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PARTE II - TRABALHO INFANTIL EM REDE: UMA ABORDAGEM COMPLEXA
2 - NOVAS MEDIAÇÕES, NOVAS RELAÇÕES SOCIAIS E NOVA INFÂNCIA

2.4 - Adultização precoce e NTIC

2.4.2 - Televisão e sexualidade



      As crianças hoje são, literalmente, bombardeadas por informações que estimulam a exageradamente a sexualidade, prova disso é que, nos Estados Unidos, crianças e adolescentes estão expostos a cerca de 14.000 referências ligadas a sexo durante o ano, sendo que,
a atividade sexual apresentada, raramente ocorre entre cônjuges, raramente demonstra a escolha da abstinência sobre o ato, com pouca freqüência alude à contracepção e, com grande freqüência contém elementos de coerção, degradação ou exploração (RIO GRANDE DO SUL, 1998, p. 20).
      A preocupação dos pais com a exposição de seus filhos a determinadas informações da mídia é demonstrada pela passagem a seguir44, que traz à tona resultados de uma pesquisa feita em seis grandes cidades do Brasil:
Os pais apontaram como principal problema a questão da antecipação de temas como homossexualismo, traições, subornos, violência, uso de drogas e prostituição, o que segundo eles reduzem o período de inocência, e pode gerar problemas comportamentais no futuro (RIO GRANDE DO SUL, 1998, p. 32) [expressão grifada por nós].
      O fenômeno da adultização precoce passa não só pela exposição das crianças a determinados temas como a violência e a sexualidade, como também pela própria erotização da imagem da criança. Quanto a isso, os dados apontaram que
há muita crítica quanto à erotização do corpo infantil, sendo rejeitados os programas que incentivam apresentação de clones da Xuxa e da Carla Perez, assim como aqueles que utilizam meninos imitando Michael Jackson, situação em que há uma grande valorização da beleza e do corpo em detrimento de outras atividades que exigem estudo e disciplina (RIO GRANDE DO SUL, 1998, p. 37).
      Ainda neste sentido, segundo os pais consultados,
a sensualização da criança tenderia a estimular a iniciação sexual precoce, assim como a pedofilia. A exploração comercial deste tipo de atração pelas emissoras se apresenta como algo constantemente abordado de forma crítica pelos adultos junto a seus filhos (RIO GRANDE DO SUL, 1998, p. 38).
      As NTIC adultizam precocemente as crianças ao impulsionar o fim da inocência e estimular a sexualidade. Fato que retroage sobre a sociedade, que passa a não identificar a infância mais como um período privilegiado de proteção, como uma fase diferente da fase adulta. São inúmeras as possibilidades inusitadas e cada vez mais intensas de adultização, pois a visibilidade desmantela o que é virtual, fato que ocorre tanto com adultos como com crianças, cujas realizações passam pela erotização precoce, pelo aumento nos casos de pedofilia, de abuso sexual e pela gravidez cada vez mais precoce, por exemplo.
      Devido ao fato de ser impossível isolar as nossas crianças do bombardeio de informações a que estão expostas diariamente na escola, na casa de amigos, ou mesmo em casa, na frente da TV, o diálogo com as crianças é uma saída, uma estratégia voltada à formação de telespectadores críticos, porquanto
a TV é outro espaço de relações e de brincadeiras para a criança. Os pais têm de explicar por que acham determinada programação inadequada. Proibir torna o programa ainda mais atraente (RIO GRANDE DO SUL, 1998, p. 38).
      Porém, diante do excesso de compromissos, da necessidade de que os pais saiam de casa para trabalhar e das longas jornadas de trabalho, o tempo para o diálogo é reduzido. Prova disso é que, para 30% das famílias brasileiras a televisão representa o principal veículo informativo sendo, para 28%, o principal veículo formativo, e mais, 40% apontaram ser esta a principal forma de entretenimento, pois oferece um conjunto de programações a custo zero. O agravante dessa exposição é que, em mais da metade dos casos investigados, a família não exerce nenhum tipo de controle sobre a audiência televisiva, e não há, em 46% dos casos, nenhum tipo de fiscalização sobre o horário limite para que as crianças assistam televisão (RIO GRANDE DO SUL, 1998).
      É preciso levar em conta que a televisão45 é uma mediação que tem uma penetrabilidade muito maior do que a Internet, devido ao seu menor custo, sobretudo nos países em desenvolvimento como o Brasil, e junto a famílias das periferias da cidade. Neste sentido, a adultização precoce da criança estimulada pela mídia, sobretudo pela TV, cujo acesso é mais facilitado a todos, é permeada por um ponto em comum: a questão econômica. Há uma relação inversa entre o segmento social e o tempo de permanência diante do televisor, e, quanto mais baixa for a renda das famílias e menores as possibilidades de lazer e entretenimento, mais tempo as crianças ficam expostas à televisão. A opção de escolher programas de maior qualidade, tendo em vista o acesso mais restrito a canais fechados fica também prejudicada.
      Da mesma forma, quanto mais pobre a família e maior a exposição à violência urbana, tendo em vista o risco de viverem nas periferias das cidades, mais tempo ficam em casa (até para escapar desses riscos) e mais expostas à violência e à erotização apresentada na TV estarão. Ou seja, junto às classes menos favorecidas, a tevê é vista como uma alternativa que reduz os riscos do mundo exterior, como a violência.
      Embora agravada pela pobreza material, que está na origem também do desconhecimento sobre a "planta infância", a adultização das crianças hoje, ocorre independentemente de segmento social. Longas jornadas de trabalho e ausência de tempo dos pais para estarem com os filhos é algo comum a todo e qualquer segmento social. E são as novas mediações que, ao complexificarem as relações humanas, aproximam os segmentos sociais, pelo menos no que diz respeito às condições de construção da infância de seus filhos, mesmo que, dialogicamente, mantenham-se as diferenças entre essas condições.



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