela. Na primeira gravidez, a moça teve muitos problemas e quase perdeu o bebê. A segunda gestação, também complicada, ocorreu num período tumultuado do casamento de Miriam. Assim, logo depois que a filha nasceu, ela se separou do marido. Tempos mais tarde, conheceu Adriano e passou a viver com ele. Mesmo fazendo uso de contraceptivos, Miriam engravidou novamente.
Nesse período, descobriu que estava com um tumor cancerígeno no seio. Soube que teria que fazer uma mastectomia e, para não correr o risco de morrer, deveria iniciar um tratamento agressivo, interrompendo a gestação. Mesmo sabendo que o câncer era metastático e que já estava espalhado pelo seu corpo, a moça seguiu firme na decisão de ter a criança. Vinte dias depois do parto, ela iniciou a quimioterapia. Hoje, Gabriela corre para todo lado e Miriam luta bravamente contra o câncer.
Em resumo, o programa apresenta a maternidade como algo positivo, mágico, transcendente. É através do amor que sente pelas filhas que Miriam mantém sua alegria e adquire forças para buscar a saúde tão desejada. No entanto, muitas feministas combatem essa representação. Elas alegam que se a mulher foi mantida numa posição de inferioridade social, subordinando-se ao homem no decorrer da história, isso se deve principalmente à sua capacidade de dar à luz.
Simone de Beauvoir (1980), por exemplo, afirma que a maternidade é uma ideologia masculina que, fundamentando-se na verdade inegável do organismo feminino ser capaz de perpetuar a espécie, provou às mulheres sua vocação “natural” de ser mãe. O que Beauvoir (1980) visa provar é que não existe o instinto materno, procurando fazer com que o sexo feminino desconfie, questione, olhe a maternidade com reservas.
Na contramão das idéias defendidas por Beauvoir, a feminista Yvonne Knibiehler (2007) acredita que a maternidade ocupa uma posição central na identidade feminina e está no coração da vida da maioria das mulheres. Segundo a autora, é necessário aceitar que existem diferenças entre os sexos no que diz respeito à procriação. Baseada na certeza de que são as mulheres que guardam o direito de vida e de morte na sociedade, a autora afirma que o feminismo precisa rever sua posição, pois seguiu um caminho equivocado ao desconsiderar o grande poder político existente na maternidade.
Em Ponta Porã, as gestações não são representadas de forma tão romântica como acontece no Mais Você. Luzia, por exemplo, tem sete filhos e não sabe dizer, ao certo, se desejava tantas crianças. Guarda apenas a certeza de que é incorreto uma mulher não querer dar à luz. A entrevistada avalia que amor de mãe é maior que o de pai, por isso não tem dúvida de que os filhos mudaram o rumo de sua vida. Mesmo assim, não reclama.
Luciane também não teve muita chance de escolher se desejava, ou não, dar à luz. Engravidou aos 15 anos e foi viver com o pai da criança. Num curto espaço de tempo, teve mais dois filhos. Depois da última gravidez, não conseguiu se recolocar no mercado de trabalho. Não sabe dizer se o amor materno é maior que o paterno. Apenas acha que o vínculo que as mães têm com os filhos é diferente de algum modo.
A primeira gestação de Sueli também aconteceu sem ser programada. Na época, o namorado não assumiu a paternidade da criança. Tempos depois, ela se casou com outro rapaz, concebendo novamente. Como as demais entrevistadas, Sueli sugere que o amor materno é diferente, pois pensa que as mulheres gostam mais dos filhos, quando comparadas aos pais. Mas apesar de não duvidar da força do amor materno, reclama do trabalho que as duas crianças lhe dão no dia-a-dia. A moça ainda está se recuperando do acidente de carro que sofreu e sente-se cansada. Rose é a única entrevistada que não possui filhos. Ela não consegue levar as gestações até o final, abortando naturalmente os bebês.
Em resumo, nenhuma das gestações foi planejada pelas entrevistadas. As visitas freqüentes aos ginecologistas estão longe da realidade de suas vidas. Tem-se a impressão de que os métodos contraceptivos ainda são pouco usados, pois a natalidade não foi abordada como algo passível de ser controlado. Pelo contrário, a gravidez foi tratada como um acontecimento natural que, independentemente de suas vontades, invadiu o cotidiano de cada uma delas. Entretanto, mesmo que os bebês não tenham sido programados, eles foram aceitos e amados. Todas as telespectadoras demonstraram manter com os filhos relações felizes, aparentando realização pessoal.

7.4 Culinária

No dia oito de maio, a receita posta em prática por Ana Maria foi a de um pirão sem farinha, feito a partir de legumes cozidos em caldo de costela de boi. O policial Glason Moreira, criador do prato, conta que num dia em que estava sem um tostão no bolso, com pouquíssimos mantimentos em casa, acabou por inventar o pirão. Mesmo participando através do telefone, Glason mostra ser uma pessoa singular. Ele gosta de cozinhar e não tem vergonha do aperto financeiro. Faz graça e conversa com a apresentadora.
Assim, além da alegria, o programa deixa no ar a sugestão de que é na falta, na carência da vida, que o cotidiano apresenta modos de fazer modestos que são “o lugar da inventividade possível do sujeito: invenções precárias sem nada capaz de consolidá-las, sem reconhecimento para enaltecê-las”. (Giard, 2003, p. 217).
De modo geral, os gostos populares, por necessidade econômica e por hábito, baseiam-se nos alimentos calóricos e baratos ao mesmo tempo. Em Ponta Porã, eles costumam ser arroz, feijão, macarrão, fubá e farinha de mandioca. As entrevistadas cozinham o trivial de cada dia, a quantidade dos ingredientes é modesta e as refeições são simples. Afinal, o dinheiro é muito escasso. Dona Luzia está desempregada, conta apenas com a ajuda dos filhos. A renda familiar de Luciene e de Rose é de um salário mínimo e a de Sueli, de dois. Provavelmente por essa razão ela seja a única que coloca em prática as receitas do Mais Você.
No cotidiano da Vila, ter o que comer é quase um luxo. Por isso, a criatividade culinária tem chances elevadas de sucumbir. Na rotina das quatro mulheres, o mágico e o inusitado é conseguir fazer com que as panelas não estejam vazias no horário das refeições. Mesmo assim, todas elas assistem ao preparo dos pratos no Mais Você. Nas falas das telespectadoras, foi possível verificar que a receita é um dos momentos do programa que elas mais gostam. No entanto, seus dizeres não revelaram a razão dessa preferência.

7.5 Cotidiano

A experiência cotidiana é composta por hábitos e manifesta-se de modo regular na vida de muitas mulheres. O elemento comum dessas ações é o ritmo fixo, a repetição trazida pela rotina. Por isso, conforme Heller (1992), “a vida cotidiana, de todas as esferas da realidade, é aquela que mais se presta à alienação” (Heller, 1992, p. 37).
Mas mesmo as tarefas mais rotineiras, segundo Certeau (2005), comportam, sobretudo, a invenção. Os sujeitos, conforme o historiador, elaboram na vida cotidiana táticas que promovem a reapropriação de representações, fundando-se, sobretudo, nas ocasiões oportunas. Essas ações dos indivíduos caracterizam a sua oposição à conformação e à dominação na vida diária. Ao contrário de banais, são pequenos gestos que levantam questões sobre um saber fazer criativo, dotado de resistência.
A partir dessa ótica, as participantes do Mais Você são classificadas como constituintes de uma categoria que Certeau (2005) batizou de sujeitos ordinários, gente simples, mulheres comuns. Por isso mesmo, agem num mundo de hegemonia masculina que lhes dá pouco espaço ou importância social. Mas o programa lhes oferece uma oportunidade para que possam praticar ações táticas no decorrer das matérias e entrevistas. Assim, elas constroem um tempo próprio, tornando públicos seu cotidiano, seus afazeres, suas dúvidas e sofrimentos. Conseguem relatar suas histórias, falam de seus anseios, de suas dificuldades e afetos.
Através de gestos femininos simples e efêmeros, as convidadas do programa se tornam capazes de divergir e atualizar as representações tradicionais que não apontam liberdade e possibilidades ao sexo feminino. Lílli não tem os dois braços e nunca pôde freqüentar uma escola. No entanto, escreveu um livro no qual relata sua coragem e auto-estima. Miriam é portadora de uma doença fatal, mas é repleta de futuro. Nesse sentido, o Mais Você se afasta das concepções que o definem como um programa a serviço da dominação masculina. Os relatos de vida dessas mulheres de classes sociais menos abastadas instauram pluralidade e criatividade, constituindo-se, portanto, como inversões, mesmo que pequenas, na ordem das forças sociais hegemônicas.
Trilhando nessa direção, a arte cotidiana das entrevistadas de Ponta Porã pode ser definida como “o possível” ou o “último recurso” diante de sua ausência de poder. A realidade presente de Rose ainda carrega os fantasmas, o peso, os traumas do passado. Assim, sua atitude de ligar a televisão, todas as manhãs, pode ser considerada uma astúcia, um pequeno gesto que a ajuda a se manter viva, com um mínimo de saúde mental, num mundo que sempre a oprimiu. No dia-a-dia, Luciane, Luzia e Sueli também buscam no Mais Você auto-estima e forças para lidar com as agruras que a vida lhes oferece.
Sueli: Teve uma vez que ela [Ana Maria] virou e falou que é pra gente ter um dia feliz, um dia bom. Que era pra gente se olhar, se olhar no espelho e olhar se a gente tava bela. E nesse dia eu levantei, tinha olhado no espelho e vi que eu estava bonita. E ela falou que era pra gente olhar: se a gente estava bonita por fora, o coração também estava bem. (...) Isso pra mim me levantou. Aí eu comecei a ver o programa dela quase todos os dias de novo. Todos os dias eu vejo, como até hoje eu estou vendo.

7.6 Casa

A casa, definida racionalmente pela engenharia como um objeto geométrico, um conjunto de vigas bem encaixadas, onde a linha reta predomina, é vista por Bachelard (2000) como um espaço de conforto e paz. Para o filósofo francês, a morada defende, guarda, protege aqueles que a habitam. Silverstone (2002) também procura dar um status de lar para a casa. Segundo o autor, falar do ambiente doméstico é dizer de um espaço com profunda carga psíquica. “Um lugar com fronteiras para definir e defender. Um lugar de regresso. Um lugar do qual ver o mundo. Privado. Pessoal. Interior. Familiar” (Silverstone, 2002, p. 167).
Ao se apropriar de tarefas e características do cotidiano doméstico de muitas mulheres, o Mais Você constrói imagens de lar. No programa, como no ambiente doméstico, o tempo escoa devagar, sem sobressaltos. As entrevistas e as atividades realizadas seguem uma freqüência constante, sem situações de tensão. O ritmo lento da voz da apresentadora só é interrompido pelo Louro José que dá opiniões e conta piadas. Assim, tem-se a impressão de que o mundo lá de fora não invade a casa da telespectadora. Pelo contrário, os perigos são mantidos no batente da porta.
Diferentemente dos barracos de Ponta Porã, o cenário do programa tem a aparência de uma residência rica. Contextualizando elementos do dia a dia de várias mulheres no espaço em que eles verdadeiramente acontecem – cozinha ou sala de visitas – o Mais Você constrói um universo imaginário, tendo o real das classes sociais mais abastadas como pano de fundo.
Mas apesar de o cenário do Mais Você ser bem decorado, causando a sensação de luxo, beleza e conforto, as moradas simples foram apresentadas como uma realidade no cotidiano das mulheres que participaram do programa. Miriam foi a única exceção. A reportagem deixa transparecer que a construção da casa é fruto do esforço, do trabalho da moça. Mais do que isso, a finalização da obra é um sonho que ajuda a cabeleireira a continuar vivendo.
Assim como ela, Luzia também espera conseguir aumentar seu barraco um dia. Moradora de rua durante vários anos, Rose finalmente conseguiu ter um lar. Mesmo assim, ela ainda deseja trazer sua família para Belo Horizonte, oferecendo-lhe a casa que não teve no passado. Sueli manifesta o desejo de mudar-se da Vila e morar numa casa maior, com espaço suficiente para os filhos brincarem. Luciane também quer o mesmo para suas três crianças. Ela é a única entrevistada que paga aluguel. Mora num pequeno barraco, composto de quarto, banheiro e cozinha.

Conclusão

Na interação do programa com os dizeres das entrevistadas, observou-se que os discursos do Mais Você e das telespectadoras se tangenciaram algumas vezes. Mas em diversos momentos também se cruzaram ou se afastaram nas seis categorias de análise: religiosidade, maternidade, violência doméstica, cotidiano, casa e culinária. No primeiro item proposto, notou-se algo comum entre o programa e as palavras de três entrevistadas. Na história de Lílli e na experiência diária das moradoras de Ponta Porã, verificou-se que a fé em Deus traz a força para que elas possam superar as dificuldades que a rotina apresenta. A relação das mulheres com a religiosidade indicou que, diante de um cotidiano tão repleto de adversidades, a preservação da própria vida já é uma amostra da intervenção divina.
Se no Mais Você a maternidade foi apresentada como algo mágico e transcendente, na experiência das entrevistadas ela aparece marcada por dificuldades concretas. No entanto, os dizeres das telespectadoras se cruzam com o depoimento dado por Miriam no Mais Você. Nas palavras da maioria delas, observou-se que os filhos são seres amados. Eles trazem para suas mães alegria, realização pessoal e compensação psicológica. Aqui, as representações trazidas pelo programa e aquelas levantadas pelas entrevistadas convergem ao mostrar a maternidade como um lugar onde o domínio das emoções, do imaginário e do subjetivo permanece poderoso.
Nos quadros do Mais Você em que Ana Maria falou sobre a violência contra o sexo feminino, em nenhum momento foi apreendida uma abordagem preventiva do tema, fundamentada principalmente na necessidade de as vítimas reagirem. Afinal, buscando ajuda de familiares e amigos ou denunciando os maus-tratos recebidos, as mulheres podem evitar que as conseqüências sejam fatais, como aconteceu com a professora Célia e com Sandra Gomide, cujas histórias foram contadas pelo programa. No entanto, a representação da mulher passiva ou silenciosa que acaba assassinada por seu companheiro não foi verificada na experiência prática das telespectadoras. No depoimento de três entrevistadas, foram relatadas reações diversas contra as agressões sofridas.
Em Ponta Porã, as receitas mais simples indicadas pelo Mais Você são sofisticadas demais. Os recursos financeiros são modestos e o alimento também. No dia-a-dia, as mulheres se empenham em fazer com que a família tenha o que comer. Entretanto, todas elas deixaram transparecer que gostam de ver Ana Maria preparando os pratos. Se na cozinha do programa a alegria e a inventividade têm presença constante, no cotidiano das quatro mulheres a necessidade freqüente deixa pouco espaço para a criatividade culinária.
Nas palavras de todas as telespectadoras, a morada é um sonho que esteve sempre presente em suas vidas. Mas elas não parecem se incomodar com a diferença real entre seus barracos e o cenário luxuoso do Mais Você. Espaçosa, confortável, iluminada: os adjetivos não importam muito. As entrevistadas desejam simplesmente “a casa” que só o futuro pode trazer.
Por tudo isso, a arte cotidiana das quatro telespectadoras de Ponta Porã pode ser definida como o último recurso, nas palavras de Certeau (2005), diante da ausência de poder e das carências de todas as ordens. O dia-a-dia tranqüilo representado pelo Mais Você talvez alivie a rotina difícil que elas possuem. Assistir ao programa pode se constituir em atitude possível, uma astúcia capaz de captar opiniões, experiências e sentimentos de outras mulheres. Breves lampejos que parecem trazer auto-estima e forças para que as entrevistadas continuem tocando a vida para frente.
Depois que as telespectadoras assistiram às reportagens que tinham como personagens principais pessoas do sexo feminino, foi possível verificar que, a maioria das entrevistadas demonstrou perceber concepções variadas sobre a relação das mulheres com a feminilidade. Suas palavras indicaram que mesmo que o programa focalize o ambiente doméstico, mostrando principalmente donas de casa e mães, elas apreenderam o feminino como uma gama de possibilidades. As quatro telespectadoras também deixaram transparecer que vislumbraram no diálogo que estabeleceram com as reportagens elementos ou representações positivas que incentivam a mulher a buscar seu valor.
Assim, no cruzamento do conteúdo das reportagens e das entrevistas do Mais Você com os dizeres das telespectadoras, o estudo não verificou uma convergência de elementos que apontasse para a noção de que o programa enfatiza um modelo único de mulher. No entanto, as palavras das telespectadoras demonstraram as pequenas possibilidades que elas possuem de expressar suas opiniões e seus sentimentos, inserindo-se no âmbito social.
Assim, bem ou mal, de maneira profunda ou superficial, o programa abre um espaço historicamente negado às mulheres, retirando do ambiente privado a violência doméstica, trazendo à cena uma portadora de necessidades especiais, mostrando uma mãe com câncer em fase terminal ou apresentando mulheres simples e de gerações variadas. Ao contrário de reiterar um saber masculino, racional e científico, o Mais Você busca se fundamentar em narrativas conversacionais, centrando-se muitas vezes no emocional e no particular, fazendo com que as vozes das convidadas sejam ouvidas pelas telespectadoras.

Notas:
(1) Para informações complementares ver: ADORNO;HORKHEIMER. Dialética do esclarecimento.
(2) Rede Globo. Departamento Geral de Comercialização. Disponível em: <http://comercial.redeglobo.com.br>. Acesso em: 15 mar. 06.
(3) O Índice de Qualidade de Vida Urbana (I.Q.V.U.) é um instrumento de gestão urbana que permite à Prefeitura de Belo Horizonte identificar as regiões da cidade onde há menor oferta e acesso da população aos serviços de saneamento, limpeza, telefonia, energia elétrica, educação e outros. Informação retirada do site: <www.pbh.gov.br>.

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