Acervos:



Paulo Hecker Filho

(Porto Alegre, RS, 1926; Porto Alegre, RS, 2005).

Paulo Hecker Filho nasceu em 26 de julho de 1926, em Porto Alegre. Seu pai foi advogado, mas já nessa época exercia a profissão de farmacêutico, além de ser renomado espiritista, lotando as salas cinemas da época com suas palestras. Em uma carta remetida ao filho, na ocasião do falecimento de Paulo Hecker, em 1976, consta: “Teu pai sempre me dizia: ‘farei de tudo para que o Paulinho possa se dedicar somente às Letras.’”

Foi exatamente o que aconteceu. Antes de se tornar escritor, PHF já demonstrava imensa curiosidade intelectual: brilhante trajetória no colégio militar, o primeiro 10 em Latim na história do IPA, formado com média total de 9,6 na Faculdade de Direito, e, claro, devorador de livros. “Quando descobri que eu era capaz de ler um livro inteiro, foi o destino.” Paulo não exerceu a advocacia em nenhum momento. Era leitor. Depois da Faculdade, continuou lendo. “Às vezes começava um livro pela manhã e só o abandonava às 5 da madrugada, com as pernas bambas.” Tinha o costume de anotar suas opiniões.

Estreou em 1949, com um livro de crítica, Diário, Prêmio Parks do mesmo ano. Carlos Drummond de Andrade comenta-o, em carta: “Não conheço outro caso entre nós de uma aventura intelectual tão vivida aos vinte anos como a sua.” Nesse livro constam as observações sobre obras de literatura, críticas não acadêmicas registradas ao longo da adolescência, sinalizando desde cedo o literato polêmico a quem “a literatura veio porque, perdida a aposta no Absoluto e assim na santidade, trazia enfim uma justificação para a vida: a beleza, a poesia.”.

A bibliografia heckeriana segue imensa, contando mais de trinta livros entre obras de crítica, novela, conto, dramaturgia, poesia e tradução (V. bibliografia). A novela Internato (1951), por exemplo, teve repercussão no exterior, sendo traduzida nos Estados Unidos a pedido do editor Winston Leyland, mediante correspondências as quais constam no nosso acervo. Vale destacar que o autor foi o fundador da revista Crucial na capital e teve participação nas revistas Quixote e Fronteira. Colaborou na mídia impressa durante toda a vida, em especial nos jornais Correio do Povo, Zero Hora e Estado de São Paulo. Em 1986, recebeu o Prêmio Cassiano Ricardo por Perder a Vida, livro de poesias.

Foi justamente na década de 80 que Paulo começou a publicar os poemas que até então não havia posto no prelo por considerá-los ainda não “parafusados”, de acordo com suas próprias palavras. Porém, veja-se que já em 1976 surgem no Correio do Povo uns poemas sob o título de Cinquenta Anos. Estes são os poemas que revelaram o estilo heckeriano de fazer poesia, expresso na sentença “fundamentalmente, cortei as linhas menos poéticas.” É esse estilo denso e direto que norteará os acertos, o “aparafusar” das poesias escritas desde a adolescência. Esse procedimento culminará na edição de mais um livro de poesia ainda em 1986, Cartas de Amor, livro este que fará Mário Quintana cunhar uma frase de muita fama na época: “Eu só tenho dois poetas prediletos no Rio Grande, Paulo Hecker Filho e... eu.”

Por causa dos artigos em cadernos culturais, Paulo Hecker Filho viveu sendo chamado de polêmico. Ele se defende: “As leituras de romances ou outros gêneros são feitas por mim mesmo, não no que já foi dito a respeito. Não estranha que surjam coisas inéditas. Se bem que na hora decisiva dos juízos de valor, eu possa me equivocar como os outros.” Em verdade, suas ideias eram ousadas. Criticava desconcertantemente até mesmo os mais sagrados1. Por outro lado, era também um descobridor de talentos; contribuiu para a disseminação de Celso Gutfreind, Luiz Sperb Lemos, Artur Furtado, entre outros. “O maior prazer do crítico é descobrir o talento.” Morreu em 12 de dezembro de 2005, vítima de uma hemoptise. Mais alguns meses e poderia, como estavam sugerindo os amigos, publicar um livro que parodiasse o título de Manuel Bandeira; ao que ele redarguia com “poesia é mais do que pra vida inteira”. O acervo de Paulo Hecker Filho que se encontra hoje no Delfos é objeto de doação de seus familiares.

“A morte do poeta e crítico gaúcho não é o fim, mas talvez o início do enfrentamento de sua obra”, diz Paulo Bentancur, amigo durante três décadas.

1 V. Um Tema Crucial – aspectos do homossexualismo na literatura. Nesta obra, Paulo comenta a obra de Proust e Rosa, entre outros.


Bibliografia

Traduções Publicadas

Apollinaire, Guillaume. Escritos de Apollinaire. [Por: Paulo Hecker Filho]. Porto Alegre: LP&M, 1984.

Leblanc, Maurice. Ladrão de casaca. [Por: Paulo Hecker Filho]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972.

Leblanc, Maurice. Arsène Lupin contra Sherlock Holmes. [Por: Paulo Hecker Filho]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.

Leblanc, Maurice. As oito pancadas do relógio. [Por: Paulo Hecker Filho]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

Nerval, Gérard de. Aurélia. [Por: Paulo Hecker Filho]. Porto Alegre: LP&M, 1997.

Rimbaud, Arthur. Uma temporada no inferno. [Por: Paulo Hecker Filho]. Porto Alegre: LP&M, 1997.

Sade, Marquês de. O marido complacente. [Por: Paulo Hecker Filho]. Porto Alegre: LP&, 1997.



Obra própria

Hecker Filho, Paulo. Diário. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1949.

Hecker Filho, Paulo. Ah! Terra. Porto Alegre: Fronteira, 1950.

Hecker Filho, Paulo. Na paz da lua. Porto Alegre: Fronteira, 1951.

Hecker Filho, Paulo. A alguma verdade. Porto Alegre: Porto Alegre, 1952.

Hecker Filho, Paulo. Triângulo. Rio de Janeiro: Globo, 1952.

Hecker Filho, Paulo. A vida nos braços. Porto Alegre: Hiperion, 1955.

Hecker Filho, Paulo. Patética. Porto Alegre: Hiperion, 1955.

Hecker Filho, Paulo. O provocador. Porto Alegre: Teatro Universitário, 1957.

Hecker Filho, Paulo. Teatro: O sal da terra; Quando elas querem; O ascensor; Hiena, hiena. Porto Alegre: Teatro Universitário, 1958.

Hecker Filho, Paulo. Para Cervantes, quatro comédias curtas. Porto Alegre: Centro de Arte Dramática da UFRGS, 1967.

Hecker Filho, Paulo. Perder a vida. Porto Alegre: Tchê!, 1985.

Hecker Filho, Paulo. Cartas de amor. Porto Alegre:Tchê!, 1986.

Hecker Filho, Paulo. X-504 Jaime Jaramillo Escobar. Porto Alegre: Tchê!, 1986.

Hecker Filho, Paulo. Todas as mulheres com o perdão das que faltam. Porto Alegre: Tchê!, 1986.

Hecker Filho, Paulo. A noite não se importa. Porto Alegre: Tchê!, 1987.

Hecker Filho, Paulo. A volta do marido pródigo. Porto Alegre: Tchê, 1987. Adaptação para o teatro do conto de Guimarães Rosa.

Hecker Filho, Paulo. Araponga. Porto Alegre: Tchê!, 1988.

Hecker Filho, Paulo. Um tema crucial: o homossexualismo na Literatura. Porto Alegre: Sulina, 1989.

Hecker Filho, Paulo. Vento, águia, coelho. São Paulo: Petit, 1991.

Hecker Filho, Paulo. Não se mate; Diário de Verão; Meu filho. Porto Alegre: Tchê!, 1992.

Hecker Filho, Paulo. Ver o mundo. São Paulo: Camaleoa, 1995.

Hecker Filho, Paulo. Febre de viver. Porto Alegre: Sulina, 1998.

Hecker Filho, Paulo. O caráter de Jesus. Porto Alegre: Sulina, 1998.

Hecker Filho, Paulo. Saudades de Voltaire. Porto Alegre: Sulina, 1998.

Hecker Filho, Paulo. Juventude. Porto Alegre: Sulina, 1998.

Hecker Filho, Paulo. Dias e noites. Porto Alegre: Ediletras, 1999.

Hecker Filho, Paulo. Os adeuses. Porto Alegre: Tchê!, 1990.

Hecker Filho, Paulo. Só poema bom. Porto Alegre: Alcance, 2000.

Hecker Filho, Paulo. Nem tudo é poesia. Porto Alegre: Alcance, 2001.

Hecker Filho, Paulo. Fidelidades. Porto Alegre: Alcance, 2002.

Hecker Filho, Paulo. Beleza complica. Porto Alegre: Alcance, 2002.

Hecker Filho, Paulo. Aqui e agora. Porto Alegre: Alcance, 2003.

Hecker Filho, Paulo. Poesia como espetáculo. Porto Alegre: Livraria Nova Roma, 2004.