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PARTE II - TRABALHO INFANTIL EM REDE: UMA ABORDAGEM COMPLEXA
2 - NOVAS MEDIAÇÕES, NOVAS RELAÇÕES SOCIAIS E NOVA INFÂNCIA

2.4 - Adultização precoce e NTIC

2.4.1 - Televisão e infância

2.4.1.1 - Comunicação imagética e construção social da infância



      O acesso das crianças aos segredos do mundo adulto, sobretudo através da comunicação imagética, modifica a infância e a própria visão do adulto sobre esta fase da vida. O desenvolvimento infantil com seus estágios não foi inventado pela alfabetização, mas descoberto por ela, ao segregar informações e conservar determinados segredos a serem desvendados gradativamente com o avanço da alfabetização e com o acesso da criança à escola. Se características da infância necessitam ser despertadas e, sobretudo, garantidas pelo entorno social, o novo ambiente informacional tensiona essas características, modificando-as e complexificando-as.
      A infância, do ponto de vista sistêmico, é como uma parte inscrita em diversos todos, em diferentes ambientes que precisam "necessitar" da infância, caso contrário, ela não encontrará as condições para existir, ao menos não da forma como a temos concebido, como um período de cuidados extremos, privilegiado na sua formação e que requer proteção, pois
a infância é análoga ao aprendizado da linguagem. Tem uma base biológica, mas não pode se concretizar a menos que um ambiente social a ative e alimente. Se uma cultura é dominada por um meio de comunicação que requer a segregação dos jovens para que aprendam habilidades e atitudes antinaturais, especializadas e complexas, então a infância emergirá, articulada e indispensável. Se as necessidades da cultura não a exigem então a infância continua muda (POSTMAN, 1999, p. 158).
      A comunicação pela imagem dispensa a codificação antes imposta pela escrita, dispensa, também, a necessidade de alfabetização da criança para o acesso a determinados segredos, o que aproxima o mundo adulto do mundo infantil. Os programas mexem com aspectos latentes no ser humano, desejos, sexualidade, amor, ódio, entre outros, e são trazidos para as crianças sem contextualização e discussão crítica (VANNUCHI, 2003). Neste sentido, a tevê recria as condições existentes na Idade Média, período em que a infância, como uma categoria social, manteve-se obscurecida.
      Retomando a metáfora da infância como uma planta a ser cuidada, e relacionando o perfil do adulto às suas experiências na infância, Damásio (2001) chama a atenção para a interligação entre razão e emoção, refere a importância de dar-se atenção para a vulnerabilidade do mundo interior do homem, para a constituição de sua racionalidade, ou seja, da função atribuída às emoções no desenvolvimento da racionalidade. Os sistemas educativos deveriam preocupar-se com os tipos de emoções a que são expostas as crianças pelas mídias, sobretudo, com a violência da vida real, com os noticiários e a ficção audiovisual, que desvirtuam o valor das emoções na aquisição e desenvolvimento de comportamentos sociais adaptativos.
      A violência crua, apresentada sem um enquadramento moral, só reforça uma ação de insensibilizar a emoção. Retroage sobre a criança contribuindo para a construção social de um adulto violento, pois
a exposição repetida a qualquer estímulo provocador de emoções sem as subseqüentes conseqüências leva a dessensibilização. A exposição constante à violência da mídia atenua a reação a ela com o passar do tempo [...] não apenas ocorre um decréscimo na reação à violência, mas também há uma falta de solidariedade para com as vítimas dos ataques (RIO GRANDE DO SUL, 1998, p.19).
      Expor as crianças dessa forma é como regar a planta, "planta infância", com combustível explosivo e não, com água e oxigênio.
      Porém é preciso enfatizar a virtualidade associada à tevê, bem como a todas as NTIC, pois, assim como adultizam precocemente, abrem inúmeros possíveis a informações e a uma formação sadia das crianças e adolescentes. A infância, bem como o próprio fenômeno do trabalho infantil, é construída através de práticas que são, ao mesmo tempo, antagônicas, complementares e concorrentes. As lógicas que estão por trás da construção desses fenômenos são necessariamente interdependentes. A tevê, neste sentido, é, ao mesmo tempo, aliada e inimiga da infância.
      A tevê permite conhecer outras culturas, outros mundos, os próprios programas infantis, a sofisticação do visual, do estético que traz maior estímulo à criatividade, são provas disso. São inúmeros os aspectos positivos da exposição da criança às informações advindas da tevê, como o estímulo a habilidades cognitivas, visto que esta mediação desenvolve o vocabulário, a visão espacial e o raciocínio matemático, e ainda, o estímulo à criatividade, ao instigar para a resolução de problemas. O acesso ao conteúdo acadêmico, já que são inúmeros os programas (sobretudo de TV fechada) que abordam diversas áreas do conhecimento, permite que estudantes adquiram interesse por esses assuntos.
      A TV desenvolve também o comportamento social43, visto que muitos desenhos e programas despertam a criança para valores da vida em sociedade, tais como a cooperação, a solidariedade e a persistência na realização de tarefas. E, por fim, encontramos os programas que estimulam a prevenção da saúde, com campanhas que promovem hábitos de higiene e o combate a doenças (VANNUCHI, 2003).
      Porém, entre os efeitos negativos advindos do uso da tevê, podemos destacar os problemas físicos, decorrentes do sedentarismo que, associados à má alimentação (alimentação precária...), resultam na obesidade, no aumento de colesterol, além de outros problemas como a insônia.
      Tal é o tamanho do problema que recente relatório do instituto de medicina dos Estados Unidos sobre obesidade infantil alertou aos pais, anunciantes e à indústria alimentícia a necessidade de se tomar providências, pois:
Aproximadamente 9 milhões de crianças e adolescentes de mais de seis anos de idade são consideradas obesas nos EUA. Segundo o relatório, os pais devem incentivar as refeições saudáveis e a prática de exercícios e devem também limitar o tempo das crianças na frente da TV ou do computador em duas horas por dia, ou menos (OBESIDADE Infantil preocupa os EUA, Zero Hora, 01 out. 2004, p.35) [expressão grifada por nós].
      Entre os efeitos psicológicos associados à tevê, destacam-se a tendência à imitação, à submissão, ao isolamento ou à apatia, além do aumento da agressividade e do consumismo e a falta de organização. Além disso, há efeitos negativos que refletem sobre o processo pedagógico, como a diminuição no exercício de pensar e da capacidade crítica, a dificuldade para ordenar o pensamento e estabelecer relações, a tendência a dar respostas estereotipadas, a inibição da curiosidade, a dispersão e a dificuldade de concentração. E, por fim, a falta de iniciativa e interesse por atividades com baixo grau de estimulação externa (VANNUCHI, 2003).
      No item a seguir demonstrarei em que medida o acesso à tevê vem estimulando a atividade sexual precoce, ante o novo ritmo de vida que modifica as relações intra-familiares.



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