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P. F. Gastal (Paulo Fontoura Gastal)

(Pelotas, RS, 1922; Porto Alegre, RS, 1996).
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Paulo Fontoura Gastal nasceu em Pelotas, no dia 23 de janeiro de 1922, filho de um engenheiro agrônomo e de uma dona de casa. Tímido desde muito pequeno, os irmãos (cinco mais velhos e três mais moços) gostavam de amarrá-lo ao pé de uma mesa, com um cordão bem fino, e dizer: “Estás preso com uma corrente, não podes sair daí”. E ele lá ficava por horas, até que um adulto o soltasse ou um dos irmãos, com pena, viesse romper “os grilhões”. Esta mesma “concentração imaginativa” fez com que cedo se apaixonasse pelo cinema. Entrava escondido em todas as sessões que podia, e logo arranjou um trabalho como “ajudante” no Cine Capitólio de Pelotas, só para poder assistir todos os filmes que lá passavam, quantas vezes quisesse.

No Ginásio Pelotense (o “Gato Pelado”) envolveu-se em política estudantil e precisou dividir o tempo do cinema com a responsabilidade de presidente do Grêmio de Alunos. Foi por esta época que conheceu Dinah, com que dividiria o resto da vida e que nunca seria um entrave nas idas ao cinema, muito pelo contrário: sempre que podia, ia junto. Ainda em Pelotas, começou a escrever sobre cinema, primeiro o material de publicidade dos filmes que o Capitólio exibia, depois pequenos textos para o “Diário Popular”.

Em 1946 veio para Porto Alegre, indo trabalhar nos escritórios da A. J. Renner, indústria do vestuário. No caminho para casa passava pela frente do Cinema Carlos Gomes, e logo estava trabalhando também ali, fazendo o material de “publicidade” dos filmes e, claro, assistindo a todos quantas vezes pudesse. Notícias pra cá, notícias pra lá, começou a escrever eventualmente para alguns jornais e revistas, até que entrou para equipe da “Revista do Globo”. Nela iniciou um trabalho crítico e de educação cinematográfica, diferente do que até então era costumeiro. Seus textos traziam uma visão social e política dos filmes, algo incomum em uma época em que o cinema era visto como mero entretenimento.

Libertário desde sempre, suas posições críticas em relação ao cinema comercial americano, somadas a um fascínio pelo cinema soviético, fizeram com que logo entrasse em uma lista de “suspeitos” de comunismo. Paradoxalmente, porém, era admirador de alguns grandes diretores americanos (como John Ford) e ingleses (Alfred Hitchcock) que de comunistas nada tinham, o que gerava confusão no estabelecimento de um rótulo político para colar nele.

Sua grande paixão, desde sempre e até a morte, foi Charles Chaplin, o “Carlitos”. Do personagem de Chaplin em “Luzes da Ribalta”, Gastal tirou o pseudônimo “Calvero”, o mais conhecido dos tantos quantos usou em vida. Chaplin era autor e personagem também de difícil rotulagem, ora parecendo um simples “cômico” (como se dizia então) alienado, ora pintado como perigoso representante da “ameaça vermelha”. Como ele, Gastal professava uma inquebrantável convicção na defesa da liberdade de pensamento, fosse qual fosse. Parecia comunista para os conservadores, conservador para os comunistas. E amava Cinema.

Por isso, talvez, apesar de ter sido colaborador de publicações de orientação marcadamente de esquerda, como as revistas “Liberação”, “Nossos Dias” e “Horizonte”, não teve problemas para ingressar nos quadros do Correio do Povo, na época o maior veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, de forte tendência conservadora, que Gastal conseguiu abrir ao longo dos anos à participação de pensadores dos mais diversos matizes.

Antes disto, contudo, no início dos anos 50 transferiu-se para o Rio de Janeiro, para tomar parte na equipe que, coordenada pelo cineasta Alberto Cavalcanti, estava encarregada de criar o Instituto Nacional de Cinema. Foi neste período que esteve mais próximo da realização cinematográfica prática, já que auxiliou Cavalcanti também na tentativa de estabelecer a Companhia Cinematográfica Vera Cruz como um grande centro de produção do cinema brasileiro, nos moldes dos estúdios norte-americanos, mas com a intenção (pelo menos por parte dele) de realizar filmes minimamente engajados. Desiludiu-se e voltou para Porto Alegre, para o Correio do Povo e para o Clube de Cinema que, junto com um grupo de amigos intelectuais, havia criado em 1948. Nunca mais deixou qualquer um dos três.

Nas três décadas seguintes, os anos 50, 60 e 70, a “mesa do Gastal” na redação do Correio do Povo tornou-se o ponto de referência no panorama cultural de Porto Alegre. De lá coordenou os ciclos e festivais de cinema que iam dos filmes americanos e canadenses aos do Leste Europeu, principalmente poloneses, tchecos e soviéticos. Descobriu e se apaixonou pelo cinema japonês, e fez de Porto Alegre a cidade onde os filmes nipônicos fizeram maior sucesso no Brasil, chegando a rivalizar com São Paulo. Participou do grupo que apoiou a criação da Feira do Livro (da qual, nos anos 80, foi patrono), protestou contra a derrubada no antigo (e belo) auditório Araújo Vianna, situado na Praça da Matriz, onde hoje se ergue a Assembléia Legislativa, mas aceitou administrar o novo auditório, no Parque da Redenção, desde sua inauguração, mantendo atividades permanentes em seu palco e fazendo dele um polo cultural da cidade.

Participou, com Oswaldo Goidanich e João Ribeiro da criação, organização e promoção dos Festivais de Coros de Porto Alegre, que anualmente, em julho, traziam centenas, às vezes milhares, de cantores até a capital gaúcha. Foi delegado do Instituto Nacional do Cinema, e depois representante da Embrafilme no Rio Grande do Sul. E, claro, com Horst Wolk, então prefeito de Gramado, criou o Festival do Cinema Brasileiro daquela cidade. Tudo isto sem abandonar a mesa do Correio do Povo, onde editava as páginas de cultura e o suplemento cultural semanal, além de escrever sobre cinema e livros. E de editar a página de cinema da Folha da Tarde, outro jornal da Caldas Júnior. E de produzir um programa diário, “Cinema na Guaíba”, para a emissora de rádio da empresa.

Por sua mesa passavam projetos, textos e idéias de produtores de cultura de todas as idades, alguns conhecidos, outros inéditos. Tratava a todos com a mesma atenção, mas nem sempre com o mesmo humor. Era capaz de ir da extrema cordialidade às raias da grosseria, mas esta nunca durava muito tempo e não deixava de ser compreensiva para quem tinha tantas atividades simultâneas.

Na Folha da Tarde, na virada dos anos 60 para os 70, criou e manteve a “equipe das terças”. Era uma página semanal aberta para que estudantes universitários publicassem rápidas resenhas críticas dos filmes estreados na semana. Em pleno auge da ditadura, a página, ele e os estudantes não resistiram muito tempo, mas foi uma experiência única no jornalismo brasileiro.

O mesmo espírito liberal, capaz de garantir a todos (na medida do possível para a época) o direito de publicar suas ideias, mesmo aquelas com as quais não concordava, ele manteve no suplemento cultural “Caderno de Sábado”, considerado durante muito tempo, junto com o de “O Estado de São Paulo”, o melhor do país. Aí a independência custou-lhe um pouco mais caro. Um dia, acabaram com o caderno, substituindo-o por uma versão mais “leve”, “descompromissada” e “comercial”. Pouco depois, a empresa entrou em crise e começou a atrasar os salários. Os funcionários entraram em greve. Do grupo dos funcionários mais antigos, Gastal e o poeta Mário Quintana foram os únicos a dar apoio ao movimento desde o primeiro momento.

Foi demitido.

Não parou quieto. Passou a escrever uma coluna – sobre cinema – no recém criado “Diário do Sul”, que pouco durou, e depois no semanário “RS”, do colega Sérgio Jockymann. E dedicou todo o tempo livre à tentativa de organizar o acervo de livros, revistas, fotografias, recortes e filmes que durante toda a vida colecionara. Faleceu no dia 12 de fevereiro de 1996. Virou nome de rua na zona sul e de sala de cinema na Usina do Gasômetro. Seu acervo esteve no GBOEX e no Senac, mas era demais para estas instituições. Hoje, faz parte do acervo Delfos, na PUC de Porto Alegre, onde pode ser visitado por quem ama ou estuda cinema. Contam que às vezes ele ainda pode ser visto andando por lá.