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CAPÍTULO II - O CONTEXTO FILOSÓFICO DO ILUMINISMO E A CENTRALIDADE DA AUTONOMIA NA FILOSOFIA PRÁTICA DE KANT

2.2 - ROUSSEAU E A AUTONOMIA



      O utilitarismo simplificava a vontade humana ao dedicá-la apenas a felicidade, promovendo uma espécie de nivelamento. Bem e mal se tornaram uma questão de instrução, conhecimento e esclarecimento. A autonomia, para esses iluministas, era uma questão que se referia à racionalidade científica e à vivência da própria felicidade. Rousseau formulou uma nova concepção de autonomia, de um homem que não é apenas corpo, mas também espírito, se distanciando, assim, dos iluministas.
      Rousseau começou como amigo dos enciclopedistas, em especial de Diderot, e acabou como inimigo, por haver um núcleo de discordância filosófica em seus pensamentos (cf. TAYLOR, 1997, p. 456). Para Rousseau o mal humano não poderia ser compensado pelo aumento do conhecimento ou do esclarecimento. Ele resgata a noção fundamentalmente agostiniana de que o homem pode ter "dois amores", ou seja, duas orientações básicas da vontade. O amor de si mesmo é o sentimento naturalmente bom que nasce com o ser humano, o amor-próprio é o sentimento de paixões "repulsivas" que surgem com a socialização. A socialização e o conseqüente aumento do amor-próprio levam o homem à alienação, pois passa a comparar-se com os demais e perde a busca de viver bem consigo mesmo19. Para Rousseau, ambas as orientações de vontade, se permanecerem fechadas em si mesmas, serão vontades heterônomas.
      "Rousseau não pode aceitar a noção naturalista do Iluminismo de que o que precisamos para nos tornar melhores é de mais razão, mais cultura, mais lumières" (idem, p. 459). O progresso não necessariamente nos torna melhores, nem autônomos, pelo contrário, é muito freqüentemente acompanhado pela decadência moral. Para ele, o progresso da razão calculista é um dos indícios da corrupção. Essa oposição entre moralidade e progresso não deve ser interpretada no sentido primitivista. Rousseau não propunha a volta ao estágio pré-social20. A idéia de recuperar o contato com a natureza é uma forma de escape da dependência calculista do outro, por meio da fusão entre razão e natureza. A consciência é a voz da natureza que se manifesta em um ser social que dispõe de linguagem e razão.
      Ora, é do sistema moral formado por essa dupla relação consigo mesmo e com suas relações com seus semelhantes que nasce o impulso da consciência. Conhecer o bem não é amá-lo: o homem não tem o conhecimento inato dele. Mas logo que sua razão o faz conhecer, sua consciência o leva a amá-lo: este sentimento que é inato. (ROUSSEAU, 1995, p. 337-338).
      Libertadas todas distorções devido à dependência do outro ou da opinião, a vontade geral representa as exigências da natureza por meio da lei publicamente reconhecida.
      Para Rousseau, não somos individualmente autônomos, apenas o somos como membros de um tipo especial de sociedade. Segundo Schneewind (2001, p. 559), quando o contrato social cria uma nova idéia de bem comum o pensamento ativa em cada indivíduo um amor inato que permite controlar os desejos privados e agir como membros de um todo moral. Passamos a ser livres e autônomos porque podemos romper com a escravidão dos nossos desejos e viver sob uma lei que proporcionamos a nós mesmos21. No estado natural o homem desfruta de uma liberdade natural que é física e não vai além de suas forças. No contrato social o homem renuncia a liberdade natural em favor da liberdade civil, que é circunscrita pela vontade geral. No estado civil o homem adquire liberdade moral, já que ele passa a obedecer à lei que ele instituiu a si próprio em vez de seguir o impulso (cf. ROUSSEAU, 1973, p. 43). O papel da educação seria de elevar a natureza do homem para além da animalidade, numa esfera onde existem leis. Em outras palavras, também podemos dizer que o papel da educação é tornar sociável a insociabilidade contida no amor de si mesmo e no amor-próprio. Assim, o filósofo está na origem de concepções morais que fazem da liberdade autodeterminante a chave para a virtude. Dentre elas, a de moralidade como autonomia desenvolvida por Kant. Mas a concepção de autonomia de Rousseau é para Kant heterônoma. Para este, a lei moral não pode ser definida por qualquer ordem externa, nem pelo impulso da natureza em mim. Para que haja autonomia, a moralidade não pode estar fora da vontade racional do homem.


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