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Negritude, afeto e humanidade pautam bate-papo descontraído com Lázaro Ramos e Taís Araújo

Casal de atores falou sobre trajetória profissional, vida pessoal, representatividade e educação

19/07/2019 - 14h20
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Ricardo Barberena, Taís Araújo, Lázaro Ramos e Carol Anchieta / Foto: Guilherme Silva Oliveira

A noite de 18 de julho de 2019 proporcionou uma experiência inédita e marcante, no Centro de Eventos da PUCRS, aos mais de 1.800 inscritos e ao carismático casal de atores Lázaro Ramos e Taís Araújo que, pela primeira vez, participou de um bate-papo ao vivo, no formato de arena. Mediado pela jornalista Carol Anchieta e pelo professor Ricardo Barberena, da Escola de Humanidades, a conversa descontraída abordou desde a peça O Topo da Montanha, espetáculo que a dupla encena neste final de semana no Theatro São Pedro, com ingressos já esgotados, aos assuntos que mobilizam suas trajetórias pessoais e profissionais, como representatividade de negros e negras, autoestima, afetividade, cotas raciais e a importância de uma educação pública de qualidade com forma de inserção social. Houve espaço, também, para fartas risadas com o público e lágrimas de emoção. Em uma feliz coincidência, o evento ocorreu no Dia Internacional Nelson Mandela, líder sul-africano que legou à humanidade o empenho pela coesão social e o fim do racismo.

O Topo da Montanha

Os 90 minutos de duração do evento pareceram pouco para a infinidade de temas interessantes, que tiveram a interação constante da plateia. A respeito da encenação que os trouxe à Capital gaúcha, reinventando o último dia de vida de Martin Luther King, Lázaro Ramos afirmou que na atualidade está muito difícil falar sobre temas concretos. “A subjetividade está mais fácil para mim, e O Topo da Montanha nos permite isso. A peça também oferece uma alternativa à barbárie que vivemos hoje, possibilitando refletir sobre coisas que parece que não vivemos mais. Nosso sentimento é de levar o amor, o acolhimento”, destacou. Para Taís Araújo, o espetáculo que lota casas em todo Brasil há 4 anos consecutivos vai se ressignificando a cada apresentação e reações do público. “Ele reforça nossas escolhas. A gente fala de afeto, de respeito ao próximo, do quanto o outro é importante. Fazemos uma peça para que as pessoas se sintam potentes, com vontade de fazer alguma coisa, mostrar que o mundo tem jeito”, mencionou.

“Queríamos fazer uma peça para que as pessoas se sentissem potentes.” TAÍS ARAÚJO

Vida de escritor

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Lázaro e Taís em interação com o público / Foto: Camila Cunha

O livro Na Minha Pele escrito por Lázaro Ramos, lançado em 2017, foi tema de perguntas de Barberena e dos espectadores, via WhatsApp, assim como as quatro obras voltadas ao público infantil. O professor de literatura da PUCRS questionou sobre referências e a inspiração do autor. Lázaro disse que Na Minha Pele traz mais dúvidas do que respostas, mas permite uma discussão sobre identidade e representatividade. “Sou fruto das minhas dúvidas, dos meus afetos – da consciência de que eu afeto as pessoas e de que sou afetado. Tenho consciência de minhas incapacidades. Aí, num determinado momento, resolvi falar sobre isso. Acho que esse livro é mais sobre dúvidas do que respostas. Pude conversar com as pessoas sem me sentir prisioneiro do que essa luta pode fazer com que a gente fique. Vi que é inevitável ser livre e prisioneiro de quem eu sou”, refletiu.

“É inevitável ser livre e prisioneiro de quem eu sou.” LÁZARO RAMOS

Nas histórias dirigidas a crianças, destacou que já escreveu livros para si e para os filhos João Vicente, 8 anos, e Maria Antônia, 4, e que a redação surgiu de forma natural, sem grandes pretensões. “Tinha vontade de falar com as crianças. Em Sinto O Que Sinto – e A Incrível História De Asta e Jaser, escrevi o livro para a criança que fui. Não tive essa referência e acho importante falar de autoestima e de equilíbrio”, apontou.

Carreira feita de escolhas

Carol Anchieta direcionou a Taís uma pergunta sobre desconstruções de mitos e questionamentos pessoais sobre gênero, raça e os papeis vividos como atriz e apresentadora de tevê. Taís revelou que muitas vezes se sentiu ofendida e exposta com determinadas cenas para a teledramaturgia, experiências que a magoaram bastante. Mas falou que a superação desse sentimento começou a partir das suas novas escolhas. “Nossa carreira é feita de escolhas que são políticas – como aquelas envolvendo nossas posições pessoais – e outras que nos mostram novas possibilidades. Para mim, personagem bom é personagem bom, e ponto. Não tenho o menor problema em fazer uma empregada doméstica, desde que a personagem tenha humanidade e uma história para contar”, asseverou. Continuando a relatar a vida profissional, recordou sua graduação em jornalismo, a pedido dos pais, e a incompleta formação em artes cênicas, que espera retomar para reconectar-se com a universidade.

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Descontração permeou a noite no Centro de Eventos da PUCRS / Foto: Camila Cunha

“Adoro o universo acadêmico. É um fetiche que eu tenho. Só na universidade vou ter acesso para estudar os meus autores e a chance de discuti-los”, declarou.  A experiência no programa Saia Justa, do canal por assinatura GNT, também foi recordada. Taís disse que, além de abrir mão da oportunidade para poder dedicar-se à personagem Michele Brau, da série Mister Brau, da Rede Globo, também pediu para sair por dar-se conta de que não tem – e não deseja ter – opinião sobre tudo. Foi aplaudida efusivamente pelo público. Brincalhão, Lázaro disse: “eu tenho, sim, opinião sobre tudo, mas nem sempre falo em público. Tenho a Taís para me ouvir e evitar que eu fale bobagens”. E agradeceu: “Obrigado, amorzinho”, seguido de um coro feminino “ooohhh”, ao fundo.

Educação e referências negras

Sobre o aumento do interesse da população negra na busca de ídolos na contemporaneidade, Lázaro disse que ter referência é algo importantíssimo. Sobre nomes de negros e negras no Brasil, ele dividiu a resposta com Taís. O ator acredita que ser referência não é um privilégio de quem é conhecido. “Por causa dos meus livros, tenho tido a oportunidade de visitar muitas escolas, com professoras fazendo trabalhos belíssimos, mas pouco valorizados. Esse é um movimento bonito. Não existe um formato para que a desigualdade acabe. O que importa são os desejos de transformação”, afirmou. Sobre a peça, recordou que resolveu encená-la por não conhecer e entender Martin Luther King. Com o tempo, compreendeu que não era sobre o homem, mas sobre o que todos podem fazer pelo outro.

“Adoro o universo acadêmico. A chance de discutir está dentro da universidade”. TAÍS ARAÚJO

Taís lembrou de dois nomes de mulheres brasileiras pensadoras com quem aprende muito: Sueli Carneiro e Cida Bento. “São pessoas cheias de conteúdo e que têm muito a nos ensinar. Têm estudos publicados aos quais podemos recorrer a qualquer momento”. A escritora Conceição Evaristo também foi recordada. Ao ouvir a pergunta da plateia sobre o que pensa a respeito das cotas raciais, afirmou categoricamente: “são fundamentais e maravilhosas”. Declarou que essa política afirmativa deve ser a base para os governantes promoverem uma educação pública de qualidade para que, no futuro, não seja mais necessário esse recurso. Lázaro argumentou que a melhor maneira de tratar do tema é mostrar, com resultados, o quanto a iniciativa mudou o cenário das universidades no País. “Sempre estimulo as pessoas a buscarem informações para poderem discutir esse assunto”, disse o ator.

Infância e negritude

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Mais de 1.800 pessoas prestigiaram o evento / Foto: Camila Cunha

Antes de finalizar a conversa, os artistas foram questionados sobre como lidam com a questão do racismo quando conversam com seus filhos. “Não tiramos a infância nem a ingenuidade deles. Quero que sejam crianças livres, independentes, mas não posso fingir sobre o que acontece à volta deles. Precisamos prepará-los para viver nesse País”, afirmou a mãe. Lázaro disse não estar preparando João e Maria para o racismo. “Estamos preparando nossos filhos para serem amados, respeitados, para gostarem de si como são, para terem força e autoestima. Nosso papel é amar e dar segurança, garantir que irão voltar para casa e receber todo nosso afago e apreço”, relatou o pai. Taís ainda reiterou o fato de ensinar a seus pequenos que podem errar, que têm esse direito. “Errar é possível e importante. Não dá para ser excelente o tempo todo”.

 “Quando formos falar das questões ligadas à nossa negritude, é importante ter a oportunidade e o investimento para fazer disso algo mais valoroso. Precisamos ter um olhar mais plural, mais aberto para as potências que já existem e que, às vezes, nos recusamos a enxergar”.  LÁZARO RAMOS

Parceria com o Theatro São Pedro

 Esta foi mais uma ação da parceria entre o Instituto de Cultura da PUCRS e a Fundação Theatro São Pedro, firmada em agosto de 2018. Nessa passagem pela capital gaúcha, os atores farão a apresentação da peça O Topo da Montanha, com direção do próprio Lázaro Ramos, no Theatro São Pedro, nos dias 19 a 21 de julho.