Acervos:



Cyro Martins

(Quaraí, RS, 1908; Porto Alegre, RS, 1995).

O escritor e médico psicanalista Cyro dos Santos Martins nasceu em Quarai, Rio Grande do Sul, no dia 05 de agosto de 1908. Formou-se pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre em 1934 e retornou para sua cidade natal. Nesse mesmo ano, publicou Campo fora, livro de contos com temática gauchesca.

Em 1935, utiliza, pela primeira vez o termo “gaúcho a pé” em uma conferência – expressão que viria nomear a sua trilogia, composta pelos romances: Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova. No ano de 1937, foi estudar Neurologia no Rio de Janeiro, onde publicou Sem rumo pela Editora Ariel, primeiro romance da trilogia. Em 1938, já em Porto Alegre, publicou o romance Enquanto as águas correm, pela Editora Globo. Neste mesmo ano abriu seu consultório médico na cidade. O segundo romance da sua trilogia, Porteira Fechada, surgiu em 1944.

Em 1951, iniciou sua formação psicanalítica em Buenos Aires. Em 1954, publicou o terceiro romance da “trilogia do gaúcho a pé”, Estrada nova, considerado pela crítica literária gaúcha como o melhor dos três. Retornou de Buenos Aires em 1955, já como membro da Associação Psicanalítica Argentina. Em 1957, foi eleito presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Neurocirurgia. Neste mesmo ano começou a lecionar no Instituto de Psicanálise de Porto Alegre. Ainda em 1957 publicou Paz nos campos.

Entre os anos de 1958 e 1964 teve vários trabalhos psicanalíticos traduzidos para o alemão e para o espanhol. Em 1964 lançou Do mito à verdade científica; em 1970, A criação artística e a psicanálise; em 1973, Perspectivas do humanismo psicanalítico; em 1974, Orientação educacional e profilaxia mental; em 1977 lançou Rumos do humanismo médico contemporâneo.

Em 1968 escreveu o livro de contos A entrevista (1968) e em 1976 publicou Rodeio (estampas e perfis), onde relembra sua infância na campanha. Escritores gaúchos, de 1976, foi um estudo sobre as obras dos amigos Alcides Maya, Augusto Maya, Dyonélio Machado, Erico Verissimo, J.O. Nogueira Leiria, Lila Ripoll, Raul Bopp e Mário Quintana. Em 1979, publicou Sombras na correnteza, livro em que seu pai “Bilo” Martins foi descrito como dono de um bolicho de beira de estrada. Em 1979 coordenou e foi co-autor de Perspectivas da relação médico-paciente.

Em 1980 publicou o livro de contos A dama do saladeiro e a novela O príncipe da vila, em 1982. Os ensaios de O mundo em que vivemos foram lançados em 1983 e A mulher na sociedade atual em 1984. O romance Gaúchos no obelisco, de 1984, narrou uma revolução de 30 por uma visão singular. Em 1985 publicou Na curva do arco-íris. Foi homenageado especial da 32ª Feira do Livro de Porto Alegre em 1986. Em 1988, ano em que completou 80 anos, escreveu O professor, onde homenageia o poeta Alceu Wamosy.

Em 1990 publicou seu livro de memórias, Para início de conversa, em parceria com Abrão Slavutzky. Seu último trabalho de ficção, a novela Um sorriso para o destino, foi escrito em 1991, mas ainda lançaria uma série de ensaios psicanalíticos em Caminhos de 1993. Em Páginas soltas, de 1994, Cyro Martins descreveu, de maneira descompromissada, suas preferências pessoais e culturais.

Casou-se em 1935 com Suely de Souza e em 1949, com Zaira Meneghello. Seus filhos são Maria Helena, Cecília e Cláudio.

O CELPCYRO – Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise, criado pela família como memorial e para incentivar estudos críticos a partir da obra de Cyro Martins, comemorou ativamente o centenário de seu nascimento em 2008, ano em que também conquistou o Prêmio Fato Literário. Neste mesmo ano parte de seus objetos pessoais, incluindo objetos de seu consultório, originais de suas obras e sua biblioteca particular, foram doados ao acervo do DELFOS - Espaço de Documentação e Memória Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde estarão devidamente preservados e ao alcance da comunidade acadêmica.


Obra Completa

Ficção

I Campo fora (contos) - 1934
Primeiro livro publicado por Cyro Martins. Nele o jovem escritor recupera, na linguagem e nos relatos, o viço da infância e adolescência, a paisagem, as vivências da campanha sulina, e já prenuncia as agruras do gaúcho a pé dos romances seguintes: Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova. Destacam-se os contos "Traste", "Alma Gaudéria", "Sem rumo" ,"Guri".

II Sem rumo (romance) - 1937
Primeiro romance da "trilogia do gaúcho a pé". Narra a trajetória "sem rumo" de Chiru, campeiro expulso da campanha e que sobrevive nas malocas da cidade. Este romance, mais do que configurar a desgraça de Chiru e de sua gente, mostra um povo marginalizado, que formam as coroas de miséria das cidades da fronteira no pós-23.

III Enquanto as águas correm (romance) - 1939
Marcado por indagações existenciais, Izidro é a figura principal deste romance. Nas palavras de Augusto Meyer este romance é um "extraordinário solilóquio, cheio de pudor, mas grave e, às vezes, pungente". Aqui Cyro Martins leva seu fazer romanesco a uma nova perspectiva humana, em que os contornos ambientais, os costumes e os valores sociológicos deixam de predominar, para sobressair a figura de um desterrado que busca um exílio voluntário.

IV Um menino vai para o colégio (novela) - 1942
Esta novela é a reedição da primeira parte de Mensagem Errante, romance publicado em 1942, mas que foi desmembrado e reaproveitado pelo autor em outro livros. Esta novela se constitui como um dos momentos mais felizes da vasta obra de Cyro Martins. É um quadro definitivo sobre a infância e a adolescência na campanha, do jovem que sai da casa paterna para enfrentar o duro mundo dos homens.

V Porteira fechada (romance) - 1944
O segundo romance da trilogia tem o gaúcho pobre João Guedes como centro da narrativa. Expulso do campo que arrendava, se vê frente a frente com a miséria e falta de condições objetivas de sobrevivência na cidade de Boa Ventura. Segundo as palavras de Décio Freitas, Porteira fechada é uma das "mais belas tentativas de romance social já realizadas entre nós".

VI Estrada nova (romance) - 1954
Este romance fecha a "trilogia do gaúcho a pé. Mas, mais do que uma simples visão panorâmica dos problemas econômicos e políticos, este romance aprofunda os conteúdos psicológicos e sociais, que dão força à trama e imprimem um condicionamento existencial ao conflito humano da trilogia. Tem na oposição entre o coronel Teodoro e Ricardo, pela sua rebeldia e não aceitação passiva das idéias dos estancieiros, o conflito e as contradições dos últimos anos da década de 1940 na fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul.

VII A entrevista (contos) - 1968
Este livro compõe-se de contos em que aparece o homem da cidade grande com os conflitos próprio da espécie urbana. Destacam-se os contos "Você deve desistir, Osvaldo", "Romântico" e "A entrevista".

VIII Rodeio (contos e estampas) - 1976
Depois de muitos anos, Cyro Martins faz uma comovida viagem a Quaraí, cidade de sua infância. E, de estampa em estampa, vai lembrando os tempos mitológicos do cerro do Jarau e do Caverá, a escolinha do primeiro professor, Lucílio Caravaca. Na segunda parte do livro , dedica-se a examinar as obras dos amigos: Augusto Meyer, Alcides Maya, Lila Ripoll, J.O. Nogueira Leiria, Erico Verissimo. Esta segunda parte foi posteriormente aumentada e publicada separadamente no livro Escritores gaúchos, de 1981.

IX Sombras na correnteza (romance) - 1979
É o romance da revolução de 1923. Aqui Cyro Martins dá um passo adiante e explora o conteúdo da comédia política e caudilhesca da campanha gaúcha, deixando clara sua visão histórica da Revolução de 23. A luta é entre os coronéis, entre os senhores do poder - o povo assiste a tudo com curiosidade, apenas.

X A dama do saladeiro (contos) - 1980
Nesses relatos, ficção e momentos da vida do Autor se misturam, entre a infância na campanha, sua formação médica, figuras que o marcaram e situações às quais o passar do tempo e os desvãos da consciência dão um significado muito especial.

XI O príncipe da vila (novela) - 1982
A história de Brandino, o "príncipe", surpreende do início ao fim, narrada com a sutileza e o bom humor de quem conhece a fundo as misérias e a grandeza da alma humana. Para muitos esta é a obra-prima de Cyro Martins.

XII Gaúchos no obelisco (romance) - 1984
Neste romance, João Silveira, um rapaz simples da campanha, protagoniza ironicamente os eventos da revolução de 30, dos preparativos revolucionários no Rio Grande do Sul à chegada de Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. O autor tomou o episódio dos revolucionários amarrando os cavalos no Obelisco da Capital Federal para título por julgá-lo simbólico do arrebatamento da época e do triunfo revolucionário.

XIII Na curva do arco-íris (romance) - 1985
O livro se estrutura dialeticamente, através do contínuo diálogo do autor com a protagonista Candinha/Marcelina. Situa-se no meio urbano, afastando-se do cenário regionalista, mas desenhando perfís da aristocracia rural fronteiriça do início do séc.xx, em que a figura feminina é detalhada em Marcelina e o machista típico se encontra em Rufino.

XIV O professor (romance) - 1988
Neste romance, memória e ficção se entrelaçam. Na pessoa-personagem do professor Lucílio Caravaca, Cyro Martins além de descrever seus primeiros anos de escola, apresenta um vasto painel da década de 20. Também faz comparecer no romance o fascinante poeta Alceu Wamosy.

XV Um sorriso para o destino (novela) - 1991
Quem leu o romance Na curva do arco-íris se lembrará do desfecho dramático: um homem mata sua mulher e o amante, dentro de um bonde em movimento em Porto Alegre, num fim de tarde de domingo. Trata-se agora do julgamento do marido traído, Rufino Delgado, sendo o desenrolar do júri a parte essencial da novela. Assim serão confrontadas as idéias machistas de um lado, expostas no discurso do advogado de defesa e, de outro, as idéias contrárias de um jovem promotor público.

XVI Você deve desistir, Osvaldo (contos) - 2000
Antologia organizada por Maria Helena Martins propondo um panorama curioso da trajetória pessoal e de criação literária, espécie de educação sentimental dos pagos e de iniciação profissional, perfazendo cerca de 50 anos da ficção do Autor.


Ensaio

I Do mito à verdade científica (Estudos Psicanalíticos) - 1964
Publicação pioneira de autor gaúcho sobre “psicologia profunda”, além de conter amplo panorama dos diferentes aspectos médicos e culturais desse tema, proporciona ao leitor uma visão de conjunto da história da psicoterapia e de como estava sendo introduzida entre nós, vindo desde o mito de Esculápio até aos dias da psicoterapia de grupo.


II Perspectivas da Relação Médico-Paciente - 1979
Reúnem-se aí, sob a coordenação de Cyro Martins, textos de profissionais de diversas áreas médicas, com o intuito de demonstrar quanto o tema "relação médico-paciente" se acha vinculado à prática cotidiana de toda a medicina e a urgência de ser abordado. Principalmente porque " o atendimento de massas, como é exercido no Brasil, nos faz experimentar uma sensação de mentira, que nos angustia", escreve ele, no Prefácio.

III Escritores gaúchos - 1981
Em Escritores gaúchos, Cyro Martins analisa a obra de nomes expressivos das letras da província: Erico Verissimo, Dyonélio Machado, Alcides Maya, Augusto Meyer, Nogueira Leiria, Lila Rippol, Mário Quintana, Raul Bopp e Moysés Vellinho. Segundo o autor, no Prefácio dessa edição, o livro aconteceu com uma naturalidade comovente, cada capítulo impregnado de reminiscências provocadoras de sugestões criativas. Por certo, trata-se de obra inacabada, sendo possível, portanto, que venha a ampliar-se no futuro, dependendo da sorte que tiver.

IV O mundo em que vivemos - 1983
Este livro de ensios revela o escritor preocupado com as questões fundamentais da Psicanálise e o Humanismo, em especial com as tendências da segunda metade do século XX. Sintetizam-se aqui as idéias norteadoras e básicas da visão de mundo do autor.

V A mulher na sociedade atual - 1984
Coletânea de conferências e artigos referentes ao papel da mulher na sociedade. As abordagens dão conta de questões como a responsabilidade social da mulher, as feridas emocionais do aborto, mulher e família, entre outras.

VI Caminhos (ensaios psicanalíticos) - 1993
Este livro reúne ensaios psicanalíticos de ampla abrangência, podendo interessar a qualquer leitor, pois a complexidade científica da psicanálise aparece mediada por uma linguagem simples, direta e despojada de artifícios, o que permite uma leitura útil e agradável ao mesmo tempo. Arte e ciência, em Cyro Martins, formam uma realidade indissociável. Caminhos é fruto desse encontro.

VII Páginas soltas - 1994
Neste livro, numa linguagem solta, sem os entraves e os compromissos da crítica literária costumeira, Cyro Martins faz um depoimento muito pessoal das suas preferências culturais. E daí surgem questões: Por que as pessoas colocam quadros nas paredes? Que tem isso a ver com suas vidas, com o seu dia-a-dia? Questões como estas permitem com que Cyro Martins viaje pelos caminhos do inconsciente para conseguir respondê-las.

Memórias

I Para início de conversa - 1990 (com Abrão Slavutzky)
Na forma de entrevista a Abrão Slavutzki, trata-se de um livro de memórias. Num ritmo leve, com fluxo e refluxos, pode-se ler, entender e sentir a trajetória existencial e intelectual de Cyro Martins, desde a infância na fronteira até suas vivências no mar alto da cultura e da ciência.

http://www.celpcyro.org.br/v4/Estante_Autor/obraCompleta.htm