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PRIMEIRO CAPÍTULO
Transformações

Águas Revoltas

      Quase toda a superfície do planeta Terra está coberta por água: água dos oceanos, água dos rios e lagos, arroios e sangas. Água das calotas polares em forma de gelo, água da chuva, muita, muita água... Mas, na realidade nem tudo é azul (a cor que cobre a Terra - devido à água - quando é vista do espaço), porque toda a água do planeta (1.370.000.000 km³) é constituída basicamente de dois tipos: água salgada dos mares e água doce dos rios, lagos e subsolo. Mas o mais importante, a saber: a água salgada ocupa 97% do total, o que vem a ser impossível para o consumo.
      Quando somos estudantes aprendemos como se formam as nuvens e como a água retorna à Terra. A isto chamamos "ciclo das águas" onde a evaporação é o primeiro estágio quando uma imensa massa d´água dos oceanos é levada à atmosfera em forma de vapor d´água, ali é resfriada e condensada, surgem assim as nuvens.
      Com a gravidade, acontece a precipitação dessas águas das nuvens, a conhecida chuva, a encantadora neve (para os brasileiros) e, ainda, o granizo ou geada sobre os continentes e oceanos. Quando congelada, ao invés de se retrair, como acontece com a maioria das substâncias, a água se expande e flutua sobre a parte líquida por ter se tornado mais leve. Ao cair na superfície terrestre, a vegetação se encarrega de reter em suas raízes esses nutrientes que, aos poucos, voltam para o ar em forma de transpiração das plantas. Mas, uma outra parte é evaporada dos lagos, pântanos e rios; mais uma se infiltra no solo e fica conhecida como água subterrânea; e uma terceira, a menor parte dela, conhecida como água superficial, escoa pelos rios, córregos, sangas e igarapés. E assim sucessivamente. A natureza é sábia e justa, senão, vejamos: quando a água escapa para a atmosfera em forma de evaporação, a transpiração é compensada com a precipitação. Essa diferença entre volume de água que cai e volume de água que evapora é de cerca de 45 mil quilômetros cúbicos por ano - o que, em tese, o ser humano poderia gastar. Só que, desse total, apenas 20% é aproveitável.
      A água utilizável está nos rios, nos lagos, nas águas da chuva e na água subterrânea. No entanto, elas todas juntas correspondem a apenas 1% do volume de água doce.



      Se juntarmos 1,5 litro de água, como a encontramos no planeta, e a dividirmos proporcionalmente, a quantidade de água doce disponível seria equivalente a uma única e insignificante gota. E para complicar tudo, esse pouco que nos resta está cada vez mais poluído, especialmente nas grandes cidades.
      O problema está no aumento da população mundial. Só no século passado este aumento triplicou o que ocasionou o aumento de fábricas, mais desperdício e mais irrigação nas lavouras. De acordo com o Banco Mundial, cerca de 80 países enfrentam hoje problemas de abastecimento. A situação mais crítica está na Ásia onde, 60% da população vive com apenas 32% da água doce disponível. O crescimento da população mundial e da produção, associado ao consumo insustentável, impõe pressões cada vez mais intensas sobre o meio ambiente. Torna-se necessário desenvolver estratégias para mitigar esses impactos, pois está prevista uma população superior a oito bilhões de pessoas para o ano de 2020: 65% em áreas litorâneas e 60% em cidades com mais de 2,5 milhões de pessoas. É verdade que a utilização da provisão de água aumentou enormemente em um curto período de tempo: enquanto a renovação não alterou o nível dos recursos hídricos, de 1900 a 1995 a quantidade utilizada aumentou para seis vezes mais (duas vezes mais o índice de aumento populacional) e duas vezes mais desde 1975. A agricultura absorve uma média mundial de 70% das provisões de água, uma porcentagem que aumenta para 80 a 90% nos países subdesenvolvidos. Aí encontramos uma média de 20% para a indústria e 10% para usos domésticos e outros. Têm-se em média o consumo de água no mundo: 60 litros de água em uma ducha de 15 minutos; 350 litros para um banho de imersão; 3 litros para escovar os dentes sem fechar a torneira; 140 litros para lavar e enxaguar 10 quilos de roupas; 60 litros (a cada 15 minutos) para lavar a louça sem fechar a torneira e 100 litros (a cada 25 minutos) para lavar o carro sem fechar a torneira.



      Hoje em dia, apesar do conceito jurídico de bem de uso comum do povo, a água é um recurso, para muitos, de valor econômico. Isto resulta do crescimento da demanda por água para os diversos usos, que acompanha o desenvolvimento urbano e industrial dos países. No entanto, um bem só tem valor econômico quando precisa de algum trabalho para existir. O trabalho humano é o que dá valor de troca a um bem. A água está pronta na natureza, é um dom de Deus para o homem e todo o ser vivo. Não é propriedade particular de ninguém.
      Nos dias de hoje, os grandes problemas ligados à água não acontecem por causa da natureza, mas sim da má utilização com desperdício e imprevidência, como em Londres, onde devido as fugas dos velhos canos e dutos são perdidas águas que poderiam encher, diariamente, 300 piscinas olímpicas. Bem como a poluição generalizada que ameaça o meio ambiente.
      O Código de Águas, a lei maior que disciplina o aproveitamento das águas no Brasil é de 10 de julho de 1934, já tem certa idade, mas nem por isso deixa de ser atual porque classifica as categorias jurídicas, discrimina os usos da água e respectivos preceitos e, sobretudo: procura assegurar os interesses gerais da sociedade. No antigo código era possível encontrar domínio privado da água em alguns casos, mas isto foi extinto a partir de outubro de 1988, quando todos os corpos d´água passaram a ser de domínio público.
      O homem não pode discutir a importância da água, porque desde que formamos nossa consciência sabemos disso. Durante os nove meses em que estivemos no útero de nossa mãe, vivemos confortavelmente flutuando, como astronautas em suas naves, num líquido transparente, morno, esperando o momento em que teríamos contato com a atmosfera.
      A qualidade da água também merece destaque já que doenças são evitadas quando do uso de água descontaminada. A qualidade da água decidiu a sorte de algumas regiões em todo o mundo em caráter econômico, principalmente em relação à fabricação de cervejas, onde criaram nome a Stout, de Dublin, a Porter, de Londres e a Pilsner, de Pilsen. Mas não é só no ramo das cervejarias que a pureza da água é importante, ela é necessária também nas indústrias de tapeçarias, em curtumes, na indústria de tecidos e nas pedras preciosas. A opala, considerada a rainha das pedras preciosas, não passa de areia e água. Sua formação acontece em baixas temperaturas, quando as águas subterrâneas lixiviam o silício do solo. Durante a evaporação, as águas deixam a pedra preciosa no interior do solo. Por essa razão é considerada mística, e muitos lhe atribuem poderes "mágicos". No entanto pode ser destruída se perder a água após aparecerem minúsculas bolhas que, aumentando, tomam toda a superfície e ela se desfaz completamente.



      O homem sempre se preocupou com a água. Já há 4.000 anos a.C. , as primeiras leis que se tem conhecimento eram códigos que regulavam o uso das águas, escritas pelos sumérios. Mas, nem todas as civilizações foram cuidadosas quanto a isso. Os Maias tiveram que abandonar a cidade de Tical, localizada em plena mata tropical, onde se encontram as ruínas da Pirâmide do Sol, porque não souberam armazenar corretamente a água, além de produzirem erosões cada vez maiores e grandes desmatamentos porque usavam madeira até nas estruturas internas das colunas de seus gigantescos templos.
      No México, na península de Yucatan, o deus da chuva, Chac, era reverenciado e, sempre que a água se tornava escassa, novos templos eram erguidos na esperança de que o deus das águas salvasse os Maias das secas. Durante muito tempo os arqueólogos explicaram que os canais que, freqüentemente conduzem da plataforma das pirâmides maias até as suas bases, eram destinados ao escoamento do sangue das vítimas que eram ali sacrificadas. Hoje, já existe a afirmação de que tais canaletas serviam para coleta de água das chuvas. São encontrados com freqüência, motivos do deus da chuva maia na base das pirâmides. A convivência com os rios trouxe sabedoria às populações ao longo do desenvolvimento da humanidade, os faraós, planejavam suas cidades deixando livres as áreas ribeirinhas.
      Desde tempos primórdios, a água sempre foi um dos reguladores sociais mais importantes. As estruturas das sociedades camponesas e das comunidades aldeãs, onde as condições de vida estão intimamente ligadas ao solo, eram organizadas ao redor da água. Eram raros os casos em que todos os membros de uma comunidade estivessem em um mesmo nível em relação à água - o acesso a ela quase sempre envolveu desigualdade. A palavra "rival" - ou rivalidade, de origem latina, rivus, corresponde à corrente ou riacho. O significado de um rival, portanto, é alguém que, da margem contrária, usa a mesma fonte de água. Daí a idéia de perigo ou de ataque. (O Manifesto da Água - R. Petrella).
      Isso nos faz compreender como os seres humanos se relacionam com a água e um com o outro devido à água.
      O homem, porém, levou muito tempo para se preocupar efetivamente com a qualidade da água - muitos até agora ainda não se deram conta de que, mais dia menos dia, estaremos enfrentando seria escassez, e continuam a lavar o carro com mangueira e a varrer a calçada com jatos d´água. Outros, ainda, jogam todo tipo de resíduos nos lagos, rios e riachos. Até quando?
      A água, esse mineral que tanto conhecemos e que faz parte de nós, existe há pelo menos 3,9 bilhões de anos. O "ser pensante", em poucas gerações, já conseguiu comprometer, não só a qualidade, mas, também, a quantidade desse manancial natural. Pode-se avaliar o grau de desenvolvimento de um povo pela qualidade da água e dos serviços de saneamento que são oferecidos à população. A capacidade de suporte para a vida humana e para a sociedade é complexa, dinâmica e varia de acordo como o homem maneja os recursos ambientais. É estranho que os sábios sacerdotes da antiguidade não tivessem percebido as correlações existentes entre o suprimento de água e a conservação das florestas. Naquela época, o plantio era privilégio somente dos príncipes, não passava por suas 'brilhantes' cabeças que seriam necessárias frentes de plantadores para reflorestar as terras devastadas. Há oito mil anos, o Brasil possuía 9,8% das florestas mundiais. No início do Século XXI, viemos a saber que estamos com apenas 28% e, o que é pior, dos 64 milhões de quilômetros quadrados de florestas existentes antes da expansão demográfica e tecnológica dos humanos restam menos de 15,5 milhões, cerca de 24%. Isto quer dizer que mais de 75% das florestas do mundo já desapareceram.
      A restauração dos recursos naturais degradados é mais difícil do que sua conservação; e, muitos deles, como a água, não se consegue restaurar, quando termina é para sempre.
      A aparente abundância de água na natureza talvez justifique, em parte, a negligência histórica dos seres humanos nas suas relações com os recursos hídricos. Sabemos que não existe tanta água potável disponível como a paisagem nos faz ver. O que na realidade temos como água potável é apenas 0,03% do total de água do planeta. Essa insignificante quantia deveria receber todos os cuidados possíveis, no entanto, não é isso o que vemos em quase todos os continentes, os principais aqüíferos estão sendo exauridos com uma rapidez maior do que sua taxa natural de recarga.

Distribuição de água na Terra em km³




Fonte: www.aguasubterranea.hpg.ig.com.br/ciclo.htm

      A Síria já colocou até tropas na fronteira com a Turquia para impedir que o país vizinho utilize suas reservas de água. Na fronteira de Israel a situação é semelhante. No Sudeste Asiático, o Laos está em conflito com a Tailândia por este querer represar o Mekong, o que drenaria o Laos. Egito e Uganda lutam pelo rio Nilo, que é sua fonte de vida, já que o futuro da água no território egípcio seja quase zero e onde a superfície, nos dias atuais, se apresenta 97% deserta. Bangladesh, Índia e Nepal em conflito pelo rio Ganges e assim por diante, em todo o canto do planeta, com tendência de aumentar.
      O Brasil é um país privilegiado em termos de disponibilidade de água pois conta com 28% da disponibilidade sul-americana e de 12% das reservas de água do mundo. Em território brasileiro, 72% da água está localizada na bacia amazônica. O Rio Amazonas tem 6.885 quilômetros de extensão e é o maior do mundo em volume de água, despejando 175 milhões de litros por segundo no Oceano Atlântico. No entanto, não podemos esquecer que o crescimento da população faz com que o risco de escassez também nos atinja. Entre 1970 e 2000 o Brasil passou de uma população urbana de 55% para 82% do total da população. É sabido que mais de 1,4 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável e, ainda, outros 2 bilhões não têm qualquer tipo de saneamento básico.
      À medida que o homem moderno evoluiu tecnologicamente, deixou de ter contato com sua essência natural, passou a viver cada vez mais longe de sua base, a Natureza, e a se transformar em um ser ansioso e irritado. O desequilíbrio coletivo que o nosso planeta enfrenta representa profundamente um desequilíbrio dos próprios indivíduos que compõem a população mundial. O desequilíbrio tem relação a uma falha no processo evolutivo do homem que tem uma identificação fácil com as condições mentais e sentimentos mais baixos tais como o domínio, a competição, a miséria, o medo, a ganância, a arrogância, o poder e as degradações culturais, sociais, econômicas e ecológicas que são exploradas intensamente hoje em dia através da mídia mostrando de uma forma errônea como o mundo deve funcionar.
      Nas grandes cidades é fácil se perceber e sentir, além da densidade populacional, uma alta densidade mental e emocional originárias de sentimentos de insegurança e ansiedade, o que faz com que o lado individual e egoísta de cada um aflore. Como o homem é quem criou o problema, nada mais lógico que ele mesmo o resolva usando a criatividade, a inteligência, a humildade, o altruísmo e o amor.
      O maior problema que vejo está nos valores atribuídos às questões ambientais. Hoje em dia, o meio ambiente se tornou "um filé" para as empresas ditas especializadas em ter muitos contratos e ganhar bastante dinheiro, só que as soluções apresentadas quase sempre são de tecnologias importadas e patenteadas por multinacionais. Isto, a meu ver, é um sintoma negativo do mundo capitalista, onde a questão do valor monetário das coisas é maior do que o valor que as pessoas têm perante a sociedade. É a demonstração mais cruel da desconexão dos valores primordiais do nosso verdadeiro ser. Daí se sentir a ineficiência, apesar de tantos esforços, dos nossos governantes, das organizações não governamentais e até mesmo da própria população em relação à questão ambiental, uma vez que todo o trabalho é realizado basicamente para resolver os problemas externos, quando o processo de mudança e aperfeiçoamento deva começar a nível interno de cada pessoa.
      Não podemos esquecer que vivemos em um planeta em que cerca de 70% de sua superfície é coberta por água. Nas zonas costeiras vivem aproximadamente 60% da população mundial em uma faixa de 60 km de raio dos oceanos; e cerca de dois terços da população mundial moram em cidades de 2,5 milhões de pessoas ou mais, as quais estão próximas a áreas costeiras, sendo que 70% da poluição ambiental, causada por essa população, chega aos oceanos, através da atmosfera e dos rios. Infelizmente, o despejo indiscriminado do lixo em qualquer lugar ou terreno baldio é, ainda hoje, considerado apenas como um delito leve. Essa população, que não pára de crescer, vem engrossando o volume do lixo, pela prática utilização dos produtos one way e das garrafas pet que são jogadas fora quando vazias. Só os americanos produzem por ano 212 milhões de toneladas de lixo e movimentam quase 3 milhões de garrafas plásticas por hora. É preciso a consciência de dispor este tipo de lixo em locais para reciclagem. O Brasil produz em média 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, sendo quase 470 quilos por habitante, onde 60% desse total é de material reciclável.
      A impressão que se tem é de que em todos os lugares as águas superficiais estão sendo poluídas com uma variedade assustadora de resíduos urbanos, industriais e agrícolas. Mesmo em países industrializados, onde vigora a legislação sobre a qualidade da água, a poluição ainda é um problema que incomoda.
      Nos Estados Unidos, descobriu-se que 60% dos lagos pesquisados estão poluídos por nutrientes de fertilizantes e dejetos animais, o que vem causar a morte quase que maciça de peixes, além da degradação da qualidade da água. No Canadá, 20 mil lagos são atingidos por chuvas ácidas.
      O crescimento demográfico e econômico do Brasil nos últimos anos utilizou os recursos hídricos além de sua capacidade de suporte tanto em quantidade como em qualidade. Os sérios problemas de gerenciamento da água são provocados pela expansão desordenada dos núcleos urbanos e a disponibilidade restrita de recursos hídricos. Houston e Sydney, duas das mais ricas cidades do mundo, utilizam mais água do que podem armazenar. A ocupação dos espaços planos, próximos aos rios e sem controle, ocasionou durante anos e anos, pequenas inundações em um grande número de cidades do Sul e Sudeste, no Brasil. Nos anos 80, várias inundações ribeirinhas aconteceram e com grandes prejuízos, principalmente no Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. Em nosso país se verifica uma grande diversidade de situações, com abundância de recursos hídricos nas regiões Norte e Centro-Oeste e escassez nas regiões Nordeste e Sudeste, em contraposição à maior concentração da demanda, juntamente com a região Sul.
      O desenvolvimento urbano também faz com que aumentem as áreas impermeáveis através de residências, passeios, ruas, estacionamentos e até mesmo os parques. Como a água das chuvas não consegue se infiltrar no solo, automaticamente, o volume adicional escoa para o sistema de drenagem em direção aos rios. Na década de 70, havia grande esperança de que fosse possível domesticar o crescimento das cidades e planejar harmonicamente seu futuro. Constata-se, 37 anos depois, que o planejamento urbano no Brasil, ou mesmo no exterior, foi atrofiado levando à acumulação dos problemas.
      No Brasil, Curitiba se apresenta como modelo de planejamento urbano. É a cidade que mais recicla (20%) e mesmo assim, as críticas aparecem.
      A orla marítima brasileira é vítima da fúria imobiliária, principalmente no Rio de Janeiro, além das praias do Nordeste e do Sul. O crescimento desenfreado proporciona o surgimento das vilas e favelas onde não se encontra água potável e, muito menos, esgoto. Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades brasileiras, possuem déficits sérios de rede de tratamento de esgoto, apesar de terem empréstimos internacionais, não conseguem diminuir o nível altíssimo de poluição da Baía de Guanabara e do Rio Tietê, isso devido à falta de conscientização da população e de um programa de educação ambiental que estimule mudanças de comportamento.



      As maiores cidades do país gerenciam mal seus recursos hídricos. Em 1997, o Banco Mundial ofereceu US$ 40 bilhões para as empresas de saneamento. Quase 100% do dinheiro ainda permanecem intactos porque as empresas brasileiras não se enquadram nas exigências técnicas mínimas para receber empréstimos - afirmação do geólogo Aldo Rebouças, da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais - isto porque o banco determina que as empresas tenham no máximo 20% de perda nas redes de distribuição de água. Só em São Paulo, em 2001, as perdas se situavam em 30%.
      A degradação do meio ambiente é um dos aspectos mais críticos do processo de deterioração causado direta e indiretamente pelo homem. Regiões que antes tinham quantidades em recursos hídricos, hoje começam a dar sinais de escassez, e a explicação é o desperdício com a exploração excessiva, o assoreamento dos rios e a poluição das fontes. E todos esses problemas têm origem, quase sempre, na explosão da agricultura industrial que serve para alimentar os milhões de habitantes das cidades. No Egito, somente 65% da população tem água corrente e as águas dos poços são muitas vezes poluídas ou de má qualidade, no entanto muitos agricultores dessas terras acreditam que a água mais importante é da irrigação e não a potável pois acreditam que a primeira leva comida para casa e a segunda é apenas um luxo do qual podem prescindir. De fato, a urbanização e o desenvolvimento das cidades aumentam de maneira significativa o consumo de água. Nos Estados Unidos, em 1900, um cidadão comum utilizava 10m³ de água por ano, enquanto hoje ele consome 200. E, por quê? Simplesmente porque as moradias eram essencialmente rurais, e poços e canalizações satisfaziam as necessidades, e rede de água corrente era rara.



      A despoluição hídrica não é um problema somente técnico, mas também de ordem econômica e social, pois não existem recursos suficientes para se implantar os sistemas de purificação de efluentes líquidos com a tecnologia disponível. É bem verdade que os Estados têm conseguido captar recursos através de bancos internacionais e dar os primeiros passos a favor dos nossos mananciais, como no Rio Grande do Sul, com o Pró-Guaíba (Programa do Estado) e o Guaíba Vive, na capital Porto Alegre, como um referencial quanto ao problema dos recursos hídricos. Mas muito ainda precisa ser feito. Mais adiante teremos mais detalhes sobre o interessante trabalho realizado nos rios do sul.
      A água é necessária em todos os aspectos da vida. Os recursos de água doce constituem um componente essencial da hidrosfera da Terra e parte indispensável de todos os ecossistemas terrestres. A escassez generalizada, a destruição gradual e o agravamento da poluição dos mananciais em muitas regiões do mundo exigem, de todos, a conscientização e mudanças de atitudes em relação às águas.
      A desigualdade de distribuição e o desperdício são duas fortes razões que explicam, em parte, o porquê de 1,4 bilhão de pessoas - quase cinco vezes a população dos Estados Unidos - não ter acesso à água potável, e a água é um fator primário para a saúde. É sabido que 60% dos recursos hídricos estão situados em apenas nove países, entre eles o Brasil, mas são 80 países que representam 40% da população mundial, que sofrem com a escassez de água. No entanto, não significa que os Estados Unidos, o Brasil, a Rússia, a África do Sul ou a China, considerados países ricos em água, não estejam livres de problemas de falta d´água.
      Quanto ao desperdício, a agricultura absorve em média mundial, 70% das provisões de água, que passa para 80 a 90% nos países subdesenvolvidos. A água potável se perde em média 50% nos vazamentos de sistemas de distribuição e se nada for feito no sentido de mudanças de comportamento, no ano 2025 serão mais de 4 bilhões de pessoas que estarão passando sede.Hoje, um cidadão europeu consome 150 litros de água por dia, enquanto um indiano tem que se contentar com apenas 25 litros por dia. Um americano consome 3.000 litros de água por dia.
      Muitas vezes, o político, quando se candidata, prega o crescimento econômico e a luta contra a pobreza, no entanto, quase sempre o pobre recebe água de má qualidade, quando recebe, e recursos mínimos de higiene e saúde. Porém o objetivo do desenvolvimento econômico é melhorar a condição de vida da população. Onde está a preocupação com seu eleitorado? Onde está a responsabilidade na diminuição das deficiências de saneamento, na qualidade de vida da população? Onde fica o direito de todos a uma vida saudável? É estimado que 80% de todas as moléstias e mais de 1/3 dos óbitos nos países em desenvolvimento sejam causados pelo consumo de água contaminada.
      Nas grandes cidades, o lixo é depositado em aterros sanitários com algum controle ambiental, mas, nas cidades pequenas o lixo urbano é colocado em lixões que acabam contaminando os cursos d´água e o meio ambiente como um todo.



      É preciso ter em mente que a água é a mercadoria mais preciosa desse século, isso, no entanto, não significa que se deva transformar a "fonte da vida" em sistema monetário, gerador de tantos conflitos.
      A problemática da água no mundo começa a adquirir uma situação dramática. Na medida em que o futuro que se avizinha torna-se incerto pela forma de sua utilização, distribuição, aproveitamento e retorno à natureza. Na realidade, não é verdade que não exista água suficiente para abastecer a população do planeta, o que acontece é que a sua distribuição espacial é inadequada, assim como sua gestão. Atualmente, o acesso a água não existe para um em cada seis pessoas no mundo.
      Teoricamente, se estima que exista água doce para satisfazer às necessidades de uma população dez vezes superior à atual. Estimativas do Banco Mundial atestam que mais de um milhão de habitantes no mundo não possuem torneiras para suas moradias, e mais de 1.700.000 carecem de saneamento adequado.
      Por outro lado, a disponibilidade dos recursos hídricos, hoje em dia, nos apresenta situações como essas: A Ásia, com 60% da população mundial, já citado anteriormente, possui somente 32% de recurso hídrico; a Europa tem 13% da população do planeta e 7% de água. A Índia dispõe somente de 4% de todas as águas. Já os países árabes, que ocupam 10,3% da superfície terrestre com uma porcentagem de 4,5% de toda a população do mundo, não possuem mais do que 0,43% dos recursos de água e são beneficiados em 2% de chuvas do planeta. Na África vivem 13% da humanidade e a disponibilidade de água é de apenas 9%; já nas Américas do Norte e Central, vivem 8% de toda a população mundial e desfrutam de 44% do recurso hídrico. A América do Sul com somente 6% da população mundial, desfruta de 60% dos recursos hídricos. Os 60 por cento das reservas de água potável útil do planeta encontram-se em dez Estados, principalmente nos EUA, na Rússia, no Brasil (28% do total da A.do Sul) e na Indonésia. Estados como a Jordânia, a Cingapura e a Líbia não possuem reserva própria nenhuma. Continuando com a má distribuição encontramos a Islândia, que anualmente distribui a cada habitante 600mil m³ de água doce enquanto que no Kuwait a população vive com apenas 75m³.
      É sabido que a matéria orgânica é capaz de reter até 300% de água mais que o seu próprio peso, por que então não se dar mais atenção ao reflorestamento já que a área de floresta possui um açude subterrâneo? Na época do descobrimento do Brasil, a Mata Atlântica possuía 1.085.544 quilômetros quadrados de área; hoje, restam apenas 8% da mata original.
      Há 8 mil anos, a Terra era coberta por 6 bilhões de hectares de áreas florestais. Hoje, o mais antigo e rico habitat terrestre, as florestas tropicais, está sendo derrubado, numa proporção de 16 a 20 milhões de hectares por ano. A cada ano são destruídos 112 mil quilômetros quadrados de florestas. A Nigéria, até bem pouco tempo exportava madeira, hoje se vê obrigada a importar. Várzeas, recifes de coral, manguezais e mananciais estão sendo rapidamente degradados e destruídos. E a água doce vai desaparecendo paulatinamente, sem que a humanidade se dê conta. É bom frisar que o desperdício do papel é mais um agravante na derrubada de árvores, como também, o consumo de água, já que, para produzir uma tonelada de fibra virgem, são necessários 44mil a 83 mil litros de água. É preciso incentivar o uso do papel reciclado, já que, para cada tonelada de papel usado, quase uma tonelada de papel novo pode ser produzida (mais eficiente do que a relação 2-3,5 toneladas de árvores para produzir uma tonelada de papel virgem). O processo de Educação Ambiental deve ser estimulado.
      As crianças da África rural estão doentes 140 dias por ano. Poucas delas desfrutam intervalos suficientemente longos de boa saúde para recuperar o crescimento. Surtos repetidos de diarréia, além de ameaçarem suas vidas, provocam desnutrição e retardam o desenvolvimento físico e mental. A falta de água e a ingestão de água suja, contaminada, é a causa de um terço de todas as mortes do Terceiro Mundo.
      Em alguns países da República Centro-Africana, 88% dos habitantes não dispõem de água limpa e 81% sofrem o mesmo na Etiópia. Na Índia e no Norte da África, algumas mulheres precisam caminhar diariamente de 4 a 6 horas para recolher água. Em muitos lugares, coletar água é um papel feminino, e a ONU acredita que educar e dar poder às mulheres na gerência da água seria um bom investimento, já que a escolaridade da mãe afeta diretamente as chances de vida do filho. Segundo o Censo Demográfico 2000 sobre Educação, do IBGE, nos mostra que o número de mulheres com nível superior completo ultrapassa o de homens: são 3.1 milhões de mulheres, 55% e 2.6 milhões de homens, 45% com curso superior.

Águas Turvas

      O volume total de água no mundo é estimado em 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos, sendo que, 97,4% deles são águas salgadas que apenas limitadamente podem ser usadas pelos seres humanos. Mas, mesmo assim, se fizermos cálculos matemáticos, veremos que ainda há água doce suficiente para o aproveitamento humano, mesmo sendo usada na agricultura, na produção de eletricidade, no uso industrial.
      O problema é a distribuição desigual, como já comentamos. Em 2000, a ONU tomou a resolução de fazer com que 50% das pessoas que não têm acesso à água potável possam vir a ter, até o ano de 2015. Para isso o Banco Mundial calcula que a necessidade de investimentos nesse setor será de cerca de 600 bilhões de dólares até o ano 2010.
      O consumo de água doce nos países industriais está entre 120 e quase 300 litros diários. Os EUA estão na ponta, com 295 litros per capita por dia. A Alemanha está no fim da escala, com 128 litros e, atualmente, está procurando melhorar ainda mais o consumo mínimo com uma série de projetos. Brandemburgo desponta como modelo, onde, purificando biologicamente as águas servidas, conseguiram terreno de zero água de despejo, com o aproveitamento das mesmas na agricultura. De acordo com dados do Departamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional da Terra, o Japão reutiliza cerca de 80% de toda a água destinada à indústria. No município americano de Orange County, onde está localizada a Disneylândia, o mesmo acontece, a população bebe água de esgoto reciclada há mais de 20 anos.
      Nos Estados Unidos, o Rio Sacramento sofreu muito com a poluição das águas das lavouras, pois a Califórnia, responsável por 23% do plantio de arroz, danificava a qualidade da água. Atualmente, esse Estado americano tem utilizado um sistema de controle da água por meio de bacias, cercadas de taipas que têm caixas de deságüe, retendo o líquido por 28 dias, tempo suficiente para que os agrotóxicos percam sua capacidade de ação e assim melhorar a qualidade da água. Por causa desse processo, desde 1982 há uma redução de 98% do volume de pesticidas presentes nas águas do Rio Sacramento.
      Em grande parte do Terceiro Mundo os cursos d´água são poluídos com todo o tipo de dejetos e entulhos. Muitos países carecem de legislação básica sobre a qualidade da água. Mas, é sabido que, mesmo onde se encontra essa legislação, ela não é cumprida. Cerca de 80% das amostras de água, retiradas de 200 rios importantes da antiga União Soviética, mostram níveis altos de agentes virais e bacterianos.
      Os rios da Índia são os que mais apresentam níveis altos de poluição, já que em suas água é jogado todo o esgoto e, ainda, carregam para o mar o lixo das áreas urbanas, rurais e das fábricas. Cerca de 70% das águas superficiais do país estão poluídas. O Ganges, rio sagrado para os hindus, é uma amostra dos problemas. Seus 2525 quilômetros estão quase todos poluídos por dejetos humanos e animais, e por quantidades cada vez maiores de efluentes tóxicos perigosos, de indústrias e da agricultura. É sabido que apenas uma minoria das indústrias tem usina de tratamento.
      Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas (ONU), declarou que "cerca de dois e meio bilhões de pessoas no mundo vivem sem saneamento básico", ou seja, pouco menos da metade dos seres humanos continua jogando seus dejetos nas águas, ou na terra, que, no fim, leva à água. Na Ásia, 850 bilhões de litros de esgoto têm sido despejados nos cursos d´água anualmente. O mar de Aral, localizado na Ásia Central, tinha a profundidade média, em 1960,de 53,4 metros, ocupando uma área de 66.900 km² e volume de 1.050 km³. Esse lago interior mantinha uma indústria de pesca florescente, recreação e turismo. Alimentado pelos rios Amurdarya e Syrdarya, reteve o nível e o volume por muitos séculos. Entretanto, a produção de algodão e arroz irrigados desenvolveu uma cultura de água para irrigação nos últimos 30 anos do século XX, que terminou na redução drástica dos tributários ao mar de Aral. Sua área do ano de 1960 passou para 31.938 km² em 1994 e 25.217 km² em 2000. A redução do volume de água aumentou a salinidade que passou de 10g/l em 1960 para 60g/l em 2000. Transformado em caldo tóxico, devido às grandes quantidades de pesticidas e que, aos poucos, foram destruindo o solo juntamente com a salinização, acabou tendo como produto um solo tóxico e inutilizado.
      Doenças hídricas matam o equivalente à queda de 300 boeings por dia, isto porque, segundo a ONU, 36 mil pessoas morrem diariamente no mundo por falta de água potável e por carência de saneamento.
      As mortes aumentaram em 29% tendo como causas doenças resultantes de substâncias nocivas. O câncer teve sua incidência em 50% devido a pesticidas, fertilizantes e outras substâncias carcinogênicas. A indústria da pesca desapareceu. Pessoas que foram afetadas chegam a somar 35 milhões.
      Oitenta por cento das doenças, nos países em desenvolvimento, são causadas pela falta de saneamento. Em Porto Príncipe, capital do Haiti, 150 mil pessoas vivem em favelas que crescem sem parar. Devido à poluição dos cursos d´água, a doença não permite trabalhar e, sem trabalho não há salário, sem ele não há chance de fugir da pobreza o que se torna um ciclo vicioso. Em Moscou, apesar de ter um ambiente tecnológico bem sofisticado, casos de hepatite A, desinteria, e, até mesmo, paludismo e cólera foram relatados na capital e em Kazan em agosto de 2001. (Mohamed Larbi Bouguerra)
      A única maneira pela qual a maioria dos países pode tratar a crescente poluição de seus recursos hídricos é implantar estratégias integradas de administração, que não só ajudem a limpar os cursos d´água, mas, em primeiro lugar, também impeçam a poluição. Até agora, bem poucos países conseguiram realmente fazer isso. É preciso estar alerta. Teremos de evitar o desperdício, interromper os processos poluidores e criar novas maneiras de controle, captação e distribuição.
      Os países industrializados, os chamados de Primeiro Mundo, não estão imunes à falta de água. Nos Estados Unidos, muitas cidades do Oeste estão cavando poços de água a uma velocidade incrível, causando, dessa forma, a redução do curso do Rio Colorado, que, aliás, é um dos poucos que não correm mais para o mar.
      Na China, o curso do Rio Amarelo foi interrompido no ano de 1997, e deixou de chegar ao mar por mais de 200 dias, devido à falta de água.
      A Arábia Saudita extrai 7 bilhões de metros cúbicos por ano do subsolo; se continuar nesse ritmo, suas reservas estarão esgotadas no ano 2048. No México, a capital explora seus aqüíferos desenfreadamente, o que vem causando o afundamento do solo da cidade. Em conseqüência, edifícios, metrôs, rodovias e até a catedral sofrem rachaduras e ondulações. No Arizona o Rio Santa Cruz desapareceu devido a exploração de minas d´água subterrâneas e na Flórida, fundações se fenderam e perigosos buracos se formaram. De fato, a extração contínua pode ter efeitos rápidos e trágicos, como também, gerar efeitos imperceptíveis provocando o desaparecimento de pássaros, borboletas, peixes e até mesmo das árvores.
      O consumo de água dobra a cada 20 anos. No século passado, a demanda mundial de água multiplicou-se por sete. Para que toda a população mundial tivesse acesso à água potável, seriam necessários investimentos de pelo menos US$ 400 bilhões.
      Na edição de 1999, do Relatório Planeta Vivo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) organização não-governamental ambientalista, com sede na Suíça, encontramos a declaração de que em apenas 25 anos (1970-1995), a qualidade dos ecossistemas mundiais de água doce sofreu uma queda de 45%. Em julho de 2003, uma notícia de Paris afirmava que uma equipe de cientistas conseguiu extrair água doce de um manancial em Mortola, na Itália, situado a 36 metros de profundidade no mar, depois de três anos de pesquisas e custando 4 milhões de euros. O diretor do grupo francês Nymphea Water, anunciou que a operação permitirá obter até cem litros de água doce por segundo. (Correio do Povo, 25 julho 2003 - pág.6) Cientistas do mundo inteiro se unem para que notícias como essa sejam dadas em todos os continentes. Em breve.
      E a escassez não faz distinção de povos e nações, a previsão é de que, a partir de 2020, até a Inglaterra estará passando por problemas de falta de água, junto com mais 50 outros países.
      Ao que tudo parece, a crise da água é um aspecto de uma crise geral do modelo de desenvolvimento calcado no crescimento tecnológico ilimitado. É preciso uma resposta cultural e ética. A situação pela qual o mundo está passando, nada mais é do que um estilo de vida mais sofisticado, onde o que se quer se "deve ter", ocasionando assim a aceleração das fábricas e indústrias que estão entre as maiores usuárias da água só perdendo para a agricultura e uso doméstico.
      No século XX a população cresceu três vezes, enquanto o consumo de água aumentou seis. Mesmo nós, brasileiros, que temos 16% de toda a água do mundo, estamos sofrendo com
      racionamentos devido à má administração dos recursos e da infra-estrutura inadequada.
      Os países áridos enfrentam desafios mais assustadores como o Oriente Médio, onde existem áreas em que a escassez limita o crescimento sócio-econômico.
      A água doce, um recurso finito, é altamente vulnerável e de múltiplos usos, portanto deve ser gerida de modo integrado com mecanismos eficazes de coordenação e de implementação. Nos planos para sua utilização, deve-se dar ênfase à proteção, a conservação e ao manejo sustentável e racional baseados nas necessidades e prioridades das comunidades a serem estudadas. A avaliação dos recursos hídricos constitui a base prática para seu manejo integrado e sustentável, bem como um exame equilibrado das necessidades da população e do meio ambiente.



      O abastecimento de água potável e saneamento básico constituem os objetivos prioritários das políticas hídricas. Estima-se que 80% de todas as moléstias e mais de 1/3 dos óbitos nos países em desenvolvimento sejam causados pelo consumo de água contaminada. São jogados 2 milhões de toneladas de lixo por ano nas águas do planeta.
      Medidas de manejo conjunto do uso da terra e dos recursos hídricos devem se dar com mais freqüência para que seja aumentada a eficiência do uso da água de irrigação evitando assim a erosão do solo, os alagamentos, a sedimentação, a salinização e os efeitos nocivos dos agrotóxicos e fertilizantes nos organismos. Além do que, a degradação ambiental gerou uma patologia ambiental emergente, e doenças como a cólera, e a dengue, tornaram a aparecer com mais força, ocasionadas pela contaminação do ar, da água e dos solos, como também pelo uso de substâncias tóxicas e perigosas, como pesticidas e outros produtos de cuidados especiais.
      Como vimos até agora, a degradação não é somente do meio ambiente, mas também do ser humano, onde valores se perdem, onde as necessidades já não são as básicas e sim as supérfluas, onde estar errado é ser o certo. É aí que vamos ver a Educação Ambiental como meio prioritário para alcançar os fins de um desenvolvimento sustentável.
      A Conferência de Tbilisi realizada em 1977, tratando da educação ambiental em âmbito internacional, faz ver a EA como a formação de uma consciência fundada numa nova ética que resistirá a toda e qualquer exploração. Resistirá ao desperdício e à exaltação da produtividade como um fim, em si mesma. É disso que a humanidade está precisando, dar uma guinada em suas ações, em seus investimentos, em suas atitudes, em seus valores, para perceber que não é só pensando em si que conseguirá dar um futuro sadio às suas gerações.
      O Reino Unido é um dos países que mais consomem água por dia, 18 milhões de litros, o equivalente a 9 bilhões de reais ao ano e o suficiente para matar a sede do planeta por 2 dias. Na Europa, 96% dos habitantes têm água tratada e 92% tem saneamento básico, podem tomar água sem medo, direto da torneira. O rio Tâmisa já foi poluído. Há três séculos, a abundância e variedade de peixes tinham começado a decrescer no estuário e, por volta de 1855, apenas algumas enguias sobreviviam em certas áreas. A limpeza de suas águas teve início na década de 60 e, em 1976, havia cerca de oitenta e três espécies de peixes no estuário. Hoje pode ser considerado limpo, depois de muitas injeções de oxigênio feitas pelo barco Thames Buggler, que ainda navega por suas águas, onde atualmente vivem várias espécies de peixes. Desde 1989 a água da Inglaterra é privatizada e a melhoria é rígida. A multa para quem polui é alta. Os europeus que já sofreram os problemas de duas guerras sabem tirar proveito dos recursos até a última gota.
      A China que tem uma população 22% do total do globo, não tem mais do que 8% da água necessária atingindo 60 milhões de pessoas, provocando verdadeiras "revoltas" camponesas. De um total de 668 cidades, em 400 falta água, e milhões de chineses bebem água contaminada.
      Na África, dos 53 países, 13 sofrem com a escassez, e 88% da água que resta vai para agricultura. Os africanos são assombrados pela previsão de que em 25 anos metade de seu povo não terá água para viver. O governo do Egito declarou para o governo da Etiópia, de onde vem mais de 80% da água do rio Nilo, que se a Etiópia tirar mais uma gota de água do Nilo será interpretado como uma declaração de guerra. Também as colinas de Golam são fontes de conflito entre Israel (que controla as fontes de água desde a ocupação em 1967) e Síria pois o ponto onde nasce o bíblico rio Jordão foi ocupado pelos israelenses. O rio abastece Israel, Síria e Jordânia; e Israel, de seu lado, usa tecnologia para conviver com a escassez, aprendeu a captar, dessalinizar e a conservar o bem tão precioso. O volume de água utilizado é menos de 300milhões de metros cúbicos por ano. Os poços não são autorizados por Israel. Sendo a região que tem a menor taxa de água por pessoa no planeta, é um exemplo do que pode acontecer com qualquer pedaço de terra. Israel já foi o principal exportador de produtos agrícolas do oriente médio.
      Segundo a ONU, em 2025, duas em cada três pessoas não terão água para beber, isso porque consumimos mais do que a natureza pode repor. Além disso, a qualidade da água também vai se tornando um caso grave. Segundo dados divulgados pela WWF Internacional, cada litro de água poluída contamina pelo menos 8 litros de água limpa. Se pensarmos bem, o mundo já tem 12 mil km³ de água poluída circulando em seus rios. Com a crise que se alastra, mais de 1 bilhão de pessoas não têm acesso à água para beber, 1/4 de terras do planeta, já estão desertas. O desperdício é outro grande problema e muitas vezes não nos damos contas que um gotejar de torneira causa, por dia, 46 litros do precioso líquido e 1.380 por mês. Na verdade, é uma das causas para escassez.
      Em pleno século XXI, a distribuição de água potável para a população, em geral, ainda constitui um problema para vários países da América Latina e Caribe. Sabe-se que cerca de 170 milhões de pessoas não tem água em suas casas e que em muitas casas, aonde a água chega, não tem qualidade e não corresponde às recomendações de OMS nem aos padrões nacionais e internacionais. E isso é um grande perigo à saúde, abrindo portas para doenças consideradas erradicadas, como a cólera, que reapareceu em 1991 provocando mais de um milhão de casos em 27 países do continente americano, notificado até 1997. É sabido que a diarréia, doença causada pela água poluída, afeta mais de 500 milhões de pessoas por ano provocando a morte em crianças com menos de dois anos de idade.
      Há 400 anos a.C. Hipócrates já chamava a atenção de seus colegas para a qualidade da água e a saúde da população. Dizia: "o médico que chega numa cidade desconhecida deveria observar com cuidado a água usada por seus habitantes." Pouco crédito lhe foi dado e um período de obscurantismo durou mais de 2000 anos.



      A água limpa, potável, é um bem que não pode ser negado a ninguém. Já nos tempos romanos, uma série de decretos do século XI a.C. regulamentou a distribuição de água, assegurando que nas fontes públicas a água estivesse disponível para todos, tão assiduamente quanto possível, dia e noite.
      Em Roma existiam 13 aquedutos que forneciam 750 milhões de litros de água por dia a 1.352 chafarizes públicos, 11 banhos térmicos e 926 casas. Este padrão de abastecimento - aproximadamente de 1000 litros por habitante/dia, pode ser comparado com os 330 litros distribuídos a cada italiano, diariamente, no século XX.
      Em termos gerais, podemos dizer que os problemas da água são poucos, mas, fundamentais:
      Distribuição no espaço = abundante demais ou escassa demais;
      Distribuição no tempo = quantidade excessiva em certas estações ou anos e insuficiente em outros;
      Qualidade química = mineralizada demais, pobre em minerais necessários, com minerais nocivos e... Poluição.
      Sabemos que é o homem o principal causador de tanta desordem. O homem perturbou tão completamente o meio natural onde se moveu que já não sabe qual o seu lugar nesse sistema, a não ser, é claro, como fator de desordem. Até agora nossas tentativas de domínio do meio consistiram em simples reformas da paisagem, realizadas torpe e irrefletidamente; enquanto que outras atividades humanas produziram efeitos secundários nocivos, imprevistos e mal compreendidos.
      O ser humano já poluiu todos os oceanos, a atmosfera e até as remotas camadas glaciais. A maior parte dos rios está mais ou menos poluída e muitos deles, como o rio Tietê e o Tibre foram transformados em esgoto a céu aberto. Barbie Nadeau, jornalista do Newsweek em 2002 esteve em Roma e dá seu depoimento sobre o Tibre "... Flutuam peixes mortos dizimados não se sabe pelo quê. O mau cheiro está em toda parte um resíduo oleoso faz com que as enguias e as carpas mortas brilhem" e conclui: ..."Se um rio é a linha simbólica da vida de uma cidade, então Roma está numa situação bastante ruim".
      O caso não é dominar o meio, mas sim saber se a natureza pode ser preservada com certa aparência de ordem e se a civilização é capaz de sobreviver à transformação que provoca na natureza. A evolução cultural levou-nos aos poucos a reconhecer que a humanização do planeta só pode ser bem sucedida se as leis ecológicas fundamentais forem respeitadas. Acontece que o ser humano, em sua avidez insana de progresso sem limites, se torna, a cada dia que passa, vítima de suas próprias "conquistas" onde o mais importante era (ou é?) a ambição de megaprojetos. Estamos falando das barragens. Estas não são obras de hoje. Já existem desde que a humanidade descobriu que elas poderiam ser um meio de proteção contra as águas. A construção de grandes barragens, para produção de energia hidráulica, faz com que hoje mais de 90% da eletricidade do país seja gerada graças a inúmeras bacias fluviais. Itaipú é uma prova, gerando 1/5 de toda a energia produzida no Brasil. A energia hidráulica é limpa, não produz poluição atmosférica, mas causa impacto à natureza interferindo na biodiversidade, com a formação de imensos lagos artificiais que alteram o meio físico comprometendo a atividade pesqueira em muitas regiões. Hoje, as barragens passaram a ser meios pelos quais o homem mostra seu domínio sobre a natureza através da tecnologia; e algumas estão sendo utilizadas para a produção em larga escala de espécies introduzidas em aquacultura. (Tundisi - Água no século XXI)
      Nos dias atuais, existem aproximadamente 40.000 grandes barragens espalhadas pelo mundo. A maioria foi construída depois de 1950 e seu ritmo de construção foi num crescendo nesses últimos anos. Em todas as partes do mundo podem ser encontradas barragens, pequenas e grandes. Pela definição da Comissão Internacional sobre Grandes Barragens, toda a barragem se torna "grande" quando sua altura ultrapassa os 15 metros, a partir de sua base.
      O país que mais constrói esse tipo de obra é a China, seguida pelos Estados Unidos, antiga União Soviética, Japão e Índia. Essas construções são criadas por visões isentas de complacência, respeito aos seus semelhantes, desligados da história e geografia de um povo. Na construção de uma barragem, muitas pessoas são desalojadas de suas casas onde, muitas das vezes, nasceram e se criaram. Onde suas raízes estão fincadas. E num dia, sem mais nem menos, se vêem num outro espaço que nada tem de seu. Somente na China, 10 milhões de pessoas foram desalojadas, na Índia, cerca de 33 milhões de pessoas foram obrigadas a sair de suas terras para a construção de três mil grandes barragens nos últimos cinqüenta anos. É o lado irracional dessas obras, além do que, a recompensa financeira, ou mesmo de outro tipo, não compensa as perdas sociais, psicológicas e econômicas.
      A escala de riscos aumenta conforme aumenta o tamanho da obra. No mundo de hoje, esses riscos levam o nome de riscos tecnológicos de vulto, que significa: se houver um rompimento, um acidente, as conseqüências serão devastadoras para os seres humanos. As bacias que se formam em obras de barragens são perigos para a saúde, já que as cidades, as matas e áreas agrícolas são inundadas passando a ser uma fonte de poluição, originando doenças como a malária, a esquistossomose, e altas verbas têm que ser usadas para a purificação do local. Muitas vidas serão ceifadas, a natureza sofrerá um tipo de poluição e devastação, muitas das vezes grave, ocasionando a sua recomposição para longos anos ou até milênios.
      O que no início era feito para proteção tornou-se a forma mais brutal de degradação ambiental. A opinião pública na Suíça, na Alemanha e nos Estados Unidos tem protestado e movido passeatas com o objetivo de um modelo de desenvolvimento baseado em tecnologias e produtos sustentáveis. Essas consciências abertas para o bem das populações e do meio ambiente obtiveram vitória com o cancelamento de um grande projeto na Índia, a barragem Narmada, que o Banco Mundial defendeu por mais de sete anos e tinha ajudado a financiar.
      A extraordinária importância da água, ou de sua falta, fez com que este elemento constituísse um tema apaixonante de conversa e de ação. O crescimento demográfico do século XX acentuou esta importância, não só porque a água escasseia em geral, mas também porque sua utilização e conservação são deficientes. A má conservação da água, nas Américas, no século passado, afetou a mais de 1.207.000 pessoas, como já vimos, com o vírus da cólera, causando 11.950 mortes. Mesmo na Europa, onde a água potável é, em geral, de boa qualidade, persistem algumas situações precárias.
      O aproveitamento e a administração da água foram sempre problemas importantes, como se deduz das numerosas medidas de caráter material e administrativo destinadas a regular sua distribuição e utilização; medidas estas que, a partir dos antigos sumérios da Mesopotâmia, foram-se tornando cada vez mais complexas, com o decorrer do tempo.
      A água é um recurso natural essencial. No que diz respeito ao homem, o corpo humano pode ser considerado uma máquina hidráulica, contendo em média 60% de água em sua composição física. O ser humano pode resistir sem alimentos cerca de um mês, mas não consegue ficar sem beber água por mais de quarenta e oito horas. A água exerce um papel fundamental em nosso metabolismo, contribui à regulação térmica e à renovação de tecidos e de diferentes líquidos, como o sangue, os sucos gástricos, saliva, etc. A nossa perda diária de água é compensada pela ingestão de bebidas e alimentos. A carne, por exemplo, contém até 80% de água, e as verduras, até 85%.



      A água, na produção agrícola, representa até 90% da composição física das plantas. Quando falta água durante o período de crescimento dos vegetais, lavouras e ecossistemas devidamente implantados tendem a desaparecer.
      Nas indústrias, muitas vezes, a quantidade de água utilizada é, várias vezes, superior ao volume de material produzido.
      Na Terra, tudo é mantido graças à presença desse líquido vital. Cidades, indústrias, plantações e mesmo o ar que respiramos, cerca de 70% dele, vem das microscópicas algas habitantes dessa enorme massa formada por rios, lagos e oceanos.
      A população de nosso planeta cresceu três vezes no século XX e o consumo de água aumentou seis vezes. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) descobriu que filhos de mulheres com baixa escolaridade têm 16 vezes mais possibilidades de viver em uma casa sem água. Pelo relatório, cada quatro anos de estudo da mãe correspondem à redução de 20 pontos na pobreza das crianças. Mesmo no Brasil, que abriga 16% da água do mundo, o racionamento já se faz sentir, graças à má administração dos recursos e da infra-estrutura. O engenheiro húngaro Andras Szöllösi-Nagy, diretor da divisão de ciências das águas da Unesco, organização educacional, científico e cultural das Nações Unidas, afirma que: "Quando o assunto é água, não pode haver vencedores nem perdedores. Compartilhar é o segredo". A água doce, um recurso finito, altamente vulnerável e de múltiplos usos, deve ser gerida de modo integrado onde a utilização, a proteção e a conservação e manejo sustentável dos recursos sejam usados em planos baseados nas necessidades e prioridades das comunidades. O abastecimento de água potável e o saneamento constituem os objetivos prioritários das políticas hídricas, no entanto, sabemos que quase todas as moléstias com finais em óbitos, principalmente nos países em desenvolvimento, são causadas pelo consumo de água contaminada. Na Declaração de Nova Delhi sobre água e saneamento de 1990, foi enfatizado o seguinte princípio: "algum para todos em vez de mais para alguns". Isto significa a necessidade de oferecer, em bases sustentáveis, acesso à água potável em quantidade suficiente e saneamento adequado para todos, isso porque o rio Yamuna, principal fonte de água da cidade de Delhi, foi reduzido a um depósito de todo o tipo de lixo, devido ao mau gerenciamento da água.
      Na Índia, onde se encontra mais de meio milhão de aldeias, somente algumas estão ligadas à rede de água, e, quando esta existe, os encanamentos estão quebrados causando o desperdício.
      A água é necessária em todos os aspectos da vida. A escassez generalizada, a destruição gradual e o agravamento da poluição dos recursos hídricos em muitas regiões do mundo, ao lado da implantação progressiva de atividades incompatíveis, exigem o planejamento e manejo integrado desses recursos. Um dos pontos altos da crise pela qual o planeta atravessa está na desigualdade da distribuição dos recursos hídricos. A escassez começa a se fazer notar quando os níveis de consumo por pessoa/ano, estão abaixo de 1.000 metros cúbicos. No Brasil, 72% da água em nosso território está localizada na bacia amazônica. O Rio Amazonas tem 6885 quilômetros de extensão e é o maior rio do mundo em volume de água, despejando 175 milhões de litros de água por segundo no Oceano Atlântico. Em geral, há abundância de água, mas nem por isso deixa de existir escassez em algumas regiões ou mesmo em bacias hidrográficas. E isso se deve às estações climáticas, época de chuva e época de seca. As represas têm por objetivo estocar as águas das chuvas para serem utilizadas nos períodos em que as águas dos rios diminuem. Mas, o que muitas vezes acontece é que os usuários mantêm a mesma extração e utilização sem o compromisso de racionar para não faltar o que acarreta a falta de água, ficando todos prejudicados.



      No Nordeste semi-árido a distribuição das chuvas é muito irregular, e os rios, na maioria dos meses do ano, permanecem secos. Mesmo assim, há disponibilidade de água. Aldo Rebouças, um estudioso da região, em seu trabalho "Águas na região Nordeste" apresenta um quadro que mostra um índice por habitante, mesmo naquelas regiões onde a oferta é relativamente menor, em torno de 800 m³/hab/ano, que é praticamente o dobro do existente em Israel. Isto significa que existe água, mas falta água, falta gerenciamento da água.
      Nas cidades brasileiras em geral, as perdas de água no sistema de distribuição, como vazamentos e fugas, são elevadas, acima de 30%, sinal de que as empresas de manutenção e conservação da rede pública não investem, tendo como resultado enorme volume de água perdida. Na América Latina, apenas a Argentina e o Chile apresentam índices menores.
      Nos dias de hoje, o que vemos não é falta de água causado pela natureza, o que vemos é a má utilização com grande desperdício, a briga entre grandes e pequenos consumidores causando prejuízo à maioria, além da poluição generalizada que ameaça o meio ambiente. O exemplo mais contundente de poluição nos vem do país mais populoso da Terra, a China que sem compromisso com o controle ambiental, transformou-se no lugar mais poluído do planeta. Mais da metade da população (60%) bebe água contaminada e o lixo é acumulado na periferia das cidades, ou simplesmente é atirado nos rios. Como se pode ver, são problemas ligados ao modo de apropriação e utilização, cuja função social nem sempre é levada em conta.
      Por pensar que não teremos problemas com a água, já que ela está por todos os lados, é que muitos fazem dos rios e mares seus depósitos de lixo. Hoje, são mais de 2 milhões de toneladas/ano lançadas nas águas do planeta, e a humanidade gera 30 bilhões de toneladas/ano de lixo. A desertificação e a seca não são catástrofes naturais, mas provocadas por modos sociais de apropriação da natureza e por padrões tecnológicos de exploração dos recursos que, na maioria das vezes, simplesmente ensinam a destruição sem a preocupação de repassar métodos de conservação.
      No Brasil, 50% da população não tem coleta de esgoto em suas casas e aproximadamente 80% do esgoto coletado tem como destino as águas dos rios e, sem nenhum tratamento. O lixo é 76% depositado a céu aberto, sendo 13% em aterros controlados. Isto significa que nosso país, apesar de ser considerado um dos maiores em volume d´água, acaba sendo um país cada vez com menos água de qualidade.
      É hora de se começar a pensar em mudança de hábitos. É hora de sentir que formamos, juntos, uma só corrente; se quebrar um elo, a corrente não terá mais sentido. Todos precisam de todos.
      Os sábios indianos, há milhares de anos, já diziam: "O todo está contido nas partes e, por mais que as coisas pareçam diversificadas e plurais, na verdade, são aspectos de uma mesma e única realidade". Eis aí uma sentença a ser meditada, por todos nós, para que possamos entender a dinâmica da vida e ver que não existe o eu e sim, o nós.
      Até agora a natureza tem sido utilizada gratuitamente, graças a ela produzimos e vivemos. No entanto, no panorama do nosso crescimento ela não tem tido reconhecido o seu devido valor.


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