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A PESQUISA EM PSICOLINGÜÍSTICA

Joselaine Sebem de Castro

      Acredita-se que o termo "psicolingüística" tenha aparecido pela primeira vez em um artigo de Proncko, em 1946, no qual se colocava como abordagem central o relacionamento entre o pensamento (comportamento) e a linguagem. Contudo, foi somente em 1951 que se deu a publicação de um livro para tratar especialmente das relações entre lingüística (fatos lingüísticos (1)) e psicologia (problemas de comunicação (2)).
      Nessa fase, os estudos abarcados por esse campo interdisciplinar constituíam uma tentativa de encontrar respostas para questões comuns às duas disciplinas. Identificava-se, ainda, a existência de dois caminhos opostos: um que partia da Psicologia para a Lingüística e outro que partia da Lingüística para a Psicologia.
      Na Psicologia, os estudiosos buscavam compreender o funcionamento da linguagem como um meio para se chegar a uma melhor compreensão da mente humana, pois acreditavam que esta se organizava de forma análoga à linguagem e através dela. Vislumbravam-se, então, duas correntes: a mentalista, que explorava o pensamento através da linguagem, e a comportamentalista, que buscava entender o comportamento lingüístico, reduzindo-o a uma série de mecanismos de estímulo-resposta.
      Na Lingüística, a busca pela teoria psicológica apareceu especialmente pelos introdutores do método histórico, que tentavam fundamentar suas explicações sobre as mudanças lingüísticas no associacionismo psicológico (3). A demonstração feita por Wundt (4) de que a linguagem poderia ser em parte explicada com base em princípios psicológicos motivou a adesão de muitos lingüistas, especialmente porque as propostas e métodos do psicólogo obedeciam ao rigorismo científico, o que contribuiria para uma abordagem mais científica da linguagem.
      A dificuldade de aplicar análises psicológicas aos fenômenos contemporâneos a partir de uma perspectiva histórica acabou por reduzir a colaboração entre as duas áreas. Com a introdução da descrição sincrônica das línguas, feita pelo estruturalismo lingüístico, Psicologia e Lingüística reaproximaram-se.
      Esse período foi bastante produtivo, principalmente devido ao sucesso do estruturalismo (5) e do comportamentalismo (6). Também, destaca-se um relacionamento mais igualitário entre Psicologia e Lingüística, com contribuições e descobertas de ambos os campos. De acordo com Kess (1992), essa relação mais simétrica foi possibilitada pelo fato de os dois paradigmas serem operacionalistas, isto é, buscavam construir suas teorias com base nos fenômenos observáveis e através de um conjunto de operações verificáveis que são facilmente explicitadas. No entanto, uma colaboração mais estreita entre as duas ciências foi dificultada, por um lado, porque os comportamentalistas reduziram a linguagem a atos de fala observáveis, minimizando o papel das estruturas mentais e, por outro, porque os estruturalistas julgavam a semântica inacessível à pesquisa lingüística. Como explica Scliar-Cabral (1991), uma psicologia que não estuda a mente e uma lingüística que não estuda o significado têm pouco a oferecer uma à outra.
      A Teoria da Informação (7), surgida logo após a Segunda Guerra, ofereceu à Psicolingüística uma base epistemológica mais consistente. Por volta dos anos 50, a Psicolingüística era definida como o estudo dos "processos de codificação e decodificação no ato da comunicação, na medida em que ligam estados das mensagens e estados dos comunicadores" (Osgood e Sebeok, 1954, ap. Titone, 1976: 24). Seguindo a definição, a unidade de comunicação, objeto de análise dessa ciência, era descrita como englobando os seguintes elementos:



      Com o crescente aumento de pesquisas e descobertas, surge a necessidade de agrupar e organizar tais materiais que tratavam de problemas comuns. Em 1954, Osgood e Sebeok editam o material apresentado em um famoso simpósio realizado no ano anterior, na Universidade de Indiana. A partir de então, a ciência Psicolingüística ficou mais bem definida, assim como mais bem esclarecidos seus métodos e limites de atuação.
      Em 1959, o operacionalismo, característico tanto do comportamentalismo como do estruturalismo, é fortemente criticado por Noam Chomsky, lingüista que propõe uma abordagem racionalista e dedutiva para a ciência. Assim, os fundamentos da Psicolingüística foram abalados, ocasionando uma diminuição gradativa do comportamentalismo e uma revigoração do mentalismo, embora em novas bases. A partir daí, a Psicolingüística assume como paradigma teórico central o modelo chomskyano, proposto para a Lingüística, o qual propunha, principalmente, que:
      a) as sentenças faladas (estruturas superficiais) seriam derivadas de estruturas profundas, através de regras transformacionais, que se organizam numa gramática ou sintaxe;
      b) este componente sintático (Gramática Universal-GU), capaz de gerar qualquer e somente uma língua, deveria ser inato à espécie
      c) se distinguisse entre a competência (conhecimento que um falante nativo ideal tem de sua língua) e a performance (atividade do falante numa situação comunicativa concreta).
      À teoria lingüística cabia o estudo da competência - tendo como componente central a sintaxe - e o seu objetivo seria a construção e descrição de uma Gramática Universal que permitisse entender como a linguagem surge e se diferencia, em línguas distintas, na mente humana. A dificuldade de encontrar evidências experimentais que sustentassem as teorias, assim como a verificação de que não apenas a estrutura sintática, mas também a semântica e a pragmática seriam importantes no processamento de sentenças foi ocasionando o abandono dessa linha de pesquisa.
      As mudanças na teoria lingüística chomskyana, juntamente com a consideração de fatores semânticos e pragmáticos, propiciaram uma ampliação e enriquecimento da Psicolingüística. Atualmente, observa-se, então, uma abordagem mais cognitivista, na qual os aportes da teoria lingüística, embora ainda importantes, perderam seu caráter de exclusividade, sendo a linguagem apenas um dos fatores da cognição.
      Os novos experimentos sobre a realidade psicológica das estruturas e operações sintáticas (8) mostraram que tais estruturas desempenham função na memória e na organização cognitiva. Também se verificou que as estruturas lingüísticas não são adquiridas separadamente dos conceitos semânticos e das funções discursivas, além de estarem submetidos aos princípios cognitivos. A aquisição da linguagem passou a ser explicada como o resultado da interação entre vários fatores. Rejeitando a centralidade e independência da gramática, o paradigma cognitivo (9) ampliou e tornou mais variado o campo dos estudos psicolingüísticos, aproximando-os de outras ciências relacionadas (10) (como a Antropologia, a Filosofia da Linguagem, a Inteligência Artificial).
      Scliar-Cabral (1991) apresenta os seguintes assuntos como de interesse da Psicolingüística:

  • relações entre pensamento e linguagem;
  • aquisição da linguagem;
  • neurofisiologia da linguagem;
  • fatores inatos, maturacionais e experienciais;
  • processamento dos sinais lingüísticos;
  • processamento textual;
  • memória semântica;
  • distúrbios de aquisição e processamento da linguagem.

          Pode-se perceber, conforme essa lista, que predomina o enfoque de questões como a relação entre linguagem e cérebro, incluindo os fundamentos biológicos da linguagem, sua neurofisiologia e os prejuízos do processamento causados por lesão cerebral; as relações entre pensamento e linguagem, como um produto do sistema cerebral; os sistemas de processamento mental da linguagem, incluindo os subsistemas lingüísticos (fonética, sintaxe, semântica, etc.) e os subsistemas psíquicos (percepção, memória, conhecimento de mundo, etc.); processamento de unidades amplas como o texto e o discurso; e a aprendizagem de outros sistemas lingüísticos como a leitura e a escrita.
          Dada a relevância natural dos tópicos abordados pela Psicolingüística, são bastante numerosas, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Letras da PUCRS as dissertações de mestrado (11) e as teses de doutorado (12) que recaem nessa área do saber, mais especificamente na linha de pesquisa denonimada "Processamento cognitivo da linguagem e conexionismo (13)", como pode ser exemplificado através do estudo realizado por Castro (2004) (14). Do mesmo modo, no Centro de Referência para o Desenvolvimento da Linguagem - CELIN, vinculado a esse programa, vêm sendo realizadas pesquisas (15) nessa mesma linha, tendo como eixo temático a compreensão da leitura. As descobertas científicas, possibilitadas especialmente pelo desenvolvimento das técnicas de imageamento cerebral (16), com certeza ainda instigam mais a curiosidade sobre as bases neurológicas do fenômeno da linguagem, fomentando novos e importantes conhecimentos.

    REFERÊNCIAS



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