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Leda Bisol
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Faculdade de Letras
A lingüística sincrônica que se emoldurou na linha do estruturalismo lingüístico começou com a Fonologia, estudo da organização de sons lingüísticos em sistemas de LÍNGUAS, seguindo-se a sintaxe, a morfologia e a semântica. Outras múltiplas áreas foram surgindo como sociolingüística, psicolingüística e lingüística textual.
Os arautos que, inspirados em Saussure, abriram esse caminho são nomes deveras conhecidos: Trubetzkoy, Jakobson, Bloomfield e Sapir. N.S. Trubetzkoy, nascido na Rússia em 1890, é o autor de Principles de Phonologie (1949), reedição em francês da primeira publicação em russo (1939), é referência importante da lingüística européia. R. Jakobson, nascido em Moscou em 1896, que saiu de seu País, como Trubetzkoy, na época da revolução, deixou copiosa e importante obra, em que se destaca Essais de Linguistique Génerale, publicado em Paris em 1963. Uma série de artigos de Jakobson foram traduzidos para o português por Câmara Jr. sob o título de Fonema e Fonologia (1967). Em Copenhague, Jakobson fundou com Trubetzkoy e Mathesius o "Cercle of Linguistique de Praga", um centro de divulgação e discussão de estudos com base em Saussure. Foi a Europa o berço da Fonologia.
L. Bloomfield, que nasceu em Chicago em 1887 e publicou Language em 1914 com reedição em 1933, traduzido também para o espanhol, é referência importante da lingüística americana. Sapir de origem alemã, que nasceu em 1884, mas viveu desde os cinco anos nos Estados Unidos, é o autor de Language, an introduction to the study of speech (1921). Artigos do autor, traduzidos por Câmara Jr, foram publicados no Brasil sob o título Lingüística como Ciência (1969). Blomfield e Sapir teceram a fonologia americana, referida por Fonêmica.
Com essas obras inicia-se a Fonologia, cuja história vem percorrendo sucessivos caminhos que se alimentam reciprocamente na busca de novos horizontes, como acontece em toda e qualquer ciência: Fonologia Estrutural, Fonologia Gerativa, Fonologia Métrica, Fonologia Autossegmental, Fonologia Lexical e Teoria da Otimidade. A última não foi escrita especificamente para a Fonologia, mas a Fonologia é sua maior adepta. Há outras propostas que têm lugar nesta história, e que não foram nomeadas em virtude do caráter sucinto do texto que se limita às de maior impacto.
O estudo minucioso do Fonema, entendido como um feixe de traços ou a menor unidade segmentável que distingue palavras e que foi a pedra de toque da primeira fase, caracterizou o modelo estruturalista que se esmerou na distribuição dos alofones e/ou caracterização da neutralização, da assimilação ou do debordamento e outros fenômenos. Surgem pela primeira vez minuciosas e cuidadosas descrições de sistemas fonológicos de línguas, muitas totalmente desconhecidas, entre as quais línguas indígenas.
Com a voz de Chomsky (1965), dando ênfase à hipótese de que a língua é uma capacidade inata do homem e a publicação de The Sound Pattern of English (1968) de Chomsky and Halle, um novo modelo impõe-se. São muitos os pesquisadores que, cativados pela elegância do modelo formal, seguem a nova doutrina, independentemente da aceitação da hipótese do inatismo. Então o campo da abstração é particularmente cultivado, regras e princípios são os mecanismos da descrição que deve ser explicativa. A grande meta é encontrar os princípios universais que representariam a capacidade lingüística do homem.
Sucedem-se as teorias não lineares, Fonologia Métrica, Fonologia Autossegmental e Fonologia Lexical que coexistem e que, embora gerativas em sua essência, controlam o grau de abstração, retomando certos cuidados da teoria da primeira fase, ao limitá-la ao nível fonêmico. Princípios e regras andam juntos na derivação que, a partir de estruturas subjacentes, chega a estruturas de superfície bem formadas, ou seja, às palavras com as quais as frases se organizam.
Impera, hoje, entre os modelos da etapa anterior que persistem, a Teoria da Otimidade. Valendo-se exclusivamente de princípios, define-os, no entanto, como restrições que podem ser violadas, diferenciando-se, neste particular, como em outros, da Teoria Gerativa Clássica. Não admite regras nem derivação, mas submete os dados a uma análise comandada por princípios, ou seja, restrições que simultaneamente controlam a sua boa formação.
Ao finalizar essa breve introdução, vale lembrar que no Brasil a Lingüística foi introduzida por Mattoso Câmara Jr., que, ao falecer em 1970, deixava na Editora Vozes dois livros, Estrutura da Língua Portuguesa e Problemas da Lingüística Descritiva, além de outros já publicados.
Como o objetivo deste texto é indicar a estudantes temas de pesquisa na área em foco, vamos nos deter ligeiramente nos seguintes tópicos: segmento, sílaba, pé métrico, palavra e frase.
Vogais e consoantes são os segmentos cuja constituição vem sendo estudada em termos de traços fonéticos e cujo caráter fonológico é decorrente de sua função no sistema. Verificar que traços fonológicos sustentam o sistema de uma língua é o ponto básico. Daí a necessidade de separar traços redundantes de não redundantes. Isso abre o caminho para a teoria da subespecificação que admite segmentos não totalmente especificados, levando a uma análise com maior grau de abstração, mas com a vantagem de permitir alcançar generalizações com facilidade. Embora o sistema de vogais e consoantes já tenha sido objeto de estudos, novos olhares fundamentados teoricamente sobre todo o sistema ou parte deles, sem ignorar o que já foi feito, pode trazer informações importantes não só para a descrição do português como também para áreas relacionadas, a educação por exemplo.
Apenas referida nos dois primeiros momentos da história da lingüística, com esparsas descrições na fase pós-gerativa clássica, conquista seu espaço com o advento das teorias não-lineares, precisamente com a Fonologia Métrica, onde se impôs como base para a formação do ritmo, isto é, do pé métrico, e conseqüentemente, como portadora do acento. De seus elementos constitutivos, ataque, núcleo e coda, das seqüências permitidas, dos ditongos e hiatos, enfim da escala de sonoridade que dirige sua formação, a teoria oferece os fundamentos. Mas de sua descrição, em termos do português brasileiro, novas análises são aguardadas, sem ignorar evidentemente o que foi feito, em virtude de não se ter ainda explorado devidamente este vasto campo. Por outro lado, uma análise de fatos já analisados sob o prisma de uma nova teoria é sempre bem-vinda.
Uma área aberta a estudos. Se o português possui pé métrico troqueu ou iambo, ou seja, pé de duas sílabas com cabeça à esquerda ou à direita ou é uma língua de ritmo misto é uma questão em discussão, mas importante, pois dela decorre o acento. Embora já contemos com algumas interessantes descrições do acento, o papel do ritmo na palavra e na frase e do acento principal é, sem dúvida, um campo não de todo explorado, à disposição para investidas.
Distinguir a palavra lexical ou morfológica da palavra prosódica ou fonológica é o primeiro passo. Enquanto a primeira se identifica pela classe morfológica, substantivo adjetivo, verbo etc, a palavra fonológica se identifica pela presença do acento. Uma palavra fonológica possui sílabas e pés métricos delineados e, conseqüentemente, um acento dominante, chamado acento primário. A palavra fonológica tem duas características essenciais, é domínio de restrições fonotáticas e de aplicação de regras. Uma das restrições fonotáticas do português é a não aceitação de palavras iniciadas por soantes palatais. As raras palavras do sistema são empréstimos: lhama, nhoque. Quanto a regras, muitas são as que têm por domínio a palavra fonológica, entre elas a neutralização das átonas (bElo > beleza), a inserção do glide em sílaba acentuada (passear mas passeio) e o abaixamento datílico ( esqueleto > esquelÉtico). Eis aí um campo imenso de estudos, como discussão de regras ou de particularidades ainda não discutidas ou não resolvidas plenamente.
A frase fonológica, que se define por possuir o acento mais forte mais à direita, é o domínio das regras do sândi que ocorre entre palavras: ditongação (verde amarelo > ver[dja]marelo), degeminação (casa amarela > ca[za]marela) e elisão (casa escura > ca[zes]ura). Ritmo, acento principal da frase e secundário, entoação são temas que, independentemente dos trabalhos realizados na área, que não são muitos, convidam para estudos.
Para finalizar, alistamos dissertações e teses realizadas na PUCRS em Fonologia:
ALMEIDA, Marco Antônio Bomfoco de. A variação das oclusivas dentais na comunidade bilíngüe de Flores da Cunha: uma análise quantitativa. 2000. 108 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2000.
ARAKAWA, Adriano Takamuri Moraes. A monotongação do ditongo nasal átono na fala dos nisseis de Porto Alegre. 2005. 153 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2005.
BARDEN, Liege Therezinha Vogt. A variação na concordância verbal da terceira pessoa do plural. 2004. 73 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2003.
BATTISTI, Elisa. Elevação das vogais médias pré-tônicas em sílaba inicial de vocábulo na fala gaúcha. 1993. 125 f.:il. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1993.
BORSATO, Daniela. A degeminação no interior do vocábulo. 2002. 172 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2002.
CASAGRANDE, Graziela Pigatto Bohn. Harmonização vocálica: análise variacionista em tempo real. 2003. 171 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2003.
CABREIRA, Silvio Henrique. A monotongação dos ditongos orais decrescentes em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. 1996. 115 f.: il. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1996.
HOGETOP, Denise Nauderer. A degeminação no italiano em frase fonológica reestruturada. 2006. 126 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2006.
KAMIANECKY, Fernanda. Palatalização das oclusivas dentais /t/ e /d/ nas comunidades de Porto Alegre e Florianópolis: uma análise quantitativa. 2003. 114 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2003.
KOELLING, Sandra Beatriz. A concordância nominal em Porto Alegre (RS): análise variacionista. 2003. 108 f.: il. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2003.
LEIRIA, Lucia Lovato. A ditongação variável em sílabas tônicas finais travadas por /s/. 1995. 74 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1995.
MALLMANN, Dálcio Otelon. A elevação das vogais médias átonas finais no português falado em Santo Ângelo (RS). 2001. 99 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2001.
MAYA, Leonardo Zechlinski. A variação da preposição PARA na fala de Porto Alegre. 2004. 121 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2004.
MELLO, Vera Helena Dentee de. Formação de ditongo em sílaba travada por /s/ na linguagem coloquial gaúcha. 1994. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Porto Alegre, 1994.
MONARETTO, Valéria Neto de Oliveira. A vibrante: representação e análise sociolingüística. 1992. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1992.
PIMENTEL, Rosane Mosmann. A variação lingüística do fonema /r/ na posição pós-vocálica em falantes da cidade de Porto Alegre. 2003. 105 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2003.
QUEDNAU, Laura Rosane. A lateral pós-vocálica no português gaúcho: análise variacionista e representação não-linear. 1993. 121 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1993.
RIGATTI, Ana Paula. Realização do rótico no onset em falantes de Luzerna-SC e Panambi-RS, regiões de imigração alemã. 2003. 83 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2003.
ROVEDA, Suzana Damiani. Elevação da vogal média átona final em comunidades bilingües: português e italiano. 1998. 87 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1998.
SANTOS, Diely Valim dos. Um estudo sobre os compostos do português. 2005. 68 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 2005.
SCHWINDT, Luís Carlos da Silva. A harmonia vocálica nos dialetos do sul do país: uma análise variacionista. 1995. 76 f. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1995.
VIEIRA, Maria José Blaskovski. A neutralização das vogais médias postônicas. 1994. Dissertação (Mestrado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras, PUCRS, Porto Alegre, 1995.
ALCÂNTARA, Cíntia da Costa. As classes formais do português e sua constituição: um estudo à luz da teoria da morfologia distribuída. 2003. 179 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2003.
AMARAL, Marisa Porto do. As proparoxítonas: teoria e variação. 2000. 222 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2000.
BATTISTI, Elisa. A nasalização no português brasileiro e a redução dos ditongos nasais átonos: uma abordagem baseada em restrições. 1997. 187 f.: il. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 1997.
BONILHA, Giovana Ferreira Gonçalves. Aquisição fonológica do português brasileiro: uma abordagem conexionista da teoria da otimidade. 2005. 371 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2005.
BRESCANCINI, Cláudia Regina. A fricativa palato-alveolar e sua complexidade: uma regra variável. 2002. 364 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2002.
COLLISCHONN, Gisela. Análise prosódica da sílaba em português. 1997. 238 f.: il. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 1997.
ESPIGA, Jorge Walter da Rocha. O português dos campos neutrais: um estudo sociolingüístico da lateral posvocálica nos dialetos fronteiriços de Chuí e Santa Vitória do Palmar. 2001. 154 f.: il. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2001.
MAGALHÃES, José Sueli de. O plano multidimensional do acento na teoria da otimidade. 2004. 216 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2004.
MIRANDA, Ana Ruth Moresco. A metafonia nominal. 2000. 190 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2000.
MONARETTO, Valéria Neto de Oliveira. Um reestudo da vibrante: análise variacionista e fonológica. 1997. 213 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 1997.
MORENO, Cláudio. Morfologia nominal do português: um estudo de fonologia lexical. 1998. 205 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 1998.
QUEDNAU, Laura Rosane. O acento do latim ao português arcaico. 2000. 218 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2000.
SCHWINDT, Luís Carlos da Silva. O prefixo no português brasileiro: análise morfológica. 2000. 191 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 2000.
TASCA, Maria. A lateral em coda silábica no sul do Brasil. 1999. 147 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 1999.
VIEIRA, Maria José Blaskovski. Aspectos do sistema vocálico do português. 1997. 181 f. Tese (Doutorado em Letras (Lingüística Aplicada)) - Faculdade de Letras. PUCRS, Porto Alegre, 1997.