A Escrita Criativa na Faculdade de Letras

Unidade Acadêmica: Faculdade de Letras
Responsáveis: Profa. Maria Eunice Moreira (maria.eunice@pucrs.br) e Prof. Luiz Antonio de Assis Brasil (laab@pucrs.br)

1 INTRODUÇÃO

      A Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul mantém, há 23 anos, uma Oficina de Criação Literária em nível de extensão, que vem obtendo o reconhecimento da comunidade cultural. A partir do êxito dessa iniciativa, o Programa de Pós-Graduação em Letras/FALE criou, em 2006, três (3) vagas na sua área de concentração em Teoria da Literatura, destinadas a qualificar alunos que tenham interesse em seguir a carreira de escritor. Na seqüência, a preocupação com a criação literária transitou para a Graduação, na qual, em 2007, foi criado um eixo específico de estudos que leva o nome de Escrita Criativa. Ficam, assim, nesse âmbito, contemplados três focos acadêmicos: extensão, pós-graduação, graduação.

I AS RAÍZES INTERNACIONAIS E NACIONAIS DA ESCRITA CRIATIVA

      Intentar-se-á, neste momento, traçar um breve histórico e o estado atual da escrita criativa no mundo e em nosso País. As Oficinas, também chamadas de laboratórios de textos, laboratórios literários, laboratórios de criação textual ou de redação criativa, tiveram seu início nos Estados Unidos, na década de 1930-40, mas foi a partir da II Guerra que encontraram seu pleno florescimento. Assim, e por primeiro, tornou-se notório o Program in Creative Writing iniciado pela Iowa University em 1936, sob a direção de Wilbur Schramm; sucedido em 1941 por Paul Engle, que o regeu por vinte e cinco anos, o projeto ganhou a feição que o notabilizou: até hoje, são convidados escritores de múltiplas nacionalidades, para lá permanecerem por um tempo não inferior a seis meses. Realizam-se workshops dos mais variados gêneros, conferências, seminários e visitas a escolas; ao mesmo tempo, os participantes dispõem de apoio logístico para trabalharem em paz - e isso quase sempre resulta num livro.
      No presente momento, quase todas as universidades norte-americanas e a maioria das universidades européias possuem seus creative writing, e aqui citam-se a University Easter Washington, que trabalha com escritores residentes por temporadas; a University of Cincinnati, a Siracuse University, com seu Creative Writing de três anos de duração, findo o qual os alunos - vamos chamá-los assim, faute de mieux - submetem ao julgamento um livro, como thesis; a Rutger University; a Arizona University - seu Creative Writing Program completou vinte anos, com cem obras publicadas e vinte prêmios conquistados, entre estes o Pulitzer.
      Da França vêm os ateliers d'écritures, iniciados nos finais dos anos 60 do século XX com Elisabeth Bing; mais recentemente, encontramos o reputadíssimo trabalho de Claudette Oriol-Boyer, da Universidade de Grenoble III, diretora da revista TEM (Texte en Main), que se tornou paradigmática para o desenvolvimento de oficinas, em especial aquelas destinadas ao público escolar do ensino médio. Na Espanha encontramos várias oficinas (em espanhol talleres) em funcionamento, destacando-se, como bom exemplo, a Factoría de Alquimia Literaria, composta por diferentes talleres focalizados na criação literária e núcleos de informação. Já na América Latina, tem relevância a Universidad de El Paso (México), que criou um curso de Maestria en Creación Literaria, bilíngüe, o qual mescla conteúdos da Teoria Literária com exercícios de produção de textos. Grupo bastante atuante na cidade do México é El Libro de los Gatos, dedicada a organizar e promover talleres e cursos. São bem reputadas as oficinas cubanas, com sua imensa dispersão envolvendo sindicatos e associações. Já a Casa de la Cultura Ecuatoriana é uma instituição articulada nacionalmente, com sede em Quito e com vinte e dois núcleos regionais, e que promove feiras de livros e talleres literarios. Da Argentina vem uma atividade interessante: trata-se do Taller Interactivo de Excritura - via correio eletrônico -, coordenado por Laura Calvo; originada na Revista de Criação Literária En el Camino, está aberta à colaboração ao público, que, remetendo suas produções, recebe avaliação criteriosa. Ainda da Argentina vem o taller de Ángel Leiva e os ministrados pelos conhecidos escritores Mempo Giardinelli (Luna caliente), Ricardo Piglia [O laboratório do escritor] e pelo professor Nicolás Bratosevich. O vizinho Uruguai também promove vários talleres, que patrocinam reuniões e congressos para troca de informações, e registro aqui o labor de Washington Benavides, que é o Coordenador de Talleres do Ministério da Educação. No Paraguai encontramos Augusto Roa Bastos [Yo, el Supremo] como responsável por diversos talleres itinerantes, que os ministra desde que voltou para seu país.
      O escritor Cyro dos Anjos, em 1962, deu início, na Universidade de Brasília, ao ciclo nacional das oficinas literárias, tendo o grande mérito – entre outros – de trazer à pauta a conveniência dessa classe de laboratórios. Em 1966 Judith Grossmann criou uma experiência congênere na Universidade Federal da Bahia, também com resultados entusiasmantes. Em 1975 aconteceu no Rio uma oficina importante, que foi regida por Silviano Santiago e Affonso Romano de Sant´Anna. A partir daí, as oficinas brasileiras encontraram grande acolhida, concentrando-se nas instituições acadêmicas e em órgãos públicos; cita-se, a título exemplar, o laboratório da poeta e professora Maria da Graça Cretton, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora da tese de doutorado Oficina literária: o artesanato do texto (1992). Há outras a nomear, e entre elas as coordenadas por Suzana Vargas e Esdras do Nascimento, ambas no Rio de Janeiro. No Recife encontra-se a do romancista Raimundo Carrero.
      Todo esse imenso rol de realizações apenas justifica a existência das oficinas, e isso porque: a) o aluno se obriga a uma produção constante; b) as conquistas técnicas são mais rápidas, decorrentes da sistematização; c) os oficineiros e o ministrante comportam-se com liberdade ao avaliar os textos dos alunos e colegas, enquanto o amigo e leitor/revisor ad hoc pode nos trair, ocultando-nos algo menos bom; d) as leituras e análises são organizadas, visando um ganho mais efetivo.
      Preciso é então dizer, como corolário, que as oficinas não se constituem em fábricas de escritores, assim como as diferentes academias de arte - já seculares e incorporadas ao quotidiano - não fabricam pintores, escultores, músicos. São lugares de criação, troca de idéias e aconselhamento.
      Ademais, o momento estético em que vivemos já não contempla espaço para o ignorante-iluminado, aquele escritor que desconhece seus métodos de composição e não consegue pensar sobre eles; hoje o escritor é versado não apenas naquilo que se denomina de cultura geral, mas é alguém que sabe discorrer sobre suas obras.
      Se é possível pensarmos a existência de pintores primitivos, não há escritores primitivos. Todos resultam de muito suor, muita leitura, muita informação, cultura e conhecimento técnico. A propósito, um número expressivo dos escritores atuais vêm do meio universitário, e essa é uma tendência universal. O espaço privilegiado de gênese e vivência dessa nova categoria de escritores é a oficina literária.

A OFICINA LITERÁRIA DA FALE/PUCRS

      No Rio Grande do Sul foi instituída, em 1985, a Oficina de Criação Literária que funciona, desde então, e de modo ininterrupto, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Letras da PUCRS.
      É a mais antiga Oficina em funcionamento no Brasil. Seus ex-alunos, que já publicaram quase uma centena e meia de livros, ganham os melhores prêmios nacionais, lançam seus livros pelas mais importantes editoras do País e começam a ser publicados no exterior. A Oficina publicou, até agora, 37 antologias sob o nome genérico de Contos de Oficina. A consagração definitiva de todo esse trabalho consubstanciou-se no recebimento do Prêmio Fato Literário RBS/BANRISUL, no ano de 2005.
      O histórico da “Oficina da PUCRS”, como é conhecida, seu sistema de admissão, publicações próprias e de egressos, bem como a relação dos prêmios e demais informações podem ser acessadas pelo site http://www.pucrs.br/fale/oficinaliteraria/

II A ESCRITA CRIATIVA NO PPGL/PUCRS

      Como foi dito na introdução, o Programa de Pós-Graduação em Letras/FALE criou, em 2006, três (3) vagas na sua área de concentração em Teoria da Literatura, destinadas a qualificar alunos-escritores, independente do gênero que praticam: poesia ou narrativa.
      Tais discentes ingressam por via do processo regular de admissão (prova escrita e entrevista pessoal) e freqüentam as disciplinas habituais da Área de Concentração da Teoria da Literatura, mas às quais são acrescidas de duas disciplinas de criação literária (Poesia e Narrativa). As exigências aos candidatos à Escrita Criativa estão em http://www.pucrs.br/fale/pos/edital01-2007.pdf
      O grande diferencial, entretanto, está no trabalho de conclusão do Mestrado, que, para esses alunos, é composto de duas partes: a) um ensaio de natureza teórica em que são discutidos aspectos da criação e b) um livro de qualquer um dos gêneros literários acima referidos.

III A ESCRITA CRITIVA NA GRADUAÇÃO EM LETRAS

      A conseqüência natural e direta da criação de vagas destinadas à Escrita Criativa no PPGL/PUCRS motivou a criação de um eixo de estudos na mesma temática, para o nível de Graduação.
      A partir da reformulação do programa do Curso de Letras, partiu-se para a elaboração de uma grade curricular que viesse instituir um campo de estudos na área da criação. Elaborou-se uma vertente temática que acompanhasse o aluno do primeiro ao sétimo nível, desdobrado nas seguintes disciplinas: Escrita Criativa (I Semestre), Produção de Narrativas Ficcionais (II Semestre), Leitura de Autores Clássicos (III Semestre), Leitura de Autores Modernos e/ou Produção de Textos Poéticos (IV Semestre), Leitura de Escritores Brasileiros (V Semestre), Problemas de Literatura Contemporânea (VI Semestre), Condições Sociais da Leitura e/ou Oficina de Criação Literária (VII Semestre).

OBJETIVOS DO CASE

      Criação, na Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, de um âmbito de estudos acadêmicos regulares, tanto em nível de Mestrado como da Graduação em Letras, que contemple a Escrita Criativa.

DESCRIÇÃO DO PROCESSO

      No início, avaliou-se a receptividade da criação, no Mestrado, de algumas vagas destinadas à Escrita Criativa. Verificando-se que havia uma forte demanda, e sem iniciativas nacionais nessa área, fez-se uma extensa prospecção em universidades estrangeiras, foram comparadas grades curriculares, métodos de desenvolvimento das diferentes disciplinas e, em especial, as diversas modalidades de trabalhos de conclusão.
      O passo seguinte foi estabelecer um currículo mínimo e as possibilidades de dispormos de docentes habilitados para a tarefa. Concluiu-se que o PPGL/FALE era, de todas as universidades brasileiras, o único que possuía as qualificações necessárias para o empreendimento. Assim, sem alarde, mas com segurança, lançou-se o primeiro edital, e inscreveram-se mais de 70 candidatos, o que veio comprovar o acerto de nossa decisão.
      No plano da Graduação, percebemos que era voz corrente, entre os alunos, que a FALE poderia propiciar a seus alunos um espaço disciplinar para a criação literária. Por outro lado, os professores, de modo unânime, relatavam a existência, nos diferentes grupos de alunos, de inúmeros discentes que apresentavam textos que se aproximavam do literário, ou já eram francamente literários. Tais discentes manifestavam o desejo de levar adiante suas vocações, o que só poderia ocorrer se freqüentassem a Oficina de Criação Literária da FALE. Ora, o processo de admissão à Oficina é bastante rigoroso, pois é preciso disputar uma das 15 vagas oferecidas, às quais acorrem pessoas que já têm ampla experiência com o texto criativo. Era necessário, portanto, propiciar aos alunos uma disciplina que atendesse a suas necessidades específicas de iniciantes. Ademais, o currículo implantado em 2007 tinha como uma das linhas norteadoras a aliança entre teoria e prática, para além de apresentar outras alternativas profissionais ao egresso de Letras.
      Sendo assim, o processo de inclusão da Escrita Criativa foi desencadeado a partir de março de 2007, com amplo sucesso.

ATORES ENVOLVIDOS

      Professores do Eixo da Escrita Criativa e alunos de Graduação FALE/PUCRS e professores do PPGL.

RESULTADOS ALCANÇADOS

      Na Pós-Graduação: em janeiro de 2008 ocorreram as primeiras defesas de Dissertação. O satisfatório resultado levou a manter essa proposta, que já se consolida; atesta esse fato a quantidade crescente de candidatos a cada ano. Os alunos que apresentaram seus trabalhos de conclusão de Mestrado foram: Bernardo Moraes ("Um dia é da caça, outro do narrador), Paula Chiappara (“Ilustrísimos, nada se pierde: un encuentro entre la economía de los medios narrativos y la creación literaria”) e Virgínia de Almeida Pires do Rosário ("Diálogo com Sartre para desvelar Noites de arco-íris").
      Neste ano de 2008 temos três (3) alunos em vias de elaboração de seus trabalhos de conclusão (a serem defendidos em janeiro de 2009) e mais três (3) cursando o os dois primeiros semestres.
      Na Graduação: Implantado a partir de 2007/1, verificou-se que, de uma única turma prevista de Escrita Criativa, foi necessário desdobrá-la em duas; neste ano de 2008 já são seis (6) turmas, num total de 196 alunos, o que significa uma progressão nunca experimentada em nossa Faculdade.
      Esses dados numéricos, evidentes por si mesmos, atestam o acerto da escolha da FALE e fazem que este seja um verdadeiro case em nossa instituição.

BIBLIOGRAFIA

ANDRE, A. Babel hereuse. Paris: Syros, 1990.

BARTHES, Roland. A preparação do romance, [vol. II]. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BRATOSEVICH, N. Taller literario. Buenos Aires: Edicial, 1992.

CASTAGNINO, R. Experimentos narrativos. Buenos Aires: Juan Goyanarte, 1971.

CIAMPICACIGLI, F. La struttura narrativa. Ravenna: Longo, 1979.

DeMARCO-BARRET, B. Pen on fire: New York: Harcourt, 2004.

DIBELL, A. Plot. Cincinnati: Writer´s Digest Books, 1999.

DUCHESNE, A. et al. Lattres em folie. Paris: Magnard, 2002.

DUCHESNE, A. et al. Les petits papiers. Paris: Magnard, 1991.

DUCHESNE, A. et al. Petite fabrique de littérature. Paris: Magnard, 1990.

FERNANDEZ, D. L´art de raconter. Paris: Grasset, 2007.

FUSTIER, M e FUSTIER, Bernadette. Pratique de la créativité. Paris: Les Éditions ESF, 1988.

GARDNER, J. A arte da ficção. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

GUENOT, J. Écrire. Saint Cloud: Chez Jean Guenot, 1982.

HALL, D. Writing well. New York: HarperCollins, 1991.

HAMBURGER, Kate. A lógica da criação literária. Perspectiva, São Paulo, SP, 1975.

HEFFRON, J. Idea book. Cincinnati: Writer´s Digest Books, 2000.

JASON, Ph.J. Creative writer´s handbook. Saddle River: Prentice Hall, 1997.

JOSELOW, B.B. Writing without the muse. Brownsville: Story Line Press, 1995.

KOHAN, S. A. La escritura como búsqueda. Barcelona: Alba, 2002.

KOHAN, S.A. Así se escribe un buen cuento. Barcelona: Grafein Ediciones, 2002.

KRESS, N. Beginnings, middles &ends. Cincinnati: Writer´s Digest Books, 1993.

KRESS, N. Characters, emotions & Viewpoint. Cincinnati: Writer´s Digest Books, 2005.

LUKEMAN, N. The first five pages. New York: Fireside, 2000.

NEUBAUER, B. 366 Exercises to liberate your writing. Cincinnati: Writer´s Digest Books, 2006.

NOVAKOVICH, J. Fiction writer´s workshop. Cincinnati> Story Press, 1996.

MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio e Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

PAMPIULLO, G. El taller de escritura. Buenos Aires: Plus Ultra, 1995.

PAUTASSO, S. Il laboratorio dello scrittore. Firenza: La Nouva Itália, 1981.

PAVIANI, Jayme. A racionalidade estética. Porto Alegre; EDIPUCRS, 2001.

PIMET, O. et al. Ateliers d´écriture. Paris: ESF, 1999.

POE, E.A. O corvo. São Paulo: Expressão, 1986. Apres. Lúcia Santaella

QUENEAU, R. Exercices de style. Paris: Gallimard, 1981.

ROCHE, A. et al. L´atelier d´écriture. Paris: Nathan, 2000.

SCHMIDT, V.L. Story structure architect. Cincinnati: Writer´s Digest Books, 2005.

SEGER, L. Creating unforgettable characters. New York: An Owl Book, 1990.

SHARP, C. A writer´s workbook. New York: St. Matin´s Griffin, 2000.

STACHAK, F. Écrire. Paris: Organisation, 2004.

TODORÓV, T. La littérature en péril. Paris: Flammarion, 2007.

TOMLINSON,T. et al. The portable MFA in creative writing. Cincinatti: Writer´s Digest Books, 2006.

VÁZQUEZ, N. et alii. La creación de um personaje. México: Punto de Partida, s/d

WILLIAMS, B.A. Writing wide. Kandiyohi: Filbert Publishing, 2003.

ZAPATA, A. La prática del relato. Madrid: Fuentetaja, 1997.