Acervos:



Moysés Vellinho

(Santa Maria, RS, 1901; Porto Alegre, RS, 1980).
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Moysés de Moraes Vellinho nasceu em Santa Maria (RS), em 6 de janeiro de 1901. Aos dez anos de idade, veio para Porto Alegre com a família, composta pela mãe e cinco irmãos, pois o pai falecera quando ele tinha dois anos de idade. Na Capital do Estado, foi matriculado no Colégio Anchieta, tradicional estabelecimento de ensino. Nessa escola, começou a escrever com o incentivo do padre jesuíta Henrique Boock, seu professor de Português. Sob o pseudônimo de Afonso Arinos, iniciou seu trabalho de crítico, com um comentário sobre a obra de Monteiro Lobato, Onda verde, publicado no Correio do Povo, de Porto Alegre, jornal onde tornou-se responsável pela coluna “Livros e Autores”.

Entre 1925 e 1930, logo depois de concluída a Faculdade de Direito, exerceu os cargos de promotor em Caxias do Sul (RS) e Jaguarão (RS), inspetor de ensino e chefe de gabinete do Secretário do Interior, Osvaldo Aranha, nas décadas de 1928-1930. Em 1929, casou-se com Lygia Torres, quando sua esposa esperava o primeiro filho do casal, Vellinho viajou para o Rio de Janeiro para acompanhar o Ministro da Justiça Osvaldo Aranha. Após curta estada na Capital carioca, retornou para Porto Alegre, em 1932, não contente com os rumos que a política do País tinha tomado, retomando suas atividades como advogado.

Ao voltar ao Rio Grande do Sul, Vellinho iniciou sua participação na política. Em 1934, elegeu-se Deputado Constituinte, participando da Dissidência Liberal em 1937. Nesse período, ingressou no Tribunal de Contas do Estado, ali permanecendo até sua aposentadoria. (1938-1964).

Em 1939, proferiu na Biblioteca Publicado Estado, a conferência intitulada “Machado de Assis: aspectos de sua vida e sua obra”, que originou seu primeiro livro publicado pela editora Globo, de Porto Alegre. A data é significativa, pois foi a partir dessa obra que abandonou o pseudônimo Afonso Arinos, passando a assinar seus trabalhos co seu próprio nome. Em 1944, publicou Letras da Província, pela editora Globo, de Porto Alegre, e uma não depois, fundou e dirigiu a revista cultural

Em 1950, esteve nos Estados Unidos, por um período de três meses, em um programa de intercâmbio e incentivo a intelectuais brasileiros, proporcionado pelo governo norte-americano. Na década de 1960, escreveu dois livros importantes de sua carreira: Capitania d’El Rey (1964) e Fronteira (1973). A primeira obra firma a tese de Vellinho sobre a origem do gaúcho brasileiro e sua diferença com o gaúcho platino, do que resultou o segundo livro, encomendado pelo editor Henrique Bertaso para que escrevesse uma história mais popular dos gaúchos. Em 1967, viajou para a Europa com sua esposa, o que motivou a escrita de vários artigos no Correio do Povo, posteriormente publicados no livro Recortes do velho mundo (1970).

Como único representante da intelectualidade gaúcha, foi convidado para integrar o Conselho Federal de Cultura, em 1967. A colaboração no organismo federal durou pouco, pois Vellinho pediu seu afastamento, alegando intensos trabalhos no Sul, interrompendo um mandato que se estenderia até 1970. Com esse convite, vieram muitas relações de cunho literário, com Antonio Candido, Afrânio Coutinho, Cecília Meireles, Aurélio Buarque de Holanda, em um período de intensa produção intelectual no País. Raquel de Queirós publicou, em um artigo de jornal, sua insatisfação em não tê-lo mais como colega, no departamento recém criado, o crítico sul-rio-grandense Moysés Vellinho, “Ah, que foi ingratidão foi...”

Sua intensa atividade política e cultural expressa-se em diferentes cargos: no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, onde foi admitido como sócio efetivo em 1949, exerceu a função de segundo vice-presidente até 1956 e de primeiro vice-presidente até 1980. Exerceu a vice-presidência do Congresso Internacional de Escritores em São Paulo e foi conferencista no curso de Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ambos em 1954. Presidiu o Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, em1963-1964. Foi eleito acadêmico correspondente da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, de Lisboa, em 1966 e presidiu o Gabinete Português de Leitura, de Porto Alegre, em 1967.

Moysés Vellinho não se detinha em fixar as raízes intelectuais apenas na sua Província. O escritor participou ativamente da vida intelectual do País, analisando as influências, de cunho estético da Semana de Arte Moderna, em 1922, na produção literária gaúcha. Em 1945, com o incentivo do escritor pernambucano Gilberto Freyre, em um encontro no Rio de Janeiro, e com o apoio e aprovação dos diretores da editora Globo, Vellinho surgiu no cenário nacional como editor da revista Província de São Pedro, publicação pioneira e significativa para difundir a cultura do Estado. No ápice da publicação, o periódico recebeu colaboração de todas as partes do País, mas mantinha espaço garantido para os literatos sulinos que dialogavam com intelectuais já consagrados no âmbito nacional.

O editorial dirigido por Moysés Vellinho teve expressa a tendência do novo periódico:

O que a Província de São Pedro deseja não é afogar-se nas águas rasas da retórica regionalista. É uma publicação regional, sem dúvida, faz questão de sê-lo, mas não a animam exclusivamente localistas. Seu objetivo é de fomentar no Rio Grande do Sul, as obras da inteligência. Através do ensaio, da crítica, da ficção, da poesia de todas as manifestações do pensamento. Sem impor limites à sua orientação nem sentido de ideológico ao seu programa, Província de São Pedro pretende converter-se no centro de coleção, seleção, estímulos e irradiação das atividades culturais que se processam neste extremo sul do país.

Os vinte e um números dessa importante publicação, que tinha sua distribuição nacional, contemplavam nomes hoje já consagrados das letras gaúchas e brasileiras, organizando-se de forma a estabelecer um diálogo do Sul com intelectuais brasileiros. Entre seus colaboradores estavam Cecília Meireles, Lucia Miguel-Pereira, Wilson Martins, Clarice Lispector, Sergio Buarque de Hollanda e Antonio Candido. A repercussão do periódico foi intensa e no segundo ano de circulação, já registrava pedidos de assinatura do Brasil e do Exterior, neles incluindo o da Biblioteca do Congresso, em Washington, D.C.

Em 1952, passou a se dedicar a iniciou outro empreendimento de vulto: presidir a OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, assumindo o posto quando a orquestra vivia sérios problemas financeiros. A liderança de Vellinho e a batuta do regente Pablo Komlos, consolidaram a orquestra porto-alegrense que dela desligou em 1972, por motivos de saúde. Segundo Oswaldo Goidanich, “esse homem de letras que a música conquistou, soube traçar o caminho da OSPA com autoridade, dínamo e fé inabalável”.

Moysés Vellinho foi intenso em tudo que se dispôs realizar, tanto em seu papel de crítico literário, muitas vezes ”ferrenho”, como historiador, escritor, resgatando questões de extrema relevância para a constituição de nosso estado. Sua contribuição como homem público e intelectual respeitado o transformou em um dos principais representantes da intelectualidade gaúcha do século XX. O escritor Cyro Martins, que com ele conviveu, assim avaliou a importância de Vellinho:

Moysés Vellinho consiste no seu acendrado nacionalismo, que se exprime através da interpretação, sem mentira e sem demagogia, da história do Rio Grande. Na construção de sua obra, baseou-se não-somente em feitos dos campeadores como também nas histórias dos ficcionistas. Seus ensaios demonstram que o cuidado escrupuloso com a forma e a seriedade de pensamento podem e devem andar juntos. Seus enfoques históricos originais asseguram-lhe lugar definitivo entre os nosso melhores historiadores. Sua acuidade crítica fará com que gerações sucessivas procurem ensinamentos em suas páginas dedicadas oas nossos escritores.

O escritor faleceu em 26 de agosto de 1980, aos 79 anos de idade, deixando anotações para a biografia de seu amigo Osvaldo Aranha e um livro inédito, Aparas do tempo, publicado em 1980. No ano de seu falecimento, é homenageado postumamente como Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre.

Cronologia

1901, 6 de janeiro – Nasce Moysés de Moraes Vellinho, em Santa Maria, (RS), filho de João Rodrigues Vellinho e Adalgiza de Moraes Vellinho.

1911 – Transfere-se com a família para Porto Alegre (RS).

1914 – Inicia o curso secundário no Ginásio Anchieta, em Porto Alegre.

1921 – Conclui o curso secundário no Ginásio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Estréia como crítico literário, sob o pseudônimo de Paulo Arinos, no Correio do Povo, de Porto Alegre, na coluna “Livros e Autores”.

1925 – Polemiza com Rubens de Barcellos sobre a obra do escritor rio-grandense Alcides Maya, nas páginas do jornal Correio do Povo.

1925-1926 – Exerce a promotoria, em Caxias do Sul e Jaguarão (RS).

1926 – Conclui o curso de Direito, na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre.

1927 – Exerce a função de Inspetor do Ensino Estadual.

1927 – Publica o estudo “Raul de Leone”, na revista Ilustração Brasileira, do Rio de Janeiro.

1928-1930 – Atua como chefe de gabinete do Secretário do Interior do Rio Grande do Sul, Osvaldo Aranha.

1929 – Casa-se com Lygia Torres.

1930 – Transfere-se para o Rio de Janeiro, para exercer a função de oficial de gabinete do Ministro da Justiça, Osvaldo Aranha, no Rio de Janeiro.

1932 – Retorna a Porto Alegre, onde atua no escritório de advocacia de Pedro Vergara.

1934 – Elege-se deputado constituinte pelo Partido Republicano Liberal.

1935-1937 – Atua como deputado da Assembléia do Rio Grande do Sul.

1937 – Participa da Dissidência Liberal. Dirige por dois meses o jornal A Federação, antigo órgão do Partido Republicano Rio-Grandense e agora do Partido Republicano Liberal.

1938-1964 – Integra o Conselho Administrativo do Estado do Rio Grande do Sul. Ingressa no Tribunal de Contas do Estado, sob o governo do interventor Ernesto Dorneles.

1939 – Publica Machado de Assis – aspectos de sua vida e sua obra”, pela Livraria do Globo, de Porto Alegre, 1ª. ed., a expensas do Governo do Estado, em comemoração ao centenário de nascimento do autor carioca), quando abandona o pseudônimo Paulo Arinos.

1944 – Publica o livro Letras da Província, pela Editora Globo, de Porto Alegre;

1944 - Publica o ensaio “Machado de Assis – aspectos de sua vida e sua obra” (1939), na revista Província de São Pedro.

1944 – Publica o estudo “Dois lados de uma paisagem”, no Boletim da Sociedade Felipe d’Oliveira, do Rio de Janeiro, n. 8.

1945 – Publica o ensaio “Eça de Queirós e o espírito de rebeldia”, na Poliantéia, sobre o centenário de Eça de Queirós, em edição Dois Mundos, de Lisboa.

1945 a 1957 – Funda e dirige a revista cultural Província de São Pedro (21 números).

1947-1949 – Preside o Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul.

1949 – Ingressa no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGB), como sócio efetivo, tomando posse em 30 de agosto.

1950 – Participa do I Colóquio sobre Estudos Luso-Brasileiros em Washington, D.C. (USA). Exerce a função de segundo vice-presidente do IHGB, até 1956. Viaja aos Estados Unidos da América, onde permanece três meses, em programa de intercâmbio de intelectuais brasileiros.

1952-1972 – Preside a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), período em que a instituição transforma-se em fundação estatal.

1953 – Publica “Evocação de Lobo da Costa”, conjunto de palestras proferidas sobre o poeta, em Pelotas (RS), em comemoração ao centenário de nascimento do autor, juntamente com Athos Damasceno Ferreira e Mozart Vitor Russomano, pela Livraria do Globo, de Porto Alegre.

1954 – É vice-presidente do Congresso Internacional de Escritores em São Paulo (SP), patrocinado pelo IV Centenário da Cidade de São Paulo, juntamente com Paul Rivet, William Faulkner e Rodolfo Mattei. É conferencista no Curso de Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre.

1955 – Polemiza com o escritor Mansueto Bernardi sobre o índio Sepé Tiaraju e o legado das missões jesuíticas.

1957 – Publica Simões Lopes Neto – contos e lendas, biografia e antologia, pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, para Coleção Nossos Clássicos, 5.

1957 – Publica o ensaio “O gaúcho rio-grandense e o gaúcho platino”, na 2ª. série de Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, da Faculdade de Filosofia da UFRGS, de Porto Alegre.

1958 – Publica a conferência “O Partenon Literário” no volume Seminário de Estudos Gaúchos, da PUCRS.

1960 – Publica o livro Machado de Assis – histórias mal contadas e outras histórias, pela Livraria São José, do Rio de Janeiro.

1960 – Publica a conferência “Os jesuítas no Rio Grande do Sul”, na 4ª. série de Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, da Faculdade de Filosofia da UFRGS, de Porto Alegre.

1960 - Publica Simões Lopes Neto – contos e lendas, biografia e antologia, pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, para Coleção Nossos Clássicos, 5. (2ª. edição).

1962 – Publica o ensaio-conferência “A configuração atual do Rio Grande do Sul e sua fronteira histórica”, na 5ª. série de Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, da Faculdade de Filosofia da UFRGS, de Porto Alegre.

1962 – Publica “O Rio Grande e o Prata”, contrastes, no Caderno do Rio Grande, n. 12, do Instituto Estadual do Livro, da Divisão de Cultura da SEC, de Porto Alegre.

1962 – Publica o estudo “A valorização do português na obra de Gilberto Freyre”, incluído na obra Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia e sua arte, publicada no Rio de Janeiro pela José Olympio.

1962-1963 - Preside o Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul.

1963-1964 – Preside o Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, em Porto Alegre.

1964 – Publica o livro Capitania d’El Rey – Aspectos polêmicos da história do Rio Grande do Sul, pela Editora Globo, de Porto Alegre. Assume a primeira vice-presidência do IHGRS, função em que permanece até 1980; exerce também as funções de presidente do IHGRS.

1964 – Publica o estudo”Formação e história do gaúcho rio-grandense”, incluído na obra Rio Grande do Sul: terra e povo, da Editora Globo, de Porto Alegre.

1965 – Publica Síntese histórica da formação rio-grandense, pelo Ministério da Guerra/III Exército, de Porto Alegre.

1965-1969 – Preside a Aliança Francesa, em Porto Alegre.

1966 – É eleito acadêmico correspondente da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, de Lisboa, Portugal.

1967 – Viaja à Europa. É nomeado para integrar o grupo de vinte e cinco intelectuais brasileiros do Conselho Federal de Cultura. Preside o Gabinete Português de Leitura de Porto Alegre.

1968 – Publica a versão em inglês do livro Capitania d’El Rey – Aspectos polêmicos da história do Rio Grande do Sul, nos Estados Unidos da América, sob o título Brazil South – Its Conquist Settlement), pela Alfredo A. Knopf Inc., de Nova York, com tradução de Linton Lomas Barret e Marie Mac David Barret.

1968 – Publica o estudo “A herança lusitana na cultura do Rio Grande do Sul”, em Separata do Boletim Português de Leitura.

1969 – Escreve para a segunda edição da obra A literatura do Brasil, organizada por Afrânio Coutinho, um estudo sobre o crítico José Veríssimo, publicada pela Editora Sul Americana do Rio de Janeiro.

1969 – Publica o estudo “O mestre de campo André Ribeiro Coutinho, segundo governador do Continente de São Pedro”, em Separata do Boletim Internacional da Cultura Portuguesa, n. 5.

1969 - Publica o estudo “Brigadeiro José da Silva Paes, fundador do Rio Grande do Sul”, na Separata da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 7, de São Paulo.

1970 – Publica o livro Recortes do velho mundo – impressões de viagem, pela Livraria Sulina, de Porto Alegre

1970 – Publica o livro Capitania d’El Rey – Aspectos polêmicos da história do Rio Grande do Sul, pela Editora Globo, de Porto Alegre (2ª. edição).

1972 – É orador na sessão solene de inauguração da nova sede do IHGRS.

1973 – Publica Fronteira, pela Editora Globo e UFRGS.

1978 – Publica Oswaldo Aranha: pequenos registros à margem de uma grande personalidade – esquema de uma biografia que não chegou a escrever sobre seu amigo, pela Editora Lima, de Porto Alegre.

1978 – Publica o estudo “Castilhos e o castilhismo”, incluído em Júlio de Castilhos, de Claúdio Todeschini, lançada pelo Instituto Estadual do Livro, de Porto Alegre.

1979 – Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela UFRGS. É eleito acadêmico correspondente da Academia Portuguesa de História, de Lisboa, Portugal.

1980 – Falece Moyses Vellinho, em Porto Alegre, em 26 de agosto. Como homenagem póstuma, é eleito o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 1980.

1981 – É lançado postumamente o livro Aparas do tempo, pela União de Seguros Gerais, de Porto Alegre.