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LITERATURA INFANTO - JUVENIL, LEITURA E ENSINO

Dr. Diógenes Buenos Aires de Carvalho
UEMA

      A linha de pesquisa Literatura Infanto - Juvenil, leitura e ensino centra sua atuação acadêmica em três eixos: análise da produção literária para crianças e jovens nos diferentes gêneros e suportes; diagnóstico da situação do ensino da leitura e da literatura e proposição de alternativas metodológicas; e descrição e análise histórico-social dos processos de leitura e formação do leitor em contextos institucionais e não-institucionais. A partir desses três eixos, a linha pretende contribuir para o desenvolvimento dessa área do conhecimento, cujos estudos pioneiros possibilitaram o surgimento de uma gama variada de pesquisas que permitem fortalecer uma produção científica capaz de interferir positivamente na sociedade. No âmbito da leitura, os trabalhos da escritora e pesquisadora Cecília Meireles, Leitura infantis, datado de 1944, e da psiquiatra Nise Pires, Crianças, jovens e a literatura. Relatório de Pesquisa: literatura consumida pelos alunos de ensino de 1º grau do Município do Rio de Janeiro, datado de 1976, os quais colocam em cena a importância da relação texto-leitor e seus efeitos para a formação sócio-histórica dos sujeitos em formação, revelando, assim, os papéis que a leitura da literatura exerce na vida de crianças e adolescentes. A contribuição dessas pesquisas não está restrita ao foco inovador, à medida que estão centradas no leitor, mas também na perspectiva metodológica, visto que a pesquisa de campo passa a ser uma metodologia relevante na obtenção de resultados que não podem ser encontrados em pesquisa de cunho bibliográfico.
      Numa perspectiva teórica sobre a literatura infantil, tem-se a discussão empreendida por Cecília Meireles em Problemas de literatura infantil, datado de 1951, que, ao se dirigir a um público formado por professores, visto que o livro é uma coletânea de palestras, engendra uma discussão conceitual que é imprescindível para a conformação da literatura infantil enquanto gênero literário distanciando-a do caráter pedagógico que a acompanha desde a sua origem. Desse modo, Meireles dá o pontapé inicial para esse debate que ainda perdura e tem desafiado a comunidade acadêmica que é a composição do estatuto literário desse gênero, tendo em vista o estreito vínculo dessa produção literária com a escola. Essa ligação proporciona, por um lado, a garantia de um público leitor, e, por outro, a preocupação com a má escolarização da literatura infantil, cujo resultado é a sobreposição do pedagógico sobre o literário. Depois desse estudo, diversos pesquisadores vem empreendendo discussões no tocante à relação entre literatura geral e infantil, pedagogia e literatura infantil, o estatuto literário desse gênero e a correlação da literatura para crianças com diversos setores da cultura (biblioteconomia, crítica literária, psicologia e folclore), como, por exemplo, A literatura infantil na escola, de Regina Zilberman, Literatura infantil: autoritarismo e emancipação, de Lígia Cadermatori Magalhães e Regina Zilberman, e Literatura infanto-juvenil: um gênero polêmico, organizado por Sônia Salomão Khedé, e Era uma vez... na escola: formando educadores para formar leitores, coordenado por Vera Teixeira de Aguiar.
      A importância do aspecto literário na produção editorial endereçada a crianças e jovens também se reflete nos estudos das obras de autores importantes para a consolidação da literatura infantil brasileira, como, por exemplo, Monteiro Lobato6, em que são exemplares os trabalhos de Marisa Lajolo. Ressalta-se que a pesquisa não se restringiu ao "pai da literatura infantil brasileira", mas também a outros autores que mostram o quão é multifacetado o "pirlimpimpim" literário brasileiro capaz de extrapolar fronteiras, sendo reconhecidos internacionalmente por meio de premiações como o Prêmio HANS CHRISTIAN ANDERSEN - IBBY7, em que foram agraciadas as escritoras Lygia Bojunga8 e Ana Maria Machado9, e Prêmio ALMA - Astrid Lindgren Memorial Award10 - o maior prêmio internacional jamais instituído em prol da literatura para crianças e jovens, criado pelo governo da Suécia, em que Lygia Bojunga foi agraciado pelo conjunto de sua obra.
      E o de caráter histórico, Literatura infantil brasileira: ensaios de preliminares para a história da literatura infantil no Brasil, datado de 1968, de Leonardo Arroyo. A obra abrange do período colonial até a inserção de Monteiro Lobato, concluindo o estudo no ano de 1966. As fontes documentais recolhidas por Arroyo vão desde os impressos produzidos pela imprensa escolar até o levantamento de fac-símiles. Para realizar tal arrolamento, o autor toma como referência um conceito amplo de literatura infantil, reunindo num mesmo grupo tradição oral, contos populares, rondas, parlendas e literatura escolar. Evidencia-se, destarte, a preocupação do autor em recolher todas as fontes possíveis para a elucidação da formação da literatura infantil no Brasil, bem como a estreita relação com a escola, o que faz, segundo Glória Pondé, do livro de Arroyo, não apenas uma história da literatura infantil, mas também uma história da pedagogia brasileira. Com essa obra, Arroyo torna-se a referência básica para a elaboração de outras histórias da literatura infantil brasileira, a exemplo de Panorama histórico da literatura infantil/juvenil, de Nelly Novaes Coelho, e Literatura infantil brasileira: história e histórias, de Regina Zilberman e Marisa Lajolo, ou de histórias com um caráter regional como o trabalho de Diana Maria Marchi, A literatura infantil gaúcha: uma história possível, realizado a partir de dados coletados pelo Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS.
      Tais estudos desencadearam, posteriormente, inúmeros outros que consolidaram a literatura infanto-juvenil e a leitura como objetos de pesquisa instigantes e cada vez mais promissores à medida que a produção e circulação do livro endereçado à criança e ao jovem permanecem como desafios para a universidade, tendo em vista a recorrente renovação tanto no nível textual como nas formas de apresentação (impressa, multimidial e digital) e, por conseguinte, seus efeitos. Quanto à leitura, nota-se a recorrente preocupação com a formação do leitor literário, o que implica no desenvolvimento e debate de teorias da leitura e do leitor, que fundamentam a análise de práticas leitoras, cujos dados podem ser coletados através de pesquisa bibliográfica ou de campo. A escolha de uma das metodologias aponta para diferentes ângulos do objeto de pesquisa, que não só retratam o caráter caleidoscópico do objeto como também o compromisso do pesquisador com uma perspectiva mais teórica ou com uma perspectiva de intervenção da realidade mediante a proposição de ações que promovam a formação do leitor.
      Como sustentação teórica, diversos modelos teóricos tem fundamentado tais pesquisas como, por exemplo, recepcional, sociológico, histórico, hermenêutico, psicanalítico, semiológico e multiculturalismo, os quais dão conta dos distintos recortes e objetivos lançados pelos pesquisadores da área.
      Essa heterogeneidade de modelos possibilita, por sua vez, a uma variedade de temáticas que podem explorar aspectos intrínsecos da literatura infanto-juvenil como o processo de criação literária no que tange à linguagem, às representações (da criança, da família, da escola e do leitor), à escolarização da literatura, à relação entre a literatura infanto-juvenil e outras linguagens (ilustração, música, cinema, televisão, computador); bem como aspectos extrínsecos que enfocam os interesses e histórias de leitura, a história da literatura infanto-juvenil, a recepção do livro literário em diferentes contextos formais de formação de leitores (escolas, bibliotecas, salas de leitura, editoras, etc.) e não-formais (classe social, família, igreja, centros comunitários, hospitais, etc.).
      Para ilustrar algumas dessas perspectivas, têm-se os seguintes projetos em desenvolvimento pelos grupos de pesquisa, Centro de Pesquisas Literárias - CPL, Leitura da literatura: a escola e as demais agências sociais11 e Centro de Referência para o desenvolvimento da linguagem - CELIN12, vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS:
      1. Contar e encantar é só começar, sob a coordenação da Profa. Dr. Maria Tereza Amodeo. Constituição do Grupo de Contadores de Histórias da Faculdade de Letras da PUCRS para atuar na comunidade, investindo na narração de histórias como estratégia de formação de leitores, divulgando as possibilidades da capacitação acadêmica do Curso de Letras e associando a imagem da PUCRS a uma ação de efetivo valor cultural.
      2. Conto de fadas: leituras e releituras - a recepção dos contos clássicos infantis e suas recriações contemporâneas, sob a coordenação da Profa. Dr. Sissa Jacoby. A partir da descrição de um corpus de contos de fadas e de sua apresentação à criança, o projeto visa investigar a recepção dos contos clássicos e de suas novas formas, pelo leitor/espectador infanto-juvenil, através dos diferentes meios à disposição. O objetivo da pesquisa é promover um diálogo entre o conto clássico e suas releituras, buscando uma proposta de trabalho com a literatura infanto-juvenil que, ao invés de negar os diferentes meios à disposição da criança na atualidade, tais como cinema, TV, jogos de computador, internet, contemple os novos recursos como elementos de apoio no incentivo à leitura e no trabalho com os textos literários clássicos junto à criança. O corpus será constituído pelos contos de fadas mais conhecidos - histórias tradicionais e suas releituras contemporâneas - escritas ou em transposições audiovisuais, através dos diferentes meios à disposição: narração oral, livro, desenho animado, filme, livro de imagens, CD-ROM, etc. A metodologia contempla tanto os estudos de Bruno Bettelheim, em A psicanálise dos contos de fadas, quanto os estudos de Wolfgang Iser, relativamente à estética da recepção.
      3. Literatura Infantil e Medicina Pediátrica: uma aproximação de integração humana, sob a coordenação da Profa. Dr. Solange Medina Ketzer, que busca Integrar conteúdos e atividades desenvolvidas na disciplina de Literatura Infantil com alunos do Curso de Graduação em Letras aos procedimentos realizados no Setor de Recreação do Hospital São Lucas da PUCRS com crianças enfermas de seis meses a doze anos de idade, com vistas à manutenção da comunicação com a realidade externa do hospital através do universo ficcional.
      4. Multiculturalismo e ensino de literatura, sob a coordenação da Profa. Dr. Maria Tereza Amodeo. Elaboração de uma obra de apoio pedagógico para professores de Literatura do Ensino Básico que considere a pluralidade cultural contemporânea, investindo na delimitação de um espaço significativo para essa forma artística. Realizar uma vasta revisão bibliográfica que possa sustentar a elaboração de material de apoio com vistas a contribuir para a formação continuada dos professores. Ampliar a base teórica que deve dar sustentação a uma prática de ensino da Literatura compatível com a complexidade do mundo contemporâneo, com vistas a uma publicação dirigida especialmente a professores de Ensino Básico e que será utilizada como ponto de referência de cursos e seminários a serem realizados numa etapa posterior.
      5. Muita prosa e muito verso, sob a coordenação da Profa. Dr. Maria Tereza Amodeo. Propõe-se a promover a autonomia, integração e participação mais efetiva na sociedade de pessoas da comunidade com mais de 50 anos, partindo da leitura e análise de textos literários, da narração/recitação de histórias e poemas e da produção de textos em prosa e verso, com vistas a desenvolver formas de atuação concreta na sociedade.
      6. Mundo mágico da poesia: potencialidades lingüísticas e alfabetização sob a coordenação da Profa. Dr. Solange Medina Ketzer, que pretende construir uma proposta de trabalho pedagógico de desenvolvimento cognitivo através da poesia que contribua para o aprendizado da leitura e da escrita de crianças freqüentando a primeira série do ensino fundamental; capacitar professores alfabetizadores para o trabalho com esta proposta; investigar a contribuição desta proposta para o aprendizado da leitura e da escrita dessas crianças. A proposta de trabalho esta baseada na articulação da teoria da literatura, da lingüística e da educação. Caracteriza-se pela exploração dos planos fônico, sintático, semântico e pragmático da poesia, com vistas ao desenvolvimento de potencialidades lingüísticas de alfabetizando. O trabalho realiza-se em duas etapas: desenvolvimento de oficinas de poesia com crianças de primeira série e desenvolvimento de oficinas de socialização com professores alfabetizadores.
      7. Oficinas de leitura no CLIC: a formação de educadores para formar leitores sob a coordenação da Profa. Dr. Vera Teixeira de Aguiar, que objetiva o desenvolvimento de pesquisas de leitura no Centro de Literatura Interativa da Comunidade - CLIC com vistas à formação do hábito de leitura das crianças e a formação e à preparação de profissionais mediadores de leitura entre os alunos de Letras, a partir da criação de materiais impressos e softwares de apoio à leitura literária.
      8. Tendências contemporâneas da produção cultural para a criança, sob a coordenação da Profa. Dr. Sissa Jacoby, é uma investigação das manifestações culturais dirigidas à infância na atualidade bem como das influências dessa produção na formação da criança e sua experimentação do mundo simbólico
      Tais projetos congregam estudos em nível de Iniciação Científica, com alunos de graduação, bem como em nível de Mestrado e Doutorado, o que representa a formação de novos pesquisadores oriundos da PUCRS e de outras IES brasileiras e estrangeiras. Desse modo, a linha irradia as discussões teóricas e metodológicas que realiza para outros espaços acadêmicos, ampliando, assim, o diálogo tão necessário para o desenvolvimento da produção de conhecimentos.
      Resultam desses projetos diversas dissertações de mestrado e teses de doutorado13, como, por exemplo:
      1. Brincar de ler: um método lúdico de ensino de leitura literária, de Renata Cavalcanti Eichenberg.
      2. A presença da metalinguagem na literatura infantil contemporânea, de Annete Baldi.
      3. "Poesia é voz de fazer nascimentos": a construção da subjetividade do leitor através da leitura da poesia, de Zila Letícia Goulart Pereira Rego.
      4. Uma viagem através da poesia: vivências em sala de aula, de Gláucia de Souza.

REFERÊNCIAS



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