Acervos:



Reynaldo Moura

(Santa Maria, RS, 1900 – Porto Alegre, RS, 1965)
Vida e Obra   |    Álbum de Imagens   |    Catálogo

O escritor e jornalista Reynaldo Moura nasceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, no dia 22 de maio de 1900. Passou os primeiros anos de sua vida na cidade natal. Depois, acompanhou os pais para a terra de seus ancestrais, São Borja. A infância pacata terminou quando, aos oito anos, mudou-se para Porto Alegre. Desde então, a capital dos gaúchos passou a ser residência fixa do escritor. Realizou o curso secundário no Colégio Júlio de Castilhos. O gosto pelas letras iniciou aos quinze anos, momento em que escreve seus primeiros versos. Estudou, sem completar, vários cursos superiores como Química, Medicina, Direito e Engenharia Mecânica. Em 1926, conheceu Noah Viterbo de Carvalho com quem casou e teve dois filhos: Roberto e Sergio.

A partir de 1923, contribuiu intensamente para a imprensa gaúcha. Publicou crônicas, poemas e romances em folhetins para relevantes jornais da época. Impressos como Revista do Globo, Diário de Notícias, Boletim de Ariel, Jornal da Letras, Jornal da Tarde e Gazeta de Notícias foram povoados pelas palavras de Reynaldo Moura nas primeiras décadas do século XX. Foi jornalista por vocação, atuando como redator e editor no jornal A Federação, para o qual entrou através de concurso público. Inclusive ajudou na fundação da ARI, Associação Rio-Grandense de Imprensa.

Em 1935, Moura estreou na publicação de livros com o título A Ronda dos Anjos Sensuais, pela editora Columbia. No ano seguinte publicou a primeira obra de poesia, intitulada Outono, sobre a égide da Editora do Globo. Em 1939, a mesma editora lançou Noite de Chuva em Setembro e, em 1946, foi a vez de Um Rosto Noturno, ambos aclamados pela crítica. Assumiu o cargo de diretor da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul em 1939, onde permaneceu até 1956.

A crônica pautada nas temáticas dos acontecimentos diários e nas dúvidas filosóficas universais foi apresentada no jornal Correio do Povo, a partir de 1934. Moura escrevia no periódico de Caldas Júnior semanalmente, em uma coluna chamada Meio de Semana, e no espaço denominado Editoriais e Colaborações estampava opiniões e comentários. Foi um jornalista preocupado em acompanhar a realidade vigente. No transcorrer da Segunda Guerra Mundial à implantação do Estado Novo, Moura abordava os acontecimentos com sensibilidade literária, inclusive abordando as agitações da política estadual.

Preocupado em absorver conhecimento, passava os dias recolhido em um gabinete na Biblioteca Pública de Porto Alegre. Atrás de sua maquina de escrever, redigia prosa e verso. No silêncio, lia o quanto podia. Detentor de linguagem rebuscada, poético e intimista, possuía o domínio das línguas francesa, inglesa e espanhola, conforme as exposições em suas crônicas. Admirava a literatura francesa e era estudante do moderno teatro britânico.

Apontado como um precursor do romance psicológico no Rio Grande do Sul, Moura construía personagens com vida interior complexa. As obras do romancista são caracterizadas pela introspecção. As inscrições deixadas por ele revelam parte de sua personalidade, tímida e retraída. Na opinião de jornalistas e escritores da época, Moura era um intelectual instigante, um literato que não se promovia. Apesar de sua introspecção, foi um animador do movimento literário de Porto Alegre, confraternizando-se com os demais intelectuais, além de incentivar novos escritores.

O impresso Clarim em 7 dias, em 1957, identificou Reynaldo Moura como um “cronista ágil, vibrante, de estilo pessoal”, na redação e um “estudioso inveterado, metódico, acumulando cultura”. Anos após sua morte, o Segundo Caderno de Zero Hora ainda publicava textos sobre o processo de criação do autor. Em 1958, mais uma vez com o apoio da Editora do Globo, publicou o livro Romance no Rio Grande. No período de 22 de julho a seis de novembro de 1963, o jornal A Última Hora, de Porto Alegre, proporcionou aos leitores a novela Major Cantalício que, posteriormente, foi publicada em livro pela EDIPUCRS, no ano de 1995.

A imprensa brasileira noticiou, no ano de 1964, a prisão de Reynaldo Moura pelo Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, instaurado para reprimir movimentos políticos contrários ao governo vigente. Embora não sendo filiado a um partido, Moura compartilhava dos ideais socialistas. Além disso, mantinha correspondências com Astrogildo Pereira, fundador do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Os dias na prisão só não foram mais longos porque Erico Veríssimo, Maurício Rosemblat e Alberto André articularam a saída do jornalista.

Após a prisão, Cyro Martins conversou com o escritor. “Quando o encontrei, já fazia um mês que o poeta estava em liberdade. Indagado um pouco mais a respeito do episódio, Reynaldo rematou a conversa nestes termos: ‘ficaram com a minha maquina de escrever. O Moysés (Velhinho) está tratando de consegui-la de volta, é problemático porque, que eu saiba, até hoje não devolveram a de ninguém. E quanto ao mais, estou proibido de viajar. Mas como eu nunca viajo’. Essa expressão me ficou soando no ouvido até hoje. Uma resignação sem retorno.”

A humilhação da prisão o levou a um infarto, do qual jamais se recuperou. Faleceu em Porto Alegre no dia 12 de junho de 1965. “Chegou à hora incomensurável da morte. (...) Mergulharás na paz insensivelmente, libertada tua ansiedade”. (Moura, 1944) O autor foi um importante nome para a literatura gaúcha, que soube construir uma prosa inspirada no simbolismo em meio ao universo modernista dos escritores que o cercavam.

Cronologia de Vida

1900 - Em 22 de maio, nasce o escritor e jornalista Reynaldo Moura, em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

1901 a 1908 - O escritor passa seus primeiros anos em Santa Maria. Posteriormente, muda-se com sua família para São Borja, terra de seus antepassados. Nesse período leva uma vida feliz e pacata, envolvido com jogos e brincadeiras de crianças. Ao longo da história, raras vezes Reynaldo Moura retorna à Santa Maria.

1909 a 1918 - Aos oito anos de idade, Reynaldo Moura sai de São Borja e vai para Porto Alegre, realizando seu curso secundário no colégio Júlio de Castilhos. Aos quinze anos inicia sua produção poética, compondo seus primeiros versos.

1919 a 1934 - Inicia, sem finalizar, vários cursos superiores (Química, Medicina, Direito, Engenharia Mecânica). Em 1926, casa-se com Noah Viterbo de Carvalho, com quem teve dois filhos: Roberto e Sérgio. No período entre 1923 e 1934 colabora intensamente para a imprensa gaúcha e brasileira, nos veículos Gazeta da Tarde, Diário de Notícias, Correio do Povo, Revista do Globo, Boletim de Ariel, Jornal das Letras (RJ). Como jornalista é um dos membros fundadores da ARI - Associação Rio-Grandense de Imprensa e redator de A Federação, jornal oficial do Governo gaúcho, para o qual prestou concurso público.

1935 - Publica a primeira edição do romance A ronda dos Anjos Sensuais, pela Editora Columba, em Porto Alegre. No Boletim de Ariel publica os poemas Momentos e Veneza.

1936 - Publica o livro de poesias Outono, pela Editora Globo, em Porto Alegre.

1937 - Publica o texto intitulado Jesus, pelo jornal oficial do Governo, A Federação.

1938 - Publica o poema Motivos da Terra Verde, pela Liga da Defesa Nacional, entidade cívico-cultural fundada em 7 de setembro de 1916 por patriotas liderados pelo poeta Olavo Bilac. A LDN, como ficou conhecida, surgiu no intuito de robustecer na opinião pública brasileira um elevado sentimento de patriotismo.

1939 - Publica a novela Noite de Chuva em Setembro, editada em Porto Alegre, pela Editora Globo. Na Revista do Globo, em 28 de outubro, edita o conto “O Demônio da Perversidade” com ilustrações de Carlos Scliar. Nesse mesmo ano, Reynaldo Moura é nomeado Diretor da Biblioteca Pública do Estado, cargo que ocupa até 1956.

1940 - Publica o poema L’ Après-Midi D’ Un Faune, pela Editora Lanterna Mágica, de Porto Alegre.

1942 - Publica o poema O Monge e o passarinho, pela Revista Estudos, editada em Porto Alegre, pela Livraria Selbach.

1944 - Ano de grandes publicações de Reynaldo Moura. No Rio de Janeiro ocorre a publicação da novela Intervalo Passional, pela Editora José Olympio. Em Porto Alegre, a edição do livro de poemas Mar do Tempo, pela Editora Globo.

1945 - Publica o poema Momento Marinho, pelo número inaugural da Revista Província de São Pedro, editada pela Livraria do Globo, em Porto Alegre, dirigida por Moysés Vellinho. A partir desse número, Reynaldo Moura torna-se efetivo colaborador dessa revista, sendo que, no número 3, do mesmo ano, publicou o trecho de novela intitulado “Morre Dona Belinha”.

1946 - Publica Medo da Hora e Outros Poemas, além de Noturno, pela revista Província de São Pedro. Lança a novela Um Rosto Noturno, pela Editora do Globo, na Coleção Tucano, em Porto Alegre, obra que será muito bem aceita pelo público.

1947 - O crítico Reynaldo Moura publica na revista Província de São Pedro (nº 10) o comentário “O Lustre”.

1948 - Publica o conto “Nas pupilas do Convalescente”, na Revista Província de São Pedro (nº 11). Guilherme Figueiredo transpõe para a linguagem cinematográfica o romance de Reynaldo Moura Um Rosto Noturno.

1949 - Publica o poema Saga Marinha, na revista Província de São Pedro (nº 14).

1952 - Publica o poema O Monge e o Passarinho, na revista Província de São Pedro (nº 17).

1954 - Publica, pela Editora Globo, a novela “O Poder da Carne”. Também edita o poema “O Uivo e a Prece”, pela revista Província de São Pedro (nº 19).

1958 - A Editora Globo, de Porto Alegre, lança Romance no Rio Grande, considerado pela crítica a grande obra de Reynaldo Moura.

1962 - Publica a novela A Estranha Visita, pela Editora Globo.

1963 - Publica em folhetim, no jornal Última Hora, de Porto Alegre, no período de 22 de julho a 6 de novembro, a novela Major Cantalício, sendo muito bem aceita pelos leitores da época. Foi editada em forma de livro em 2002, pela EDIPUCRS.

1964 - Reynaldo Moura é preso, durante dois dias, pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS), órgão criado no período ditatorial brasileiro que objetivava prevenir e reprimir delitos considerados de ordem política e social contra a segurança do Estado. Por comungar dos ideais socialistas e por manter correspondência com Astrogildo Pereira, fundador do PCB (Partido Comunista Brasileiro), foi considerado uma ameaça ao poder público da época, apesar de Reynaldo Moura não ser filiado a qualquer partido político. Contudo, seus amigos Erico Verissimo, Maurício Rosenblatt, Alberto André empenham-se a favor de sua liberdade. Em consequência dessa prisão, Reynaldo Moura adoece e sofre um infarto do miocárdio. Nesse ano, a Revista Veritas, da PUCRS, publica seu poema Anchieta Escreve Junto ao Mar.

1965 - Dia 12 de junho, Reynaldo Moura falece, em Porto Alegre, deixando inédita a novela O crime do apartamento, que foi editada em 1995, pela EDIPUCRS.


Referências:

REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel. Reynaldo Moura. Porto Alegre: IEL, 1989. 78 p.



Bibliografia do Autor

1935 -  “Serenata”. In: KRUG, Guilhermina & CARVALHO, Rezende. Letras Rio-Grandenses, Porto Alegre, Globo.

1935 - A ronda dos anjos sensuais. Porto Alegre, Colúmbia.

1936 - Outono. Porto Alegre, Globo.

1938 - Motivos da terra verde. Porto Alegre, Liga de Defesa Nacional.

1939 - Noite de chuva em setembro. Porto Alegre, Globo.

1940 - L’après-midi d’ um faune. Porto Alegre, Lanterna Mágica.

1942 - O monge e o passarinho. Porto Alegre, Selbach (separata da Revista Estudos, 6:85-90).

1944 - Mar do tempo. Porto Alegre, Globo.

1944 - Intervalo Passional. Rio de Janeiro, José Olýmpio.

1945 -  “Momento Marinho”. In: Província de São Pedro, 1:59-63. Porto Alegre, Globo.

1945 - “Morre Dona Belinha”. In: Província de São Pedro, 3:70-3. Porto Alegre, Globo.

1946 - Um rosto noturno. Porto Alegre, Globo.

1946 - “Medo da Hora e Outros Poemas”. In: Província de São Pedro, 4:77-88. Porto Alegre, Globo.

1946 - “Noturno”. In: Província de São Pedro, 5:91-3. Porto Alegre, Globo.

1947 - “O Lustre”. In: Província de São Pedro, 10:42-45. Porto Alegre, Globo.

1948 - “Nas pupilas do Convalescente”. In: Província de São Pedro, 11:91-101. Porto Alegre, Globo.

1949 - “A Poesia de Augusto Meyer e a Infância”. In: Província de São Pedro, 14:73-80, Porto Alegre, Globo.

1949 - “Saga Marinha”. In: Província de São Pedro, 14:66-8. Porto Alegre, Globo.

1952 - “Humildade”. In: MACHADO, Antonio Carlos. Coletânea de poetas sul-rio-grandenses (1834-1951). Rio de Janeiro, Minerva.

1954 - O poder da carne. Porto Alegre, Globo.

1954 -  “O Uivo e a Prece”. In: Província de São Pedro, 19:47-52, Porto Alegre, Globo.

1957 - “Três poemas”. In: Província de São Pedro, 21:130-5. Porto Alegre, Globo.

1958 - Romance no Rio Grande. Porto Alegre, Globo.

1962 - A estranha visita. Porto Alegre, Globo.

1963 - Major Cantalício. Porto Alegre, Última Hora.

1964 - Anchieta Escreve Junto ao Mar. Porto Alegre, PUCRS (separata da Revista Veritas).

1995 - O Crime do Apartamento. Porto Alegre, EDIPUCRS.

2002 - Major Cantalício. Porto Alegre, EDIPUCRS.

Acesso ao Blog do Acervo de Reynaldo Moura: http://reynaldomoura.blogspot.com/