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CAPÍTULO V - PENSAR A EDUCAÇÃO PARA A AUTONOMIA HOJE A PARTIR DAS CONFLUÊNCIAS E DISSONÂNCIAS ENTRE KANT E FREIRE

5.3 - FORMAÇÃO ÉTICA E A EDUCAÇÃO PARA A AUTONOMIA



      Freire e Kant são contrários à educação que se restringe ao treinamento, eles entendem educação como processo de formação da totalidade do humano. Por isso, para ambos, um dos elementos imprescindíveis na educação é a formação ética67. Essa formação é indispensável para que as pessoas respeitem sua própria dignidade, a dignidade dos demais e sejam autênticos. A autonomia pressupõe a dignidade e autenticidade humana. Em consonância com isso, apontamos a formação da vontade como uma questão importantíssima para a educação que queira formar para a autonomia hoje, tendo em vista a freqüente estetização da vida, que promove o isolamento e a massificação.
      Gadotti (1995) afirma que a temática da formação da vontade ou formação do caráter foi substituída por uma nova roupagem, a da opção. Isso porque a temática da formação da vontade é um tema central na pedagogia tradicional, e por isso que alguns pedagogos progressistas lhe deram nova roupagem. Freire não usa esse termo, aberta e claramente, para abordar a temática, a não ser na obra Pedagogia da indignação, publicada postumamente por sua esposa Ana Maria Araújo Freire a partir dos escritos que estavam sendo feitos quando da morte do educador em 1997.
      Segundo Freire (2000b, p. 34), em discursos lúcidos e em práticas democráticas, a vontade só se autentica na ação de sujeitos que assumem seus limites. A vontade ilimitada é despótica, negadora das outras vontades, é a vontade ilícita dos "donos do mundo", é vontade egoísta. Nenhuma educação que pretenda estar a serviço da boniteza da presença humana no mundo, a serviço da rigorosidade ética, do respeito às diferenças, da justiça, pode-se realizar ausente da dramática relação entre autoridade e liberdade (cf. idem). Por isso, a liberdade que vive plenamente suas possibilidades é aquela que aprende a constituir vivencialmente a autoridade interna pela introjeção da externa. Mas os limites devem ter uma assunção lúcida, ética, não pode ser uma obediência medrosa e cega (cf. ibid, p. 35). A liberdade deve ser exercitada no sentido da gestação da autonomia, para que os educandos vão se tornando "seres para si".
      Freire (ibid, p. 47) reconhece importância na vontade compondo um tecido complexo com a resistência, com a rebeldia na confrontação ou na luta contra o inimigo que oprime, seja ele um vício ou a exploração capitalista. Tanto para um oprimido quanto para um subjugado pelas drogas; falta amanhã, falta esperança. A superação dessas situações passa pelo fortalecimento da vontade. Freire (ibid, p. 46) cita como exemplo a sua experiência pessoal de decisão e fortalecimento da própria vontade para largar o vício de fumar cigarros. A educação da vontade é necessária para se fazer livre da heteronomia da escravidão dos próprios desejos e da vontade ilícita do outro que procura oprimir.
      Em Kant a educação da vontade é central, pois é a autonomia da vontade (razão prática), vontade guiada pela razão, livre de coação externa e dos impulsos, que garante a autonomia dos sujeitos. Por isso a educação da vontade deve começar desde muito cedo. A disciplina é necessária para que a vontade não seja corrompida, para que a animalidade seja coagida a fim de que a razão guie o homem. Vontade autônoma é aquela guiada pelos princípios da razão, e o princípio da razão prática que garante a autonomia da vontade é o imperativo categórico. Assim, a liberdade está em poder dar a si a própria lei, que é lei moral e determina que o sujeito haja por dever. No pensamento kantiano, o que garante a dignidade e a autonomia é a exigência da universalidade, e não o desenvolvimento da racionalidade instrumental, como pensavam os iluministas. Segundo Caygill (2000, p.43), essa purificação que Kant faz da vontade, eximindo-a da influência de qualquer princípio ou objeto heterônomo, foi sistematicamente criticada desde Hegel, em particular por Nietzsche e Scheler, na melhor das hipóteses como vazia, formalista e irrelevante, e na pior como tirânica. Entendemos que não é possível formar para a autonomia sem uma educação da vontade. Essa contribuição de Kant continua atual. No entanto, não é mais possível pensar a vontade guiada infalivelmente pelo imperativo categórico, mas é possível pensar a educação de uma vontade que seja guiada por princípios racionais desde que o entendimento de razão seja de uma razão que não é transcendental nos moldes kantianos. Por isso, não pensamos a educação da vontade como subordinação da vontade à moralidade. Pensamos uma educação da vontade no sentido de torná-la capaz de assumir seus limites e sua condição humana eticamente. Dessa forma, pensamos uma vontade guiada racional e esteticamente, para que possa ser uma vontade autônoma e ética.
      Como a formação é imprescindível para que o homem seja livre, a educação da vontade é necessária para a promoção da autonomia. A auto-responsabilização requer a educação da vontade. Em tempos em que se está optando por vigiar em vez de formar, propomos uma aposta no ser humano, em sua possibilidade de ser autônomo e auto-responsabilizar-se. Propomos uma valorização da educação da vontade como uma das coisas necessárias para uma educação democrática, para uma educação em que os sujeitos possam fazerem-se com autonomia e reconheçam a dos demais como legítima.



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