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CAPÍTULO III - A HETERONOMIA A QUE PAULO FREIRE SE OPÕE

3.4 - SECTARIZAÇÃO E IRRACIONALISMO



      Toda relação de dominação, opressão, exploração é violenta, não importa se os meios usados para tal o são (cf. FREIRE, 1977, p. 50). Toda desumanização é uma forma de violência. Frente a tais situações as pessoas podem adotar atitudes diferentes: radicais ou sectárias. Paulo Freire afirma ser um grande mal para a sociedade brasileira o fato de o homem brasileiro, inclusive suas elites, em momentos desafiadores da história do país ter "descambado" (idem, p. 51) para a sectarização. "A sectarização tem uma matriz preponderantemente emocional e acrítica, por isso é irracional. É arrogante, antidialogal e por isso anticomunicativa" (ibid). A sectarização, como qualquer irracionalismo, é uma forma de heteronomia, já que a autonomia supõe que o sujeito possa dar a própria lei ou os próprios princípios de sua ação pela própria razão ou em concordância com ela.
      Segundo Freire (ibid, p. 52), o sectário de esquerda, como o de direita, se põe diante da história como seu único fazedor, como seu dono, por isso o povo não tem importância, é reduzido à massa. O povo é apenas um meio para seus fins. O sectário procura pensar pelo povo e o vê como "menor" que deve ser protegido. Freire (ibid, p. 50-51) coloca a radicalização como oposta a sectarização. A radicalização é preponderantemente crítica, é dialógica, não procura impor sua opinião, é amorosa. Ela não admite comodismos diante do poder opressor que desumaniza. Por isso não aceita em silêncio a violência, mas sua ação não é ativismo, é ação submetida à reflexão.
      Conforme Freire (1983, p. 22), a sectarização se nutre pelo fanatismo, é mítica e alienante, o contrário da radicalização que é crítica e libertadora. Libertadora porque seu enraizamento engaja os homens na transformação concreta da realidade, criando uma condição favorável à autonomia. "A sectarização, porque mítica e irracional, transforma a realidade numa falsa realidade, que, assim, não pode ser mudada" (idem). Portanto, é um obstáculo para a emancipação40 dos homens (cf. ibid). O sectário em sua irracionalidade não percebe a dinâmica da realidade, o que lhe impossibilita perceber a unidade dialética. Por isso mesmo o homem de esquerda ao tornar-se sectário equivoca-se na sua interpretação pretendida dialética da realidade e cai em posições fatalistas transformando o futuro em algo já dado, pré-estabelecido. O sectário de direita pretende "domesticar" (ibid, p. 23) o presente para que o futuro seja igual, pretende evitar que a transformação ocorra. Ambas formas são reacionárias porque negam a liberdade, se fecham em suas verdades, em seus "círculos de segurança" (ibid), fechando-se para o diálogo. Como é alienante, antidialogal, irracional e mantém a situação de opressão, a sectarização é uma forma de heteronomia.
      O irracionalismo41 fez-se presente freqüentemente na história do país na defesa de privilégios inautênticos. O povo, vítima dos altos índices de analfabetismo ou semi-analfabetismo e historicamente sem hábito de participar ativamente, em muitos momentos foi manipulado por irracionalismos. Isso reforça a necessidade de um processo educativo que promova a responsabilidade social e política, de uma ação educativa criticizadora, que promova o esclarecimento e emancipação do homem, com acento cada vez maior de racionalidade42.


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