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CONCLUSÃO


      A temática da autonomia, central no pensamento iluminista, especialmente em Kant, reaparece como central no pensamento de Paulo Freire, e esse é um dos aspectos que fazem do educador brasileiro um herdeiro indireto de Kant e do Iluminismo. Na teoria de ambos os autores, há a centralidade de a idéia da possibilidade e capacidade do sujeito conseguir determinar sua vida de forma autônoma, de o sujeito superar as condições de heteronomia, no que a educação possui papel essencial. No último capítulo mostramos que a herança kantiana, presente em Freire mesmo que indiretamente, se manifesta em suas concepções de razão, sujeito e dignidade humana. Ambos comungam que a razão não se restringe à razão instrumental, há uma racionalidade enquanto totalidade que é promotora da humanidade e da autonomia. Em consonância com os autores, defendemos ao longo do trabalho a possibilidade da racionalidade guiar a consciência crítica para que as situações de heteronomia sejam desveladas e, assim, pela práxis transformadora o homem possa emancipar-se, construir o poder de pensar, agir, falar, autonomamente. Freire herda a concepção de sujeito fundada por Kant, de um sujeito ativo, que assume reivindicação de responsabilidade total, mas acrescenta o elemento dialógico, intersubjetivo, como constitutivo. Os dois autores pensam um sujeito com a liberdade e poder de fazer frente às heteronomias, capaz de transformar situações de alienação, opressão, ignorância. Para ambos, a dignidade humana é constitutiva, o homem possui valor intrínseco, é fim em si mesmo, ou seja, não possui valor relativo. Ainda, é importante destacarmos que a herança iluminista de Freire se dá, além de via Kant, principalmente por meio de Marx e Hegel, o que não é tematizado nessa obra.
      As reflexões filosófico-educacionais realizadas ao longo da obra se voltam criticamente sobre os modelos sociais e educacionais promotores de heteronomia, para, a partir de Kant e Freire, refletir sobre caminhos para a autonomia, caminhos para uma educação que busca formar homens que não tenham sua individualidade e liberdade anuladas por mecanismos e sistemas massificadores, caminhos para superar a estetização do nosso tempo que leva ao individualismo e à indiferença ao humano, caminhos para superar a colonização que a razão instrumental promove nas diversas esferas do mundo da vida gerando uma sociedade em muitos aspectos desumanizante e irracional.
      Nesse sentido, propomos uma educação voltada para o exercício racional da liberdade para que os determinismos sejam superados e o homem possa fazer-se a partir de projetos que se propõe racional e livremente. O ser humano não está enclausurado ao determinismo, ele é inconcluso, e enquanto inconcluso, precisa humanizar-se, o que abre a possibilidade de ser livre, de construir-se a si mesmo, mas, ao mesmo tempo, o torna um ser responsável por si mesmo. Por isso uma educação que busca promover a autonomia do educando precisa educar para a responsabilidade. Uma vida auto-responsável é aquela que faz a si como obra de arte de tal forma que possa conciliar ética e estética.
      Ao falarmos em educação para o exercício racional da liberdade, não entendemos racionalidade como racionalidade instrumental, mas a pensamos enquanto totalidade, com um poder, embora não absoluto, de criticidade e esclarecimento. Como a razão não é absoluta, é razão histórica e encarnada, em educação as lições das experiências humanas e os aspectos estéticos da existência devem estar aliados à racionalidade. A vivência das tendências sensíveis, desde que concordem com a razão, pode representar experiências de autonomia. Por isso, a educação para a racionalidade não pode suprimir as tendências sensíveis. O que propomos a partir dos autores trabalhados, nesse sentido, é a formação para a autodeterminação inteligente da vontade, o que envolve guiar-se por princípios racionais e pelas tendências que concordam com a razão, a fim de que a vontade não permaneça determinada por impulsos ou por coações externas, mas também para que a dimensão estética não seja suprimida. Ao pensarmos a autonomia não em termos absolutos e considerarmos os aspectos estéticos nela envolvidos, somos levados ao reconhecimento e ao respeito à multiplicidade e à pluralidade, mas sem negar a unidade.
      A educação promotora da autonomia é a que promove a formação da totalidade do humano, o que além da capacitação técnico-científica, envolve formação política, ética e estética. A educação tecnicista, verbalista, que prima pela memorização mecânica inibe a curiosidade, a criatividade e a criticidade, obstaculizando a promoção da autonomia, por isso, a educação precisa ser ativa, instigadora da imaginação, instigadora do ato de perguntar e investigar, mas sem anular a memória que deve existir a serviço das demais faculdades. Embora autonomia e conhecimento possuam uma relação de contingência, a capacitação, a aquisição de conhecimentos, é necessária para que haja a possibilidade de realização dos projetos livremente estabelecidos para si. A ampliação dos conhecimentos amplia o poder de realizar, e, em conseqüência, o poder de ser autônomo.
      A educação possui um papel político na transformação das realidades injustas e opressoras, que aniquilam o humano, que massificam e impõem heteronomias. Daí a importância de uma educação que promova a criticidade. Nesse sentido, a proposta de educação libertadora de Freire tem como um dos principais méritos mostrar os aspectos sociais da autonomia, e, que por isso, sua concretização demanda condições sociais que a possibilitem. A educação que objetive formar para a autonomia precisa ser dialógica, precisa educar para a participação soberana e o diálogo constante, dessa forma, a educação está preparando para o exercício da democracia. A democracia supõe que os sujeitos sejam capazes de liberdade, autodeterminação e autonomia.
      Defendemos a educação como formação do humano que se dá como processo de gestação da autonomia do pensamento, da ação e da palavra. Do pensamento, na medida em que leva a pensar por si mesmo de acordo com princípios racionais e a revelia das coações externas, dogmas, mitos, ignorâncias, alienações, etc. Da ação, na medida em que capacita para a realização dos projetos que o homem se propõe livremente. Da palavra, na medida em que na nossa sociedade existimos pela palavra, por isso, para que alguém seja autônomo precisa aprender a dizer a sua palavra.



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