



Guilherme Carvalho da Rosa
Mestre em Comunicação Social pela PUCRS
Docente da Universidade Federal de Pelotas (IAD/UFPel)
guilherme.rosa@vetorial.net

A investigação que propomos
aqui acompanha uma das preocupações centrais de determinadas
agendas de pesquisa em comunicação, sobretudo as que se dedicam
a observar as relações de comunicação e cultura.
Trata-se do desafio de pensar a circulação da cultura e a produção
de sentidos sobre a cidade em um tempo de crise da modernidade. O espaço
urbano torna-se um grande palco de conflito das estruturas da modernidade
com suas próprias certezas: mudam-se os modos de estar na cidade e
as maneiras de se produzir sentido sobre ela. Tal como uma das grandes narrativas
do moderno, a cidade também sofre um processo de deslegitimação
(Lyotard, 2004) e esfalecimento de suas certezas. Este panorama agonístico
se complexifica ainda mais quando procuramos pensar as cidades no espaço
cultural latino-americano por conta de considerarmos o descompasso temporal
historicamente construído e que exime a considerar desajustes e lapsos
do passado ao mesmo tempo em que se dialoga com a condição pós-moderna.
Esta breve preocupação teórica está presente como
motivação do trabalho que se destina a observar as circunstâncias
de recepção e produção de sentido a partir de
um documentário produzido por alunos do curso de cinema e animação
da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) no Rio Grande do Sul. O documentário,
chamado Olhares, é resultado de um projeto de extensão realizado
com os alunos e a primeira produção audiovisual do curso que
foi inaugurado em 2007. A produção é composta de recortes
sobre os espaços urbanos de Pelotas a partir da perspectiva dos próprios
estudantes. Foram 13 relatos e cada acadêmico pôde escolher um
espaço específico da cidade e retratá-lo com um depoimento
e imagens. Mesmo considerando o próprio documentário como motivador
deste estudo, nosso interesse de pesquisa não residirá na observação
do texto midiático. Para esta definição, faremos uso
da trajetória dos estudos culturais, especialmente a partir da contribuição
de Richard Johnson (2004, p. 35) que considera a perspectiva de produção,
circulação e consumo de produtos culturais e estabelece quatro
momentos interconectados para esta dinâmica: produção,
texto, recepção e culturas vividas. Mesmo pensando especificidades
para cada um dos momentos, Johnson pensa o diagrama de circulação
da cultura como uma relação de interdependência:
Cada momento depende dos outros e é indispensável para o todo.
Cada um deles, entretanto, é distinto e envolve mudanças características
de forma. (...) Todos os produtos culturais, por exemplo, exigem ser
produzidos, mas as condições de sua produção não
podem ser inferidas simplesmente examinando-os como “textos”.
(...) Para compreender as transformações, pois, nós temos
que entender as condições específicas do consumo e da
leitura. Essas incluem simetrias de recursos e de poder – materiais
e culturais. Também incluem os ensembles existentes de elementos culturais
já ativos no interior de milieux sociais particulares (“culturas
vividas”, no diagrama) e as relações sociais das quais
essas combinações dependem (Johnson, 2004 p. 33 e 34).
Tendo isto como um ponto de partida, localizamos
o interesse desta pesquisa em dois momentos específicos, interconectados
pelas relações culturais: (1) o momento da recepção
dos espaços urbanos e a partir daí a problematização
da experiência sobre a cidade, levando em conta tanto o panorama agonístico
do pós-moderno quanto à perspectiva das interculturalidades
e (2) o momento de produção do texto midiático e imagens
sobre os espaços urbanos, interpelado a partir das estruturas de sentido
e repertórios culturais e estéticos dos acadêmicos. A
idéia de estruturas de significado é recuperada a partir de
Stuart Hall e a proposição de seu modelo codificação/decodificação
(Hall, 2003 p. 391), onde estas estruturas, de certa forma, simbolizam as
referências identitárias e os repertórios culturais/estéticos
dos envolvidos. A grande questão deste momento seria perceber como
as mensagens sobre os espaços urbanos são reelaboradas desde
o momento da recepção até o momento da produção
de sentidos. Algo que é constituitivo desta ponte, a partir do olhar
teórico de Jesús Martín-Barbero, são as mediações
desta relação: as formas com que as mensagens são recebidas,
relacionadas com a vivência dos indivíduos e reapropriadas na
forma de outras mensagens.
2. Questões metodológicas
A opção metodológica central
neste trabalho é o desenvolvimento de uma dialética histórico-estrutural
que nos permite uma análise historicizada e ao mesmo tempo não
distante das circunstâncias estruturais do objeto. Esta relação
histórico-estrutural teve um papel constituinte nas opções
metodológicas dos estudos culturais, desde sua fase de formação
e desenvolvimento, a partir do trabalho de pensadores como Edward Palmer Thompson,
Raymond Williams e Stuart Hall. Houve um trânsito entre os dois paradigmas
teóricos: um estruturalismo herdado do pensamento marxista, apropriado
por E.P. Thompson e um culturalismo com uma característica fortemente
historicizada a partir das reflexões de Williams. Estas duas posições
estiveram em uma constante dialética (Hall 2003, p. 148) e, de certa
forma, foram moldando os caminhos teórico-metodológicos utilizados
pela tradição britânica dos estudos da cultura, apropriada,
em parte, pelo pensamento comunicacional latino-americano. Atrelado a este
modelo teórico-metodológico, opta-se pela realização
de uma aproximação com o objeto a partir da combinação
de algumas técnicas de pesquisa relacionadas com este foco específico.
Nosso plano de trabalho será composto
por dois momentos: (1) uma primeira observação com os estudantes
a partir da realização de enquetes e o cruzamento destes dados
com outros repertórios empíricos presentes e (2) a realização
de entrevistas em profundidade com o grupo de estudantes para uma análise
de maior fôlego teórico. A escolha deste procedimento não
está dissociada desta trajetória teórico-metodológica
dos estudos da comunicação e cultura e procura apropriar práticas
com uma clivagem antropológica a partir de uma intenção
etnográfica para com o objeto de pesquisa. Observando as tensões
presentes entre a discussão da prática etnográfica a
partir de outras áreas que não a antropologia tradicional, deixamos
clara nossa opção pela compreensão de uma antropologia
interpretativa, fundada a partir do pensamento de Clifford Geertz que a partir
da interpretação das culturas, coloca o pesquisador em uma posição
mais dialógica e decididamente específica de compreender a impossibilidade
de fornecer grandes relatos sobre uma determinada sociedade, mas possibilitar
a compreensão de seus conflitos a partir de suas fronteiras, tensionamentos
e deslocamentos. Esta posição é ressaltada por García
Canclini (2006a, p.142) como necessária para compreensão das
sociedades contemporâneas, sobretudo quando nos referimos aos descompassos
latino-americanos.
Como tratamos aqui de um relato parcial de pesquisa,
neste texto, faremos referência aos resultados do primeiro momento de
pesquisa com a realização das enquetes com os alunos e o cruzamento
destas falas com outros repertórios empíricos. Estes repertórios
são formados pelas experiências de um dos pesquisadores que é
docente do grupo de alunos e são compreendidos como elementos de pesquisa
a partir da relação de participação/observação
colocada pela etnografia de caráter interpretativo. De modo que as
falas dos estudantes, focadas a partir dos instantes de recepção
dos espaços urbanos e produção das mensagens, serão
interpeladas, a medida do necessário por estas experiências empíricas.
A estrutura deste texto será composta pela enunciação
de duas revisões teóricas necessárias ao empreendimento
destes estudos: a questão dos espaços urbanos como problemática
e a perspectiva das mediações para compreensão do processo
a ser observado. Em um momento final traremos alguns resultados parciais que
têm aqui o objetivo de nortear o desenvolvimento desta pesquisa enquanto
resultados preliminares.
3. Espaço urbano como palco de conflito
As noções de tempo se alteram.
As dinâmicas de trabalho e lazer nas grandes cidades assumem ritmos
frenéticos e descentrados. O trânsito reconfigura-se em uma impressão
de contínuo caos e contínua ordem. As praças e parques
não têm o mesmo uso de antigamente, não são referenciados
pelas pessoas com a mesma “centralidade” que ocupavam há
pouco tempo. Há dificuldade em construir meta-relatos em torno de monumentos
e obeliscos. Alguns dizem que o centro das cidades está morrendo. Estes
sinais empíricos, de certa forma, demonstram um panorama de crise consensual
entre aqueles que se dedicam a observar as percepções do moderno.
Desde o poeta Baudelaire e a figura de seu flâneur parisiense até
os dias de hoje, observamos os espaços urbanos como sinais visíveis
desta crise das narrativas do progresso e da utopia tecnológica. É
um fato que as estruturas que legitimavam e ordenavam o mundo estão
em profundo descrédito e declínio, como nos demonstra Jean François
Lyotard ao postular uma condição pós-moderna (2004).
Esta condição ocorre não apenas como a supressão
do antigo pelo novo, mas a partir de uma profunda problematização
do presente e uma perspectiva “pluralista que aceita a fragmentação
e as combinações múltiplas entre tradições,
modernidade, pós-modernidade, é indispensável para considerar
a conjuntura latino-americana” (García Canclini, 2006 p. 352).
Tal como um dos maiores símbolos do moderno, a cidade é um destes
grandes relatos que sofre uma profunda reconfiguração em suas
funcionalidades e sua organização simbólica. O espaço
urbano torna-se um grande palco do conflito das estruturas da modernidade
com suas próprias certezas: passamos de um local de participação
pública à participação mediada pela tecnologia
que muda nossa maneira de nos relacionar e de produzir sentidos sobre o mundo.
A trajetória das sociedades ocidentais
para a modernidade, sobretudo a dos grandes centros econômicos do hemisfério
norte, obedeceu, de certo modo, um caminho bem delimitado, pois era possível
perceber uma fase sucedida por outra fase, a partir das viradas simbólicas
e do advento do novo e do progresso. Isso era visível para os agentes
sociais que acompanharam a formação dos grandes centros urbanos
a partir das inferências da técnica no cotidiano. O automóvel,
o rádio, o telefone e outros inventos do século XX foram alguns
exemplos destas viradas simbólicas do novo como algo incontestável
e realizador de uma utopia tecnológica. As mudanças espaço-temporais,
causadas por estas grandes viradas, foram vivenciadas por um contingente significativo
das sociedades. Como demonstra Zygmunt Bauman (2005, p. 28), a trajetória
para a formação do estado-nação passou justamente
por esta via. Houve tempo para a formação dos grandes discursos
como o do estado-nação, o da divisão do trabalho e o
do espaço urbano como ápice deste tempo e materialização
de grandes promessas. Este discurso sobreviveu quase incontestável
a mais de um século e forneceu uma identidade nacional indelével,
que segundo Bauman “não reconhecia competidores, muito menos
opositores”. O próprio poeta Baudelaire, no século XIX,
é uma prova da vivência radical do moderno quando seu lirismo
descreve o descentramento e o deslumbramento na multidão como um “imenso
reservatório de eletricidade”:
O amante da vida universal entra assim na multidão como um imenso reservatório
de eletricidade. Pode-se compará-lo, ele mesmo, a um espelho tão
imenso quanto esta multidão; a um caleidoscópio dotado de consciência
que, em cada um dos seus movimentos, representa a vida múltipla e a
graça móvel de todos os seus elementos. É um eu insaciável
do não-eu que, a cada instante, o manifesta e o exprime em imagens
mais vivas do que a própria vida, sempre instável e fugidia.
(Baudelaire, 1993 p. 18)
Essa experiência do Pintor da Vida Moderna,
nada mais é do que uma preconização da experiência
urbana que viria a ser problematizada durante todo o século XX. Jorge
Larrain associa esta imagem do flâneur a vivência vital da modernidade
como uma experiência de fragmentação, mobilidade e mudança
social que “não apenas rompeu com o modelo do passado, mas também
foi caraterizada por um processo permanente de rupturas internas e fragmentação”
(Larrain, 2000 p. 16). O relato literário traz uma experiência
conectada com o que vivemos hoje no cotidiano das cidades: uma sensibilidade
estética sobre as coisas e diretamente relacionada com a questão
das identidades que assumem um caráter descentrado e “insaciável”.
Este episódio seria problematizado mais tarde a partir de Walter Benjamin
(1989 p. 54), que escreveu sobre Baudelaire, na mesma condição
que se colocou como um dos “primeiros a falar da metamorfose da percepção
em virtude do impacto da tecnologia moderna” (Santos, 2003 p. 153).
De forma que houve a possibilidade da percepção e mapeamento
dos conflitos decorrentes da segunda metade do século XX que paulatinamente
modificaram paisagens urbanas a partir das novas compreensões de tempo
e espaço. Conforme descreve Beatriz Sarlo (2000 p. 14) e Martín-Barbero
(2005 p. 289), as grandes vias de tráfego, por exemplo, que mudam as
paisagens das cidades e reconfiguram a experiência urbana, nada mais
são do que a emergência de um espaço de fluxos imediatos
que muda a experiência no sentido não apenas de permitir o acesso
rápido, mas de permitir outra experiência de cidade por resumi-la
apenas aos espaços de uso pragmático dos públicos e não
interpelar seus habitantes a outros espaços de diferença e não-uso.
Criam-se a partir daí múltiplas cidades e múltiplas noções
do espaço desde a daquele que utiliza o sistema de transporte coletivo
ao que pode ter seu próprio veículo.
Tendo em vista este quadro agonístico
de insatisfação com as narrativas do presente, ao situarmos
a questão a partir do espaço cultural latino-americano, precisamos
compreender a questão dos espaços urbanos de uma forma ainda
mais problemática. Isto porque os processos de urbanização
na América Latina obedeceram uma dinâmica diferente dos processos
do hemisfério norte por circustâncias históricas e caminhos
diferentes. Não foi possível estabelecer uma temporalidade comum
em vista de os processos de urbanização acontecerem de uma forma
absolutamente descompassada. Esta perspectiva e definida como a vivência
de uma modernidade tardia pelos países latinos expressa a partir do
trabalho como Jorge Larraín e José Joaquín Brunner, dois
autores chilenos que contribuíram para o pensar das sociedades latino-americanas
a partir de uma trajetória particular, que considerasse os inúmeros
descompassos de temporalidade e processos sociais a que os países foram
e são submetidos. O primeiro deles, Larrain, além de ter sido
um dos diretores do Centre of Contemporany Cultural Studies (CCCS) na cidade
de Birmingham, Reino Unido, desenvolveu uma pesquisa sobre identidade cultural
na América Latina através de seu livro Identity e Modernity
in America Latina (2000). Neste ensaio o autor propõe uma trajetória
específica dos países latinos para a vivência do tempo
moderno, evidentemente apoiada em fotos históricos politicamente comuns
e também os diálogos entre as diferenças. Larrain
desdobra este processo em cinco fases: (1) da independência até
1900 com a modernidade oligárquica, atrelada aos colonizadores, (2)
de 1900 até 1950 com a crise da modernidade oligárquica e a
insurgência da modernização populista, (3) do pós-guerra
até 1970 com a expansão das indústrias, (4) de 1970 até
1990 com o período das ditaduras e (5) de 1990 até os dias de
hoje com o neo-liberalismo e a vivência de uma modernidade tardia.
O que de mais importante há nesta trajetória é justamente
o fato de o autor identificá-la como específica, diferente,
sobretudo na temporalidade, da narrativa moderna européia e americana.
A partir desta idéia a modernidade latino-americana foi vivenciada
em um período de tempo diferente do modelo europeu. Absolutamente não
houve o mesmo tempo para vivência do moderno e a introdução
das sociedades neste paradigma ainda está acontecendo. Os processos
de independência dos países aconteceram de forma tardia e, no
caso do Brasil, a transição de sociedade rural para organização
urbana e industrial efetiva, na sua totalidade, em curto espaço de
tempo, a partir da segunda metade do século XX. Apesar desta grande
diferença temporal a mesma concepção do moderno ocidental
foi utilizada como paradigma político pelos países quando este
modelo oligárquico entra em crise. Como ressalta o autor, esta crise
acontece em concomitância com a primeira crise da modernidade européia
e o crash na bolsa de valores de Nova Iorque em 1929:
But the consequences of the crisis are specific to Latin America: the oligarchic
power begins to crumble, the so-called 'social question' comes to the fore,
new populist regimes emerge wich widen the franchise and incoroporate the
midle classes into government, and process of import-substituting industrialization
are initiated. Thus, while in Europe a crisis of liberal is experienced, in
Latin America it is the prevailing oligarchic and aristocratic export-oriented
system that enters into its terminal phase, and incipient industralization
process start whit some success. (Larrain, 2000 p. 22)
O que se pode observar neste contexto é
um grande choque entre o tradicional das sociedades latino-americanas com
a narrativa do moderno ocorrido em um curto espaço de tempo. Esta análise
do tensionamento entre tradicional e moderno é complementada através
da contribuição do segundo autor chileno, José Joaquín
Brunner, que propôs através de seu trabalho uma cartografia da
modernidade na América Latina. Um dos primeiros pressupostos de Brunner
é justamente o tensionamento entre o tradicional e o moderno não
como oposição, mas como temporalidades que coabitam (Brunner,
1994 p. 25).
Uma das questões centrais deste olhar
são as relações entre tradição e modernidade
que estão presentes de forma contundente na questão urbana e
influem na forma como a cidade é imaginada. Há uma imensa narrativa
da cidade como legado inconteste e centro das tradições e relatos
de sutura que dialoga com outras posições modernas e pós-modernas.
Esta relação longe de ser algo resolvido com a supressão
de um tempo pelo outro significa uma constante negociação entre
modernidade e tradição. Isso se torna visível a partir
da paisagem urbana dos grandes centros que conjuga construções
do século XIX, nas cidades mais antigas, com grandes plantas arquitetônicas
que vão modificando a paisagem simbólica de alguns bairros e
impondo estilos de vida destoantes com o mapa das cidades como um imenso labirinto
para o mero encontro e desencontro. Casas com telhas de barro estão
lado-a-lado com edifícios, prédios históricos são
convertidos em modernos centros econômicos e tecno-igrejas e os novos
planos urbanos de construção de vias para comportar o tráfego
sufocante que entram em conflito com a desordem dos espaços de lazer
publicamente constituídos são alguns dos exemplos desta relação.
Há uma constante negociação entre as tradições
como narrativas e os desafios do moderno e também várias concepções
de tradição a partir da vivência de uma temporalidade
específica na América Latina. García Canclini coloca
esta idéia quando fala sobre o desdobramento do popular no moderno,
no sentido de rejeitar sua simples oposição e complexificar
esta assimetria:
O conflito entre tradição e modernidade não aparece como
o sufocamento exercido pelos modernizadores sobre os tradicionalistas, nem
como a resistência direta e constante de setores populares empenhados
em fazer valer suas tradições. (...) Ante essa necessidade recíproca,
ambos se vinculam mediante um jogo de usos do outro nas duas direções
(García Canclini, 2006 p. 277).
Não se trata apenas do fim desta grande narrativa, mas sua constante
problematização a partir da vivência da condição
pós-moderna. Esta perspectiva é colocada nesta pesquisa a partir
desta sua condição complexificadora do cotidiano, a partir do
caminho que oferecem autores como David Harvey e Frederic Jameson que permite
pensar o pós-moderno no sentido de problematizar e não suplantar
o tempo moderrno. A partir da sensibilidade de Martín-Barbero para
este tema, compreendemos que a cidade, tal como uma grande narrativa do moderno,
é lugar onde esta problematização é visível
em todos os seus desajustes. Historicamente constituída a cidade concretiza
as idéias de desenvolvimento que as diferentes sociedades comportam
e com isso faz com que suas fraturas fiquem mais expostas. A marginalização,
os conflitos, a impressão de caos e ordem, o comércio informal
e a circulação de produtos culturais nestes contextos são
sinais de fratura social que apresentam mais complexificação
do que as políticas públicas alcançariam. Neste sentido,
por exemplo, a idéia de medo presente no imaginário das cidades
é apresentada por Martín-Barbero como algo que vai além
da existência das ameaças da rua e está ligada a narrativa
simbólica da cidade e aos pontos de coesão identitária,
muito mais do que a iminência do perigo:
Medos que provém secretamente da perda do sentido de pertencer, em cidades nas quais a racionalidade formal e comercial foi acabando com a paisagem na qual se apoiava a memória coletiva, nas quais a normalização das condutas, tanto quanto a dos edifícios; levam a erosão das identidades, e essa erosão acaba roubando-nos o piso cultural, arrojando-nos ao vazio. Medos, enfim, que provêm de uma ordem constituída sobre a incerteza e a desconfiança que produz no outro, qualquer outro – étnico, social, sexual – que se aproxima de nós na rua e é compulsivamente percebido como ameaça (Martín-Barbero, 2005 p. 295).
Então, o tema espaços urbanos precisa ser compreendido a partir desta complexidade do simbólico e do não-aparente. Boa parte dos problemas urbanos costuma ser compreendido a partir de um encadeamento aparentemente lógico: há violência porque não há emprego. No entanto, pouco estão consideradas as possibilidades da violência também sustentar motivações culturais e simbólicas que vão desde a necessidade de socialização até o acesso a espaços de expressão e prática cultural dos sujeitos. Mesmo não sendo este o foco deste ensaio, o que queremos dizer é que nossa compreensão da questão dos espaços urbanos acontece a partir da consideração deste jogo de relações simbólicas nas maneiras de se narrar e imaginar a cidade.
4. A perspectiva das mediações
Responsável pela obra “Dos Meios
às Mediações”, originalmente lançada em
1987, na qual se percebe o desenvolvimento da pioneira perspectiva das mediações,
Martín-Barbero é referência indiscutível em estudos
de recepção na América Latina. Depois de passar por uma
análise crítica de alguns modelos de comunicação
clássicos, do reducionismo ideológico de Lasswell às
concepções limitadas – embora mais consistentes –
de Shannon e Weaver, e com forte ênfase na cultura e na política,
o autor estabelece um deslocamento “dos meios para as mediações”.
A proposta remete aos lugares de fala de cada
pessoa, os quais demarcam uma forma particular de observar, interpretar e
produzir sentido. Conforme afirma Martín-Barbero, “(...) na leitura
– como no consumo – não existe apenas reprodução,
mas também produção, uma produção que questiona
a centralidade atribuída ao texto-rei e à mensagem entendida
como lugar de verdade que circularia na comunicação” (1997,
p.291).
É importante averiguar, portanto, em
que condições as falas estão sendo constituídas
e construídas. Estas “posições de enunciação”
(HALL, 1996) são individuais e baseiam-se em um contexto particular
e, ao mesmo tempo, público, ou seja, referem-se à identidade
cultural de cada pessoa a qual, cabe ressaltar, consiste em um processo sempre
em construção, pois interage com o social.
Sob essa perspectiva, Martín-Barbero estabelece três lugares
de mediação, a saber: “a cotidianidade familiar, a temporalidade
social e a competência cultural” (1997, p.292). Para o autor,
com relação ao primeiro caso, na América latina, as pessoas
se reconhecem na televisão e, no Brasil, isso não é diferente.
No entanto, para que essa situação possa ser entendida, faz-se
necessário estudar o cotidiano dessas famílias.
O segundo caso aborda a ligação
entre os tempos de produção e as rotinas cotidianas de recepção.
Já o último aspecto refere-se às mais variadas bagagens
culturais dos componentes da esfera receptiva (particulares, individuais),
o que corrobora para um modo específico de ver/ler, interpretar e usar
os produtos da cultura midiática.
Contribuindo para o desenvolvimento desta pesquisa,
Orozco Gómez (2000) sinaliza cinco correntes de investigação,
a saber: Efeitos, usos e gratificações, criticismo literário,
estudos culturais e análise crítica de audiência. Enquanto
as duas primeiras identificam-se com o paradigma positivista, as três
restantes têm ligações com o hermenêutico.
No cerne de seus questionamentos, a corrente
dos efeitos apresenta a preocupação em saber o que acontece
com os receptores expostos a uma determinada mensagem. “Que fazem
os meios (ou a mensagem) com a audiência?” Conforme Orozco Gómez
(2000, p.53), “se admite que haja efeitos a curto, médio e longo
prazo (...) há efeitos muito importantes e menos importantes (...)
e uma vez que se manifestam permanecem, são irreversíveis e,
outros, são momentâneos”.
A corrente dos usos e gratificações
inverte a questão anterior. Agora, interessa saber o quê as pessoas
fazem com o meio, como se apropriam deste, o que deixa clara a noção
de receptor ativo. Este possui necessidades e expectativas, que são
individuais, variam de indivíduo para indivíduo.
Por sua vez, o criticismo literário relaciona
“os estudos sobre semiótica, temática sintática
e as novas correntes alemãs e francesas da estética da recepção”
(OROZCO GÓMEZ, 2000, p.56). Esse modelo tem como objetivo saber o que
é produzido a partir do contato entre um leitor e um texto.
Já os estudos culturais indaga qual a
função da cultura na interação meio-mensagem-audiência
(OROZCO GÓMEZ, 2000). A cultura é o centro, o lugar onde perpassam
as relações de poder. A comunicação não
se entende fora da cultura. Logo, pretende-se saber como intervém a
cultura na interação mídia/receptor.
Portanto, sendo ativo e dono de uma cultura
particular, o receptor produz códigos culturais: a reprodução,
em que aceita tudo o que recebe, o que o constitui em uma espécie de
cúmplice do pensar hegemônico; a negociação, quando
aceita algumas partes daquilo a que está exposto e outras não;
e a resistência, processo em que não há aceite de propostas
de sentido oriundas da mídia, o que acarreta uma produção
alternativa ou contraproposta. Para Orozco Gómez, a possibilidade reinante
no processo de recepção dos meios é a negociação
(2003) [1].
A última corrente – a análise
crítica de audiência – implica estudar os meios culturalmente.
É feita uma abordagem completa da audiência. O receptor é
o elemento principal. A interação com o meio consiste em um
processo muito complexo onde interagem diversos elementos como o meio, a mensagem,
a interação, o receptor, a cultura, o sistema social, o discurso
do receptor etc. (2000; 2003).
Na concepção de Orozco Gómez,
a perspectiva das mediações implica levar em conta toda uma
soma de fatores, que pode causar influência no processo de produção
de sentido dos receptores, tais como a identidade particular de cada um, a
família, a escola, o grupo de amigos, o bairro, o trabalho, a cidade,
os meios de comunicação e a disposição dos indivíduos
frente a estes, o nível de instrução, sexo, idade, etnia,
religião, salário, classe social, ideologia etc.
Assim, através dessa identidade construída
– e jamais acabada –, o receptor produzirá significados
próprios, particulares e individuais. A total apropriação,
a negociação ou até mesmo a resistência plena das
mensagens são decorrentes diretamente das diferentes mediações
anteriormente citadas.
Nessa realidade complexa, onde atuam diferentes
fontes e origens, a cultura é eleita “a grande mediadora de todo
processo de produção comunicativa” (OROZCO GÓMEZ,
2000, p.114). Portanto, a comunicação vai além dos meios.
Desloca-se para as mediações, que, por sua vez, são permeadas
pela cultura. Assim, todos os processos sociais são perpassados pela
cultura. Ela é o agente de mediação.
Essas mediações concretizam-se
em três práticas: a sociabilidade (formas de negociação,
de contato com os outros; práticas cotidianas de interação),
a ritualidade (ligada às rotinas – “repetição
de certas práticas”) e a tecnicidade (cada meio possui uma singularidade
que se remete ao suporte técnico) (OROZCO GÓMEZ, 1993; 2000).
Em sintonia com a proposta metodológica desta pesquisa, segundo Orozco
Gómez (2000, p.83), a investigação qualitativa “é
um processo de indagação de um objeto ao qual o investigador
alcança através de interpretações sucessivas com
a ajuda de instrumentos e técnicas, que lhe permitem envolver-se com
o objeto para interpretá-lo da forma mais integral possível”.
Ao contrário de antes, quando o instrumento de trabalho e a(s) técnica(s)
utilizada(s) guiavam a trajetória da pesquisa, agora há decisões
que vão sendo tomadas durante o período de investigação.
O líder é o sujeito investigador. Afirma-se, então, que
a presente pesquisa não possui a pretensão de ser uma estrutura
fechada, acabada. Pelo contrário, está aberta a eventuais mudanças
de rumo ao longo de sua caminhada.
Com relação ao tamanho da amostra, por experiência própria
embasada em anos de pesquisa, Orozco Gómez (2000) afirma não
ser necessário entrevistar mais do que 25 pessoas, pois, além
desse número, as informações novas obtidas são
mínimas. Para o autor, um número entre 10 e 20 entrevistados
pode ser suficiente para que se obtenha conhecimento. Não interessa
a quantidade, mas, sim, como se desenvolve o processo crítico dos receptores.
Pretendendo detectar posicionamentos, a proposta desta pesquisa ganha força
na metodologia qualitativa de investigação de Orozco Gómez
(2000; 2003). Não há o interesse, aqui, de generalizar os resultados,
mas, sim, verificar (não no sentido quantitativo) possibilidades e
anseios com base em uma amostra limitada.
5. Considerações parciais e vetores
de pesquisa
Nesta parte, iremos fornecer algumas considerações parciais
sobre a pesquisa sobre recepção de espaços urbanos com
os alunos do curso de cinema e animação da UFPel. É digno
de nota que estes direcionamentos têm o caráter exclusivo de
apontar vetores para o seguimento deste estudo e são resultado de uma
primeira aproximação com o objeto de estudos tal como explicamos
nos procedimentos metodológicos. Não existe a intenção
de oferecer uma análise aprofundada. Nossa preocupação
neste momento é fornecer direções para a pesquisa mais
do que propriamente materializar reflexões. O repertório empírico
que compõe esta parte é composto pela realização
de enquetes com seis estudantes participantes do projeto e o cruzamento com
algumas experiências do empírico, conforme especificado no início
do texto. O foco das enquetes com os estudantes foram os momentos de recepção
dos espaços urbanos e produção das mensagens com relação
à produção de sentidos sobre a cidade de Pelotas. Cabe
ressaltar também que o contato prévio com a discussão
do tema permitiu certa sensibilidade teórica para percepção
de alguns vetores potenciais, que procuramos elencar a partir deste momento.
5.1 O referencial do passado e o diálogo entre
tradicional e moderno
Algo que é recorrente na observação dos relatos dos estudantes
são os referenciais com passado para descrição do espaço
urbano. Esta consideração não pode ser vista como ocasional
se observarmos empiricamente o contexto da cidade de Pelotas. Com mais de
200 anos de história, a cidade foi uma das primeiras do Estado e possui
um grande conjunto arquitetônico de prédios históricos
que caracterizam seu espaço urbano. Historicamente, especialmente durante
o ciclo do charque que perdurou até o início do século
XX, o município foi um dos principais centros econômicos da região
sul. Esta dinâmica influenciou boa parte da organização
do espaço urbano e da arquitetura dos prédios de estética
erudita em vista da influência européia. Mesmo sem uma observação
mais aprofundada sobre este tema, é oportuno observar que a atenção
à questão histórica foi recorrente em quase todas as
falas dos estudantes. E esta questão, em boa parte das falas, não
se encontra essencializada: está sempre posta em conflito com outros
posicionamentos ligados à interpelação do moderno.
Temos avenidas inacabadas ou com trajeto alterado por conveniências
alheias ao bem público. As quais poderiam liberar o centro histórico
da cidade para que este pudesse ser desenvolvido. Temos atividades comerciais,
aqui cito os camelôs, inadequadas para qualquer cidade grande, dia a
pós dia matando os poucos empresários locais que ainda investem
na cidade. (Wagner Oliveira)
A cidade e Pelotas é um local no qual um passado importante impera,
ao passo de que as pessoas que nela vivem acabam perdendo-se no sentido de
que não sabem o que fazer primeiro, valorizar a história, ou
tentar construir o futuro. (Leonardo Peixoto)
Nestes dois casos é possível ver como se materializa esta
problemática do diálogo entre tradição e modernidade.
Sobretudo a noção de García Canclini para esta questão
como um “jogo de usos” (2006, p. 277), uma assimetria que continua
existindo entre as duas posições, mas de maneira mais intricada
e complexa. Este jogo de usos não coloca as duas posições
como uma simples oposição binária, mas compreende certo
dialogismo entre as duas posições. Ambas estão em constante
conflito, mas precisam negociar uma com a outra, compartilhar a mesma temporalidade
e encontrar uma lógica de desenvolvimento. Com a intenção
de traçar possibilidades, percebemos que estas questões históricas
encontram-se sempre em conflito por conta desta relação intricada
entre tradicional e moderno que exime que sejam compreendidos sobre o mesmo
tempo e não como a supressão de um tempo pelo outro. No relato
do estudante Wagner Oliveira é possível perceber alguns indícios
de uma das principais fraturas da modernidade tardia vivenciada pelos países
da América Latina, a partir do comércio informal em negociação
com o espaço urbano. Como demonstra Jorge Larrain (2000, p. 199), o
comércio informal é um dos sinais para compreensão da
trajetória específica latino-americana no momento em que tem
raiz na não-existência de um estado-nação capaz
de regular o sistema econômico que comporte os trabalhadores. Já
no segundo relato, do estudante Leonardo Peixoto, o conflito entre o tradicional
e o moderno está explícito e relacionado pelo próprio
estudante à necessidade de se pensar o futuro a partir do passado.
E o espaço urbano é o lugar onde estes desajustes são
materializados e percebidos pelos agentes sociais. Aí reside o interesse
deste estudo.
5.2 Espaços urbanos e mediações
Outro indício que pode apontar um caminho para o desenvolvimento da
pesquisa é a questão das mediações no espaço
urbano a partir do relato dos estudantes. Esta perspectiva abriu-se, especialmente,
a partir da circunstância de produção de sentidos sobre
os espaços, quando os estudantes perceberam que era possível
fornecer seus próprios relatos e suas próprias vivências
sobre determinados espaços urbanos. O projeto “olhares”
foi compreendido por alguns sobre esta perspectiva de oferecer diferentes
formas de leituras dos espaços e uma das experiências mais agradáveis
apontadas por eles, foi a de observar a percepção dos outros
colegas sobre espaços comuns.
A história contada de cada local esquece, invariavelmente, dos detalhes
e das histórias particulares vividas enquanto tal ou tal período
econômico acontecia ou quando algum prefeito construia uma ponte. Este
documentário busca mostrar de forma mais natural o que a cidade de
Pelotas é hoje, o que ela instiga nos seus cidadãos. (Leonardo
Peixoto).
Em um documentário no formato do olhares é interessante ver
que há diversos modos de ver as coisas, que cada um tem seu modo único
de interpretar o lugar retratado (Diego Souza).
Mesmo sendo uma visão particular de cada um dos participantes, as imagens
ali contidas representam a cidade de Pelotas e são um documento, contendo
a visão e opinião de estudantes, sobre partes da cidade onde
moram (Fábio Sinoti).
O que se pode perceber a priori é que
a prática de registrar o espaço urbano permite que este seja
codificado a partir de uma parcialidade, e que esta, ao invés de restringir
seu sentido, fornece várias parcialidades sobre um mesmo espaço
que é partilhado pelos estudantes. Cada percepção faz
com que haja pequenos olhares sobre uma determinada coisa, ao invés
de um grande meta-relato. Estes pequenos relatos são importantes se
oferecidos como uma forma de narrar a cidade “de uma forma mais natural”
como coloca o estudante Leonardo Peixoto. Esta perspectiva deve ser melhor
problematizada e o aporte teórico das mediações, fornecido
por Jesús Martín-Barbero, pode fornecer uma sensibilidade teórica
adequada ao desenvolvimento deste vetor de pesquisa.
Notas
1. Esta categorização do sujeito receptor assemelha-se muito
àquela desenvolvida por Hall (1980). No entanto, ao invés de
“reprodutor”, Hall utiliza “dominante”; no lugar de
resistência, este usa o termo “oposição”.
O termo “negociação” é trabalhado pelos dois
autores.
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