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ESTUDOS SOBRE O TEXTO/DISCURSO
Susana de Quinteros Creus
Os estudos sobre línguas maternas e estrangeiras, delineados com base em uma perspectiva funcional, interativa, e interdisciplinar, fazem voltar o pensamento às duas posturas tradicionais sobre a linguagem: a linguagem como sistema formal e a linguagem como sistema de significados que se codificam formalmente. As atuais disciplinas que tratam da análise da linguagem passam a priorizar o estudo do significado e da forma em relação com o significado, fazendo com que a gramática identifique o texto/discurso como unidade de linguagem em uso.
Uma ampla gama de áreas temáticas centradas no texto/discurso ou que veiculam propostas de estudos em torno do texto/discurso abrem diversas possibilidades de pesquisa. No caso das línguas maternas e estrangeiras, a prática da leitura e da produção textual, em todos os níveis, contempla as diferentes modalidades textuais e discursivas, com vistas ao aprimoramento de habilidades de produção e compreensão oral e escrita. O estudo da gramática se organiza em função do texto/discurso numa visão da língua em uso, e a prática da leitura e da produção de textos e discursos de diversos gêneros responde à noção de "adequação comunicativa".
Todo texto se apresenta como uma "configuração regulada por diversos planos em constante interação" (ADAM, 1999: 39) e, por sua vez, tais planos estão constituídos de unidades que mantêm uma interação permanente, regular, mas também, assimétrica (ADAM, 1999).
Entender una gramática textual supone adoptar una perspectiva funcional, es decir, un punto de vista que entiende el lenguaje como un sistema de significados que se codifican formalmente. [...] Lo que los hablantes de una determinada lengua intercambian son significados; lo que negocian, cuando se relacionan, son significados; lo que producen son lo que analizamos como unidades de significado, es decir, textos18 (MARTÍN MENÉNDEZ,2006:10). (grifado nosso).
Para atingir os objetivos das novas tendências curriculares, é preciso desenvolver metodologias de ensino de texto nas quais as questões teóricas sejam adotadas como um conjunto de opções disponíveis para serem aplicadas na análise do funcionamento concreto da língua. Os recursos gramaticais são, então, alternativas às quais o falante recorre quando produz um texto, sendo que ele "é uma unidade semântico-pragmática e está determinado a partir do uso" (MARTÍN MENÉNDEZ,2006:15). Como já foi expresso por VAN DIJK:
Tal como foi dito, o estudo das línguas com freqüência se limita à gramática (comparada) de um idioma determinado e fica longe de levar em consideração uma análise sistemática dos diferentes tipos e contextos de uso da língua. [..] a análise das estruturas e funções dos textos requer um modo de proceder interdisciplinar. A tarefa da ciência do texto consiste em descrever e explicar as relações internas e externas dos diferentes aspectos das formas de comunicação e uso da língua, tal e como são analisados nas diferentes disciplinas (VAN DIJK, 1997: 10-17) (tradução nossa).
Utilizar a linguagem é, enfim, interagir a partir do intercâmbio de textos. Vem daí, a necessidade de propiciar aos alunos condições para o desenvolvimento de competências, habilidades e estratégias lingüístico-textual-discursivas para a produção, compreensão e interpretação de textos orais e escritos, oportunizando o desenvolvimento do senso crítico, ético e estético.
Conforme pode ser visto a seguir, os estudos do texto são realizados a partir de diferentes caminhos teóricos, construídos ou seguidos por reconhecidos lingüistas.
Dentre os possíveis modelos de gramática textual a proposta de M.A.K. Halliday se insere em uma teoria lingüística sistêmico-funcional, que, conforme o autor, é em si mesma uma teoria social. Para Halliday, o significado se realiza na linguagem em forma de texto e se configura conforme o contexto situacional. O texto é considerado como um produto e um processo; como uma entidade semântica; como uma forma de intercâmbio social de significados (Halliday, 1989).
Por sua parte, Beaugrande (1983), outro estudioso da Lingüística Textual, define o texto como um fato comunicativo que consta de determinados critérios para definir sua textualidade: a coesão e a coerência, a informatividade, a situacionalidade, a intencionalidade, a aceitabilidade e a intertextualidade. Conforme o autor, a ciência dos textos requer noções próprias, dada a natureza de seu objeto de estudo.
O ponto de partida de Van Dijk no desenvolvimento de uma teoria textual foi a incorporação e adaptação das noções gerativistas na organização do discurso, tais como as de estrutura profunda e superficial - macro e micro-componentes textuais - bem como as de transformações macro e micro-textuais (Van Dijk, 1995).
Em uma outra direção, Adam (1996:12), no seu estudo sobre a estrutura da composição nos textos, define o texto como um objeto de estudo de difícil delimitação metodológica e argumenta que a tipologia seqüencial apresentada no seu artigo constitui apenas um ponto de vista parcial sobre um objeto totalmente heterogêneo. Para o autor, um texto pode ser considerado "como uma configuração regulada por diversos módulos ou sub-sistemas em constante interação"; uma estrutura hierárquica complexa que comporta seqüências do mesmo tipo ou de tipos diferentes (Adam (1992:21;34).
Com base na proposta estruturalista, a Teoria da Argumentação na Língua inicialmente desenvolvida por Oswald Ducrot e Jean-Claude Anscombre, e atualmente continuada por Oswald Ducrot e Marion Carel, com a versão técnica dos Blocos Semânticos, é um modelo que se propõe estudar a linguagem tendo como unidade de sentido o enunciado. Um enunciado é a realização de um encadeamento argumentativo que é, por sua vez, uma unidade semântica. Para Ducrot, o sentido de um enunciado pode ser definido apenas na inter-relação com outros enunciados, i.e., no discurso. Ao longo do percurso teórico de Ducrot, encontram-se conceitos relativos a texto e a discurso; o primeiro relacionado com a entidade abstrata e o discurso concebido como a realização do texto.
Outra proposta teórica que tem por objeto de estudo o texto é a Semiótica. Sob o enfoque de uma teoria semiótica, um texto define-se pela sua estruturação, como "um todo de sentido", i.e., como objeto de significação; mas também como objeto de comunicação mediante as relações que se estabelecem entre um destinador e um destinatário. Em outros termos, o texto só pode ser concebido nessa dualidade que o define (Barros, 1990).
Para explicar "o que o texto diz" e "como o diz", a semiótica trata, assim, de examinar os procedimentos da organização textual e, ao mesmo tempo, os mecanismos enunciativos de produção e de recepção do texto (Barros, 1990: 8).
A lingüística foi, durante muito tempo, uma teoria da língua e da linguagem que não ia além das dimensões da frase, seja por acreditarem alguns, ser a frase a unidade lingüística por excelência, seja por dificuldades práticas de outros que reconhecem unidades maiores que a frase. [...] A mudança de posicionamento frente aos fatos de linguagem levou ao aparecimento de propostas teóricas diversas que concebem o texto, e não mais a frase, como unidade de sentido e que consideram, portanto, que o sentido da frase depende do sentido do texto (Barros, 1990:8).
Com o objetivo de favorecer a compreensão do leitor, o uso desses entendimentos encontra-se presente em uma pesquisa (1), apoiada na Teoria da Argumentação da Língua, descrita, de forma sucinta, no que se refere a título, autor, objetivo, metodologia, corpus, resultados e sugestões. Do mesmo modo, para que o leitor conheça possibilidades de temas de pesquisa na área do texto/discurso, são alistadas Dissertações de Mestrado (2) e Teses de Doutorado (3) realizadas no Programa de Pós-Graduação em Letras da FALE/PUCRS.
REFERÊNCIAS