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CAPÍTULO IV - A EDUCAÇÃO PARA A AUTONOMIA EM PAULO FREIRE

4.2 - EDUCAR É FORMAR: IMPRESCINDIBILIDADE DA ÉTICA E ESTÉTICA



      Para Freire (2000a, p. 37), educar é substantivamente formar, por isso o ensino dos conteúdos não pode se dar alheio à formação moral e estética do educando. Um ensino tecnicista, que visa apenas o treinamento, diminui o que há de fundamentalmente humano na educação, o seu caráter formador. Há hoje uma tendência em certas instituições, inclusive de ensino superior, em criar cursos com caráter puramente técnico. Ninguém quer condenar a técnica e a ciência, nem se trata de divinização ou diabolização (cf. idem), ambas são formas superficiais de compreender os fatos e implicam em pensar errado. Apesar de ser necessário, o ensino técnico-científico é insuficiente, apenas ele não favorece a construção, a conquista da autonomia. Uma educação que vise formar para a autonomia deve incluir a formação ética e, ao seu lado, a formação estética50. "Decência e boniteza de mãos dadas" (ibid, p. 36). Homens e mulheres, enquanto seres histórico-sociais, se fazem capazes de comparar, julgar, valorar, escolher, intervir, recriar, dessa forma são responsáveis e se fazem seres éticos e estéticos (cf. ibid). Como nos fazemos seres humanos, a nossa obra enfeia ou embeleza o mundo, daí a impossibilidade de nos eximirmos da ética, fazemos nosso mundo a partir da nossa liberdade. Ele vai ser belo ou feio dependendo também da opção ética que fizermos. É nossa liberdade que nos insere um compromisso ético e uma perspectiva estética. Penso que só podemos ser autônomos graças a nossa liberdade, por isso uma educação que vise formar para a autonomia engloba necessariamente a dimensão ética e estética.
      Uma das dimensões éticas que uma educação que busca formar para a autonomia deve atentar é a corporeificação da palavra pelo exemplo do educador (cf. ibid, p.38). De nada adianta um professor em seu discurso exaltar a criticidade, a democracia, o pensamento autônomo, se sua prática é antidialógica, vertical, bancária. A ação generosa que testemunha a palavra a torna viva, a faz palavra viva, dando um significado especial a ela. Assim, não é uma prática puramente descritiva, "mas algo que se faz e que se vive enquanto dele se fala com a força do testemunho" (ibid, p. 41). O testemunho concreto de um professor que possui uma prática autônoma é essencial em uma educação que vise a autonomia.
      A educação para a autonomia supõe o respeito às diferenças, assim, rejeita qualquer forma de discriminação, seja ela de raça, classe, gênero, etc. Como a autonomia não é auto-suficiência, ela inclui estar aberto à comunicação com o outro, com o diferente, e estar aberto à comunicação com o outro, segundo Freire (ibid, p. 42), é pensar certo. "Não há por isso mesmo pensar sem entendimento e o entendimento, do ponto de vista do pensar certo, não é transferido mas co-participado" (ibid, p. 41). Toda inteligência, se não distorcida, é comunicação do inteligido, portanto, a inteligibilidade se funda na comunicação, na intercomunicação, na dialogicidade. O pensar certo é dialógico, é aberto ao outro, igual enquanto membro da humanidade e diferente enquanto sujeito único. Portanto, a autonomia supõe o respeito tanto à dignidade do sujeito enquanto membro da humanidade, quanto o respeito às suas especificidades de indivíduo.
      De acordo com o pensamento de Freire, para a prática de uma educação que visa a autonomia, uma das tarefas mais importantes é possibilitar condições para que os educandos possam "assumir-se" (ibid, p. 46). Isso envolve assumir a condição sócio-histórica, a condição de ser pensante, comunicante, transformador, criador, sonhador, que ama e sente raiva (cf. ibid). Essa assunção do eu não significa a auto-suficiência, a exclusão dos outros, "É a 'outredade' do 'não eu', ou do tu que me faz assumir a radicalidade o meu eu" (ibid). Essa assunção está ligada à identidade cultural que faz parte, ao mesmo tempo, da dimensão individual e de classe dos educandos. "Tem que ver diretamente com a assunção de nós por nós mesmos" (ibid, p. 47). O assumir-se como sujeito da própria assunção possibilita que o sujeito possa ser ele mesmo, possa ser autônomo. "A aprendizagem da assunção do sujeito é incompatível com o treinamento pragmático ou com o elitismo autoritário" (ibid). Assumir-se implica em ser autêntico, em ser o que se é a partir de si mesmo, por isso, para ser autônomo o homem precisa assumir-se. A assunção, enquanto exige autenticidade, engloba as dimensões ética e estética. Para que haja tal assunção, o educador deve respeitar a autonomia do educando.
      Outro ponto essencial ao se pretender uma educação para a autonomia, é a questão ética do respeito aos professores. É direito e dever dos educadores lutar por sua valorização, e isso inclui lutar por salários dignos, menos imorais. "A elevação urgente da qualidade de nossa educação passa pelo respeito aos educadores e educadoras mediante substantiva melhora de seus salários, pela sua formação permanente e reformulação dos cursos de magistério" (FREIRE, 1995, p. 46). Penso que a limitação nociva da autonomia dos educadores devido a condições econômicas e formativas desfavoráveis inegavelmente prejudica a qualidade da educação e tem reflexos diretos na limitação da autonomia dos educandos.
      Defendemos que uma educação que visa promover a autonomia deve atentar para a formação do ser humano e não apenas para o ensino-aprendizagem de conteúdos. Dessa forma, precisa atentar para todos elementos envolvidos na educação: a postura do professor, da direção, a situação material da escola, a participação dos pais, os conteúdos a serem apreendidos, etc. A formação ocorre na interação de todos elementos que envolvem a educação, por isso todos eles devem ser pesados de tal forma a contribuir para a aprendizagem crítica e para a construção gradativa da autonomia do educando.


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